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A suposta notícia falsa de um terço presenteado a Lula pelo papa aponta os limites da checagem (Arte Andreia Freire)

O fetiche da checagem: uma marcha a ré na história

Por Redação

22 de junho de 2018 : 01h03

Publicado na revista Cult

Causou um certo frisson na semana passada o caso da entrega do terço abençoado pelo Papa Francisco ao ex-presidente Lula. O presente teria sido enviado pelo advogado argentino Juan Grabois que foi impedido pela Justiça de encontrar com o ex-presidente. Portais da mídia alternativa, como Revista Fórum, Brasil 247 e Diário do Centro do Mundo noticiaram o fato, dizendo que o papa teria enviado um terço abençoado à Lula. A agência de checagem de informação Lupa classificou a notícia como fake news e utilizou de sua parceria com o Facebook para que as páginas na rede social destes portais fossem notificadas e os seus leitores notificados de que se tratava de fake news. Um ato que impactou significativamente na audiência destes portais. O jornalista Renato Rovai, editor da Fórum, afirmou taxativamente de que se tratava de uma nova forma de censura.

A base para que a Lupa classificasse como fake news foi uma matéria publicada no portal Vaticano News de que Juan Grabois não era enviado oficial do papa e nem tampouco o sumo pontífice teria enviado o presente. Durante o dia, a polêmica continuou pela rede. Rovai apurou junto a fontes na Argentina, como Pablo Gentili, da Clacso (Confederação Latino-Americana de Ciências Sociais) que Grabois era uma pessoa muito próxima ao papa, “inclusive mais que os próprios arcebispos”. Depois, o próprio portal Vaticano News apagou a nota e colocou outra dizendo que Grabois é consultor do papa. E que o próprio Grabois disse que o terço foi abençoado pelo papa.

Com o desmonte da “checagem”, a Lupa publicou uma nova nota dizendo que as matérias dos sites alternativos foram “reclassificados” para “de olho” – isto é, a classificação da notícia como “verídica” dependeria de um posicionamento oficial do papa de que ele teria tido a intenção expressa de mandar aquele terço para Lula e não se tratava de apenas um entre diversos que foram abençoados. Em nenhum momento da nota houve uma retratação por parte da Lupa da primeira classificação de fake news que inclusive gerou uma certa punição no Facebook. Pelo contrário, a agência de checagem responsabilizou a troca de informação no site Vatican News pela confusão.

No site da agência Lupa, é informado que “a Lupa integra a International Fact-Checking Network (IFCN), rede mundial de checadores reunidos em torno do Poynter Institute, nos Estados Unidos, e segue à risca o código de conduta e princípios éticos do grupo”. Entrando no site da International Fact-Checking Network (IFCN) para obter o código de conduta e princípios éticos do grupo, o primeiro deles refere-se ao “apartidarismo e equidade” e que os leitores da checagem devem ter acesso a todas as fontes consultadas. Duas coisas chamam a atenção deste item: o tal “apartidarismo” e a equidade dos lados na busca da checagem.

A checagem do fato do terço foi baseado única e exclusivamente em uma fonte (o site Vatican News, que colocou três versões diferentes sobre o mesmo assunto, levando a Lupa a oscilar entre a taxativa classificação fake news e a imprecisa “de olho”) e mesmo a informação de que Grabois não era nenhum enviado oficial do papa foi checado – os portais alternativos reafirmaram esta condição de Grabois e esta informação não foi checada pela Lupa, que ficou presa única e exclusivamente ao site Vatican News.

E no próprio site da Lupa, na parte que explica a metodologia de trabalho da agência, é dito o seguinte: “Uma vez decidida a frase que será checada, o repórter da Lupa faz um levantamento de ‘tudo’ que já foi publicado sobre o assunto. Consulta jornais, revistas e sites. Depois, se debruça sobre bases de dados oficiais e inicia o processo de garimpo de informações públicas. Na ausência delas ou diante da necessidade de saber mais sobre o assunto a ser checado, o repórter da Lupa recorre às Leis de Acesso à Informação e/ou às assessorias de imprensa. Ainda pode ir a campo, levando consigo os meios tecnológicos que julgar necessários para a apuração: foto, áudio ou vídeo”.

No caso, isto não foi feito. A checagem se limitou a uma nota no Vatican News que foi modificada pouco tempo depois. O próprio Vaticano tem outras bases de dados oficiais, como o portal da Sala de Imprensa do Vaticano, inclusive com a possibilidade de cadastramento de jornalistas. Pelo que consta nas informações da Lupa, não foi feito nenhum contato com a assessoria de imprensa do Vaticano ou outra fonte oficial.

Marcha a ré

O caso foi pedagógico para se entender os limites desta concepção de checagem. Para Wilson Roberto Ferreira, é uma manifestação recente de uma concepção hipster de jornalismo. Além disto, conforme já afirmei em outro momento, trata-se de um fetiche construído a partir da crise da credibilidade no jornalismo no final do século 20, particularmente após o escândalo do caso Jayson Blair.

Este fetiche da credibilidade parte do pressuposto de que a queda na credibilidade do jornalismo é produto de uma inexatidão das informações. Pensando as relações do público com o jornalismo em uma lógica estritamente de consumo, melhorando a qualidade do produto a credibilidade aumenta automaticamente – e o público retorna. Note-se que as estruturas construídas por alguns veículos jornalísticos se assemelham a outras lógicas comerciais – o ombudsman como se fosse um SAC (Serviço de Atendimento ao Cliente), a checagem como um Controle de Qualidade, as classificações das agências de checagem como certificações de qualidade total.

E por isso toda a narrativa que perpassa os agentes envolvidos neste processo se expressa por uma tecnicidade burocrática, aproximando das primeiras concepções teóricas de jornalismo, como a Teoria do Espelho do século 19, inspirada no positivismo de Augusto Comte. Por isto, a ênfase no tal “apartidarismo” (presente tanto nos princípios “éticos” do IFCN como da Lupa) como se o pertencimento partidário fosse a única forma de se estabelecer um juízo de valor ou uma outra perspectiva.

Estas ingenuidades positivistas sempre me fazem lembrar a ironia presente no conto de Jorge Luis Borges intitulado Funnes, o memorioso, em que a obsessão pela exatidão do personagem fez com que ele demorasse um dia inteiro para contar o que ocorreu no dia anterior. Desde os anos 1930, sociolinguistas como Mikhail Bakhtin apontam o caráter ideológico do signo verbal. O hipsterismo do jornalismo de checagem, expresso principalmente pelo cenário high tech e visual new-yuppie dos seus praticantes é uma marcha a ré teórica e conceitual do jornalismo. Até mesmo no retorno a um tipo de censura como o que ocorreu no Facebook com os portais alternativos pela acusação falsa de estarem disseminando fake news.

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3 comentários

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Reginaldo Gomes

22 de junho de 2018 às 11h29

Fake news ,é um problema para o golpe híbrido sem pátria????
O ecossistema e o fluído vital do golpe é formado de mentiras , fofocas , intrigas, calúnia, injúria, etc.
Pela razão e lógica, o golpe, deveria estar comemorando as fake news, invés de combatendo.
Percebem?
O problema é que a quantidade enorme de verdades que chegam ao povo através da internet , é insuportável e mortal para o golpe..Esse é o motivo real dessa palhaçada de combate a fake news.

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Norton

22 de junho de 2018 às 10h30

Afinal de contas, o que é verdade nessa história?

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foo

22 de junho de 2018 às 07h36

Comenta essa pesquisa, Miguel :

“Segundo o Datafolha, a maioria da população acredita que o ex-presidente não será candidato, mas o número registrou queda na última pesquisa. Passou de 62% em abril para 55% no início de junho. Já os que avaliam que ele participará da disputa passaram de 34% para 40%.

A percepção de que o ex-presidente não concorrerá às eleições, no entanto, não significa que os entrevistados acreditem que ele não deveria ser candidato. Nesse caso, constata-se um empate. Para 48%, Lula deveria ser impedido de concorrer, enquanto 49% são contra vetá-lo.”

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