Incêndios na Amazonia mobilizam governos do mundo inteiro

Charge: Duke

Luara Ramos: judicialização do país se tornou terceirização da política

Por Tadeu Porto

21 de março de 2019 : 20h05

Do Facebook da Luara Ramos:

Uma hora ou outra a crise institucional que se agravou a partir de junho de 2013 ia chegar nesse ponto: briga escancarada entre os poderes motivada, principalmente pelo sentimento de “salve-se quem puder”. Isso porque na tentativa de agradar ao capital – sobretudo aos interesses transnacionais – muita gente fez acordos que não pode cumprir. Como o mercado sempre cobra (e com juros!), vemos hoje a derrocada da democracia.

A seguir alguns pontos da minha leitura dos fatos, meio apocalíptica, meio esperançosa porque eu não tenho alternativa a não ser acreditar (afinal eu torço pro GALO rs):

1. De forma alguma acho que a manifestações de 2013 são “culpadas” pelas desgraças nacionais. Houve cooptação do movimento e jamais culparei um povo por se manifestar a favor de onerar o Estado por mais investimentos sociais como foi o caso de quem pedia mais educação e saúde. Ainda hoje a maior parte das pessoas concorda que privatizar não é o ideal e que o Governo deveria garantir serviço público de qualidade, então antes de apontar culpados acho mais relevante aprender com os erros de quem deixou de disputar inclusive aqueles movimentos.

2. O golpe institucional tinha um objetivo: retirar os obstáculos necessários para o avanço neoliberal. Após quase uma década da maior crise do capitalismo, uma crise global e de consequências devastadoras para o planeta Terra, o alinhamento das forças conservadoras foi muito bem feito e para manter os ganhos, socializa-se o prejuízo seja em forma de conflitos armados promovidos pelo cartel do petróleo, guerra de informação – com a compra de dados que trouxe novas possibilidades como o fomento às fakes news e manipulação de afetos negativos via redes sociais – além, e mais óbvio do total sequestro da política pelo capital privado.

3. Se antes o problema era o Caixa Dois e o poder do dinheiro numa eleição, o capital perdeu qualquer pudor para comprar os direitos e a cidadania. Agora vale lobby, rasgam-se princípios fundamentais do Direito, tudo em nome da bandeira moralista da corrupção. Só que aqui isso tudo ganha uma cara mais bonita com o “ativismo judicial”. O problema é que em democracias com a nossa que nunca acertaram as contas com o passado e mantem certos grupos de poder intactos, isso vira uma bomba para o “lawfare”, que é o uso do judiciário para perseguição política.

4. Importante lembrar que o judiciário como indicador democrático é um conceito relativamente novo, fomentado a partir do fim da Guerra Fria, quando os EUA se tornaram a maior potência do mundo. Pontuo isso para nos atentarmos quanto ao fato de como a judicialização da política se tornou a TERCEIRIZAÇÃO da política e faço isso porque acredito que a saída tá justamente na retomada da ação política para além dos tribunais.

5.Enfim, como pega mal apoiar golpe militar no ocidente (e em 2000 levaram uma traulitada na Venezuela), os EUA encontraram uma forma “legal” de fazer isso na América Latina. E aqui eu gostaria que quem acha que quando falamos de “imperialismo” é por saudade da URSS ou apego ao socialismo real entendesse de uma vez que: estamos falando macroeconomia. A razão de ser do capital é o lucro e a acumulação. Numa crise que deixa de ser da produção para tratar da FINANCEIRIZAÇÃO, estamos falando de acumulação em termos predatórios e, obviamente de imperialismo. Para expandir seus lucros além das fronteiras teremos exploração de outros povos e outras democracias, por assim dizer.

6. A China lá crescendo, se industrializando – arrochando salário, condições degradantes de trabalho – mas acordos cada vez maiores com o resto do mundo e protegendo sua economia com uma condição muito interessante: eles permitem que uma empresa se instale no país, desde que tenham acesso a tecnologia. Aí veio a crise, mas os caras tem um mercado interno grande, boa fatia do mercado internacional e tão lá se segurando como podem e produzindo quase tudo.

7. O Brasil se tornou então um ponto estratégico demais pros EUA continuarem brincando de WAR. Biodiversidade amazônica a ser explorada, pré-sal, mercado interno dependente, uma elite bem canalha e subserviente. Condições perfeitas pra exploração. O entrave dessa vez era político. Depois de quase 20 anos de ditadura patrocinada pelos EUA (oi, operação Condor!), os brasileiros se organizaram – em movimentos sociais, sindicatos e partidos políticos – e elegeram um presidente operário e uma presidenta do mesmo partido. Seriam 16 anos não fosse o golpe contra a presidenta Dilma. Quase duas décadas do que considero o principal acerto dos governos petistas, sua política externa.

8. Não é por acaso que a Lava Jato focou em empreiteiras e na defesa que Lula fazia dos investimentos dessas grandes empresas em outros países. Estamos novamente falando de macroeconomia. As fake news envolvendo a cosntrução do Porto de Mariel em Cuba que tratam disso como “financiamento” de ditadura soam risíveis pra qualquer pessoa com o mínimo de noção sobre política externa. Ora, trata-se de uma localização estratégica. Os ataques à Venezuela (que é um caso à parte e demandaria mais tempo) servem para desmoralizar o que o PT vinha fazendo na tentativa de construir uma terceira via no mundo.

9. Quando se diz que os governos petistas não falavam “grosso com os irmão latino-americanos e nem fino com o Norte” é disso que tratamos: o PT, sobretudo nos governos Lula com Celso Amorim e Marco Aurelio Garcia (responsável pelo fortalecimento do Mercosul) foi inteligente o bastante pra perceber que não bastava se fartar da alta das commodities, era preciso apostar na industria nacional e estebelecer novos rumos para aquela que passaria a ser a sexta maior economia do planeta. Daí para a criação dos BRICS foi natural e, obviamente, isso irritou demais os EUA que se acham donos do mundo. Magina deixar que nações inteiras se desenvolvam de maneira autônoma? Que economias emergentes submetessem orçamentos cada vez maiores aos interesses de seus povos e não dos banqueiros?

10. Após a “descoberta” do pré-sal (entre aspas porque o que temos são notícias de sua existência desde os anos 1970, mas não tínhamos a tal tecnologia para exploração. Só que nem na ditadura os caras eram tão entreguistas como agora, portanto a Petrobras tinha monopólio para explorar), o Brasil poderia ter um salto de investimento em áreas como a Educação. Lembrando sempre que quando falo Educação é também ciência e tecnologia. Não por acaso essa é uma área que tem sofrido constantes ataques políticos, econômicos e ideológicos.
Discursos como o da meritocracia, por exemplo, caem muito bem para esconder estruturas desiguais como a nossa.
*Não seria a primeira vez que teríamos interferência de interesses de outros países na educação, leia sobre os acordos MEC-Usaid e veja que é um método recorrente rs

11. Dilma é destituída pelo golpe em 2016 e para a surpresa de ninguém José Serra assume o Ministério das Relações Exteriores de Temer. Sim, o Serra que apareceu em documentos do Wikileaks em 2010 dizendo que entregaria o pré-sal caso fosse eleito. A Petrobras continuou sendo atacada, sobretudo pelo quarto poder – a grande mídia – que no Brasil é totalmente loteada pelos interesses privados. A lógica é a privatização (vamo vender os recursos naturais sim, vai dar super certo, olha só a Vale…).

12. Agora o novo desdobramento e pra mim o mais descarado: o Ministério Público Federal achou que não tinha passado vergonha o bastante depois do power point e dos julgamentos grotescos que expuseram a perseguição ao Lula e decidiu forçar um acordo em nome da Petrobras pra receber de volta R$2,5 bilhões que, segundo o procurador Deltan Dallagnol, seriam investidos numa fundação. Eu não consigo pensar em nada menos republicano que isso. Gente, seriam caras que não foram eleitos gerindo dinheiro PÚBLICO em nome do “combate à corrupção”. E os caras se acham tão príncipes que até ousaram reunir com a Caixa para discutir INVESTIMENTO sobre esse dinheiro.

13. A Fundação da Lava Jato seria uma forma extra-constitucional de fazer e financiar a política desses caras, que estão completamente alinhados com interesses pessoais (no “melhor dos casos”) e/ou interesses transnacionais.É um atentado à soberania popular em diversos aspectos porque dá muito poder a um só setor, diminuindo consideravelmente a forma de participação popular.

14. Só que o bicho pegou e políticos e STF se atentaram pra tentativa do MPF de avançar num projeto de poder sem precedentes. Como a nova tendência dos golpes manda prender ao invés de matar (exceto se você for miliciano, porque aí os caras são “tradicionais” mesmo) e tem uma pá ali com rabo preso, agora ficou aberta a briga da LAVA-JATO, juiz metido a justiceiro (tipo o Bretas que expediu o pedido de prisão do Temer e o STF), que não vai aceitar perder espaço assim. A classe política vem com uma CPI Lava-Toga pra investigar o STF, mas também tá acuada com as sucessivas operações da PF.

15. E onde fica o povo nisso tudo? Vejo gente de esquerda e direita comemorando a prisão do Temer e acho um equívoco. Se quisermos retomar a participação popular na política não dá pra bater palma pra instituição viciada ou terceirizar nossas ações. Também não dá pra ficar fazendo meme e bancar fã-clube de político. Não precisamos de heróis agora. “Só o povo salva o povo”.

16. E quando falo de fã-clube é pra dizer que não basta postar no Instagram ou no Twitter, nem fazer “desfile pela paz”. Não dá mais pra ser mero espectador da política, é preciso lutar muito e mais pela LIBERTAÇÃO DO LULA. Insisto nisso porque se depois de tudo que pontuei aqui você não entendeu que ele não tá preso por corrupção, você não entendeu NADA.

17. LULA LIVRE é fundamental para retomar a organização popular. Eles sabiam disso o tempo todo, por isso tudo que é feito hoje para mantê-lo incomunicável não é por acaso. Inclusive a prisão do Temer na tentativa de ganhar apoio popular para a Lava Jato que se desgastou com o episódio da fundação bilionária e deslegitimar as mobilizações contra 1 ano de prisão do Lula.

18. Dito TUDO isso, entendamos de uma vez por todas que política não é só sobre discutir ideias, mas principalmente sobre organizar pessoas. Organizem-se! Quando eles matam uma vereadora que luta pelos movimentos sociais, pela periferias, eles querem dizer que os negros e os pobres não tem vêz na política. Quando matam Chico Mendes e Dorothy Stang, querem dizer que olucro é mais importante que a vida no planeta Terra. Quando perseguem e matam dirigentes do MST estão dizendo que devemos comer veneno enquanto se fartam em banquetes que decidem os rumos da nossa vida. Quando fecham o cerco aos sindicatos eles não estão preocupados com o uso do seu dinheiro da contribuição sindical, eles só te querem CADA VEZ MAIS LONGE DA POLÍTICA.

O que eles querem é disputar pra vem quem vai mandar na gente. Então não vamos arredar o pé! Encontre uma causa com a qual você se identifica, lute por ela e vamos ocupar os espaços com sonhos e ideias.
Chega de achar que manifestação é um fim. Povo na rua sim, mas com propósito, com organização, com trabalho de base.
Não precisa esperar para votar a cada 2 anos, todas as conquistas só vieram com luta, não foi por benevolência de ninguém, mas com suor e muito sangue de quem não se acovardou e é por isso precisamos de mais vozes. Porque luta é coletiva, só pode ser assim.
Eu não tenho todas as respostas e por isso preciso dos meus companheiros e das minhas companheiras, pra ouvir e aprender junto, construir respostas melhores e soluções mais justas.

Tomemos o nosso lugar na história: sonhando para lutar melhor e lutando para organizar os sonhos!

*Ninguém perguntou, mas se você quer saber por que nem mencionei o Bolsonaro: porque ele é só um fantoche. Um fantoche perigoso, porque é burro, arrogante, paranóico e mau-caráter, além de ser completamente servil. Mas não passa de um fantoche.

Tadeu Porto

Colunista do Cafezinho e diretor da Federação Única dos Petroleiros e do Sindicato dos Petroleiros do Norte Fluminense.

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4 comentários

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Paulo

22 de março de 2019 às 17h33

Referindo a Bolsonaro: “Um fantoche perigoso, porque é burro, arrogante, paranóico e mau-caráter, além de ser completamente servil.” Errado, ele é inteligente, modesto e realista (vide o episódio “Posto Ipiranga”!) e bom caráter. O resto é o”personagem”. Mas você está certa em taxá-lo de paranoico. Pelo menos, se não é, deveria ser…

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    Paulo

    22 de março de 2019 às 17h34

    Ops, “TACHÁ-LO”, rs…

    Responder

    Alan Cepile

    23 de março de 2019 às 07h06

    “ele é inteligente, modesto e realista (vide o episódio “Posto Ipiranga”!) e bom caráter. O resto é o”personagem” ”

    Paulo, vc trabalha no Sensacionalista?? rs

    Responder

Luiz

21 de março de 2019 às 22h52

A mim, parece que o item 9 desconsidera certo deslumbramento do governo petista com a relação entre crescimento de mercado e distribuição de renda. Pareceu-me, na época, que isto influenciou um pouco a cara da política externa brasileira no que concerne aos BRICS. Quanto ao governo Bolsonaro, eu me pergunto quantos dos seus eleitores teriam votado nele para presidente se a Lava Jato não existisse? Dizer que se trata de um governo assistemático não é correto. É um governo de exceção meia sola, portador de um judiciário de exceção, que irá trombar com o liberalismo cedo ou tarde, se não for deglutido pela Lava Jato.

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