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O bate boca entre Cae, Freixo e O Globo

Por Miguel do Rosário

19 de fevereiro de 2014 : 11h30

Tenho que reproduzir isso aqui no blog, porque está ficando divertido demais.

Ontem Marcelo Freixo publicou um artigo no qual atacava O Globo, acusando-o de ter criado um factóide para lhe atingir. O Globo hoje responde com um editorial intitulado O Dever de um Jornal II.

O Globo já tinha escrito um editorial similar há alguns dias, respondendo um artigo de Caetano Veloso em defesa de Marcelo Freixo. Mas vou publicar só o artigo de Freixo e o último do Globo.

Eu só vou fazer um comentário, meio cifrado: “Cade os US$ 40 bilhões do Putin?“.

*

A exaltação de um factoide

Por Marcelo Freixo, no Globo

Pela terceira vez em menos de uma semana, O GLOBO me cita em seus editoriais. As diferenças do texto publicado ontem em relação aos demais são o tom menos arrogante e o alvo. Após a péssima repercussão das tentativas de associar a morte do cinegrafista Santiago Andrade a mim, o jornal assume postura mais cuidadosa, até porque o objetivo é explicar a cobertura da tragédia aos seus leitores.

Estranho é O GLOBO não demonstrar tamanho ímpeto editorial quando o assunto é, por exemplo, a comprovada ligação entre o ex-governador em exercício Sérgio Cabral e o empreiteiro Fernando Cavendish. Quantos editoriais foram dedicados ao fato de a empresa de advocacia da primeira-dama, Adriana Ancelmo, ter contratos com concessionárias estaduais? Quantos textos foram escritos sobre as relações entre o governador e Eike Batista?

Vamos fazer uma rápida retrospectiva. No editorial do dia 12 de fevereiro, o jornal me trata como inimigo da democracia. Achei interessante o grupo tocar no assunto. Afinal, no próximo 1º de abril, o golpe militar completa 50 anos e a empresa deve ter histórias palpitantes para contar.

Dois dias depois, o jornal afirma que meu gabinete tem comprovada proximidade com os black blocs. Comprovada proximidade? Creio que o manual de redação do grupo é mais criterioso do que levam a crer seus editoriais. A comoção provocada pela morte do cinegrafista Santiago Andrade não pode ser usada como instrumento de difamação.

Depois de tanta ferocidade, O GLOBO tenta justificar a série de matérias produzidas, com grande destaque, sobre a minha suposta ligação com os responsáveis pelo assassinato de Santiago. Num tom professoral e oportunamente sóbrio, o editorial “O dever de um jornal”, publicado ontem, se arrisca em novos malabarismos.

Primeiro, O GLOBO tenta justificar a manchete do dia 10 de fevereiro, que alardeia minha relação com os acusados, lembrando que a conversa telefônica entre o advogado Jonas Tadeu Nunes e a ativista Elisa Quadros foi registrada na 17ª DP (São Cristóvão). Logo, a existência do documento baseado num “disse me disse” seria suficiente para que uma denúncia grave como esta fosse divulgada. Tudo bem, se o argumento parece tão óbvio ululante e irrefutável para o grupo, por que os jornais “Folha de S.Paulo” e “O Dia”, por exemplo, não se comportaram da mesma forma e nada escreveram sobre o episódio? Então, a postura é, sim, controversa.

O tal Termo de Declaração registrado na delegacia foi produzido de forma irresponsável por um advogado extremamente suspeito e divulgado com destaque, no mínimo, inconsequente. Vejam que estranho: a conversa que suscitou as acusações ocorreu entre Jonas Tadeu Nunes e Elisa Quadros, como o próprio advogado disse, mas o documento foi assinado pelo estagiário Marcelo Mattoso.

Além disso, o delegado Maurício Luciano não teve acesso ao conteúdo da conversa. Por que ele não passou o telefone ao delegado? Por que não pôs a ligação no viva-voz? Ou seja, o Termo de Declaração, grande “prova” do GLOBO, é frágil por ter sido produzido sem qualquer cuidado.

Até aquele momento, ainda não sabíamos que Jonas Tadeu Nunes já fora condenado por danos morais, enriquecimento sem justificativa, e danos morais e materiais em três processos distintos — não vi O GLOBO destacar isso durante a cobertura. Apesar disso, sua atitude, naquele dia 9 de fevereiro, é digna de estranheza.

Jonas Tadeu Nunes não agiu como advogado nem como defensor dos interesses de seu cliente ao pegar o Termo de Declaração, imediatamente após o seu registro, e entregar nas mãos de uma repórter da TV Globo.

Por que O GLOBO não se interessa tanto pela conduta tão controversa e suspeita do advogado, como o faz quando ele dirige acusações sem provas contra mim? Enquanto veículos e colunistas de outros jornais, como Jânio de Freitas, da “Folha de S.Paulo”, acham tudo muito estranho, Jonas Tadeu Nunes reina sob os holofotes globais e leiloa informações. Quando acusa, o advogado recebe mais destaque que o delegado, responsável pelo inquérito.

O autor do editorial mente ao escrever que eu afirmei não saber de nada ao ser procurado por Artur, da equipe de produção da emissora, naquele mesmo dia. Em momento algum neguei ter falado com Elisa Quadros ao telefone.

Ela me ligou exclusivamente para relatar que temia a possibilidade de Fábio Raposo ser torturado no presídio. Eu falei que isso não aconteceria e desliguei. Sou presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro e dezenas de pessoas me procuram para fazer denúncias.

Também não criei obstáculos para dar entrevista. Pelo contrário, dar entrevistas é o que mais tenho feito nestes últimos dias. Só pedi que o tal documento me fosse encaminhado antes. Afinal, não posso falar sobre algo cujo conteúdo desconheço. O jornal cumpriu sua obrigação de me ouvir, mas foi leviano ao publicar uma manchete baseada em “provas” extremamente frágeis. No fim da chamada de capa, o fatal: “O parlamentar nega.”

O GLOBO insiste em dizer que foi imparcial e comedido ao tratar do assunto durante a semana. Não foi. Basta ler os editoriais publicados e citados aqui. Como não havia provas e mais informações para me associar a esta tragédia, os ataques saíram dos espaços de notícia para os de Opinião. Não me acho acima do bem e do mal, como insinuou o jornal, numa tentativa de desqualificar minha indignação. Mas não vou titubear em defender minha trajetória ante acusações estapafúrdias.

Agora, o jornal tenta se esconder sob o manto da “missão jornalística” para justificar o noticiário desmedido e leviano dirigido contra mim e o PSOL. O papel nobre que O GLOBO atribuiu a si mesmo ontem, numa linguagem tão prudente, é mais uma tentativa de subestimar a inteligência de seus leitores.

Se não houvesse tanta indignação social e manifestações de solidariedade a mim — inclusive de jornalistas da própria Rede Globo —, essa autocrítica mambembe sequer teria sido feita. Pedir desculpas é um gesto que exige grandeza.

Marcelo Freixo é deputado estadual (PSOL-RJ).

*

O dever de um jornal — II

O GLOBO não tem interesses partidários, preocupa-se na cobertura sobre a morte do cinegrafista, a ajudar a desvendar o caso. Não acusou o deputado

19/02/14 – 0h00

O GLOBO tem um profundo respeito por seus leitores e, ao longo de sua história, jamais se permitiu agir de outra forma. Não será diferente desta vez.

Ontem, o deputado Marcelo Freixo publicou artigo nessas páginas. Exercitava o seu direito de discordar da cobertura que o jornal fizera da morte do cinegrafista Santiago Andrade, da TV Bandeirantes: seu nome foi envolvido no noticiário e o jornal deu destaque a isso. No dia anterior, O GLOBO explicou os seus motivos, e, hoje, os mantém plenamente.
Em seu artigo, porém, Freixo não apenas discordou da cobertura explicando os seus porquês. Preferiu, num momento grave como esse, fazer ironias com o jornal, com afirmações falsas. É em respeito a seus leitores, e somente a eles, que O GLOBO dedica esse espaço a refutá-las.

Freixo iniciou seu artigo fazendo referência ao apoio que O GLOBO, assim como praticamente todos os periódicos da época, deu ao golpe de 1964, fato já ampla e formalmente reconhecido pelo jornal como um erro editorial. Na ocasião, O GLOBO afirmou: “A democracia é um valor absoluto. E, quando em risco, ela só pode ser salva por si mesma.”
No mesmo artigo, Freixo estranhou a falta de ímpeto editorial do jornal diante da “comprovada ligação do governador em exercício Sérgio Cabral e o empreiteiro Fernando Cavendish”. O deputado perguntou, ainda, quantos textos foram escritos sobre as relações entre o governador e Eike Batista. Pois bem, o jornal jamais se calou sobre tais temas.
Aos fatos:

Na edição de 21/6/2011, O GLOBO publicou a cobertura do enterro de vítimas do desastre de helicóptero, em Trancoso, Sul da Bahia, em que morreu, entre outros, Mariana Noleto, namorada do filho do governador Sérgio Cabral, Marco Antônio, numa viagem para a festa de comemoração do aniversário de Cavendish. Na mesma página, sob o título “Relações delicadas”, O GLOBO revelou que Cabral viajara num jato do empresário Eike Batista, “com quem [o governo] tem contratos de R$ 1 bilhão”.

Na edição do dia seguinte, o jornal denunciou que “a emergência tem sido aliada fiel da Delta Construções no estado.” Ou seja, a empresa de Cavendish, em nome da urgência de obras, vinha sendo favorecida com contratos assinados sem concorrência: R$ 58,7 milhões, quase um quarto de todos os recursos empenhados para pagamentos à empreiteira no primeiro semestre daquele ano.

Na edição de 23/6, na sequência, O GLOBO publicou o editorial “A promiscuidade na vida pública”, em que afirma: “A tragédia ocorrida no fim de semana , com a queda do helicóptero no Sul da Bahia, desvendou ligações do governador Sérgio Cabral com empresários [Fernando Cavendish e Eike Batista que colocam questões sérias sobre até que ponto deve ir o relacionamento entre pessoas do mundo privado e público, sem que seja ultrapassada a fronteira do conflito de interesse”. No final, afirmou: “A tragédia no Sul da Bahia (….) deveria servir de alerta aos homens públicos que se descuidam e não delimitam espaços entre os cargos eletivos que ocupam e os interesses que o cercam. Legítimos, mas tóxicos.”

Na edição de 28/6, na reportagem sob o título “O preço da bondade”, o jornal esmiuçou a lista de beneficiados pela concessão de benefícios fiscais pelo governo Sérgio Cabral. Encontrou na relação empresas de Eike Batista e destacou, em um quadro, que até o iate do empresário foi beneficiado por incentivos fiscais. A OGX, de exploração de petróleo, que depois enfrentaria graves problemas financeiros, a LLX, do setor portuário e da área de mineração, também receberam benesses do estado. Sequer o restaurante de comida chinesa do empresário, Mr. Lan, deixou de ser beneficiado. E O GLOBO publicou tudo.

Em seu artigo, Freixo desejou saber, ainda, “quantos editoriais” foram publicados sobre “o fato de a empresa de advocacia da primeira-dama, Adriana Ancelmo, ter contratos com concessionários privados.
Aos fatos:

Editoriais, nenhum. Mas, como deve agir a imprensa profissional, O GLOBO não omitiu de seus leitores as acusações que a primeira dama vinha sofrendo. Em 26/1/2010, sob o título “Primeira-dama terá de explicar contrato à OAB”, o jornal trouxe a opinião de especialistas contrária, do ponto de vista ético, à atuação da advogada na defesa do Metrô, uma concessionária de serviço pública no Rio de Janeiro.

Em 18/8/2010, O GLOBO registrou o arquivamento, pela Procuradora-Geral da Justiça, da representação contra o escritório em que advogava Adriana Ancelmo por ocasião daquela defesa do Metrô, e informou que a Comissão de Ética da OAB continuava a analisar o caso. Três dias depois, o jornal noticiou que o deputado Marcelo Freixo decidira encaminhar denúncias contra o governador, uma delas devido ao trabalho da primeira-dama contratada por concessionários públicos.
Esta é a verdade, disponível a quem se disponha a pesquisar o arquivo digital do jornal.

No artigo de ontem, o deputado Freixo declarou que não se acha acima do bem e do mal. Melhor assim. O GLOBO também não. Como seus leitores são testemunhas, o jornal reconhece seus erros, quando ocorrem. A cobertura da morte do cinegrafista Santiago Andrade não foi uma dessas ocasiões: o jornal se orgulha do trabalho que realizou.

No ato de desagravo a favor do deputado, que ocorreu na segunda-feira, muitos declararam que confiam irrestritamente nele. O GLOBO respeita plenamente essa posição, mas, por dever de ofício, não pode e nem deve confiar irrestritamente em ninguém.

O GLOBO não tem interesses partidários. Preocupa-se, na cobertura sobre a morte absurda do cinegrafista, a ajudar a desvendar o caso. Não acusou o deputado de nada. Registrou, com o destaque merecido, o que dele se falou, abertamente e sem reservas. Era uma obrigação.

É preciso que se diga, porém, que O GLOBO nada tem contra Marcelo Freixo. Registre-se que o deputado teve apoio do jornal na CPI das Milícias, essa praga que, juntamente com o tráfico de drogas, ainda infernizam o Rio de Janeiro. E terá novamente sempre que agir em benefício do país, de nossa sociedade, de nossa democracia. Assim exigem nossos princípios, por sinal publicados e à disposição de todos.

O GLOBO trabalhará sempre, dentro das melhores normas que balizam o jornalismo profissional, a favor desses princípios. E denunciaremos tudo o que for no caminho contrário a eles.

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Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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