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Ela

A luta de uma garota de 20 anos contra um professor machista

Por Miguel do Rosário

25 de junho de 2014 : 16h42

Interessante testemunhar a covardia da revista Veja, e de seu blogueiro, Rodrigo Constantino, também colunista do jornal O Globo, ao atacar uma garota de 20 anos.

Acompanhe essa polêmica.

*

Reproduzo texto publicado na Caros Amigos.

Estudante perseguida por professor na UERJ publica manifesto

Maria Clara Bubna enfrenta ameaças até de processo judicial e decidiu romper silêncio

Do CromossomoX

Maria Clara Bubna, 20 anos, é estudante do 1° período de Direito na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e integra o Coletivo de Mulheres da sua Universidade.

Ela era – até ele pedir exoneração – aluna do Professor Bernardo Santoro, autor de uma postagem de conteúdo debochado e pra lá de machista feita, publicamente, em seu Facebook, e repudiado, recentemente, e com toda a razão, pelo Coletivos de Mulheres da UFRJ, outra Universidade na qual Bernardo leciona.

Depois disso, Bubna diz que passou a ser perseguida pelo professor. Ele afirma o contrário, mesmo estando hierarquicamente, acima da aluna, em sua relação dentro da Universidade, e atribui a autoria do repúdio à Bubna e seu Coletivo, embora a Nota de Repúdio tenha sido publicada por outro Coletivo Feminista, de outra Universidade, a UFRJ.

A estudante ficou um tanto surpresa e assustada com o rumo que o assunto tomou e a repercussão que teve, mas resolveu quebrar seu silêncio e contar sua versão da história em seu depoimento intitulado “Sobre o Silêncio ou Manifesto pela Voz”, que reproduzo, na íntegra, logo abaixo.

“Parabéns”, Professor Bernardo Santoro! O Senhor conseguiu ficar famoso como o machistinha mais comentado das redes sociais dos últimos dias! Melhor repensares o conteúdo das piadas que levas à público, uma vez que és pessoa pública e formador de opinião. Recomendo mais cautela.

E parabéns, de verdade, a ti, Maria Clara Bubna, que optou por não ficar calada, apesar de, como tu mesma disseste no teu manisfesto, seres “o elo mais fraco desta relação”, por seres aluna, por seres mulher, por seres ainda muito jovem.

Segue o Manifesto de Maria Clara Bubna:

SOBRE O SILÊNCIO OU MANIFESTO PELA VOZ

Por muitos dias, eu optei por permanecer calada. Talvez numa tentativa de parecer madura (como se o silêncio fosse reflexo de maturidade) ou evitando que mais feridas fossem abertas, eu escolhi, nesse último mês, por vivenciar o inferno em que fui colocada com declarações breves e abstratas e conversas pessoais cautelosas. Mas se tem uma coisa que eu descobri nesse mês é que a maior dor que poderiam me causar era o meu silenciamento, o meu apagamento por ser mulher, jovem, “elo fraco” de toda relação de poder. Eu decidi portanto recuperar minha voz. Esse texto é um apelo a não só o meu direito de resposta, mas o meu direito a existir e me manter de pé enquanto mulher.

Eu nunca vi necessidade de esconder meus posicionamentos. Seja sobre o meu feminismo ou minhas preferências políticas, sempre fui muito firme e verdadeira com o que acredito. Mantive sempre a consciência de que minha voz era importante e que, junto com muitas outras vozes, seriamos fortes. Exatamente por isso, nunca vi necessidade de me esconder. Decidi fazer Direito baseada nessa minha ideia de que a união de vozes e forças poderia mudar a quantidade brutal de situações hediondas que o sistema apresenta.

Dentro da Faculdade de Direito da UERJ, acabei encontrando um professor que possui postura claramente liberal. Ele também nunca fez questão de esconder suas preferências políticas, mesmo no exercício de sua função. Apesar de ser meu primeiro ano na faculdade, passei alguns muitos anos no colégio durante os ensinos fundamental e médio e tive professores militares, conservadores, cristãos ferrenhos. Embates aconteciam, mas nunca ninguém se sentiu ofendido ou depreciado pelas suas preferências ideológicas. O debate, quando feito de maneira saudável, pode sim ser enriquecedor. Para minha surpresa, isso não aconteceu no ambiente universitário.

Ouvindo Bernardo Santoro se referir aos médicos cubanos como “escravos cubanos”, a Marx como “velho barbudo do mal”; explicar o conceito de demanda dizendo que ele era um “exímio ordenhador pois produzia muito leitinho” (sic) e que o “nazismo era um movimento de esquerda”, decidi por me afastar das aulas e tentar acompanhar o conteúdo por livros, gravações, grupos de estudo… Já ciente do meu posicionamento político e percebendo minha ausência, o professor chegou a indagar algumas vezes, durante suas aulas: “onde está a aluna marxista?”.

No dia 15 de maio deste ano, Bernardo postou em sua página do Facebook, de maneira pública, um post sobre o feminismo. Usando o argumento de que se tratava de uma “brincadeira”, o docente escarneceu da luta feminista e das mulheres de maneira grosseira e agressiva. A publicação alcançou muitas visualizações, inclusive de grupos e coletivos feministas que a consideraram particularmente grave, em se tratando de um professor, como foi o caso do Coletivo de Mulheres da UFRJ, universidade em que Bernardo também leciona. A partir do episódio, o Coletivo de Mulheres da UFRJ escreveu uma nota de repúdio à publicação do professor, publicada no dia 27 de maio na página do próprio Coletivo, chegando rapidamente ao seu conhecimento.

Foi o estopim. Fazendo suposições, o professor começou a me acusar pela redação da nota de repúdio e a justificou como fruto de sua “relação conflituosa” comigo, se mostrando incapaz de perceber quão problemático é escarnecer, de maneira pública, de um movimento de luta como o feminismo.

Fui então ameaçada de processo. Primeiro com indiretas por comentários, onde meu nome não era citado. Alguns dias se passaram com uma tensão se formando, tanto no meio virtual quanto nos corredores da minha faculdade. Já se tornava difícil andar sem ser questionada sobre o assunto.

Veio então, dias depois, uma mensagem privada do próprio Bernardo. A mensagem me surpreendeu por não só contar com o aviso sobre o “processo criminal por difamação” que o professor abriria contra mim, mas por um pedido do mesmo para que nos encontrássemos na secretaria da faculdade para que eu me desligasse da minha turma, pois o professor não tinha interesse em continuar dando aula para alguém que processaria.

Nesse ponto, meu emocional já não era dos melhores. Já não conseguia me concentrar nas aulas, chorava com uma certa frequência quando pensava em ir pra faculdade e essa mensagem do professor serviu para me desestabilizar mais ainda. Procurei o Centro Acadêmico da minha faculdade com muitas dúvidas sobre como agir. Foi decidido então levar o assunto até o Conselho Departamental que aconteceria dali alguns dias.

No Conselho, mesmo com os repetidos informes de que não se tratava de um tribunal de exceção, Bernardo agiu como se fosse um julgamento. Preparou uma verdadeira defesa que foi lida de maneira teatral por mais de quarenta minutos. Conversas e posts privados meus foram expostos numa tentativa de deslegitimar minha postura. Publicações minhas sobre a militância feminista e textos sobre minhas preferências políticas foram lidos pelo professor, manipulando o conteúdo e me expondo de maneira covarde e cruel. Dizendo-se perseguido por mim, uma aluna do primeiro período, Bernardo esqueceu-se que dentro do vínculo aluno/professor há uma clara relação de poder onde o aluno é obviamente o elo mais fraco. Eu, enquanto aluna, mulher, jovem, não possuo instrumentos para perseguir um professor.

O Conselho, por fim, decidiu pela abertura de uma sindicância para apurar a postura antipedagógica de Bernardo. Não aceitando a abertura da sindicância, o professor, durante o próprio Conselho, comunicou que iria se exonerar e deixou a sala.

Foi repetido incansavelmente que a questão para a abertura da sindicância não era ideológica, mas sim sobre a postura dele como docente. Bernardo, ao que parece, não entendeu.

No dia seguinte, saiu uma reportagem no jornal O Globo sobre a questão. O professor declara que eu sempre fui uma “influência negativa para a turma”. Alguns dias depois, a cereja do bolo: seu amigo pessoal, Rodrigo Constantino, publicou, em seu blog na Revista Veja, uma reportagem onde eu era completamente difamada e exposta sem nenhum aviso prévio sobre a citação do meu nome. A reportagem por si só já era deprimente, mas o que ela gerou foi ainda mais violento.

Comecei a receber mensagens ameaçadoras que passavam desde xingamentos como “vadia caluniadora” até ameaças de “estupro corretivo”. Meu e-mail pessoal foi hackeado e meu perfil do facebook suspenso.

A situação atual parece estável, mas só parece. Ontem, no meu novo perfil do facebook, recebi mais uma mensagem de um homem desconhecido dizendo que eu deveria ser estuprada. Não, eu não deveria. Nem eu nem nenhuma outra mulher do planeta deveria ser estuprada, seja lá qual for o contexto. Nada nesse mundo justifica um estupro ou serve de motivação para tal.

Decidi quebrar o silêncio, romper com essa postura conformista e empoderar minha voz. É preciso que as pessoas tenham noção da tensão social que vivemos onde as relações de opressão estão cada vez mais escancaradas e violentas.

Em todo esse desenrolar, eu me vi em muitos momentos me odiando. Me odiando por ser mulher, me odiando por um dia ter dado valor à minha voz. Me vi procurando esconderijos, me arrependendo de ter entrado na faculdade de Direito, de ter acreditado na minha força. Me detestei, senti asco de mim. Mas eu não sou assim. Eu sou mulher. Já nasci sentindo sobre mim o peso da opressão, do machismo, do medo frequente de ser violada e violentada. Eu sou forte, está na minha essência ter força. E é com essa força que eu escrevo esse texto.

Estejamos fortes e unidos. A situação não tende a ficar mais mansa ou fácil. Nós precisamos estar juntos. É essa união que vai criar rede de amor e uma barreira contra essas investidas violentas dos fascistas que nos cercam. Foi essa rede de amor e apoio que me manteve sã durante esse mês e é essa rede que vai nos manter vivos quando o sistema ruir. Porque esse sistema está, definitivamente, fadado ao fracasso.

Abrace e empodere sua voz.

Maria Clara Bubna

Rio de Janeiro, junho de 2014.

Ela

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Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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18 comentários

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DEATH ADDER

17 de setembro de 2015 às 04h31

eu fui masculinista durante muitos anos, mas hoje em dia percebo o engano de todo esse movimento. sempre procurei ter uma filosofia de vida sólida e procurar saber o porque de tudo. eu terminei em misantropia ao saber que a existência humana é opressora e sem sentido, nisso hoje eu pude refletir que o machismo é totalmente oposto ao meu individualismo. o machismo é um produto do sistema que além de limitar a liberdade da mulher limita a do homem também. são poucos os homens que irão pensar por si só, mas quem tem uma individualidade forte sabe que o machismo anda na contramão do que é paz mental, infelizmente a cultura é forte e infuencia forte desde cedo, é mentira e abobrinha a vida inteira. na minha visão ninguém é dono de ninguém, logo não existe essa de ”tal mulher pertence a mim”, mulher nenhuma pertence a alguém, pois isso seria escravidão. tudo que é cultural escraviza o individuo, logo quanto mais machista, misógino, masculinista e cultural for o homem, mais perto da sodomia ele estará, pois ele não é capaz de compreender que a natureza feminina é livre e foi a civilização que criou freios morais pra poder fazer o sistema funcionar, mas isso nunca ira eliminar a natureza da mulher. o homem que não percebe que é um eterno solitário nesse mundo e que nenhuma mulher pertence a ele, sempre será um escravo de algo chamado ”psicologia”. psicologia é o que existe pra escravizar o individuo perantes as necessidades sociais/sistemáticas. eu cheguei a essa conclusão através de muita misantropia e busca por liberdade mental, se algum masculinista quiser me acusar de ”gay” pelas minhas opiniões acusará por pobreza mental mesmo, falta de personalidade própria. tudo na vida é amadurecimento e auto-superaçoa, o que é fraqueza tem que ser jogado no lixo e machismo/misoginia/masculinismos/culturas/moralismo são fraquezas, assim com o romantismo joga na mesma moeda da misoginia, duas faces da mesma moeda, isso tudo que gera loucura, pois o romantismo é crer que tal mulher pertence a um homem, e aí ta a origem do erro, a origem da opressoa coletiva contra o individuo.

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ana lins

27 de junho de 2014 às 11h45

parabéns pela coragem de não se dobrar diante desse psicopata reaça e tente relevar os comentários sexistas que aparecem por aí
Bjs e Força- ae

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El profesor

26 de junho de 2014 às 12h25

O cara parece não gostar de mulher. Tudo bem. Nada contra. É um direito dele assumir o que quer que seja.

O professor, de quem se espera algum preparo em didática do ensino, demonstra claramente a incapacidade para essa profissão. Nada de mais. Ele pode ser blogueiro da Veja e fazer companhia à escoria do jornalismo.

Se o tal professor se acha ameaçado pela postura e posições política e ideológica de estudante do primeiro ano, então esse cara é muito mal preparado do ponto de vista de conhecimento do assunto de sua disciplina e totalmente despreparado do ponto vista didático.

Enfim: o cara é um pulha.

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Bruno Marrochi

26 de junho de 2014 às 15h17

Segundo Pondé, Constantino por opção, não se junta a garotas. Por opção delas, é claro. Já imaginou aturar esse cara?

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henrique de oliveira

26 de junho de 2014 às 09h59

Maria Clara Bubna , tens a minha admiração , e como um velho comunista posso lhe garantir que essa turma de vira latas só tem coragem de ameaçar , são covardes que precisam de tratamento médico especializados, são parte de uma elite vagabunda que se julga acima do bem e do mau.
Não se preocupe cão que muito late quando voce bate o pé foge com o rabo entre as pernas.

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Mauricio

26 de junho de 2014 às 08h53

Machista coisa nenhuma. Ninguem sacou que esse cara e gay? Tem odio das mulheres. Boiola safado!

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Mauro Coelho

26 de junho de 2014 às 11h05

Acho que o Constantino só se junta com mulher pra pagar de macho, acho que a fruta que ele gosta é outra!

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Mauro Coelho

26 de junho de 2014 às 11h05

Acho que o Constantino só se junta com mulher pra pagar de macho, acho que a fruta que ele gosta é outra!

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Marci Lhio

26 de junho de 2014 às 09h49

Ma Ia

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Roberto Luiz Souza de Melo

26 de junho de 2014 às 00h32

É por causa desse tipo de vitimismo de alguns coletivos que a direita pode sair do armário e crescer tanto!

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    Miguel do Rosário

    26 de junho de 2014 às 01h41

    vitimismo do professor, não é? a garota tá enfrentando.

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Márcio Delgado

26 de junho de 2014 às 02h33

“Por que o Rodrigo Constantino se arvorou em ferrenho defensor desse sujeito?”

Pq ele é amigo pessoal do psicopata.

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Márcio Delgado

26 de junho de 2014 às 02h32

Machista é pouco. Trata-se de um desequilibrado, cínico, covarde e maluco. Um professor de universidade pública falar que “nazismo é de esquerda” é de fazer perder a fé na humanidade.

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Cida Jube

25 de junho de 2014 às 23h53

Estranho! Por que o Rodrigo Constantino se arvorou em ferrenho defensor desse sujeito?

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O Cafezinho

25 de junho de 2014 às 21h18

douglas, o professor é que se vitimizou.

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Deyb Vieira da Silva

25 de junho de 2014 às 21h11

Muito mimimimimi dos coxinhas.

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Douglas Benicio

25 de junho de 2014 às 21h06

Hoje em dia tudo é machismo e homofobia. Eita vitimismo da porra!

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    Maria Clara

    07 de maio de 2015 às 11h07

    Nem tudo é machismo, mas fazer uma campanha difamatória covarde e incansável contra uma alunA de 20 anos é muita calhordice, é um bullying inominável. Mas o se caso é de asnice mesmo.

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