Análise da reunião ministerial de Bolsonaro

Vista de Santa Teresa, à noite.

Economist quer agradar Higienópolis

Por Miguel do Rosário

28 de setembro de 2013 : 01h39

A última edição da britânica The Economist, trazendo uma capa duramente crítica ao Brasil, produziu grande euforia nas hostes coxinhas. No post anterior, eu dei uma resposta preliminar, com base apenas na capa e nas chamadas, que já prenunciavam o teor da matéria.

Agora, que tive a pachorra de ler os nove textos, mais a abertura, posso fazer uma crítica mais consistente.

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Em primeiro lugar, baixemos as armas. Eu gosto da Economist. Acho uma revista elegante e bem redigida. Quer dizer, eu gostava. Mas não foi a capa ofensiva ao Rio e ao Brasil que me fez mudar de ideia. Não sou de ligar muito para essas coisas, e na verdade não sou tão ufanista como me “acusam” alguns. Também tenho milhares de críticas ao governo federal e ao PT, com os quais, sempre é bom deixar claro, não tenho nenhum elo ou obrigação.

O que me fez mudar de ideia em relação à Economist foi o último artigo de capa, um libelo sem-vergonha em favor de intervenções armadas dos EUA. É notório que o principal público consumidor da revista hoje em dia está nos Estados Unidos. A matéria favorável à indústria bélica mostra que, infelizmente, os patrocinadores também estão lá.

Voltando à matéria sobre o Brasil, juro que li os textos com máxima boa vontade. A jornalista Helen Joyce, como quase todos na Economist, é ótima redatora e me pareceu uma profissional disciplinada. Deram-lhe uma missão, escrever uma série de textos com um viés de oposição, e ela a cumpriu com dignidade. Respeito isso.

Entretanto, temos que entender as razões. A Economist tem um evento agendado no Brasil para outubro, cujos patrocinadores são os seguintes:

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O primeiro é um fundo de investimento que vem perdendo bilhões com a decisão de Dilma de reduzir os juros, e o terceiro é uma petroleira estrangeira com interesse no pré-sal e uma agenda política específica e urgente para 2014.

Os palestrantes brasileiros conhecidos são os seguintes. Não riam.

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Faltou aí apenas o Alckmin e o Aécio Neves, para completar a cúpula do tucanato nacional.

Joaquim Barbosa,  por incrível que pareça, dará uma palestra sobre… reforma política, assunto que ele domina tanto quanto o ex-presidente, Ayres Brito, sabia de física quântica e hábitos alimentares de passarinhos. Ou seja, nada. Preparem-se para as bombas!

Sem contar que não consigo conceber nada de pior em termos de mau gosto e insensibilidade democrática, mas sintomático do que está acontecendo no Brasil, do que chamar o presidente do judiciário para falar de um tema cujo debate está só começando no legislativo. Montesquieu se remói no túmulo.

A estratégia empresarial da Economist, portanto, está clara como os olhos de Eduardo Campos. Ela quer seduzir a direita endinheirada de São Paulo. E nada melhor, neste sentido, do que falar mal do Brasil.

*

Sobre a matéria em si, seguem algumas observações.

A reportagem abre com um tom ridiculamente professoral. Logo no subtítulo do primeiro texto, o leitor topa com o seguinte aviso:

“Tendo chegando tão perto de decolar, o Brasil travou. Helen Joyce explica o que deve ser feito para o país ganhar o espaço novamente”.

Com todo o respeito à competente Helen Joyce, se ela realmente tivesse as soluções para os problemas que assolam um país tão complexo como Brasil, ela não seria apenas uma repórter da Economist, mas uma consultora internacional que mereceria ganhar milhões de dólares por ano.

Ainda mais porque as “soluções” trazidas por Joyce não passam de clichês neoliberais, ou pior, ideias estapafúrdias e anti-povo de economistas tucanos. No texto que conclui a reportagem, Joyce confessa o viés partidário de toda a matéria:

“O país pode superar o alto e mal direcionado gasto público, através da limitação de qualquer aumento em no máximo metade da taxa de crescimento econômico, conforme economistas ligados ao oposicionista PSDB vem sugerindo.”

A ideia é socialmente criminosa e politicamente colonial. Além de idiota, claro. Se alguém sugerisse tal coisa na Inglaterra seria ridicularizado, inclusive pela Economist. Mas como é para o Brasil, e pode beneficiar os especuladores que patrocinam a Economist, então não é só válida, como apresentada como solução brilhante.

Os problemas listados pela matéria são reais. Há graves problemas de infra-estrutura. As obras demoram a terminar, e sempre ficam mais caras do que o acertado inicialmente. Os serviços públicos ainda deixam muito a desejar. Entretanto, eu fico imaginando como seria útil, a esta repórter, que ela entrasse numa máquina do tempo e voltasse ao Brasil de dez anos atrás. Desemprego altíssimo, dívida externa descontrolada, inflação alta, juros estratosféricos, crédito zero para pobres, situação de tragédia social em vasta regiões. E, sobretudo, uma criminosa falta de investimentos… em infra-estrutura.

A reportagem peca ao não fornecer ao leitor um balanço realista, com dados, sobre o universo de obras em andamento no país. O leitor certamente sairia menos pessimista se fosse informado de que entre as cem maiores obras de infra-estrutura em andamento no mundo, boa parte se encontra no Brasil.

Não podemos esquecer que as belas estradas inglesas, seu magnífico sistema ferroviário e seus portos e aeroportos modernos foram construídos com recursos e sangue oriundos da exploração colonial de países pobres, incluindo o Brasil.

O Brasil está se auto-construindo com dinheiro próprio e trabalho duro; sem explorar e humilhar nenhuma colônia, sem fazer guerras. É claro que é um processo mais lento e mais difícil. Mas quando encerrarmos este ciclo, teremos uma dignidade que poucas nações poderão exibir.

A parte em que fala de política me pareceu leviana e hipócrita, como se fosse um problema só do Brasil, ou como se ela tivesse se baseado em informações colhidas na imprensa partidária. Independente dos problemas do sistema político brasileiro, que são inúmeros, na comparação com outras democracias ocidentais, exibimos um dos melhores índices de alternância política e produção legislativa. Em lugar nenhum a democracia é um mar de rosas, nem os políticos, seja na Inglaterra, EUA, em qualquer lugar, são exemplos de idoneidade. Mas nos últimos anos testemunhamos no Brasil a criação de instâncias de controle administrativo e combate à corrupção, além das ferramentas e leis de transparência, que hoje são referência internacional.

Me parece que os “protestos” de junho, ao afetarem a popularidade do governo, acenderam as esperanças da revista de uma vitória da direita em 2014, e isso a fez estreitar laços com a oposição. A bem da verdade, a Economist vem se aproximando da oposição há tempos, sobretudo desde que o governo decidiu acelerar a queda dos juros básicos, medida que afetou severamente a rentabilidade dos fundos de investimento que patrocinam a publicação. As matérias pedindo a cabeça de Guido Mantega serviram apenas para desmascarar a ridícula arrogância da Economist, e sua defesa de rentistas globais que há séculos chupam o sangue dos brasileiros.

A matéria, vista como um todo, é um retalho de contradições, porque louva a ascensão da nova classe média e o baixo desemprego, mas critica a universalização do sistema previdenciário, sem fazer a conexão entre as duas coisas, além de omitir que se trata de um avanço que a Inglaterra e toda Europa conquistaram há muito tempo.

É lamentável constatar que a elegante e sóbria Economist tenta agradar os vira-latas medievais de Higienópolis às custas de vender soluções profundamente nocivas aos interesses populares e à nossa soberania política.

Vista de Santa Teresa, à noite.

Vista de Santa Teresa, à noite. Fonte da foto.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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23 comentários

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cppimenta

30 de setembro de 2013 às 11h47

General barbosa acha que ganha pouco:

http://osamigosdopresidentelula.blogspot.com.br/2013/09/joaquim-barbosa-quer-salario-de-r-40-mil.html

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Jorge Silva

30 de setembro de 2013 às 00h06

Concordo com alguns pontos, como interesses por trás do Economists, porém é ridículo essa comparação com o cenário de 10 anos atrás que você e alguns PTistas fazem. O país passa por uma evolução constante, a linha de desenvolvimento é crescente desde a colonização, as vezes mais rápida outras mais lenta, as vezes com pedras, outras não, mas sempre progredindo. O progresso está continuamente alicerçado nas conquistas passadas. Certamente, independente de quem seja o presidente eleito, daqui 4, 8 anos, irão comparar também com esse atual PT e dirão que o país está melhor, e certamente estará em várias áreas. Esse seu papo pode enganar quem tem visão limitada, mas saia do país e viaje pelo mundo e entenda melhor a situação do seu país, as oportunidades perdidas. Infelizmente tenho que concordar que nenhum dos candidato atuais são o ideal para o país, e nosso sistema político está falido, mas não é por causa disso que darei continuidade a um governo viciado em atitudes populistas e corruptas, que trata seu partido como se fosse um clube de futebol…

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nilo filho

29 de setembro de 2013 às 11h20

COMO ENVIAR A MATÉRIA (E OUTRAS) POR E.MAIL???… E DIVULGAR IDÉIAS E O PRÓPRIO SITE?????…

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Jorge Moraes

29 de setembro de 2013 às 02h34

Liquidaste com o ofídio e deste ciência da arma empregada ao distinto público.

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josecarloslima

29 de setembro de 2013 às 02h15

A Europa em crise deveria contratar os serviços da mamãe Diná Joyce…rsss

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Fernando

28 de setembro de 2013 às 17h26

Muito boa análise, Miguel, mas permita-me uma crítica: a cada dia vc e outros colunistas engajados em mostrar as várias tramóias da direitona denunciam caso após caso como se fossem episódios novos e aparentemente oriundos de cabeças fascistas tupiniquins – o que não é bem verdade.
Está mais do que na hora de alguém levantar a grande lebre do que está por trás da nossa direitona tupiniquim vendida aos interesses de uma elite que quer a dominação mundial: o sionismo. Todos estes senhores que farão palestras em Outubro no tal evento nada mais são do que títeres a serviço desta elite que já domina o Congresso dos EUA e dita as cartas no Reino Unido e que passa como um trator sobre direitos constitucionais naqueles países em nome de leis de mercado e garantias anti-terrorismo. Somos bombardeados diariamente com esse lixo de informação de quinta categoria onde os governos socialistas latino-americanos são considerados um câncer a ser extirpado. Nada do que acontece no mundo hoje em dia está desconectado. A crise no oriente Médio tem seus reflexos aqui no Brasil e não é só nos preços do petróleo, trata-se dos golpes midiáticos urdidos pelos arautos da maçonaria sionista, liderada pelo sr. Murdoch e seguido por um sem-número de redes de jornais e TVs a serviço da desestabilização política, econômica e social de qualquer nação que queira andar pelas suas próprias pernas.
Os Americanos já estão se dando conta da patifaria que se tornou comum em sua política e estão se mexendo para garantir seus direitos constitucionais e a boa convivência com o resto do mundo porque acordaram para o fato de que não é possível viver a mentira de uma paz feita de guerras e mortandade – inclusive de milhares de concidadãos seus.
Acordemos, também, para o fato de quem são os nossos inimigos reais aqui dentro e a quem servem antes de que algum big brother estacione seus contratorpedeiros nas nossas costas e tome o país por pura incompetência nossa. O grupo Bilderberg não é teoria conspiratória, existe de verdade e nós estamos na sua agenda de aquisições, ou melhor, de saques.

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    Francisco Teixeira

    28 de setembro de 2013 às 18h59

    A última frase do seu comentário é bastante interessante: “O grupo Bilderberg não é teoria conspiratória, existe de verdade”. E existe mesmo. Basta uma pequena consulta à Wikipédia para comprovar isso. E o único jornal do mundo inteiro que tem coragem de falar sobre os encontros do grupo Bilderberg é o The Guardian, o mesmo que teve a coragem de dar voz a Snowden e as denúncias contra a NSA. The Guardian tem o meu respeito por causa disso. De que adianta analisarmos as declarações públicas dadas no Fórum Econômico de Davos, se os mesmos “donos do mundo” se encontram a portas fechadas nos encontros de Bilderberg, sem a presença da imprensa? Onde você acha que as VERDADEIRAS deliberações são feitas? Exato: nos encontros de Bilderberg, longe dos olhos da imprensa.

    Responder

Olavo Braga

28 de setembro de 2013 às 13h33

Alguém lembra da quebradeira que os vândalos mascarados ingleses fizeram em Londres em 2011? Os “coxinhas” britânicos fizeram a maior arruaça em Londres no segundo semestre de 2011. Será que eles lembram disso? Claro que eles tratam aquele episódio como o que realmente foi: arruaça alienada sem efeitos políticos práticos. Como foi na Inglaterra, ninguém tenta atribuir nenhum significado político que de fato não existiu. Mas a arruaça de junho de 2013 foi no Brasil, aí eles tentam dar importância política ao fato.

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Paulo Souza

28 de setembro de 2013 às 15h58

.??…

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Yacov

28 de setembro de 2013 às 12h43

DEpois dessa acho que se pode aplicar à The Economist as mesmas recomendações que se aplicam à VEJA: Não compre. Se comprar não leia. Se ler não acredite. Se acreditar, RELINCHE !!

ANOS tuKKKânus LEWINSKYânus NUNCA MAIS !!! NO PASSARÁN !!
VIVA GENOÍNO !! VIVA ZÈ DIRCEU !! VIVA A LIBERDADE, A DEMOCRACIA E A LEGALIDADE
!! VIVA LULA !! VIVA DILMA !! VIVA O PT !! VIVA O BRASIL SOBERANO !! LIBERDADE
PARA JULIAN ASSANGE, BRADLEY MANNING e EDWARD SNOWDEN JÀ !! FORA YOANI !!
ABAIXO A DITADURA DO STF gloBoBBBalizado e sua JU$TI$$A BURGUESA !! ABAIXO A
GRANDE MÍDIA EMPRESARIAL & SEUS LACAIOS e ASSECLAS !! CPI DA PRIVATARIA
TUCANA, JÁ !! LEI DE MÍDIAS, JÁ !! “O BRASIL PARA TODOS não passa no
SISTEMA gloBBBo de SONEGAÇÃO – O que passa no
SISTEMA gloBBBo de SONEGAÇÃO é um braZil-Zil-Zil para TOLOS”

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O Cafezinho

28 de setembro de 2013 às 09h52

E onde fica o paraíso?

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Ricardo Chacur

28 de setembro de 2013 às 09h39

Será que a revista está tão errada assim? Pelo menos quando faço compras de mercado percebo que não estamos no paraíso.

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Rogerio Espinheira

28 de setembro de 2013 às 09h03

No linguajar Nordestino: É de caso pensado……..

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migueldorosario

28 de setembro de 2013 às 02h36

Deixei assim: “o terceiro é uma petroleira estrangeira com interesse no pré-sal e uma agenda política específica e urgente para 2014”.

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Rubem Gonzalez

28 de setembro de 2013 às 05h26

não confie em ninguém que come batas fritas e peixe frito juntos e servidos em jornal…………arghhhhhhhhhh prefiro coca com rato !!!!!!

Responder

Paulo Souza

28 de setembro de 2013 às 05h08

Continua…

Responder

Paulo Souza

28 de setembro de 2013 às 05h08

Fala-se em comodidade do mercado, mas sua origem contina sendo britânica.

Responder

Maria Lucia Lula Dilma Lemos

28 de setembro de 2013 às 05h05

(y)

Responder

O Cafezinho

28 de setembro de 2013 às 05h04

portanto não é errado falar made in USA

Responder

O Cafezinho

28 de setembro de 2013 às 05h03

a economist é britância, mas seu mercado é americano, e seus patrocinadores também.

Responder

Paulo Souza

28 de setembro de 2013 às 05h00

Q ignorância! Economist e britânica!…rs…a ignorância e um spanto!

Responder

Maria Lucia Lula Dilma Lemos

28 de setembro de 2013 às 04h58

Q tristeza ter q aguentar desaforo e canalhice até dessa revista atrevida INGLESA ATREVIDA : Por Stanley Burburinho

O ataque da The Economist ao Brasil parece que é para promover um evento da revista que ocorrerá em SP, dia 24/10.

The Economist – Brazil Summit 2013 – New drivers of economic growth – October 24th 2013 São Paulo, Brazil – The Grand Hyatt, Av. das Nações Unidas, 13301, Vila Cordeiro.

Entre os palestrantes convidados estão: Joaquim Barbosa, Gustavo Franco, Anastasia, Marconi Perillo, etc.

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