Cafezinho 2 minutos: Posse de Bolsonaro e alegações finais contra Lula

Fonte: Imago/Zuma/Keystone.

E o exército? Onde está o exército?

Por Wanderley Guilherme dos Santos

16 de novembro de 2018 : 19h00

Coluna Segunda Opinião

Por Wanderley Guilherme dos Santos

A locução “militar da reserva” situa-o em posição especial na estrutura das ocupações. Um jogador de futebol estar na reserva significa manter-se na ativa, à disposição dos superiores técnicos e administrativos quando convocado à titularidade. Mas ao final da carreira não vai ocupar uma reserva permanente; ele passa à condição de ex-jogador de futebol.

Professores, dentistas, engenheiros e outras tantas profissões liberais estão sempre na ativa, nunca na reserva, mas, ao final da carreira, não se tornam reserva (é bastante rara a convocatória de um médico que “já não exerce a profissão”, como se diz) nem tampouco se tornam algum “ex”. Estão aposentados. Não existem ex-advogados, ex-arquitetos, ex-farmacêuticos e dezenas de outros profissionais.

Continuam com a identificação profissional preservada, mas inabilitados para retornar à ativa.

Militares são profissionais exóticos. Enquanto na ativa, preenchem posição clara na estrutura ocupacional: responsáveis pela eficácia dos dispositivos constitucionalmente atribuídos; essencialmente, o resguardo, em última instância, das instituições civis, e a defesa da segurança e soberania nacionais. Segurança e soberania nacionais são bens públicos clássicos, ou seja, não podem ser usufruídos ou capturados por grupos ou segmentos sociais privados, são parte indissociável da dieta de todo cidadão, independente de credo, ideologia, status social ou renda pessoal.

Ao passar para a reserva, os militares não perdem a condição de militar, tal como os profissionais liberais, mas não se aposentam, como estes. Não existe a ocupação de militar aposentado. Os militares permanecem como futebolistas ativos, embora na reserva, prontos a retornar à vida produtiva, se requeridos. Só que, ao contrário de jogadores reservas, não lhes é permitido voltar como militares propriamente ditos, de coturno e armas na cintura. Não havendo outra ocupação designada, reaparecem como avatares civis.

Ilusão. Não existem ex-militares. Por baixo dos ternos e gravatas protocolares permanecem os blusões verde oliva, ornamentados com os galões de tempos vividos, mas não idos. Com a psicologia reptiliana de militar, o presidente eleito resiste a aceitar o equilíbrio e a solenidade litúrgica do cargo, mantendo o linguajar belicoso, o gestual rude e a distribuição de poderes entre delegados de um governo de ocupação. Resta por decifrar se o Exército está ciente do jogo para o qual está sendo gradativamente arrastado.

Wanderley Guilherme dos Santos

Cientista político brasileiro, autor de muitos livros. Mais: https://www.ocafezinho.com/wanderleyguilherme/

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10 comentários

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Guimarães Roberto

17 de novembro de 2018 às 20h30

Alguns dos militares que estão assumindo posições no governo do Bozo estão aflitos para provar que podem fazer melhor do que fizeram os militares de 64. Só não se sabe ainda se é em termos de desenvolvimento ou em termos das lambanças propiciadas pela turma do passado.

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João Ferreira Bastos

17 de novembro de 2018 às 15h06

Estão fazendo o que melhor sabem fazer:

Ficar de 4 para os eua.

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Marcos Videira

16 de novembro de 2018 às 23h27

Eu penso que teremos sim um governo militar.
Um capitão cercado de generais por todo o lado é o quê ?
As Forças Armadas não estão sendo arrastadas. Elas são partícipes.

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Paulo

16 de novembro de 2018 às 22h06

Eu acredito que o Exército (leia-se Forças Armadas) está consciente dos riscos. Participando ou não da próxima administração, porque, se houver riscos às instituições, ao fim e ao cabo eles serão sempre a última trincheira a evitar o caos político e social…

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    Paulo Figueira

    19 de novembro de 2018 às 11h22

    Eles são os promotores do caos.
    Nossos militares são a guarda pretoriana do império.
    São cooptados e treinados para reprimir o próprio povo.

    Responder

      Paulo

      19 de novembro de 2018 às 23h02

      Não, xará! Sem as FFAA, em 1964, hoje seríamos uma Cuba paupérrima e um país, provavelmente, dividido pela sanha ianque…mas compreendo que é difícil pra você vislumbrar isso. Já em 1889, confesso que tenho minhas dúvidas…

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        Hairy Heart

        20 de novembro de 2018 às 05h41

        Ou poderíamos ter nos tornado uma China, explorando toda a capacidade e recursos que nosso país tem em prol do próprio país e do povo… Mas não… preferimos nos render ao velho e bom maniqueísmo cultural do discurso quixotesco da luta contra o “comunismo malvadão”, fazendo o que sempre fizemos de melhor, que é ficar de quatro para a turma do tio sam.

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          O Pai

          20 de novembro de 2018 às 10h07

          Entre China e EUA, sem dúvidas, é melhor ser EUA.

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        Paulo Figueira

        20 de novembro de 2018 às 13h58

        Eu quero que o Brasil seja Brasil, nem China, nem EUA.
        Quero soberania, democracia e justiça social, não quero a tutela de militares, até porque são incompetentes e corruptos.
        Quanto a esse papo de “ameaça comunista”, só doidos de pedra manipulados ou cafajestes usam esse argumento para justificar intervenção dos militares.

        Responder

          Paulo

          20 de novembro de 2018 às 19h34

          Eu também quero, Xará! Acho que temos um destino próprio a trilhar. Mas, nas circunstâncias de 1964, a intervenção militar se fez necessária. Só por terem tido êxito é que hoje vivemos numa democracia…

          Responder

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