O ministro das Relações Exteriores da Índia, Subrahmanyam Jaishankar, abriu em Nova Délhi a reunião de chanceleres do BRICS com um apelo direto por uma ‘resposta efetiva e coordenada’ do bloco diante das turbulências geopolíticas e econômicas em curso. O encontro acontece sob o impacto da escalada militar no Oriente Médio envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, tema que dominou a agenda do dia.
‘Nos reunimos em um momento de considerável instabilidade nas relações internacionais. Conflitos em curso, incertezas econômicas e desafios em comércio, tecnologia e clima estão remodelando o cenário global’, afirmou Jaishankar antes da sessão fechada. O chanceler indiano destacou que existe ‘uma expectativa crescente, sobretudo dos mercados emergentes e países em desenvolvimento, de que o BRICS desempenhe um papel construtivo e estabilizador’.
Dirigindo-se aos colegas do bloco, o chefe da diplomacia indiana foi taxativo ao afirmar que o conflito no Oriente Médio exige atenção prioritária. ‘As tensões persistentes, os riscos ao tráfego marítimo e as disrupções na infraestrutura energética evidenciam a fragilidade da situação’, declarou, conforme reportou o portal RT.
Jaishankar ampliou o diagnóstico ao mencionar as ‘implicações humanitárias’ da guerra em Gaza e os ‘desafios persistentes’ enfrentados por Líbano e Síria, países atingidos em cadeia pela escalada militar promovida por Washington e Tel Aviv. O chanceler indiano deixou claro que a paralisia diplomática imposta pelas potências ocidentais não pode mais ser tolerada por economias emergentes que arcam com o preço energético e logístico da guerra.
Um dos pontos centrais do discurso foi a denúncia frontal ao uso crescente de instrumentos coercitivos unilaterais por parte do Ocidente. Jaishankar afirmou que os membros do BRICS precisam enfrentar ‘o recurso cada vez maior a medidas coercitivas unilaterais e sanções’, destacando que essas práticas ‘afetam desproporcionalmente os países em desenvolvimento’.
‘Essas medidas injustificáveis não podem substituir o diálogo, nem a pressão pode substituir a diplomacia’, sentenciou o chanceler. O recado ecoa as posições históricas de Rússia, China e Irã contra o sistema sancionatório imposto por Washington, e representa um endurecimento do tom do BRICS contra a arquitetura financeira punitiva operada pelos Estados Unidos.
A reunião ministerial em Nova Délhi funciona como momento de articulação política do bloco, que reúne atores decisivos do petróleo, da manufatura global e dos corredores logísticos que conectam Ásia, África e América Latina. Originalmente formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, o agrupamento tem como objetivo declarado a construção de uma ordem mundial mais justa, em que as demandas do Sul Global em economia, segurança e desenvolvimento ganhem peso real na governança global.
A expansão recente reforçou o protagonismo do agrupamento como contrapeso ao G7, com a entrada de Egito, Etiópia, Irã e Emirados Árabes Unidos, seguidos pela Indonésia. A presença iraniana como membro pleno confere ao encontro uma dimensão estratégica adicional, já que Teerã é diretamente atingida pela ofensiva militar conduzida por Estados Unidos e Israel.
As pressões sobre o estreito de Ormuz, por onde transita parcela decisiva do petróleo mundial, colocam os países do BRICS no centro da disputa por estabilidade energética. A situação exige respostas coordenadas que escapem à tutela das instituições financeiras dominadas pelo Ocidente, tema que percorreu as intervenções dos chanceleres reunidos em Nova Délhi.
O recado de Jaishankar consolida a leitura de que o BRICS caminha para assumir um papel ativo de mediação e contestação à hegemonia unilateral. A diplomacia indiana aposta em decisões concretas sobre mecanismos de pagamento alternativos, segurança energética e proteção das economias emergentes contra o uso político das sanções.
Com informações de RT.
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