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Aprovação a médicos cubanos transtorna a mídia

Por Miguel do Rosário

26 de agosto de 2013 : 09h38

A chegada dos médicos cubanos e suas emocionantes declarações sobre “solidariedade” transtornaram completamente a grande mídia. Uma avalanche de manifestações positivas tomou conta dos jornalões, seguidas de acusações pesadas contra a campanha negativa promovida pelas corporações de classe contra o Mais Médicos.

Hoje, na Folha, quase todas as cartas da seção Painel do Leitor tratam positivamente a importação de médicos estrangeiros, especialmente cubanos.

O brasileiro pode não ser muito “ideológico”, mas é um povo que sabe valorizar a solidariedade, e as palavras dos médicos cubanos tocou fundo no coração de todos.

No Globo, a avalanche de aprovação explica a súbita conversão de Ricardo Noblat num defensor do Mais Médicos.

A bem da verdade, o Globo já tinha publicado, semanas atrás, um editorial criticando o corporativismo excessivo das associações médicas. No entanto, o mesmo jornal tratou inicialmente a vinda dos médicos cubanos com o velho ranço anticomunista de sempre. As imagens dos médicos chegando, de jaleco, sorridentes, afirmando que não vinham pelo dinheiro, superaram, todavia, qualquer escrúpulo conservador.

Isso é muito bom. Diante da importância de levar médicos à regiões desassistidas, vale a pena deixarmos de lado as disputas e paranoias políticas, partidárias e ideológicas.

*

Mais Médicos

“Somos médicos por vocação e não por dinheiro”, disseram os médicos cubanos que chegaram ao Brasil para trabalhar nos rincões do país. Um exemplo para os profissionais brasileiros que esqueceram seus juramentos. A população quer menos corporativismo e mais comprometimento.

José Eduardo Amantini, prefeito (Itapuí, SP)


O exame Revalida, ao qual os médicos formados no exterior estão sujeitos, deveria ser aplicado nos formandos brasileiros. Esperamos que não confirme o resultado do exame do Cremesp, que reprovou 80% dos avaliados.

Jalson de Araújo Abreu (São Paulo, SP)


Os médicos cubanos que disseram que são médicos por vocação, e não por dinheiro, estão seguindo o juramento de Hipócrates. Já os brasileiros –pelo menos a grande maioria–, não.

Alcides Morotti Júnior (São Roque, SP)


Se o médico cubano Nelson Rodrigues afirmou que veio por solidariedade, isso mostra o caos e a incapacidade de governar o país em uma área tão importante como a saúde, principalmente nos últimos 11 anos do PT.

Adhemar Ribeiro Filho (Piracicaba, SP)


É incrível a atitude da maioria dos doutores contra o Mais Médicos: eles não vão para as regiões carentes e não deixam ninguém ir. Agora, vendo que a população apoia o programa, concentram-se nos cubanos. Estes já estão no Haiti, na África, no norte do Brasil. Os nossos, não. O mesmo se dá com os Médicos sem Fronteiras, que arriscam a vida na Síria.

Luiz Carlos Roque da Silva (São Paulo, SP)


Gostaria de condenar a campanha que a máfia de branco está fazendo contra o programa Mais Médicos. A histeria dessas entidades médicas lembra o macarthismo. Tenho certeza de que a maioria da população apoia a vinda dos médicos estrangeiros e repudia a posição nazifascista de algumas entidades.

Carlos Roberto Penna Dias dos Santos (Rio de Janeiro, RJ)


Queria saber das entidades médicas quem deveria consertar os erros dos médicos brasileiros, que são inúmeros todos os dias.

Carlos Alberto dos Santos (São Paulo, SP)


Há uma determinação para que médicos não circulem pelas ruas de jalecos por questão de higiene. Os cubanos desembarcaram no aeroporto assim trajados. Nem começaram e já cometeram a primeira infração. Mau começo.

Fernando Piason França, médico (São Paulo, SP)


Um jornalista flagrou uma médica da Prefeitura de São Bernardo do Campo batendo o ponto e indo atender pacientes no seu consultório. Será que ela aprendeu com aquela médica de Ferraz de Vasconcelos que marcava ponto com dedos de silicone com a impressão digital de outros médicos? E alguém duvida que a prática é comum no Brasil?

Edgard Gobbi (Campinas, SP)

*

Leia abaixo a coluna de Noblat, defendendo o Mais Médicos:

‘Só vejo vantagens’ (sobre a vinda de médicos estrangeiros)

Por Ricardo Noblat

Sem tolices, por favor. Queriam o quê? Que precisando contratar médicos para fixar no interior do país o governo não o fizesse só por que os nossos têm outros planos? Ou então que contratasse estrangeiros, mas não cubanos por que eles vivem sob uma ditadura?

Com quantas ditaduras o Brasil mantém relações? Sabe em que governo o Brasil reatou relações diplomáticas com Cuba? No do conservador José Sarney. Pois não é?

Desembarcaram por aqui no último fim de semana os 400 médicos cubanos que aceitaram trabalhar durante três anos nos 701 municípios rejeitados por brasileiros e estrangeiros em geral inscritos no programa “Mais Médicos”.

São municípios que exibem os piores índices de desenvolvimento humano do país, 84% deles situados no Norte e no Nordeste. Os nossos médicos brancos e de olhos azuis não topam servir onde mais precisam deles.

Médicos brancos e de olhos azuis… (Olha o racismo aí, gente!) O que eles querem mesmo é conforto, um consultório para chamar de seu e bastante dinheiro. Igarapés? Mosquitos? Casas de pau a pique? Internet lenta? Medicina, em parte, como uma espécie de sacerdócio? Argh!

Mas a Constituição manda que o Estado cuide da saúde das pessoas. E para isso ele lançou um programa. Acusam o programa de ter sido concebido sob medida para reeleger Dilma. E eleger governador de São Paulo o ministro Alexandre Padilha, da Saúde.

Outra vez suplico: “sin tonterías, por favor”. Queriam o quê? Que podendo atender o povo e ganhar uns votinhos eles abdicassem dos votinhos?

Sarney (ele insiste em voltar!) inventou o Plano Cruzado em 1986 para manietar a inflação. Manietou-a tempo suficiente para vencer a eleição daquele ano. Com a falência do plano foi apedrejado no Rio.

O Plano Real elegeu Fernando Henrique. O que restou do plano o reelegeu.

O Bolsa Família reelegeu Lula, que elegeu Dilma, que terá de suar a camisa para se reeleger. Andar de moto não sua…

Ah, mas um programa ambicioso como o “Mais Médicos” deveria ter sido discutido exaustivamente pela sociedade antes de começar. Deve ter sido discutido, sim, pelo governo, ouvidos também seus marqueteiros.

Importa que funcione bem. Do contrário a gente mata a bola no peito e sai por aí repetindo até perder a voz: “Eu não disse? Não disse?”

Outra coisa: quem sabe o fracasso do programa não derrota Dilma? Hein? Hein? Ela é tão fraquinha… Não fará falta. Se comparado com ela, Lula faz. No mínimo era mais divertido.

Médico cubano não fala português direito! (Ora, tenham dó. Eu passo.) Não podem ser tão bem preparados. Podem e são. Estão em dezenas de países. Até no Canadá. Até na Inglaterra.

Ministro da Saúde, José Serra foi à Cuba conhecer como funcionava o sistema de atendimento médico comunitário. Voltou encantado.

No final dos anos 90, o governo do Tocantins importou 210 médicos, 40 enfermeiros e oito técnicos cubanos. Sucesso total.

Sei: coitado do médico cubano! A maior parte dos R$ 10 mil mensais a que terá direito ficará com o seu governo. E ele não poderá trazer a família. Os demais médicos estrangeiros poderão trazer a mulher e até dois filhos.

Também tenho pena deles. E deixo aqui como sugestão: entre tantas passeatas marcadas para 7 de setembro por que não fazemos uma pedindo o fim da ditadura cubana? Ou pelo menos melhores salários para os médicos da ilha? Já pensou? Abrindo a passeata, representantes de entidades médicas. De jaleco. Atrás, um mar de bandeiras vermelhas para animar a turma. Fechando a passeata, o bloco dos vândalos. E tudo filmado pelos ninjas!

Compartilho o receio de os médicos estrangeiros se frustrarem com a carência de equipamentos no Brasil. Se eles faltam até nas maiores cidades, imagine nas terras do fim do mundo? Se faltam remédios… Ainda assim é melhor ter médicos a não tê-los.

Em certos casos só se resolve problema criando problema. E haverá sempre o recurso à passeata. Se negarem o que pedimos… Se rolar grossa pancadaria…

Cuide-se, Dilma!

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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