Cafezinho 2 minutos: Posse de Bolsonaro e alegações finais contra Lula

Robert Rauschenberg

Wanderley Guilherme: Por que o brasileiro vota em Bolsonaro?

Por Wanderley Guilherme dos Santos

24 de outubro de 2018 : 20h27

Segunda Opinião

A IMPREVISÃO DEMOCRÁTICA

Por Wanderley Guilherme dos Santos

Voltou à moda rejeitar a capacidade da população de baixa renda e baixa escolaridade escolher corretamente em quem votar. Em versão mais radical, até a classe média é desclassificada (por exemplo, Ilya Somin, Democracy and Political Ignorance, 2013). Essa história começou na metade do século XX, quando pesquisas de opinião revelaram frequentes inconsistências nas respostas dos entrevistados. Eram pesquisas acadêmicas investigando a extensão em que as sociedades eram compostas por indivíduos dotados dos atributos racionais pressupostos pela doutrina democrática.
De acordo com a teoria clássica, os eleitores seriam conscientes da hierarquia de seus interesses e das políticas apropriadas à sua satisfação. Um eleitor, portanto, tinha clareza quanto aos fins que desejava e quanto aos meios para alcança-los. As pesquisas revelaram que as eleições não eram sempre assim. Em momentos diferentes das entrevistas surgiam contradições entre metas – por exemplo, a contradição entre redução de impostos e expansão de serviços públicos ou benefícios sociais -, além de aprovarem iniciativas opostas àquelas compatíveis com os fins procurados. Em suma, a democracia se sustentava, também, em eleitores sem os requisitos da teoria. Não obstante, suas escolhas eventualmente coincidiam com as da maioria, contribuindo para a consagração do vencedor.

A extensa lista de pesquisas eleitorais parece não registrar um só caso de completa ausência de contradições quanto a meios ou quanto a fins nas respostas dos entrevistados. Ao contrário, apontam os radicais contemporâneos, a crescente complexidade nos negócios de Estado aprofundou a incapacidade da maioria dos eleitorados discriminarem com clareza seus reais interesses e que políticas melhor os serviriam.

A detalhada pesquisa do IBOPE, uma semana depois do primeiro turno (13-14 de outubro) trás material suficiente para avaliação do nível de consistência do eleitorado, neste primeiro turno das eleições de 2018. Há inúmeros quesitos em que a clareza dos eleitores e eleitoras é flagrante. Por exemplo: denominei de agnósticos os entrevistados que não se sentiam nem otimistas nem pessimistas em relação ao futuro do país. Os resultados indicaram que quanto mais velhos e de maior escolaridade, mais agnósticos, de um lado, e quanto mais jovens, mais otimistas.

Subterrâneo às perguntas há um sempre um conceito do que se entende por consistência. Ademais, o suposto de que o eleitor vota segundo seu presumido interesse desconsidera outros determinantes do voto: ideologia, sistema de crenças cívicas ou urgências de conjuntura. Por isso, embora tomado como exemplo de intenção de voto inconsistente, a propensão majoritária do eleitorado feminino em um candidato declaradamente misógino se explique por pressões de circunstância, antes que por ignorância sobre seus interesses.

Item externo à consistência ou inconsistência do eleitorado, o momento em que decidiu em quem votaria, nas eleições de 7 de outubro, trás uma associação perfeita entre nível de renda e rapidez de decisão: quanto menor a renda, maior a porcentagem de eleitores que decidiram o voto no dia da eleição. A associação me parece de alta relevância por revelar que nada menos do que 21% do eleitorado de renda familiar até um salário mínimo decidiram em quem votar no mesmo dia da eleição. As surpresas do primeiro turno sugerem ser possível que o eleitorado surpreenda algumas das sólidas expectativas de vários candidatos. É o que se chama de imprevisibilidade democrática.

Wanderley Guilherme dos Santos

Cientista político brasileiro, autor de muitos livros. Mais: https://www.ocafezinho.com/wanderleyguilherme/

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24 comentários

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CAR-POA

25 de outubro de 2018 às 20h22

Boaventura de Sousa Santos HOJE EM PAGINA 12–ARGENTINA—
BRASIL :LAS DEMOCRACIAS TAMBIEN MUEREN DEMOCRATICAMENTE.
Indispensável sua leitura para entender ,esta vez SIM,porque estamos como estamos.
Sugiro ao Wanderley Guilherme e ao Tiago ,dos “analistas” que chegam a mesma “sábia”conclusão ,a culpa é dos pts.
MIGUEL ,É BOM VC OLHAR TAMBÉM QUEM SABE VC RECUPERE O PRUMO QUE PERDEU APÓS A “MORTE ANUNCIADA” DO CIRO,O CANALHA.

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Prof Iso

25 de outubro de 2018 às 16h52

Porque será que Ciro ajuda tanto o Bolsonaro? Com apoio de alguns jornalistas que se dizem progressistas? Sera que pra eles o Brasil vem em 2º lugar?

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helio Ewerton

25 de outubro de 2018 às 10h59

Ciro cometeu grave erro estratégico e político. Estratégico quando ao final do primeiro turno dirigiu as suas críticas ao PT, quando deveria ter atacado o capiroto. Político, quando abandonou a democracia em momento desesperador, e mais, orientou a seu irmão, eleito com grande parcela de votos petista, dar o que pensava ser um tiro de morte na candidatura Haddad, em ato de inegável covardia democrática. Sabíamos da intemperança Ciro, mas surpreendeu a sua falta de inteligência política e o seu descompromisso com a democracia.

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darcy cruz

25 de outubro de 2018 às 10h52

O crescimento rápido do Bozo justamente no momento em que se esperava este mesmo crescimento em proporção a favor de Haddad, ou seja, o Elenão das mulheres, etc. pode ter sido o resultado agudo das fake news naquele momento( claro, que ninguém vai confessar tal influência nas pesquisas). Se houve esse crescimento para um lado, por que não esperar que o mesmo aconteça para beneficiar Haddad agora, baseando-se em alguns novos fatores, as sandices antidemocráticas ditas pelos asseclas do Bozo, a insistência dele em não comparecer a debates, etc.? Agora, o que não ajuda são esses pronunciamentos extemporâneos do tal cantor e, pior, esse apoio também público pela pseudo-autocrítica que ninguém lhe pediu. Diz o lugar-comum, roupa suja se lava em casa e principalmente após o término do segundo turno.

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Heitor

25 de outubro de 2018 às 10h34

Eu não me esqueci do Paulo Skaff e não vou me esquecer do Ciro Gomes.
Cobardia tem nome e sobrenome.
Houve eleições que o Lula teve o voto em massa dos intelectuais e da classe média. O mano Braw está certo na crítica dele. O PT tem que voltar a conversar mais com a base, com o povo pobre. Essa é a essência do pt.
Haddad tem que falar a língua do povo. Falar do jeito que o povo entende. Deveria mostrar que os Bolsonaros votariam na reforma da previdência do Temer, ou seja, são a favor de sequestrar a aposentadoria dos mais pobres. E não querem mexer na aposentadoria dos militares. Isso precisaria ser amplamente divulgado no horário político. Bolsopai e Bolsofilhos votaram tudo a favor do Temer.
O Ciro caminha para ser a fadinha da floresta II, só aparece de 4 em 4 anos e só apóia o lado errado, o lado contrário à sua trejetoria e história político. Ciro está cometendo suicídio político igual a Marina fez qdo apoiou o Aecio.

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Eliane Cerqueira

25 de outubro de 2018 às 08h27

Porque jornais como O Cafezinho continuam curtindo sua mágoa por seu candidato – Ciro Gomes, o fujão – não ter sido eleito e tiveram um prazer orgásmico pela fala fora de hora, do Mano Brown, que deveria ter ficado em casa. Críticas têm de ser feitas no dia seguinte ao segundo turno. Quando devemos salvar o Brasil do fascismo, não. Este jornal chega ao ponto de publicar o vídeo, ação que tenho visto largamente nos espaços de Direita? Lá eu entendo, estratégia de campanha. E aqui? Vingança contra quem? Contra nós mesmos? Contra a imprensa alternativa que vai ser varrida da Internet, se o fascismo ganhar?

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    Nostradamus ( banquinho & bacia )

    25 de outubro de 2018 às 09h14

    Vai dar Haddad 13 !!! Isso é o que importa agora. Os eleitores do Ciro não são malucos não. Vamos que vamos !

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    sempre Voltaço

    25 de outubro de 2018 às 09h46

    Parabéns pela frase fora de hora em relação ao mano brow.
    Quem é esse professor Wanderley?

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    Gustavo

    25 de outubro de 2018 às 09h57

    Desde 2015, pelo menos, vejo nos blogs de esquerda uma blindagem ao PT. “Criticar o PT é jogar água no moinho da direita”, diziam. O PSOL era taxado de “esquerda que a direita ama” por suas críticas. O resultado disso está aí: Bolsonaro quase levou no primeiro turno. Eu condordo que críticas, nesta situação, podem sair pela culatra, mas a maioria do povo cansou de passar a mão na cabeça do PT e se continuarmos nessa Bolsonaro será eleito. Abram os olhos! O cara nem precisa fazer campanha! Eu não sei dizer qual é a dose certa de críticas, nem qual é a forma correta de fazê-las, mas a hora pra uma mudança de estratégia é agora (se é que não passou), e é assim que eu vejo os puxões de orelha de Cid e Brown. As urnas estão mandando um recado contundente, e precisamos ouví-lo.

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      Nostradamus

      25 de outubro de 2018 às 10h14

      Patinho paneleiro atravessa a rua já. Vai para os quintos dos infernos sem missa de sétimo dia.

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Tamosai

25 de outubro de 2018 às 05h57

Muita gente foi iludida pela campanha de vários anos da mídia de demonização do PT, abrindo espaço para um farsante como o Coiso. Só que agora percebem que o Coiso é uma ameaça à democracia, à segurança individual, à justiça e, surpresa, é um corrupto.
A rejeição ao Coiso está aumentando rapidamente.
Vai dar Haddad 13. Vamos que vamos!

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Alexandre Neres

24 de outubro de 2018 às 21h55

Fico pasmo com a falta de noção de Paulo ou será Saulo? Esta semana no Valor Econômico, o colunista Cristiano Romero tratou da consistência do voto do eleitor. O eleitor do Nordeste denota sabedoria ao votar, escolhendo o partido que defendeu os interesses da região enquanto foi governo. Da classe média alta da qual faço parte tenho vergonha, ao tentar justificar com malabarismos retóricos seus votos conservadores. Vota como o rico tencionando chegar lá, muito embora não vai conseguir nunca. O eleitor da região Sul me deixa rindo à toa. Supõe-se ilustrado, mas mais de 60% vota em Bolsanaro, o candidato sem ideias, que nunca em 28 anos apresentou projeto na Câmara dos Deputados sobre segurança pública, um despreparado que nunca administrou uma rua. Não à toa o segundo maior partido nazista do mundo era o brasileiro. Onde residiam essas almas sebosas?

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    Glauber Tocha

    25 de outubro de 2018 às 09h21

    Não gasta saliva com esse bunda rachada do Paulo. Satanás Pai da mentira é o padrinho dele. Todo aniversário dele vai na festinha trazer-lhe um novo dildo. Mas ele gosta mesmo é de coturno roçando na barriga da perna e bafo forte no cangote. Fala sério, tem que tratar à altura essa gente.

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    ari

    25 de outubro de 2018 às 11h08

    Vivo no sertão baiano, e nunca aceitei muito aquela história de lavagem cerebral. Tenho parente em SP, nível superior, ótimas leituras. Mas…Jovem, conviveu com uma parte da família muito conservadora, a classe média padrão. Estudou no Mackenzie e a família do cônjuge não fica atrás. O mesmo diga-se do local de trabalho. Muitos e muitos anos assim. Quando se fala de Lula e do PT, seus argumentos são os chavões tradicionais (Lula é ladrão, o PT quebrou o país, etc) Vc tenta trazer os chavões para os fatos, mas não adianta o que vc diga ou argumente, simplesmente os chavões são para ele verdades de fé. Imagino então 24 anos de PSDB aliada a nossa sórdida imprensa, com a colaboração do ambiente…Hoje acredito em lavagem cerebral

    Responder

      Paulo

      25 de outubro de 2018 às 19h43

      Ari, não se esqueça que Márcio França, socialista, está a 4 pontos do Dória, tucano, e cujo pai era baiano…

      Responder

    Paulo

    25 de outubro de 2018 às 19h36

    Alexandre, eu não diria que o voto do nordestino médio, pró-Haddad, nestas eleições, seja sábio. Eu diria que é utilitarista. Apenas quis traçar um comparativo entre a opinião do Pelé e de um analista que ouvi há alguns anos (e que são diferentes, abstraindo-se a questão cívica, propriamente dita), e que me fez ponderar sobre o perfil do eleitorado brasileiro. Aliás, possivelmente, uma opinião – desse analista -semelhante a do Cristiano Romero, por você citado…

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    Paulo

    25 de outubro de 2018 às 19h38

    “Não à toa o segundo maior partido nazista do mundo era o brasileiro”. Como assim? Você se refere à Ação Integralista Brasileira, de Plínio Salgado?

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Paulo

24 de outubro de 2018 às 21h39

Pelé disse certa feita que o brasileiro não sabia votar. Foi espezinhado, massacrado. Mais recentemente, algum acadêmico disse que o voto do brasileiro era um voto pragmático, de acordo com os seus interesses mais imediatos (e ainda que nem sempre louváveis, se considerados do ponto de vista ético). Por exemplo, o voto do nordestino no PT, para preservar o bolsa-família (mesmo que o Programa não estivesse ameaçado por outros concorrentes, sem considerar que ele foi criado por um tucano). E então, quem estaria com a razão?

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    CAR-POA

    25 de outubro de 2018 às 00h14

    Vc é um desinformador ,ignorante e malintencionado.Após o golpe e já antes dele ,o Bolsa Família foi bombardeado sistemicamente .Todos os desvios reais ou artificias foram creditados aos pts ,ignorando-se que o governo federal (os pts),eram os financiadores do programa ,sendo que o cadastro e as escolhas dos beneficiarios era feita pelos municípios.Ele foi atacado porque era uma das bandeiras dos pts.Os outros concorrentes ,apoiadores do golpe não o ameaçariam????se vc é imbecil,não ache que esse seja um defeito de todo o mundo.

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    Zé dos Bagos

    25 de outubro de 2018 às 09h09

    Você que não, certamente, seu cadelo, bucico, vira latas desqualificado. Quer desqualificar eticamente os outros ? Logo você que não vale o que come ? Não entendeu mer.da nenhuma do que leu, se leu e vem ca.gar goga ? Os leitores que desculpem a linguagem mas só esta serve para este bosta entender que não é quem pensa!

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    Benoit

    25 de outubro de 2018 às 09h45

    Olha Paulo, antes de escrever um comentário discutindo se os brasileiros sabem o não sabem votar voce poderia ler o seu próprio comentário e ver se o seu argumento faz sentido ( : não faz).

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Nostradamus ( banquinho & bacia )

24 de outubro de 2018 às 20h52

Até tu Brutus ? Cansastes de meter o pau no PT e finalmente voltastes a escrever de forma acadêmica e elogiável. Parabéns! Alvíssaras ? Sim, cheiraste no ar os ventos da virada, o eleitorado pregará uma boa peça no imbecil que já se disse com a mão na faixa !!!

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    Olinto

    24 de outubro de 2018 às 21h07

    Pensei o mesmo! Até o Cafezinho foi viajar com Ciro… rsrsrs

    Responder

    Olinto

    24 de outubro de 2018 às 21h09

    Pensei o mesmo! Até o Cafezinho foi viajar com Ciro… rsrsrs

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