Cafezinho 2 minutos: Posse de Bolsonaro e alegações finais contra Lula

As agruras do poder

Por Pedro Breier

05 de dezembro de 2018 : 19h14

Não é necessária uma longa explanação para demonstrar os benefícios de, na política, se estar no poder. Basta dizer que o poder dá a legitimidade e os meios para que um determinado grupo aplique suas políticas e seu projeto.

Há, no entanto, como tudo na vida, o outro lado.

O presidente eleito Jair Bolsonaro, muito embora não tenha tomado posse ainda, já experimenta o outro lado de deter o poder.

Ser oposição, afinal, é muito mais fácil. Ainda mais uma oposição ao estilo Bolsonaro e em tempos de crise e de antipetismo: bastaram algumas frases decoradas para galvanizar as massas insatisfeitas com os rumos do país.

Ser governo, por seu turno, são outros quinhentos.

Há que se conciliar interesses dos mais diversos, garantir o funcionamento da máquina pública, trabalhar para resolver as demandas do país, e por aí vai.

Bolsonaro na oposição era uma metralhadora giratória. Atirou sem cessar nos alvos fáceis de sempre.

Ao sagrar-se vencedor no pleito eleitoral, torna-se ele o alvo. Passa de estilingue a vidraça. Não adianta mais dizer que vai mudar issudae, talkey? O ex-capitão vai ter que mostrar serviço.

Como seu projeto é totalmente voltado para o 1% – o trabalhador deve se contentar com menos direitos se quiser ter emprego, não é mesmo? -, parece ser questão de tempo para que a massa que elegeu Bolsonaro se volte contra ele.

Uma boa demonstração prática do que significa esse reposicionamento – da oposição ao poder – está nos comentários das notícias dos grandes portais. Tradicional reduto do senso comum conservador/reacionário, a famigerada área de comentários pode estar mudando de perfil ideológico.

Este que vos escreve constatou esse fenômeno em duas notícias dos últimos dias: a de que Eduardo Bolsonaro falou que o Brasil não será mais um país socialista (para desgosto do camarada Temer, suponho) e a de que Bolsonaro, o pai, disse que é difícil ser patrão no Brasil (imagine ser trabalhador).

Os comentários disparadamente mais curtidos no post em que essas matérias (se não me engano, as duas de O Globo) foram compartilhadas no Facebook eram todos criticando, inclusive com algumas belas tiradas irônicas, os Bolsonaro.

Não será fácil, para quem sempre foi estilingue, acostumar-se a ser vidraça.

Pedro Breier

Pedro Breier, colunista d'O Cafezinho, é formado em direito mas gosta mesmo é de jornalismo. Nasceu no Rio Grande do Sul e hoje vive em São Paulo.

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2 comentários

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Gustavo

06 de dezembro de 2018 às 09h42

Bolsonaro está dando ótimas demonstrações de como não se comportar como chefe máximo do executivo. Várias declarações idiotas que não trazem benefício nenhum para o país (ao contrário só vai colecionar opositores gratuitos).

Mercosul, capital de Israel, problemas climáticos, mais médicos, alinhamento com os EUA, etc. Só questões que não trazem retorno e em alguns casos prejuízos como a questão com a China.

Se em janeiro de 2019 ele realmente não mostrar serviço acho que vamos esbarrar em um Collor 2.0 mesmo às custas do vice assumir.

Em 2002 quando o PT assumiu teve que lidar com a mesma “crise de identidade”, pois, era especialista em se opor e de repente também virou vidraça. Naquela ocasião soube dar a guinada e fazer muita coisa certa e muita coisa boa (excetuando-se os escândalos de corrupção e bastante desapreço pela meritocracia em tantos cargos públicos). Será que Bolsonaro vai dar conta ?

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Paulo

05 de dezembro de 2018 às 20h02

Se Bolsonaro der carta branca ao “chicago-boy”, vai colher frutos amargos, no futuro. Num país já tão desigual, uma guinada econômica que represente ocupação (e não mais emprego), pode até dar certo, num primeiro momento, para “estancar a sangria” da desocupação. Mas tende a se sabotar, a médio e longo prazos. E a desorganizar o mercado de trabalho, tão duramente normatizado ao longo de mais de 80 anos de existência da legislação trabalhista…

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