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Uma ode à velhice

Por Pedro Breier

23 de abril de 2018 : 13h00

(Boff tentando visitar Lula. Foto: Eduardo Matysiaki)

Por Pedro Breier 

Todo ser vivo tem medo da morte. O desconhecido pode ser apavorante, afinal.

Sendo a morte a suprema incógnita, é também o supremo pavor.

Ninguém sabe com certeza o que acontece depois dela, se é que acontece alguma coisa – e a possibilidade de não acontecer nada é, talvez, a mais assustadora de todas.

A velhice, sinal indelével da passagem do tempo, também provoca medo, justamente por lembrar-nos de que o fim está cada vez mais próximo.

Contudo, se prestarmos atenção, podemos perceber que por toda parte há velhinhos demonstrando que a decadência física é apenas um detalhe insignificante: a capacidade do ser humano de produzir maravilhas não respeita limites físicos.

Leonardo Boff, 79 anos, expoente da Teologia da Libertação e defensor incansável dos pobres e excluídos, e Adolfo Pérez Esquivel, 86 anos, ativista dos direitos humanos e ganhador do Nobel da Paz, ao batalharem para serem autorizados a visitar Lula na prisão, demonstraram espetacularmente que a sempre bela luta por justiça não tem idade.

Boff escreveu que queria visitar Lula para reforçar a tranquilidade da alma que o amigo de 30 anos sempre manteve.

Esquivel queria, além de visitá-lo, inspecionar as condições do cárcere de Lula.

Amizade, humanidade, aguerrimento, senso de justiça, compaixão, amor. A velhice aparentemente só fez expandir estes belos predicados de Boff e Esquivel.

Lula, aliás, com seus 72 invulgares anos de vida, é outro exemplo, ainda mais impressionante, das façanhas que só a sabedoria que acompanha a velhice pode permitir: preso político por fazer um governo com viés popular, entregou-se à justiça porque “inocente não foge”, nas suas próprias palavras.

Bravo.

O genial José Saramago, outro que passou a velhice lutando implacavelmente contra as injustiças e a miséria humana, escreveu “que é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não nos saímos de nós”.

A auto-observação é, de fato, o único caminho possível para expandirmos nossa consciência.

Outro velho genial, o diretor Alejandro Jodorowsky, 89 anos, demonstrou de forma estupenda, no seu filme autobiográfico Poesia Sem Fim, que a velhice é a melhor idade para desapegarmos das coisas menos importantes e sairmos da ilha:

A velhice não é uma humilhação. Te desprende de tudo. Do sexo, da fortuna, da fama. Você se desprende de si mesmo. Converte-se em uma borboleta, resplandecente! Um ser de… pura luz.

Não temamos a velhice, portanto.

Agradeçamos, isso sim, pelos lindos exemplos destes seres de pura luz.

Viva a velhice.

Viva a vida.

 

 

Pedro Breier

Pedro Breier, colunista d'O Cafezinho, é formado em direito mas gosta mesmo é de jornalismo. Nasceu no Rio Grande do Sul e hoje vive em São Paulo.

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11 comentários

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Denise

25 de abril de 2018 às 21h32

Que maravilha ver um jovem que sabe o que é a velhice. A velhice é a suprema liberdade da alma, por isso Lula tem uma força que a maioria ainda não tem. #LulaéLivre, seus algozes chafurdam, presos em um ego insular.

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Jane

24 de abril de 2018 às 12h48

Boatos sobre possível transferência de Lula para Guantânamo! É verdade?

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Gebmen

24 de abril de 2018 às 10h52

Ontem, no programa Bastidores do Poder, na Radio Bandeirantes de SP, o comentarista Cláudio Humberto falando sobre as visitas à Lula, teceu um comentário sobre Esquivel, como se ele fosse simplesmente um agitador ou alguém à procura de holofotes. ..Eu ri. “Mas o ódio cega e voce não percebe, mas o ódio cega …” (Camila, Nenhum de Nós).

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Leandro Ferrari

24 de abril de 2018 às 10h17

“Eles honram o jovem e forte e desprezam o velho e fraco”. Isso foi como Si Ma Qian 司馬遷 descreveu os Xiong Nu 匈奴 (hunos), colocando-os em contraste com a cultura chinesa. O Ocidente parece abrigar muito mais esse tipo de pensamento do que o inverso, valorizando o novo e descartando facilmente o velho. Este recebe alcunhas pejorativas: ultrapassado, desatualizado, atrasado; enquanto aquele recebe positivas: moderno, atual, desenvolvido.

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Beto Castro

24 de abril de 2018 às 01h17

Tem um dito popular que afirma: Alguns médicos pensam que são Deus. Já alguns juízes tem certeza absoluta que os são. As espécies que perseguem o nosso presidente Lula estão enquadradas nesta condição de prepotência e arrogância. O detalhe é que são jovens que não atravessaram ainda os seus áridos desertos. Esta magnífica crônica do Pedro Breier nos fala da superação deste limiar da humildade e de nossas limitações na linha do tempo. No “Pêndulo Indeciso”, abaixo, faço uma reflexão sobre as contradições diante dos mistérios da vida e a aproximação de seu epílogo melancólico. Peço vênia para divulgar essas reflexões na mesma linha do Breier.

PÊNDULO INDECISO

—————–
Prosa em versos de um poeta amador
—————–
Nem líquido, nem gás, nem concreto,
Premido no interregno incerto,
Transcende, oh! Ser! – em teus humores imerso,
Na travessia do teu árido deserto.
—————–
Semi-sólido que vasculha o abissal oceano,
Teórico que investiga o volátil e o compacto,
Incólume, atravessa a atmosfera gasosa,
Frágil, arrebenta-se contra o solo, no impacto.
—————-
Se os ossos que sustentam teus sonhos,
Possuem a rigidez da rocha vulcânica,
Os líquidos que permeiam teus interstícios,
Remontam à tua prisca origem oceânica.
—————-
Os gases que se transmutam no peito,
Veneno em vida, vida em veneno,
Tornam-te no mais enganoso dos sólidos,
A moradia do Deus que te quer pequeno.
—————-
Interjacente, em transitória dimensão,
Cerceado em teu estreito pensamento,
Neste cérebro de ilimitada plasticidade,
Captura as fúteis emoções do momento.
—————–
Na semiótica das palavras fugidias,
Como relâmpago em meio à tormenta,
Que te escapam à velocidade da luz,
Nos neurônios da massa cinzenta.
—————–
Sobrevive em plasmática homeostase,
Obedece às leis de tua termodinâmica,
Equilibra-te no fio de uma navalha,
Entre os quantas e a metafísica tirânica.
—————–
Rodeia-te de antiquados códigos morais,
Vetusta herança de sincréticas crenças,
Decifra as recônditas moléculas da vida,
Mas, sucumbe de insidiosas doenças.
——————
Legítimo filho das leis da física,
Arcaico herdeiro da teodiceia,
Escravo dos postulados econômicos,
Pêndulo indeciso entre a matéria e a ideia.
——————
Extravia-te nas inferências de tua lógica,
Classifica-te nas categorias da dialética,
Emaranha-te no cipoal da retórica,
Te Auto-protege nos rigores de tua ética.
——————
Limitado em gestáltica cartesiana,
Supera-te na dinâmica da abstração,
Estilhaça o insondável núcleo dos átomos,
Desafia a criogênica supercondução.
——————-
Interfere nos domínios magnéticos,
Ensaia tua fuga na universal gravitação,
Especula sobre as super-simetrias,
Na unívoca trilha da unificação.
——————
Segue sedento vampiro…suga tuas vítimas,
Nas teias da tua inominável ganância,
Até o último suspiro, algema teus semelhantes,
No melancólico templo da ignorância.
—————–
Adora o dinheiro, os totens e as bagatelas,
Açambarca a imensa colheita dos comensais,
Cospe bombas sobre os fracos e oprimidos,
Mas, cuida de orar no altar de teus arsenais.
——————
Vai “homo dubius”, em teu santo maniqueísmo,
Cobre o teu rosto com o manto da riqueza,
Simula a tua egocêntrica salvação,
Enquanto, o mundo todo é tristeza.
——————-
Engana o teu onipresente Deus inepto,
Que a cada dia vislumbras no espelho,
Só não ousarás ludibriar,
A face da morte com seu ceifeiro.

Roberto C. Limeira de Castro

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    Pedro Breier

    24 de abril de 2018 às 15h19

    Incrível teu “Pêndulo Indeciso”, Beto!!

    Responder

baltazar pedrosa

23 de abril de 2018 às 22h42

Ela só replicou o que fez o TRF4,O Juiz bolachinha de curitiba e a primeira turma da suprema putaria.Cada integrante do golpe,estar muito bem ensaiado para não desafinar na hora de simular ou dissimular suas tarefas,a pauta da farsa é passado a limpo todos os dias,quer seja no judiciário,quer seja na mídia ou na policia federal,mas chegará um momento que alguém faltará o ensaio e a novela da lava jato perderá sua audiência até mesmo os coxinhas descobrirão que foram feitos de idiotas e que são mesmo idiotas, para acreditarem no conto da carochinha

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João Rolim

23 de abril de 2018 às 22h18

Excelente iniciativa antijornal nacional…saudações fraternas, Abraço

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Beto São Pedro

23 de abril de 2018 às 21h02

Lindo texto, parabéns.

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Sílvia Julia

23 de abril de 2018 às 20h44

Simplesmente lindo e verdadeiro.

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Franco Mesquita

23 de abril de 2018 às 15h01

A juíza curitibana, em sua intransigência e questionável proceder, ignorou até mesmo a parábola de Jesus narrada em Lucas 18: 1-8 que diz: “Embora eu não tema a Deus e nem me importe com os homens, esta viúva está me aborrecendo; vou fazer-lhe justiça para que ela não venha me importunar”. E o Senhor continuou: Ouçam o que diz o juiz injusto. Acaso Deus não fará justiça aos seus escolhidos, que clamam a ele dia e noite? Continuará fazendo-os esperar? Eu lhes digo: ele lhes fará justiça, e depressa. Contudo, quando o Filho do homem vier, encontrará fé na terra?”

Isto só demonstra que para alguns a lei é apenas algo casuístico e passível de ser interpretada ao talante de cada juiz iníquo, podendo o magistrado considerar-se e decidir acima e além de seus ditames.

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