Boulos com trabalhadores da saúde

A denúncia hipócrita e enviesada da Folha às lacunas em planilhas da Odebrecht

Por Miguel do Rosário

22 de dezembro de 2017 : 10h28

(Charge: Aroeira)

Deparo-me no DCM com a reprodução de um trecho de reportagem na Folha, antecedido de um comentário irônico sobre a incrível lentidão da imprensa corporativa em abordar uma coisa denunciada, semanas atrás, por Rodrigo Tacla Durán.

Eu publico abaixo o comentário mencionado e o trecho de reportagem na Folha. Mas eu gostaria de acrescentar algumas observações.

No DCM

Planilhas de propinas na Odebrecht foram apresentadas com lacunas, diz Folha

Após as denúncias de Tacla Dúran, parece que só agora a grande mídia divulga lacunas nos documentos apresentados. O jornal Folha de S.Paulo fez um levantamento em reportagem publicada nesta sexta-feira. Segue.

As planilhas de pagamento de propina apresentadas pela empreiteira Odebrecht ao Ministério Público Federal em sua delação premiada revelam apenas metade dos últimos sete anos de funcionamento do setor da empresa dedicado a repasses ilegais, de acordo com levantamento feito pela Folha.

As lacunas no período de atividades do Setor de Operações Estruturadas foram identificadas a partir da análise de 2.300 listas, parte do acervo de 76 mil páginas entregues pela empresa em seu acordo.

Elas compreendem o período de 2008 a 2014, no qual faltam planilhas relativas a 178 semanas. O exame do material bruto, disponibilizado pelo Supremo Tribunal Federal, foi feito pela reportagem nos últimos quatro meses.

As planilhas mostram informações como o valor da propina paga por obra, o codinome a que se refere o repasse (em geral ligado a um político), a data e o local da entrega do dinheiro.

O maior período sem listas de repasses consecutivos vai de 16 de janeiro de 2011 a 24 de junho de 2012, ou 75 semanas sem informações.

A colaboração premiada da empreiteira também não traz as relações de pagamento de 37 semanas seguidas entre novembro de 2012 a agosto de 2013.

Foi nesse triênio (2011 a 2013), que inclui dois anos sem eleição, que a área de propina da Odebrecht movimentou as maiores quantias de sua história, segundo a delação premiada do responsável pelo setor na época, Hilberto Mascarenhas Alves da Silva Filho.

De acordo com o colaborador, a divisão movimentou US$ 520 milhões (R$ 1,7 bilhão, em valores atualizados) em 2011, US$ 730 milhões (R$ 2,4 bilhões) em 2012 e repetiu US$ 730 milhões em 2013.

Outro grande período sem planilhas de repasses correspondentes vai de fevereiro a maio de 2010.

Há ainda, neste período de sete anos, omissões em 49 semanas intercaladas.

(…)

Os pedidos de repasse de propinas dos diretores das áreas do grupo Odebrecht eram consolidados em planilhas toda sexta-feira. Os pagamentos ilegais eram executados na semana seguinte, de terça a quinta-feira.

Marcelo Odebrecht afirmou em depoimento ao Ministério Público Federal que determinou o encerramento das operações do departamento ilegal da companhia no começo de 2015.

O empresário, que passou a cumprir prisão domiciliar na última terça-feira (19), disse que só foi tomar ciência da real dimensão da estrutura do setor após ser detido, em junho de 2015.

“A gente tomou conhecimento do sistema ao longo do segundo semestre do ano passado [2015], eu já estava preso. Foi uma surpresa”, declarou Odebrecht aos procuradores da força-tarefa.

A Folha calculou a média semanal de repasses ilegais da empreiteira, segundo o que dizem as planilhas. Extrapolando essa cifra para os períodos em que há lacunas, há uma possível omissão de R$ 1,15 bilhão.

O Ministério Público Federal em Curitiba relatou em nota que a Odebrecht “assumiu o compromisso ininterrupto de apresentar dados e informações que permitirão a continuidade e o aprofundamento das investigações de ilícitos, inclusive sobre fatos que necessitem de esclarecimentos adicionais, obrigação por ora atendida”.

Em nota, a Odebrecht afirmou que “executivos forneceram informações em mais de 900 horas de depoimentos” e “está empenhada em ajudar as autoridades a esclarecer qualquer dúvida”.

Voltei. As críticas da Folha são parciais e incompletas. O problema das lacunas é grave, mas é apenas um dos aspectos que mostram a irregularidade das provas apresentadas pela Odebrecht, e aceitas pela justiça brasileira. Provas essas que serviram para o Ministério Público montar teses mirabolantes, acusar centenas de políticos e promover uma campanha de destruição de uma das mais importantes companhias nacionais.

Vou listar alguns dos problemas que a Folha “esqueceu” de mencionar:

1) A esta altura não é mais possível acreditar em mais nenhuma delação de executivos da Odebrecht, nem mesmo aquelas que, supostamente, se auto-incriminam. Inclusive do ex-presidente da empresa, Marcelo Odebrecht. O processo de delação foi inteiramente viciado, com executivos combinando abertamente versões, possivelmente em conluio com procuradores. Houve contaminação política e, possivelmente, interesses financeiros escusos permeando todo o processo.

2) A reportagem da Folha, por sua vez, também está contaminada politicamente pela Lava Jato e suas narrativas fantásticas, baseadas em exageros e sensacionalismo midiático. O departamento de operações estruturadas da Odebrecht é descrito caricaturalmente, como se lidasse apenas com propinas para políticos. O depoimento de Tacla Duran e um mínimo de bom senso deixam claro que não se tratava apenas disso. Este era um departamento que lidava com recursos que a empresa precisava, por razões várias, manter em sigilo. O Brasil é o país que tem a maior evasão fiscal do mundo. Se formos destruir empresas por conta de operações financeiras que escapam do radar da receita federal, não vai sobrar uma. Então deixemos de hipocrisia. Qualquer grande empresa no mundo tem departamentos secretos, que lidam com espionagem e contra-espionagem industrial, chantagens, caixa 2, caixa 1, propinas, investimentos ocultos. Todas essas coisas precisam ser combatidas, mas sem o moralismo tacanho e destruidor do MPF brasileiro, porque o interesse e segurança econômica nacionais precisam ser considerados.

3) A matéria trata como verdades absolutas as versão combinadas de executivos da Odebrecht, e esquece, sobretudo, de observar que as tais “planilhas” da empresa não valem nada, sobretudo após o depoimento de Tacla Duran, que provou que essas planilhas foram manipuladas, antes e depois da Lava Jato. São bancos de dados vulneráveis, como tabelas de excel nas quais se pode inserir ou apagar nomes e valores, ao sabor dos interesses. Não deveriam ter valor nenhum como prova.

4) A Folha também omitiu outro momento devastador do depoimento de Tacla Duran: os próprios extratos do Mein Bank foram manipulados. Afinal, a Odebrecht era dona do banco e os arquivos com movimentações financeiras estavam em poder de executivos da empresa com interesse em manipulá-los conforme se desenvolviam os heteredoxos acordos de colaboração com o Ministério Público. Tacla Duran mostrou provas de que os extratos foram adulterados. Por que a Folha omitiu o nome de Tacla Duran?

5) Repetindo: por que a grande imprensa omite o nome de Tacla Duran? Por que nunca foi em Curitiba entrevistar o amigo de Sergio Moro? Não é estranho? O silêncio da mídia sobre isso é incriminador!

6) Diante de tantas falhas e inconsistências, tanto nas “planilhas” quanto nos “extratos” da Odebrecht, a informação da Folha, de que, segundo seus cálculos, haveria lacunas de tantos milhões ou bilhões, soam quase ridículas. Ora, essas lacunas apenas comprovam a irregularidade de todo o processo.

7) Mais importante que tudo é a omissão, na Folha, de uma visão crítica dos processos da Lava Jato. Essa falta de crítica à operação faz com que qualquer reportagem sobre tema seja completamente irreal.

Conclusão: Assistam a entrevista com a arquiteta e mestra em Engenharia Civil Patrícia Vauquier, no Expresso da Manhã de hoje, para conhecer melhor o que é e o que foi a Odebrecht na economia e na história do Brasil, e assim entender a magnitude do crime cometido pela Lava Jato e pela imprensa brasileira ao promover uma campanha de destruição de uma empresa que era peça chave de um sistema industrial integrado, formado entre governo, forças armadas, indústria de engenharia e complexo energético, sistema esse que foi atacado por agentes do sistema de justiça sem qualquer noção de interesse nacional, social. E, é importante dizer, sem qualquer noção de moral também. O trecho da entrevista que eu peço para vocês assistirem está entre os minutos 51:53 e 1:25:33. O player abaixo já está programado para começar no ponto certo.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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1 comentário

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PEDRO AUGUSTO MACHADO

28 de dezembro de 2017 às 01h28

QUADRILHA EM DUPLA!

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