Sabatina de Manuela na Carta Capital

São claros os sinais do fim do regime neolilberal. Por J. Carlos de Assis

Por Redação

10 de junho de 2018 : 12h18

Por J. Carlos de Assis

Se minha intuição não falha, estamos nos estertores finais do neoliberalismo no Brasil. Marx descobriu que o capital, a matriz essencial do neoliberalismo, seria vítima de suas próprias contradições no processo histórico. Como um jarro de porcelana que cai e se despedaça, não é difícil reconhecer no modelo neoliberal decadente que nos foi imposto elementos em pedaços que jamais poderão ser reconstituídos sem a desfiguração completa de sua constituição original até tornar-se dialeticamente o seu oposto.

Foi ainda um marxista, Lenin, quem assinalou que nos processos históricos a cadeia se rompe pelo elo mais fraco. Isso serviu para explicar a revolução soviética, que seria uma surpresa para o próprio Marx devido ao estágio quase primitivo da Rússia, longe do desenvolvimento capitalista. No nosso caso, o elo mais fraco são os caminhoneiros. Não por seu grau de consciência política, mas porque confrontaram, sem qualquer sentido ideológico, seus interesses objetivos com a estúpida política neoliberal de preços de Pedro Parente.

Para atender aos caminhoneiros sem alterar a política de preços da Petrobrás adotada num acordo implícito com interesses estrangeiros, o Governo Temer tentou acalmá-los com um subsídio para o diesel de 46 centavos. Entretanto, aferrado à idéia de não mudar a política de preços da estatal, decidiu descontar o subsídio em impostos e, num desafio ao setor público, estabeleceu o corte dos orçamentos públicos, sobretudo de saúde e de educação, a fim de completar o subsídio. Isso enfureceu centenas de milhares de servidores.

Não bastasse essas barbaridades, e ainda para preservar a política de preços neoliberal imposta pela Petrobrás, o Governo estabeleceu uma tabela com aumento de fretes, atendendo aos interesses dos caminhoneiros, mas violando diretamente os interesses do agronegócio que pagam esses fretes. Eis aí todos os elementos de uma tempestade perfeita.
Lembro-me de Shakespeare: Por causa de um prego perdi a ferradura; por causa da ferradura perdi o cavalo; por causa do cavalo, perdi a batalha. Por causa da batalha perdi o reino.

O prego é o preço do diesel. Se o Governo Temer, ao perceber a dimensão do movimento dos caminhoneiros, tivesse imediatamente mudado a política da Petrobrás e adotado, por exemplo, um sistema de preço dos combustíveis pelo custo e mais uma margem de lucro – de todos eles, e não só o do diesel -, teria salvado seu trono. Agora não há mais tempo. Se voltar para trás estará inteiramente desmoralizado perante seus sócios internacionais, que afinal são sua principal sustentação, através da tevê Globo.

A propósito, quando se trata de contradições, a imensa capacidade da Globo de manipular a opinião pública é quase nula. Sua máquina de vender ideologia não pode, ela também, recuar sobre sua própria história e dizer que, num prazo de 24 horas, tornou-se nacionalista e progressista. Como também não é idiota e não sabe exatamente para onde está rumando o barco, a tendência é que se coloque numa posição aparentemente neutra, mesmo que não renuncie completamente a sua própria ideologia neoliberal.

Estão programadas greves amplas a partir desta segunda-feira. Enganam-se os que pensam que se trata de um ciclo normal de paralisações. É um ciclo terminal no meio de um processo caótico. A Justiça do Trabalho deve pensar duas vezes antes de se tornar um braço operacional de repressão a grevistas, como no caso da multa milionária que impôs ao sindicato dos petroleiros, pelo risco que ela própria corre de desaparecer, na medida em que se torna instrumento de poder do patrão e não de proteção ao trabalhador. Ninguém sabe o que virá.

Com todos os poderes institucionais da República derretidos, teremos que torcer para uma solução democrática, a qual, a meu ver, deve buscar uma saída através de um Grande Pacto Nacional. As pessoas, desde o cidadão comum aos altos dirigentes políticos devem se desarmar de preconceitos a fim de viabilizar um acordo. Em nome da regeneração da República, e do fim do neoliberalismo – com este não há acordo -, é essencial prevalecer o espírito da fraternidade proclamado nos meios republicanos desde a Revolução Francesa.

Temer não tem mais autoridade para continuar no Governo. Mas ninguém há de esperar que seja deposto segundo os procedimentos institucionais normais. Ele tem que renunciar. Sua renúncia pode ser induzida por um acordo no qual o Congresso mande arquivar todos os inquéritos contra ele em troca da libertação de Lula. No mesmo ato seria eleito um presidente interino para completar o atual mandato presidencial. E o Congresso, no contexto ainda desse acordo, deveria aceitar a sugestão da Transparência Internacional de criminalizar o caixa dois eleitoral, o que abriria o caminho para uma grande reconciliação no mundo político.

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18 comentários

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pedro de A. Figueira

10 de junho de 2018 às 23h34

Teria gostado bastante se você tivesse ido até o fim com Marx. Creio que você aponta as contradições, secundárias, como diria Mao, e evidentemente que elas estão amarradas a tudo que acontece atualmente no mundo capitalista.
Diria que este é um momento privilegiado para falar de Marx. E parece que os sinais da derrocada de um modo de vida, precisamente aquele que ele analisou como ninguém, estão se tornando evidentes. O fim de uma forma histórica de vida não se dá sem muita luta. Já estamos vivendo as convulsões que anunciam um fim inevitável e necessário. O socialismo, exatamente como Marx o definia, ou seja, “um movimento real que supera o estado de coisas atual”, já começa a aparecer nos poros da sociedade capitalista. As necessidades criadas pelo próprio capital já não cabem mais dentro desse sistema. A capacidade cientifica atualmente à disposição da humanidade é uma força capaz de destruir todas as muralhas conservadoras.
Mesmo esse processo social e econômico que é a financeirização veio para cumprir uma tarefa que torna as contradições inerentes ao capital insolúveis dentro desse sistema. A auto–destruição se tornou a realidade a que o capital não consegue fugir.

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João Ostral

10 de junho de 2018 às 22h41

Tudo isto parece muito um sonho bom com pouca adesão a realidade. As nossa riqueza são imensas. E quem a capturou é capaz de destruir o que sobrou de nosso país e matar metade do povo para manter isto. Acordem e revejam o Iraque, Líbia, Síria, Afeganistão, Egito e outros países aniquilados por serem posições estratégicas na geopolítica global ou pelas suas riquezas. Sem saída… mas sonhar é bom.

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    Carlos Augusto De Bonis Cruz

    11 de junho de 2018 às 08h45

    Concordo. A revolução russa se deu porque os proletários já não tinham mais o que perder. E a Europa sempre foi um local de revoluções. Aqui a turba prefere o carnaval, futebol e cerveja. Ainda levará muito tempo para acordar e viver a plena cidadania. Apenas com União e luta conseguiremos modificar o regime escravocrata disfarçado em LIBERDADE que nos encontramos. Vivemos na favela chamada Brasil. Esgotos, buracos, insegurança, genocídio, assassinato….

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pe dy cabra

10 de junho de 2018 às 18h54

Disse tudo. Parabéns…

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Ze

10 de junho de 2018 às 17h56

The Future of Global Capitalism with David Harvey
https://www.youtube.com/watch?v=9hgszeNb8wU

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Hellen

10 de junho de 2018 às 17h43

A democracia passa pelo povo, nao dá para deixar o povo à margem da construção de sua propria historia.
Agora só resta uma opçao à lava jato: conduzir COERCITIVAMENTE o povo para votar no psdb.
Esse juiz da lava jato em Curitiba é um completo jenio. Era só prender um tucano emplumado do alto escalao que tava tudo resolvido. Agora, nao adianta mais fazer isso. Mesmo que troque o Alckimin pelo Serra ou pelo Dória, todo mundo, até quem votou na direita, ja sabe que a lava jato tem lado e persegue o pt.
A condenação do Lula é sexo explícito no horario da novela das nove (horario nobre) na rede globo ao vivo e a cores numa tv de 100 polegadas para toda familia ver os detalhes. É logico que isso nao ia cair bem perante a opiniao publica, só a direita tapada nao percebeu isso ainda.
Agora so resta uma opçao mais à direita para a direita, ou seja, apoiar o Jair Bolsonaro.
O Aécio perdeu por uma diferença de menos de 4 milhoes de votos. Agora, o psdb, nao deve ter nem 5 milhoes de votos. O golpe descapitalizou o partido tucano. É isso que dá qdo quem nao é do ramo se mete na area dos outros. O Moro nao é politico, se fosse politico investigava o psdb tb, mas ele proprio disse que as investigaçoes na Petrobrás iriam começar só a partir de 2003, so investigaria governos petistas. Esse foi o grande equivoco dele. O cara se acha o rei da cocada preta. Atraiu a desconfiança de todo o mundo e ainda fez do Lula tao conhecido mundialmente qto pelé ou maradona.
É esse o problema, nao é o golpe nao, o cara nunca prendeu ninguem do partido dele. A vaza a jato tenta agora fazer isso, vide fhc, mas ja é tarde. Ninguem do bem acredita mais na lava jato.
Aécio tb é outra topeira, carreira politica encerrada. Saiu na foto pior que o Collor.

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Pedro Cândido Aguarrara

10 de junho de 2018 às 16h20

Um dia, com a tropa unida em torno dos capitães e tenentes, o verdadeiro exército do povo brasileiro, iremos tomar o poder e fazer aqui o que foi feito na China.

Porquê se não pudermos fazer aqui o que foi feito na China, nosso país JAMAIS chegará a algum lugar digno de se chamar de lugar. Será a Índia Sulamericana de sempre ou até uma África Sulamericana.

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Pedro Cândido Aguarrara

10 de junho de 2018 às 15h14

Entenda. O próximo governo será de esquerda e será um governo de guerra. Empresas de comunicação e imprensa que participaram do golpe vão ver o que é um governo de guerra. Devassa fiscal permanente contra elas e seus anunciantes. Investigação nacional e internacional contra a sonegação dos seus proprietários, criminosos, corruptos e sonegadores de impostos para paraisos fiscais.

Inviabilização dos negócios dos seus anunciantes em todo o território nacional. Impedi-los de importar ou exportar o que quer que seja se pretenderem continuar como anunciantes de golpistas. Até chegar na bancarrota dos meios golpistas e na criminalização deles e cassação de suas concessões públicas de rádio, televisão, jornais e revistas.

Os bens dos seus proprietários serão arrestados e leiloados.

E quem não quiser passar por isso vai ter que ter um compromisso de isenção jornalística em relação ao governo.

É simples. A imprensa não manda mais que um governo de guerra.

A lmprensa faz o que faz porquê lidou até agora com pessoas republicanas e urbanas. Que acreditaram em Estado de Direito. Isso acabou. Juízes, procuradores e policiais vão ser achincalhados 24 horas por dia. Suas mazelas e benesses faladas aos 4 ventos 24 horas por dia e serão sumariamente exonerados pelo menor deslize.

E os jornalistas prostitutos que apregoam o pensamento dos seis patrões golpistas serão excluídos da imprensa por falta de credibilidade.

Lembre-se. É uma guerra. Numa guerra sempre ocorrem baixas…

Suspensão total de verbas publicitárias e investimento publicitário em empresas de comunicação que não assinem um compromisso de isenção jornalística em relação ao governo.

Conselho Permanente de Guerra contra os meios de comunicação não isentos em relação ao governo com ações diárias contra eles: policiais, judiciais e fiscais.

É guerra!!! Jogo duro!! Jogo sujo!!! Até a vitoria!!!

Ou destruímos Globo e Cia ou somos destruídos por eles. Já há um consenso sobre isso na esquerda brasileira e assim será.

Vamos destruir os anunciantes. Inviabiliza-los. Impedir seus negócios. E atacar os proorietários desses meios até leva-los à bancarrota e à perda das concessões. É assim numa guerra. Foi o que eles escolheram ao dar um golpe.

Nada mais dessa frescurinha de estado de direito. Ao dar um golpe num governo legitimo, eleito pela população, eles jogoram o estado de direito no lixo. Ao criminalizar o politicos do PT e colocar Lula na cadeia eles jogaram o estado de direito no lixo. Temos que fazer a mesma coisa com eles. Criminalizar. Se não houver como, inventar. Fazer exatamente o que eles fazem. Desmoralizar. Cavar, desenterrar toda sujeira pregressa de funcionários públicos golpistas. Tudo. Problemas financeiros, de família, judiciais. E jogar no ventilador. Inventar toda sorte de barbaridade. Sujar. Enlamear. Até entenderem como a banda toca e a banda deve tocar do mesmo jeito que eles tocaram.

Até não ficar pedra sobre pedra .

Responder

    Chauke Stephan Filho

    11 de junho de 2018 às 13h36

    Que maravilhosa plataforma radical de um futuro governo vingador de esquerda para o Brasil você sugere, Pedro Aguarrara. Eu apenas teria a propor uma providência complementar: que fosse preso por crime de racismo qualquer um que não gostasse do cheirinho de cecê.

    Responder

    Dilter Folha

    12 de junho de 2018 às 12h00

    Pode ficar tranquilo, com o fim da greve dos caminhoneiros seu remédio voltará a ser entregue.

    Responder

Pedro Cândido Aguarrara

10 de junho de 2018 às 14h56

Todos os contratos de presal do governo Temer serão anulados. A exploração por empresas estrangeiras fora da partilha proibida.

Toda produção ilegal será repactuada com novos preços e se a Petrobrás não for ressarcida os ativos das empresas produtoras serão expatriados para pagar o prejuízo. O que isso tem de mais?

O presal não será explorado fora da partilha. Pagamos pela produção mas o petróleo é TODO para consumo e processamento brasileiro.
Quem se aventurou vai se lascar. Simples assim.

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    Wellington Santana

    10 de junho de 2018 às 17h48

    Total concordância! O que foi fruto de roubo e saque deverá ser restituído à nação. Cada centavo das esmolas pagas pelos abutres deverá ser restituído, mostrando-lhes que foi inútil o seu esforço de rapina. E cada centavo roubado do povo brasileiro, por meio dessas nebulosas transações, deverá ser restituído à nação. Simples assim.

    Responder

    Carlos Augusto De Bonis Cruz

    11 de junho de 2018 às 08h47

    Sem luta? Veja o Iraque, Afeganistão, Síria, …não é tão simples.

    Responder

Getulio Evangelista Neto

10 de junho de 2018 às 13h54

Sem Lula como elemento pacificador, o próximo governante terá um Brasil à deriva, e o nosso povo vai gradualmente mostrar a sua ira…É só esperar!

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E. Sales

10 de junho de 2018 às 13h37

O fim do capitalismo levaria ao socialismo mas o que estamos assistindo
é um retrocesso , a volta do feuldalismo, da escravidão, regimes de exceção e do fascismo. Com supremo e com tudo.

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Reginaldo Gomes

10 de junho de 2018 às 12h50

Depois da eleição , no carnaval fora de época do Cafezinho 2018, noís vai tocar aquela marchinha que é mais ou menos assim:

aLULA-ô, ô ô ô ô ô ô
Mas que calor ô ô ô ô ô ô

Atravessamos o deserto do Saara
O sol estava quente
Queimou a nossa cara

aLULA-ô, ô ô ô ô ô ô
Mas que calor ô ô ô ô ô ô

Viemos do Egito
E muitas vezes
Nós tivemos que rezar
LULÁ!!!!!! LULÁ!!!!!!! LULÁ!!!!!!!, meu bom LULÁ!!!!!
Mande água pra ioiô
Mande água pra iaiá
LULÁ!!! Meu bom LULÁ!!!

uma ótima folia a todos nós!!!!

Responder

    River

    10 de junho de 2018 às 19h00

    TODO PETISTA é POR.RALOUCA:
    PETISTAS NUNCA MAIS!
    Temer comparado com PT é erudito.
    PT: grosseiro, grotão, tosco, de mau gôsto, primitivo da Idade da Pedra (pedra lascada).
    Aquela mulher, sabe? — a tal de Gleisi Hoffmann? — é uma múmia em questão de bom gosto, em cultura erudita e em bom senso! Uma total imbecilizada de marca maior. Uma idiota! O mau gôsto tem cheiro de mau hálito (dente podre).
    Mídia Ninja o mesmo!
    Mas temos outras. Vejamos:
    As temos bem descritas aqui:
    1. Temos “Graça”.
    2. Temos “Sem-Graça”.
    3. Temos “Desgraça”,
    e Temos:
    4. “Nem-de-Graça”.
    Eis aí as políticas brasileiras!
    Você, curió, escolhe!
    |
    A “Nem-de-Graça” é a Graça Foster.
    A “Desgraça” é a dilma.
    A “Sem-Graça” é a Fernanda Lula Petista Montenegro.
    E, finalmente, a “Graça” é a Marcela Temer.
    == FIM ==

    Responder

      Pedro Cândido Aguarrara

      11 de junho de 2018 às 13h29

      O comentário já é a sua própria resposta. Quando uma pessoa quer mostrar que ela é uma coisa que ela não é mais só mostra o que ela é.

      Responder

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