Entrevista de Haddad ao SBT

Dino: Ciro e Haddad disputarão “palmo a palmo” um lugar no 2º turno

Por Miguel do Rosário

14 de setembro de 2018 : 15h15

Reproduzo abaixo, via Conversa Afiada, trecho de entrevista de Flavio Dino à Carta Capital.

(…) CC: Fernando Haddad foi oficializado como candidato à Presidência pelo PT, e Manuela D’Ávila, do seu partido, é vice em sua chapa. No início da campanha, o senhor chegou a defender a unidade dos partidos de esquerda em torno da candidatura de Ciro Gomes. Como o senhor vê a disputa entre Ciro e Haddad?

FD: Defendi, de fato, essa unidade. O PCdoB defendeu até as últimas semanas. Achávamos que era melhor para poder viabilizar uma vitória em primeiro turno ante o fiasco do governo de Michel Temer. Mas não foi possível, infelizmente, então vamos ter de adiar um pouco essa vitória, com o provável curso da eleição para o segundo turno.

Acho que esse movimento do ex-presidente Lula em torno de Haddad e a decisão do PCdoB de apoiá-lo coloca, obviamente, uma nota de favoritismo ao PT. Mas haverá uma disputa saudável por uma vaga no segundo turno entre Haddad e Ciro, acho que esta eleição caminha para isso. Temos um candidato da direita que provavelmente vai ser o Bolsonaro e um da esquerda, cujo favorito, a meu ver, é o Haddad.

CC: Ciro tem 13% no Datafolha, 11% no Ibope. Mesmo com este resultado, Haddad é o favorito?

FD: O Ciro está no jogo. Há uma possibilidade de virar votos do Alckmin e da Marina para o Ciro. Podemos ter um cenário parecido com o de 1989, em que Leonel Brizola, do PDT, disputou palmo a palmo a segunda vaga no segundo turno com o PT. Podemos ter a repetição desse cenário, sem dúvida.

CC: Ciro chamou de fraude a estratégia do PT de insistir na candidatura de Lula. Como o senhor viu a tática de esticar a oficialização de Haddad no limite do prazo?

FD: É uma atitude de solidariedade pessoal ao Lula. Defendi e defendo o seu direito de ser candidato, porque ele está sendo vítima de uma brutal violência contra seus direitos políticos. Nesse sentido, houve uma vitória de Pirro contra Lula. O segundo candidato do campo progressista está em condições ótimas de disputar. A defesa da candidatura do ex-presidente é um imperativo.

Ninguém pode ser, em um regime democrático, vítima de tamanha arbitrariedade. Escrevi o artigo da Lei da Ficha Limpa, ao lado do então deputado José Eduardo Cardozo, sobre possibilidade de uma liminar no caso de plausibilidade da pretensão recursal, ou seja, o recurso em que o candidato tem o direito de disputar para evitar um dano irreparável.

O que dá essa plausibilidade? Vários fatores. Desde a fragilidade gritante da sentença de Sergio Moro até a recente decisão do comitê de Direitos Humanos da ONU, com base nos tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário. Ora, como a decisão de uma instância supranacional à qual o País aderiu não confere a plausibilidade do recurso? É uma questão de interpretação jurídica singela. Não precisa ser muito sofisticado para considerar que a Lei da Ficha Limpa não está sendo cumprida.

CC: Como o senhor avaliou o julgamento do TSE que barrou Lula?

FD: Formou-se quase que monoliticamente no Judiciário uma má vontade com o caso. Fosse o caso julgado cem vezes, em cem vezes o resultado seria diferente. Eu te falo isso depois de quase 30 anos de exercício profissional. Criou-se um discurso, quase que uma animosidade contra Lula por uma série de razões. Basta olhar como o Tribunal Regional Federal da 4ª Região tratou as coisas no julgamento do recurso, nas declarações do presidente Thompson Flores, naquele terrível episódio do descumprimento da liminar pela libertação… A animosidade é evidente. E esse é um ponto de reflexão que deve ser feito pelo Brasil e pela sociedade, mas também pela comunidade dos juristas. Isso vai demandar muitas análises nas próximas décadas, esse conjunto raro de absurdos que foram cometidos neste período.

CC: Acha que Haddad conseguirá absorver os votos de Lula, especialmente no Nordeste?

FD: É claro que o Ciro tem uma natural simpatia aqui, porque foi prefeito, governador, teve um bom desempenho, por exemplo, na educação. É claro que ele tem uma parte significativa do eleitorado. Mas eu creio que a transferência vai se operar muito rapidamente. Aqui no Maranhão o Haddad, quando indicado como candidato de Lula, já chega próximo de 50%, segundo as nossas pesquisas registradas. Então acho que, com base na realidade que eu conheço, a transferência vai se dar muito rapidamente.

CC: Após sofrer um ataque com faca, Jair Bolsonaro chegou a crescer, segundo o Ibope, mas manteve-se estável, de acordo com o Datafolha. Acha que ele poderá capitalizar eleitoralmente o episódio?

FD: Num país como o Brasil, posições muito extremistas não costumam galvanizar o pensamento médio da sociedade. Bolsonaro representa posições muito extremadas e temas que são muito emblemáticos, é muito difícil ele conseguir parte do que se convencionou chamar de Centro, uma parte mais expressiva do pensamento médio na sociedade. A elevada rejeição dele é fruto exatamente do extremismo, ele está num patamar que é o piso e o teto dele ao mesmo tempo. Eu acho que a força da rejeição bloqueia o crescimento, mesmo diante de um fato obviamente de enorme impacto.

CC: Para a esquerda, é melhor concorrer contra Geraldo Alckmin ou Bolsonaro no segundo turno?

FD: É muito difícil medir, porque são problemas muito diferentes. O Bolsonaro tem para o campo da esquerda a vantagem da rejeição. Por outro lado, ele conseguiu neste momento construir algo original no Brasil, que é o populismo de direita. Jânio Quadros talvez tenha conseguido, mas ele não era tão marcadamente de direita quanto o Bolsonaro.

(…)

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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8 comentários

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Alexandre Neres

14 de setembro de 2018 às 16h37

Alô Madrasta do Texto Ruim, por favor, nos acuda! Olhe esse título maroto!

Dino disse que poderemos ter um cenário parecido com o de 1989, mas que para ele o favorito para representar a esquerda é o Haddad.

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Pedro Cândido Aguarrara

14 de setembro de 2018 às 16h07

Os americanos chamam isso de “wishfull thinking”. Ciro não passará de 7%. Haddad vai chegar nos 35% e pode ganhar no 1o turno. O Ciro deve pensar na conveniência de liquidarmos essa eleição no primeiro turno, com o auxílio dele, saindo do pleito e transferindo seus votos pro Haddad. E pegar a pasta da Fazenda, com Kátia Abreu no Planejamento, trabalhando sintonizados para tirarmos o país da MERDA em que o GOLPE nos meteu.

Temos que formar um governo de esquerda FORTE e de GUERRA!

Com Roberto Requião na Justiça enquadrando a PF. Com Celso Amorim no Itamaraty.

Com Aragão na AGU. Com Gleisi na Casa Civil. Com um Almirante ou um Brigadeiro GARANTISTA na Defesa, enquadrando as Forças Armadas. E assim por diante….

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    Miguel do Rosário

    14 de setembro de 2018 às 16h30

    ahaha, e ainda fala em wishfull thinking. olha, pedro, a análise é do flavio dino, não é minha não, ok?

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    Marcelo

    14 de setembro de 2018 às 16h55

    “Haddad pode ganhar no 1o turno”

    kkkkkkk e ainda fala em wishful thinking. Nem Lula nunca ganhou no primeiro turno, nem contra o Picolé de Chuchu (e só tinha ele de adversário competitivo), não vai ser o poste dele quem vai realizar essa proeza.

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      João Pessoa

      14 de setembro de 2018 às 18h44

      kkkkkkkkkkkkkkkkk
      Esse povo enlouqueceu, Marcelo

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    Adam Smith Comuna

    15 de setembro de 2018 às 09h08

    Haddad quer alguém do perfil do Marcos Lisboa na fazenda, o oposto do Ciro, um Joaquim Levy mais neoliberal.

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Adam Smith Comuna

14 de setembro de 2018 às 15h54

““Haddad pode não ser o bicho-papão que o mercado teme”, enuncia uma reportagem da Bloomberg, reproduzida em vários portais. O ex-prefeito, diz um analista ouvido pela agência de notícias, seria “mais pragmático do que ideológico”, o que manteria a chance de um eventual novo governo petista promover as reformas que o sistema financeiro (e só ele) considera essenciais para o País.”

Na Bloomberg.

O Dilmo pretende colocar seu ex-chefe, Marcos Lisboa na fazenda. Um daqueles “economistas” que vão na GloboNews defender reformas e austeridade fiscal.

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    JC

    14 de setembro de 2018 às 19h45

    É o mercado externo ensinando o interno a parar de acreditar na Mirian Leitão. A verdade é que os próprios petistas estão rezando pro Ciro, o direitista, o coroné, o Jereyssati, mergulhar de cabeça na campanha do Haddad no segundo turno caso ele passe. Que triste situação.
    Mas a vitória virá! Infelizmente não pelas mãos de quem merece, pois não é Lula e provavelmente não será Ciro…

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