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Jessé Souza: Brasil precisa democratizar o capital cultural

Por Redação

18 de fevereiro de 2016 : 12h17

por Paulo Henrique Amorim, no Conversa Afiada

À frente do Ipea (Instituto de Pesquisa Economia Aplicada, subordinado ao Ministério do Planejamento) há mais de um ano, o professor Jessé Souza considera que  a democratização do que chama de “capital cultural” o grande desafio do Brasil.

“No fundo, é a coisa mais importante para uma sociedade democrática moderna, pois o capital econômico é concentrado em todo lugar, [mas o cultural, não]. Na Alemanha e na França, por exemplo, o capital cultural é 70% ou 80% democratizado. Aqui no Brasil são 20% . Esse é o grande desafio, pois ele é transformador na vida da pessoa”.

Na última sexta-feira (12), o presidente do Ipea conversou com Paulo Henrique Amorim em entrevista dividida em duas partes e explicou o seu conceito a partir da formação das classes sociais e os seus privilégios.

“As classes sociais são criadas na socialização familiar, especialmente de 0 a 5 cinco. A classe média efetiva tem privilégio, pois tem algum dinheiro para comprar o tempo livre do filho dela e ele terá acesso ao capital cultural não só da escola, mas da família também. Essa criança terá capacidade de concentração, que não é algo natural. É um privilégio de classe”, esclareceu.

Autor de livros como “A tolice da inteligência brasileira: ou como o país se deixa manipular pela elite”, “Os batalhadores brasileiros: Nova classe média ou nova classe trabalhadora?” e “A ralé brasileira: quem é e como vive”, Jessé acredita que a vontade política do Governo Lula e a religiosidade evangélica contribuíram com uma revolução na vida dos mais pobres no país.

“A transferência de renda, por si, é importante, mas o mais relevante foi o acesso ao consumo. E, a partir disso, as pessoas focaram em educação […] e essas pessoas estão ampliando seus horizontes. Essa é a grande revolução, que foi ajudada não só pela vontade política, mas, também, pela religiosidade evangélica. Não podemos perder de vista que o pobre é, antes de tudo, um humilhado e a religiosidade pentecostal diz: ‘você é filho de Deus’ e para quem não tem nada isso é autoestima, autoconfiança”, disse.

Abaixo, outros trechos da entrevista concedida à TV Afiada:

Nova classe média ou trabalhadora?

É uma nova classe trabalhadora e precária. Esse é o segundo estudo que realizamos sobre as classes populares no Brasil. O primeiro foi sobre a ralé, os excluídos, que estão abaixo da linha da dignidade. Essa linha está ligada à noção de utilidade, ou seja, a gente respeita o eletricista que chega em casa e resolve os nossos problemas. E as pessoas que estão abaixo desse caso são indignas porque não contribuem com o seu trabalho.

A nossa singularidade é ter criado a linha abaixo da noção de dignidade, que, desde sempre, não recebem estímulos.

Criação das classes sociais

As classes sociais são criadas na socialização familiar, especialmente de 0 a 5 cinco.

A classe média efetiva tem privilégio, pois tem algum dinheiro para comprar o tempo livre do filho dela e ele terá acesso ao capital cultural não só da escola, mas da família também.

Essa criança terá capacidade de concentração, que não é algo natural. É um privilégio de classe.

Ralé, religião e a revolução no Brasil

O que vimos no Brasil foi a junção de duas coisas: vontade política. A transferência de renda, por si, é importante, mas o mais relevante foi o acesso ao consumo. E, a partir disso, as pessoas focaram em educação.

Acho que foi dado um início importante, já que o Brasil é um país perversamente desigual.

Essas pessoas estão ampliando seus horizontes a partir da educação. Essa é a grande revolução, que foi ajudada não só pela vontade política, mas, também, pela religiosidade evangélica.

Não podemos perder de vista que o pobre é, antes de tudo, um humilhado e a religiosidade pentecostal diz: ‘você é filho de Deus’ e para quem não tem nada é autoestima, autoconfiança.

Efeitos da crise e a relevância do capital cultural

Os últimos dados da Pnad mostram que a desigualdade continua sendo mitigada. O grande impacto é a queda do emprego.

O que gente quer perceber é o tema do capital cultural, que, no fundo, é a coisa mais importante para uma sociedade democrática moderna, pois o capital econômico é concentrado em todo lugar, como diz o [economista Thomaz] Piketty.

O que Piketty esqueceu é que, na Alemanha e na França, por exemplo, o capital cultural é 70% ou 80% democratizado. Aqui, no Brasil, temos 20%. Esse é o grande desafio, pois ele é transformador na vida da pessoa.

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