Vila Militar do Chaves (Adnet satiriza Bolsonaro)

A expulsão dos mercadores do templo, por El Greco

Wanderley: Bolsonaro não merece nenhum crédito de confiança

Por Wanderley Guilherme dos Santos

16 de dezembro de 2018 : 09h38

Coluna Segunda Opinião

NENHUM PERÍODO DE GRAÇA; NENHUM CRÉDITO DE CONFIANÇA

Por Wanderley Guiherme dos Santos

Até o acaso tem limites. A declaração de guerra preventiva do governo Bolsonaro contra, não as práticas propriamente, mas os praticantes dos escambos usuais da política – apoio em troca de recompensas – plantou suficiente número de sementes para pequenas e grandes escaramuças. As condições econômicas e sociais continuam insatisfatórias e não haverá conserto nos dois semestres de 2019. Mesmo contida, a dogmática de Paulo Guedes e sua Ordem de cruzados velhos não terá dificuldade em provocar insatisfação generalizada, apesar dos sorrisos de botox e declarações fúteis dos segmentos empresariais.

Se as democracias normais estão em alvoroço para amenizar colisões entre interesses sublevados, o curto prazo não promete serenidade em democracias estúpidas, fundadas em estereótipos e preconceitos, única riqueza jamais dissipada entre nós: preconceitos religiosos, de existências medíocres, de primitivos em estado de graça, aliados aos estereótipos culturais de mentalidades obsoletas.

Tamanha imperícia acumulada não esclarece as tentativas de importar a guerra fria entre os Estados Unidos e a China, como ensaiam os mutantes em vias de assumir o governo, candidatos a hilários e desprezados fantoches. Menos ainda o provocador anúncio de mudança da representação do Brasil em Israel para Jerusalém. A cada semana tuitasse um retrocesso civilizatório na política externa brasileira. Tudo isso somado não pode ser aleatório. Ao contrário da falsa saúde cognitiva, o mundo atual contém conspirações e conspiradores como jamais na história das nações.

Conspiratas palacianas durante o absolutismo, conspirações contra a ordem aristocrática nos séculos XVII e XVIII, conspiratas sem fim para o rodizio de ditadores na América Latina do século XX, nada disso se compara à soma de espionagem industrial, de conspiração tecnológica de manipulação de dados contra os consumidores e contra eleitores, de conspirações entre nações poderosas dividindo mercados, sabotando a difusão do conhecimento, racionando a publicidade de conquistas farmacológicas, e sabe-se lá o quê mais. As conspirações atuais capturam milhões de pessoas e as regras do capitalismo enquanto jovem tornaram-se antiguidades sem valor de mercado.

A discussão entre conceder ou não algum crédito ao governo por começar é alternativa para quem dispõe de recurso financeiro ou político para financia-lo. Analistas independentes não têm porque dispensar períodos de graça a quem, diariamente, reafirma contra quem pretende governar. Não se trata de difama-lo, mas enquadra-lo no contexto real, no mundo cuja deterioração ou recuperação depende de ações, não de jogos de paciência.

O Brasil faz parte de pequeno conjunto de países se equilibrando no limite da inviabilização de sua autonomia. A ignorância dos líderes intelectuais da esquerda é assustadora, o anti-intelectualismo adotado pelo PT em seus anos iniciais exaltou a politica de resultados imediatos, desprezando a cultura de vanguarda e os professores como pedantismo elitista. Não é também por acaso que os quadros sobreviventes não consigam dizer coisa com coisa, apelando para a chantagem de que nada será normal enquanto Lula estiver preso. Não é verdade. A ignorância está livre, leve e solta.

Wanderley Guilherme dos Santos

Cientista político brasileiro, autor de muitos livros. Mais: https://www.ocafezinho.com/wanderleyguilherme/

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13 comentários

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Ricardo

17 de dezembro de 2018 às 12h12

Por que esses pseudos intelectuais nāo empregam todas as suas energias para fazer uma auto critica da esquerda, apontando os erros; acertos e qual o projeto caso algum dia consigam voltar ao poder. Ler esses textos futurólogos, que em.nada reduz o apoio popular do Presidente eleito, mas parece enxugar gelo no calor de 42 graus do RJ. Essa esquerda mi mi mi é patétiva.

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0Marcos Lima

17 de dezembro de 2018 às 11h46

” Não é também por acaso que os quadros sobreviventes não consigam dizer coisa com coisa, apelando para a chantagem de que nada será normal enquanto Lula estiver preso. Não é verdade. A ignorância está livre, leve e solta.” (Wanderley Guilherme dos Santos)
Muito fácil criticar, mas não informou qual melhor situação, o PT poderia ter seguido.

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Flávio

17 de dezembro de 2018 às 09h46

Também li Unger e Pomar. Estou mais para Wanderley:

Nem mangabeiras nem pomares!

Bolsonaro venceu as eleições para o cargo de presidente da República. Os partidos que se preferem como pertinentes ao campo da esquerda política perderam muito. Há menos caderias no parlamento da União. Há menos governadores nos estados da federação. Há menos cadeiras nos parlamentos estaduais. Já haviam perdido bastante nos municípios, em 2016.

Malabarismos aritméticos não me farão de idiota. Ao contrário do que deseja certo partido, 2 + 2 sempre é igual a 4.

As visões mesquinhas, os erros táticos e as estratégias esquizofrênicas impediram uma verdadeira aliança capaz de enfrentar as atribulações e dificuldades amplamente conhecidas muito antes, desde, no mínimo, 2013 e já concretizadas nas derrotas dos mesmos partidos nas eleições de 2016.

As redes sociais não foram inventadas em 2018. As táticas das notícias falsas não foram usadas pela primeira vez no Brasil de 2018. Os levantamentos ou pesquisas de opinião apresentaram seus números, e ficou a cargo de quem quisesse a escolha da interpretação dos mesmos, como sempre. Como sempre, interpretações enviesadas foram combustível para palavras de ordem vazias, táticas de cortinas de fumaça.

Não funcionou. Ciro errou? Lula errou? Erraram todos. Quanto maior a agremiação, maior sua responsabilidade compartilhada no erro comum.

O veneno do interesse partidário, interesse mesquinho nesta oportunidade, mas que, em circunstâncias normais e em doses administráveis é remédio, destruiu qualquer veleidade de enfrentar com algum sucesso o capital e suas forças regressivas. A esquerda (des)organizada entregou o Brasil às mãos do liberalismo autoritário de forma autohumilhante. Nós, o povo, pagamos a conta.

Entretanto, desgraças poucas são bobagens. Os erros persistem e crescem. Desprezam-se esforços de compreensão racional da sociedade brasileira às vésperas da posse de um governo de vezo autoritário, governo este que foi eleito por esta sociedade! A crítica ganhou o sinônimo traição. A chantagem é explícita. A exposição da ignorância encontra ventos favoráveis.

Portanto, nem Mangabeira nem Pomar. E é mentira covarde e chantagista repetir que nada se resolverá se Lula, prisioneiro realmente político, não for libertado.

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antipaneleiro

16 de dezembro de 2018 às 23h26

Em 2013,, eu achava que a falta de visão era privilégio da USP. Naquela época, o professor Wanderley nos presenteou com análises muito mais precisas do que seus pares paulistas. Agora, talvez pelo ressentimento da candidatura de Ciro, o professor, assim como o blogueiro, querem refundar uma esquerda tão afastada da realidade quanto o bolsonarismo. Pode ser incômodo para determinadadas posições, mas as grandes personalidades são mais importantes que as instituições (sempre foi a assim na história da humanidade!!). Lula livre é mais importante do que uma “frente pseudo–ampla”‘ com todos menos o PT (ou com o PT do Haddad que puxa o saco do Moro!!). Em bom português: Wanderley e Miguel, parem de se comportar como o PSTU, que historicamente sempre esteve mais próximo do PSDB do que das outras posições de esquerda.

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    Brasileiro da Silva

    17 de dezembro de 2018 às 00h03

    Concordo. Lula livre em 2030. Se não for condenado novamente.

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    CezarR

    17 de dezembro de 2018 às 11h29

    Talvez seja mais importante para você, mas para mim, com emprego e renda ameaçados, assim como de tantos outros milhões de brasileiros, Lula livre não tem significado algum além de uma causa que, embora justa, não poderá jamais pautar a estratégia da esquerda.

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Felipe de Castro

16 de dezembro de 2018 às 21h06

Vai ser um governo de ocupação (da colônia pelo império).
Mas tudo bem; depois da 3a guerra mundial recobraremos nossa soberania…

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Alan Cepile

16 de dezembro de 2018 às 19h04

Wanderley…. Seja um pouquinho mais esperto, por favor!

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Raymond

16 de dezembro de 2018 às 15h59

Faz favor !!! O título não condiz com a matéria. Estás louco velho ? Vai para as goiabeiras… cada um!

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Paulo

16 de dezembro de 2018 às 11h19

Eu gostaria de perguntar ao presidente eleito o seguinte: se V. Exa. vai acabar com o Ministério do Trabalho a pretexto de que um setor mostrou-se corrupto (Relações do Trabalho, ademais, os corruptos eram todos comissionados e políticos), por que não acabar, também, com o cargo de assessor parlamentar, já que, aparentemente, V. Exa e seus filhos recebiam, por fora, os vencimentos a eles destinados, por lei?

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    Renato

    16 de dezembro de 2018 às 20h39

    O fim do cargo de assessor não depende do presidente. É um cargo criado pelo legislativo para o legislativo. Você já ouviu falar em separação dos poderes. Peça ao Petê para que acabe com os assessores de seus políticos com mandato. Você acha que o Petê vai querer ? Acho que não; só os assessores do deputado estadual petista pelo Rio de Janeiro, André Ceciliano, movimentaram quase 50 milhões.Perto dos petistas, os filhos de Bolsonaro são reles batedores de carteira. Em matéria de assalto aos cofres públicos, eles têm muito que aprender com o Petê !

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      Paulo

      17 de dezembro de 2018 às 18h09

      Amigo, eu sei perfeitamente que o fim dos assessores parlamentares é algo que deve partir do Poder Legislativo, assim como sei, igualmente, que o fim do Ministério do Trabalho não se deu pela corrupção pontual identificado no Setor/Secretaria relatado. Apenas quis expor a demagogia aparente desse governo que nem começou. Se o PT roubou mais (e eu não tenho dúvida disso, é que a dicotomia mental de alguns não permite ver crítica a um Partido ou personalidade política sem que se conclua, açodadamente, que o crítico está em posição antípoda ao criticado), prenda-se os corruptos petistas, todos. Se outros políticos, inclusive Bolsonaro e filhos, também o fizeram, prenda-se, igualmente, todos. E a lei não distingue o volume roubado. Todos os roubos, desvios, corrupção devem ser considerados de igual monta, salvo o furto famélico, o que não é o caso dos Bolsonaros, definitivamente!

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Justiceiro

16 de dezembro de 2018 às 10h34

“Tu vens, tu vens
eu já escuto os teus sinais.
tu vens, tu vens
eu já escuto os teus sinais.”

Isso aqui foi o máximo que os intelectualóides do PT conduziram produzir.

Mangabeira Unger tem razão: até Lula perderia contra o aintipetismo.

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