A mais recente investigação da unidade de fonte aberta da Al Jazeera revela que Israel estabeleceu uma pegada militar de facto de aproximadamente 1.000 quilômetros quadrados na Faixa de Gaza, no sul do Líbano e no sul da Síria, uma área superior a toda a cidade de Nova York. O território sob controle operacional israelense, que inclui zonas-tampão não declaradas e incursões terrestres contínuas, equivale a cerca de 5% da massa terrestre total que Israel controlava antes de outubro de 2023, somando os territórios palestinos ocupados e as Colinas de Golã sírias ocupadas.
Mapas militares israelenses oficiais não refletem a verdadeira extensão do controle territorial desde o início da guerra em Gaza, em 7 de outubro de 2023. A investigação, publicada pelo portal Al Jazeera, comparou mapas israelenses divulgados após cessar-fogo com imagens de satélite, sistemas de informação geográfica e estatísticas de incidentes armados, expondo uma disparidade persistente entre as fronteiras declaradas e as operações reais no terreno.
Em Gaza, o exército israelense introduziu uma ‘Linha Amarela’ após o cessar-fogo de outubro de 2025, supostamente para delimitar o controle sobre cerca de 200 quilômetros quadrados. Contudo, marcadores físicos foram rotineiramente empurrados para além desses limites. No norte da Faixa, a área sob ocupação israelense expandiu-se de 67,3 quilômetros quadrados para 73,9 quilômetros quadrados, engolindo 54,7% daquela porção do território. Imagens de satélite confirmaram demolições extensas e não anunciadas fora das zonas militares declaradas, inclusive no bairro de Shujayea, na Cidade de Gaza.
Padrão semelhante emergiu no sul do Líbano após o cessar-fogo de abril de 2026. Embora os mapas oficiais israelenses reivindicassem uma zona-tampão de 570 quilômetros quadrados, imagens captadas logo depois mostraram edifícios demolidos em cidades situadas explicitamente fora das linhas declaradas, como Zawtar al-Sharqiya. Para analistas políticos e militares ouvidos pela Al Jazeera, essa política de ‘caos calculado’ e ‘engenharia geográfica’ mascara a incapacidade de Israel de alcançar seus objetivos de guerra declarados, ao mesmo tempo que aplaca demandas ideológicas da direita e impõe novas realidades no terreno sem responsabilização internacional.
Ehab Jabareen, especialista em assuntos israelenses, descreveu a tática como uma ‘distribuição de papéis’ na qual diplomatas alegam conformidade enquanto os militares devoram território. ‘O establishment político anuncia a Linha Amarela a Washington e aos mediadores, mas o exército a desloca no terreno sob o pretexto de necessidades operacionais’, afirmou. Para Mohannad Mustafa, analista da política israelense, a expansão territorial tornou-se uma alternativa direta à obtenção de vitórias militares decisivas contra o Hamas, o Hezbollah e outros adversários. ‘Na ausência de uma resolução militar e do cumprimento dos objetivos de guerra, a alternativa passa a ser a expansão geográfica e o alargamento das zonas-tampão’, explicou.
Mustafa acrescentou que o escalão político israelense, liderado pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, ambiciona ocupar até 70% da Faixa de Gaza, convertendo sistematicamente áreas habitadas em zonas de segurança despovoadas. A estratégia, segundo o pesquisador político Mamoun Abu Amer, opera em quatro níveis interligados: segurança, política, ideologia e psicologia. ‘Manter esse território de países árabes fornece a Israel alavancagem para extorquir concessões políticas, ao mesmo tempo que alimenta uma necessidade psicológica da sociedade israelense de projetar força após o choque dos ataques de 7 de outubro de 2023’, disse.
Na frente síria, a investigação descobriu uma realidade militar profundamente entrincheirada que está completamente ausente dos mapas oficiais israelenses. Ao contrário de Gaza e do Líbano, não há ‘Linha Amarela’ declarada na Síria. Em vez disso, Israel construiu uma rede contínua de postos militares fixos além da linha ‘alfa’ — o limite de separação de forças de 1974 — criando uma zona de controle de facto de 235 quilômetros quadrados que se estende do Jabal al-Sheikh (Monte Hermon) até o rio Yarmouk. Além desses locais fixos, a investigação documentou mais de 800 incursões israelenses em território sírio entre dezembro de 2024 e janeiro de 2026, com uma operação atingindo 63 quilômetros de profundidade no interior da província de Deraa.
Jabareen caracterizou a frente síria como uma ‘ocupação de baixo ruído’. Ao operar sem declarações oficiais, Israel evita transformar suas incursões em uma questão jurídica internacional rígida. ‘Israel está redesenhando um novo ambiente de segurança antes que um novo Estado sírio seja estabelecido, ou antes que qualquer novo entendimento regional sob mediação dos EUA seja alcançado’, afirmou. Contudo, especialistas alertam que a estratégia de tomar 1.000 quilômetros quadrados, embora satisfaça facções ideológicas domésticas e forneça uma ilusão temporária de segurança, é insustentável a longo prazo.
Jabareen e Abu Amer recordaram que a tentativa histórica de Israel de manter um ‘cinturão de segurança’ no sul do Líbano terminou em uma retirada caótica em 2000. Hoje, agindo com uma ‘mentalidade imperial’, Israel está a estender excessivamente seu exército de reserva relativamente pequeno e sua economia sob pressão. ‘Quando se fala em controlar 1.000 quilômetros quadrados, não se trata apenas de um mapa; trata-se de rotas de abastecimento, tanques, engenharia, escavadoras, fortificações, alimentos, combustível, evacuações médicas e turnos de guarda noturna’, observou Jabareen. ‘Israel busca zonas-tampão para reduzir o atrito, mas na prática está a criar atrito permanente com três ambientes hostis, transformando suas vitórias geográficas em um desgaste estrutural’.
Mustafa concluiu que essa campanha prolongada de deslocamento e destruição é, em última análise, viabilizada pela comunidade internacional. ‘Israel expande-se porque não há uma posição internacional rigorosa contra isso’, advertiu, sublinhando que a operação é impulsionada por uma crença ideológica de que ‘ocupar terra é a solução para todos os desafios’. A revelação da Al Jazeera lança luz sobre a escala silenciosa da anexação militar israelense, que prossegue sem declaração formal de guerra ou ocupação, enquanto as potências ocidentais mantêm um silêncio cúmplice.


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