O silêncio fóssil que pairava sobre o sul da África desde as erupções vulcânicas de 182 milhões de anos atrás começa a ser rompido por uma descoberta fascinante. Um grupo de paleontólogos da Universidade Nelson Mandela revelou dezenas de pegadas de dinossauros com cerca de 132 milhões de anos no litoral do Cabo Ocidental, perto de Knysna, reescrevendo capítulos esquecidos da pré-história africana.
Essas novas trilhas, preservadas na chamada Formação Brenton, são as mais jovens já encontradas na região e indicam que os dinossauros persistiram por muito mais tempo do que se imaginava após as devastadoras lavas do Jurássico. A descoberta, publicada no periódico sul-africano South African Journal of Science, mostra que os animais continuaram a habitar a área durante o início do Período Cretáceo, quando o supercontinente Gondwana já começava a se fragmentar.
Segundo o pesquisador Mark G. Dixon, do African Centre for Coastal Palaeoscience, o local estudado mede apenas 40 metros de comprimento por cinco de largura, mas contém mais de duas dezenas de pegadas distintas. O tamanho reduzido do afloramento contrasta com a magnitude científica da descoberta, que sugere uma densidade populacional de dinossauros considerável na região costeira há mais de 130 milhões de anos.
O trabalho de campo foi conduzido por uma equipe de icnólogos liderada por Charles Helm e Willo Stear, também da Universidade Nelson Mandela. O grupo já vinha estudando dunas cimentadas eólicas da costa do Cabo Ocidental, mas não esperava encontrar vestígios tão antigos preservados num ambiente intertidal contemporâneo, onde as pegadas são cobertas pelo mar duas vezes ao dia.
De acordo com o relato publicado pelo ScienceDaily, algumas das marcas foram deixadas por terópodes carnívoros, enquanto outras parecem pertencer a ornitópodes e possivelmente a saurópodes de grande porte. As diferenças sutis na forma e profundidade das pegadas indicam que múltiplas espécies cruzaram aquele antigo estuário, talvez em busca de alimento ou rotas migratórias.
O cenário de 132 milhões de anos atrás era radicalmente distinto do atual litoral de Knysna. Onde hoje há marés e falésias, havia canais de maré, margens de rios e vegetação exuberante, compondo um mosaico ecológico que sustentava predadores e herbívoros em equilíbrio dinâmico.
O registro fóssil da África Austral é notoriamente rico em vestígios do Mesozoico, especialmente no antigo Supergrupo Karoo, mas apresenta lacunas significativas após as erupções que formaram o Grupo Drakensberg. Esses fluxos de lava recobriram camadas sedimentares portadoras de fósseis, o que levou gerações de cientistas a acreditar que a presença de dinossauros havia cessado na região após o Jurássico.
As novas pegadas, no entanto, desafiam essa hipótese. Elas não apenas provam a continuidade biológica dos dinossauros no início do Cretáceo, como também ampliam o mapa paleogeográfico da época, sugerindo que o Cabo Ocidental abrigava microambientes férteis que escaparam à devastação vulcânica.
Os pesquisadores estimam que os rastros sejam cerca de 50 milhões de anos mais jovens que os últimos registros conhecidos do Karoo Basin. Essa diferença temporal é crucial para entender como as populações de dinossauros se adaptaram às transformações geológicas e climáticas que acompanharam a desintegração de Gondwana.
O estudo reforça ainda a importância das formações costeiras do Cabo Ocidental e do Cabo Oriental como potenciais reservas de fósseis do Cretáceo Inferior. Pequenos depósitos não marinhos nessas áreas podem conter ossos, dentes e novas trilhas que ajudarão a reconstruir a ecologia dos últimos dinossauros africanos antes da extinção global.
Além das pegadas, registros anatômicos anteriores na região incluem dentes e ossos isolados de saurópodes e um dente de terópode descoberto em 2017 por um garoto de 13 anos. Agora, a atenção dos cientistas se volta para os rastros, que oferecem uma narrativa viva do movimento, comportamento e interação desses animais colossais.
Fred van Berkel, coautor do estudo, observa que a combinação de pegadas terrestres e sedimentos de canais indica um ambiente de transição entre rio e mar, propício à preservação de rastros mas não de esqueletos completos. Essa peculiaridade explica por que as pegadas sobreviveram enquanto os ossos se perderam na erosão e nas marés sucessivas.
Os especialistas acreditam que novas expedições ao longo da costa poderão revelar ainda mais sítios fossilíferos, talvez com pegadas de outras espécies ou mesmo de animais não dinossaurianos. A perspectiva é que um mapeamento sistemático das formações Robberg e Brenton transforme o Cabo Ocidental em um dos principais laboratórios naturais do planeta para o estudo da transição Jurássico-Cretáceo.
Em meio à vastidão do tempo geológico, essas pegadas minúsculas são como assinaturas persistentes de uma era perdida. Elas funcionam como registro persistente de que, sob a areia e o silêncio do Atlântico Sul, pulsa ainda a memória petrificada de um mundo em movimento, onde o passado e o presente se tocam na maré.
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