No coração da Islândia, a apenas 30 quilômetros de Reykjavík, um vulcão adormecido guarda um enigma que desafia as leis da geologia. O Thríhnúkagígur, conhecido como ‘Cratera dos Três Picos’, é o único lugar na Terra onde humanos podem descer até uma câmara magmática vazia, um fenômeno sem paralelo no registro científico.
Diferente de qualquer outro vulcão, o Thríhnúkagígur esvaziou-se completamente após sua última erupção, há 4,5 mil anos, deixando uma caverna de 210 metros de profundidade — mais alta que a Estátua da Liberdade. Um elevador de cabos, instalado em 2010 para facilitar pesquisas científicas, permite que visitantes e geólogos acessem o interior da montanha, onde um piso de 3,1 mil metros quadrados exibe paredes pintadas em tons de bronze, índigo e enxofre.
O mistério central do Thríhnúkagígur reside na ausência de magma solidificado em sua câmara, algo inédito na vulcanologia. Normalmente, após uma erupção, o material remanescente se resfria e endurece dentro da estrutura, preenchendo o espaço subterrâneo. Aqui, porém, o magma simplesmente desapareceu, como se tivesse sido drenado para as profundezas da Terra, segundo o vulcanólogo Haraldur Sigurdsson, professor emérito da Universidade de Rhode Island.
A hipótese mais aceita entre os cientistas sugere que o magma foi sugado de volta para as camadas inferiores da crosta terrestre, um fenômeno jamais observado em outros vulcões. As paredes da caverna, com suas cores vibrantes que variam entre amarelos sulfurosos e azuis metálicos, são resultado da oxidação de minerais e da ação de micróbios extremófilos, organismos adaptados a condições extremas. O vapor que sobe das fendas, antes considerado um sinal de atividade vulcânica, é apenas água condensada pelo calor das lâmpadas que iluminam o local.
O Thríhnúkagígur entrou em erupção apenas três vezes nos últimos 50 mil anos, e sua formação está ligada à Dorsal Mesoatlântica, onde as placas tectônicas da Eurásia e da América do Norte se afastam. Seus três picos, que dão nome ao vulcão, surgiram em erupções distintas: o mais antigo, formado há 50 mil anos, é composto por hialoclastito, uma rocha vulcânica gerada pelo contato explosivo entre lava e gelo.
Embora esteja em uma zona de intensa atividade sísmica, o vulcão não apresenta risco iminente de erupção, segundo especialistas. Desde 2012, o acesso ao interior da câmara é permitido a turistas, que descem em uma gaiola metálica suspensa por cabos, oferecendo uma visão única do ‘encanamento’ de um vulcão. Uma reportagem da Live Science explora como o Thríhnúkagígur se tornou um laboratório natural para o estudo de processos geológicos extremos.
A singularidade do vulcão islandês vai além da câmara vazia. As paredes da caverna exibem padrões geométricos formados pelo resfriamento lento do magma, enquanto estalactites de minerais raros pendem do teto, criando um cenário que parece saído de um sonho surrealista. Para os cientistas, o local é uma oportunidade única de estudar a interação entre rochas, microrganismos e gases vulcânicos em um ambiente isolado por milênios.
O Thríhnúkagígur também levanta questões sobre a possibilidade de existirem outras câmaras magmáticas vazias ao redor do mundo, escondidas sob vulcões aparentemente comuns. Se o fenômeno não for exclusivo da Islândia, como sugerem algumas teorias, a descoberta poderia redefinir o entendimento sobre a dinâmica interna dos vulcões e os riscos associados a erupções futuras. Enquanto isso, o vulcão islandês permanece como um lembrete de que, mesmo em um planeta mapeado por satélites, a Terra ainda guarda segredos capazes de surpreender a ciência.
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