A esmagadora maioria da pesquisa genômica mundial foi construída com base em dados de DNA de pessoas com ascendência europeia, criando um viés profundo que afeta diretamente a saúde de populações inteiras.
A espécie humana moderna evoluiu na África, que contém os ramos mais profundos da história genética humana. No entanto, o continente permanece drasticamente sub-representado nos bancos de dados globais, com informações de menos de uma centena dos seus mais de 2.000 grupos etnolinguísticos.
Essa lacuna é comparável a ter um mapa de GPS de uma cidade com apenas 5% das ruas marcadas. O viés moldou profundamente a medicina moderna, desde ferramentas de previsão de doenças até testes de ancestralidade, com consequências diretas para milhões de pessoas.
Foi demonstrado, por exemplo, que doses padrão de medicamentos como a varfarina — um anticoagulante amplamente utilizado — podem ser ineficazes ou tóxicas para pessoas com variantes genéticas específicas mais comuns em populações africanas. O mesmo vale para o efavirenz, prescrito no tratamento do HIV.
Para começar a preencher essas lacunas, uma equipe multidisciplinar lançou o projeto AGenDA (Assessing Genetic Diversity in Africa). A iniciativa envolveu colaborações científicas em oito países africanos e visa obter, registrar e compartilhar material genético de forma ética para enriquecer os bancos de dados globais.
O projeto coordenou pesquisas em Angola, República Democrática do Congo, Quênia, Líbia, Maurício, Ruanda, Tunísia e Zimbábue. A equipe selecionou cuidadosamente populações para resolver grandes lacunas geográficas e etnolinguísticas, não apenas aumentar o número de genomas.
Conforme detalha o portal Phys.org, mais de 1.000 genomas completos foram sequenciados de comunidades raramente incluídas em estudos anteriores. Isso inclui populações de caçadores-coletores, comunidades de língua nilo-saariana, falantes de línguas afro-asiáticas e populações de língua bantu pouco estudadas.
A seleção das amostras exigiu análise cuidadosa de regiões geográficas mal representadas, histórias populacionais ancestrais e padrões de migração. Em alguns casos, comunidades vizinhas possuem histórias genéticas distintas que refletem separações ocorridas há milhares de anos.
Espera-se que o conjunto de dados do AGenDA revele milhões de variantes genéticas anteriormente desconhecidas, com análises já em andamento. Essas descobertas irão informar pesquisas sobre diabetes, doenças cardíacas, câncer e condições de saúde mental que afetam populações na África e em todo o mundo.
A expansão dos dados genômicos africanos é também essencial à medida que a genômica se integra a sistemas de inteligência artificial aplicados à medicina. Sem uma base de dados inclusiva, as futuras tecnologias médicas poderiam funcionar bem apenas para aqueles representados nos dados históricos.
Capturar toda a diversidade genômica africana exigirá, no longo prazo, centenas de milhares de genomas — o AGenDA representa apenas um primeiro passo. Expandir essa representação ajudará a garantir que os benefícios da medicina genômica sejam compartilhados de forma mais equitativa e que a precisão da ciência genética global avance de fato.
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Roberto Lima
12/05/2026
Discurso vitimista pra variar. A genética é ciência, não tem viés político. Se a pesquisa concentrou na Europa foi porque lá investiram pesado em tecnologia, não por “colonialismo”. Querem mapear DNA africano? Ótimo, que bancos privados e iniciativa local financiem, não fiquem choramingando esmola estatal. Esse papo de culpar o branco até na medicina já cansou.
Marina Silva
12/05/2026
É impressionante como negar o racismo estrutural ainda é considerado “opinião”, Roberto, enquanto a ciência prova que remédios testados só em europeus matam mais negros e ninguém quer falar nisso.