Mais de 70% dos eleitores já estão decididos sobre o voto presidencial, diz DataFolha

September 1958: Portrait of American-born poet TS Eliot (1888 - 1965) sitting with a book and reading eyeglasses, around the time of his seventieth birthday. (Photo by Express/Express/Getty Images)

A guerra civil brasileira

Por Miguel do Rosário

03 de junho de 2016 : 21h32

[s2If !current_user_can(access_s2member_level1) OR current_user_can(access_s2member_level1)]

Análise Diária de Conjuntura – 03/06/2016

A crise política brasileira, após o golpe, se tornou uma espécie de guerra de trincheiras.

Ambos os lados – os legalistas e os golpistas – defendem suas posições entrincheirados em seus respectivos esconderijos. Os legalistas têm apoio de setores crescentes da população, mas suas manifestações, por mais que aconteçam na rua, não repercutem nos canais abertos de tv, todos dominados pelas forças do golpe.

Os golpistas tomaram a estrutura do Planalto, que não hesitam em usar, mesmo que para isso promovam a maior farra fiscal das últimas décadas, e tem o apoio aéreo da grande mídia, que realiza bombardeios diuturnamente sobre as posições legalistas. Suas manifestações, porém, se esvaziaram imediatamente após o golpe, porque seus líderes não tinham demandas sociais concretas. Tinham um objetivo apenas: derrubar o governo, e para isso contaram com assessoria de imprensa diabolicamente brilhante da Lava Jato.

Esta guerra civil que vivemos é tipicamente brasileira, nos mesmos moldes do que temos sempre assistido nos últimos séculos da nossa história. Não há grandes batalhas brutais e rápidas, mas sim uma série ininterrupta, constante, crônica, de escaramuças, todavia mortais, quiçá mais mortais do que batalhas tradicionais, com uso abusivo de todo o tipo de assalto psicológico e técnicas de espionagem, sabotagem, tortura…

T.S.Eliot, num ensaio divertido sobre John Milton, menciona a posição política do grande autor de Paraíso Perdido na Guerra Civil Inglesa, ocorrida na primeira metade do século XVII.

Ele admite sua implicância literária contra Milton, apesar de admirá-lo, não apenas por causa da linguagem empolada com a qual Milton escreve sua obra-prima, mas sobretudo – Eliot era um conservador – pela antipatia profunda contra as posições republicanas de Milton, que lutou junto a Oliver Cromwell, o “rei camponês” (na verdade, um chefe republicano) que governou a Inglaterra de 1649 e 1653.

“A Guerra Civil ainda não terminou”, diz Eliot, acrescentando: “eu questiono se alguma guerra civil séria jamais terminou”. [/s2If]

[s2If !current_user_can(access_s2member_level1)]

***

Para continuar a ler, você precisa fazer seu login como assinante: clique aqui).

Confira aqui como assinar o blog O Cafezinho. Qualquer dúvida, entre em contato com a Thamyres, no assineocafezinho@gmail.com. [/s2If]

[s2If current_user_can(access_s2member_level1)]

Para Eliot, os reflexos de uma guerra civil ocorrida em 1649 perduravam até a data em que ele escreve seu livro, alguns anos após o fim da II Guerra Mundial.

Quem detinha a razão na guerra civil inglesa: os puritanos e parlamentaristas, liderados por Cromwell, ou a aristocracia monarquista aliada ao rei?

O que isso tem a ver com o Brasil?

Eu lembrei do Brasil porque muito se fala sobre a “polarização” da sociedade brasileira. O PMDB de Temer, antes de sair da carapaça e mostrar sua carantonha golpista, falava em “unir o Brasil”. Todos os movimentos do governo interino, contudo, não deixam entrever nenhum desejo real de unificar o país. Muito pelo contrário: a virulência com que Temer ocupou cargos, demitiu servidores e determinou a extinção de ministérios, jamais demonstraram qualquer intenção unitarista.

Claro, não sejamos ingênuos, caso a votação no Senado seja aprovada, Temem tentará encontrar mais equilíbrio. A razia contra a esquerda se tornará moeda de troca, na tentativa de atrair quadros progressistas cuja presença no governo o ajude a superar a falta de legitimidade de sua administração.

Uma mirada um pouco mais distante da crise política, todavia, nos ajuda a entender que se trata de um movimento pendular natural a todo período histórico: avanços progressistas que incomodam classes sociais encasteladas há muito tempo em posições de poder geram, quase sempre, movimentos opostos, reacionários, antipopulares. É um movimento cíclico. O povo ganha posições, irrita a classe dominante, é castigado por ditaduras vingativas, mas volta a galgar degraus rumo à sua liberdade.

Eliot tinha razão, à sua maneira: as guerras civis jamais terminam, porque elas refletem polarizações políticas que são parte integrante da condição social do homem.

O homem não é apenas um animal político, como dizia Aristóteles, é também um animal politicamente dividido, um ser dilacerado por uma dialética trágica e necessária que, de um lado, o puxa para o individualismo, para esta liberdade pura e inebriante do egoísmo, e, de outro, o arrasta para o mundo apaixonado do idealismo político, da liberdade social e do amor ao próximo.

O poeta britânico ficaria horrorizado, ou talvez achasse divertido, se comparássemos sua opinião ao raciocínio marxista sobre a luta de classes.

Sim, a guerra civil nunca termina – ela apenas muda de figura, disfarça-se, torna-se mais sofisticada, mais discreta, e, por isso mesmo, mais corrosiva e letal.

É neste sentido que o governo Temer, por mais que a mídia se esforce, desesperadamente, em lhe conferir legitimidade, será sempre um soluço reacionário no processo histórico brasileiro. Ele já nasceu condenado pela história, e sua existência talvez seja um momento triste e necessário, um esticar do arco cuja flecha, quando disparada, poderá resultar em ferida mortal contra o autoritarismo doentio, escravagista, que caracteriza a nossa sociedade.

A nossa geração precisava experimentar esse ataque à democracia, aos direitos, às liberdades, para mais uma vez, aprender a lhes dar o devido valor.

[/s2If]

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

Apoie O Cafezinho

Crowdfunding

Ajude o Cafezinho a continuar forte e independente, faça uma assinatura! Você pode contribuir mensalmente ou fazer uma doação de qualquer valor.

Veja como nos apoiar »

3 comentários

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do site O CAFEZINHO. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie.

Escrever comentário »

Julio Moraes

24 de julho de 2017 às 19h31

+Sem hipocrisia o autor não passa de um vagabundo vermelho, se falou em “golpe” não passa de lixo atômico que merece ser trucidado nessa guerra

Responder

17Abril2016

04 de junho de 2016 às 08h17

OK, MAS CITAR TSELLIOT NA MESMA PAGINA QUE APARECE ‘TEMER’ É DEMAIS.

Responder

Sem Hipocrisia

04 de junho de 2016 às 05h29

Com todo o respeito, o autor do texto deveria apurar mais de perto os fatos… a guerra no Brasil é contra o comunismo e o Rombo histórico deixado pelo PT que esta agora afundando o nossa pátria…

Responder

Deixe um comentário