Live do Cafezinho: como trazer a classe média de volta para campo progressista?

Mourão, o piadista. Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

Piada emblemática

Por Pedro Breier

19 de abril de 2020 : 23h20

A piada proferida pelo vice-presidente da República, Hamilton Mourão, no dia da cerimônia de posse do novo ministro da Saúde, é um retrato fidedigno do nosso momento atual.

“Tudo sob controle”, ele diz, mirando a câmera que o filma, enquanto caminha. Após dar uma olhada para o lado com um aparente sorriso no rosto, o arremate cômico surge em sua mente: “Não sabemos de quem”. A rápida interação é encerrada com um sinal de positivo de Mourão para a câmera. (Aqui, a cena).

A piada é precisa porque, de fato, não se sabe quem está no controle do país. Em meio a uma pandemia devastadora, Jair Bolsonaro, em tese o comandante da nação, age como um psicopata em surto ao negar ou dificultar auxílio financeiro para que a população permaneça em quarentena; ao instigar as pessoas a saírem às ruas normalmente; e ao incentivar aglomerações de apoiadores, inclusive comparecendo presencialmente a estas, como fez mais uma vez neste domingo (19). Um genocida em plena e dantesca ação.

Mas o chiste de Mourão é, incrivelmente, ainda mais emblemático por seu contexto do que por seu conteúdo. Quando o vice-presidente faz piada sobre a falta de comando do país em meio a uma crise sanitária e econômica mundial de proporções monumentais, não pode restar dúvidas sobre o esfacelamento das instituições.

Na bizarrice de hoje (19), o presidente compareceu a mais um ato (ou melhor, foco de contaminação) de seus tresloucados apoiadores, que pediam uma intervenção militar. Entre tosses, açulou o grupo com frases como “não queremos negociar nada”, compatíveis com o caráter golpista da manifestação.

O presidente da Câmara Rodrigo Maia, ministros do STF como Barroso e Gilmar Mendes, a OAB, Doria, FHC, todos condenaram a participação de Bolsonaro no ato.

Mas e daí?

Esse filme já foi reprisado algumas vezes. Bolsonaro faz merda, diz que foi mal compreendido, que não fez nada de mais, novos acontecimentos atraem a atenção de todos e ele segue impávido em seu cargo, prejudicando mortalmente os esforços que milhões de brasileiros estão fazendo para enfrentar o coronavírus.

Se todas essas vozes que fazem críticas protocolares falassem em alto e bom som que Bolsonaro precisa cair já, pois é um criminoso genocida, e não cessassem de falar, denunciar, pedir, exortar para que os responsáveis ajam para apeá-lo do poder, talvez Maia tomasse coragem para aceitar um dos tantos pedidos de impeachment que já foram protocolados na Câmara ou Augusto Aras, Procurador Geral da República, finalmente cumprisse seu dever e apresentasse denúncia ao STF por conta de algum dos tantos crimes cometidos pelo presidente.

O que dizer, então, da mídia corporativa não alinhada a Bolsonaro? Globo e Folha, por exemplo, bem como seus colunistas e comentaristas tão diligentes para criar as condições para a derrubada de Dilma Rousseff por conta de “pedaladas fiscais”, não ousam pedir a queda de um assassino em massa – ou sequer chamá-lo do que é, um genocida. Quão grotesco e surreal é, aliás, este singelo fato: derrubou-se uma presidente por uma questão fiscal extremamente duvidosa e não há movimentação efetiva para derrubar um presidente que está empurrando milhares de pessoas para a morte, à vista de todos.

Poderíamos especular sobre os motivos desta exasperante covardia dos que têm voz e/ou poder real para pressionar pela queda de Bolsonaro, mas, por ora, basta o registro de que são nada menos do que cúmplices do morticínio que já começou. Ou, para ficar no linguajar do vice-presidente, uma piada de mau gosto (e péssimo cheiro, o de cadáver).

Gilmar Mendes disse essa semana que “o presidente da República (…) não dispõe do poder para, eventualmente, exercer uma política pública de caráter genocida”. Uma decisão do STF proibiu Bolsonaro de revogar os decretos estaduais e municipais que versam sobre a quarentena.

O problema é que a retórica do presidente, bem como sua inação quanto à subsistência das pessoas, geram efeitos tão ou mais graves do que uma política pública oficialmente implementada. A quarentena está visivelmente frouxa. Os leitos de UTI estão começando a esgotar em cidades importantes. Ou seja, formalmente a decisão é ótima; na prática, é atropelada pelo poder de fato que Bolsonaro tem de influenciar o comportamento de milhões de pessoas.

O caráter genocida das palavras e ações de Bolsonaro está aí, gerando efeitos reais. Os que podem tentar pará-lo estão aguardando as pilhas de cadáveres para fazerem o que deve ser feito?

É o que parece, mas então será tarde demais. Depois de consumada a tragédia, as piadinhas vão pegar mal.

Pedro Breier

Pedro Breier é graduado em direito pela UFRGS e colunista do blog O Cafezinho.

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11 comentários

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Alexandre Neres

20 de abril de 2020 às 15h39

A História é pródiga em mostrar que os tiranos sempre mandam recados. Avisam antes, vão testando as condições antes da passagem ao ato. Por sua vez, quando os cidadãos de bem, as instituições, os poderes constituídos não tomam uma atitude ante os descalabros, passam pano porque “ele é assim mesmo”, “não vai acontecer nada mais grave”, “vamos domá-lo”, de antemão já se sabe aonde isso vai parar.

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Hudson

20 de abril de 2020 às 13h26

O Golpe foi um Acordão com STF, Mandetta, Maia, Sérgio Reis, malta nazi, com tudo.

Essa turma não vai fazer nada pra tirar o Bozodum de lá, porque ele os blinda enquanto destroçam os direitos do povo.

Vide gorilas na Amazônia, armas e munições desreguladas à vontade para milícias, interventores não eleitos nomeados “reitores” para destruir universidades federais, genocidas na Funai, grileiros no IBAMA, racistas na Palmares, pum do palhaço na Cultura, estelionatário da Justiça, EUA comandando as FFAA, etc.

As instituições “estão funcionando”, aos olhos da elite. Plano Condor II em ação.

E mais um ator, cooptado para tocar o terror: SARS-Cov-2.

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Vincent Velazquez

20 de abril de 2020 às 12h06

O problema é que, antes do final do ano, se houver impeachment, tem que haver nova eleição. Cai a chapa toda. Só assume o vice se for depois da metade do mandato. Até lá o Bozo faz o que quer.

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Admar

20 de abril de 2020 às 11h28

Bolsonaro:
1-Já cometeu Crime de Responsabilidade.
2-Vive um Isolamento Politico.
3-É Incapaz de Articular Politicamente com o Congresso.
4-Nos faz Patinar diante de uma Crise Econômica, Sanitária e Social.
5-Sua Impopularidade Cresce a cada dia.
6-Mente e Oculta Informações.
7-É Esquizofrênico.
Quem sustenta o Bolsonaro no Cargo?

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    Alan C

    20 de abril de 2020 às 13h02

    RESPOSTA: o medo de uma nova guinada à esquerda como aconteceu em 2002.

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Anderson

20 de abril de 2020 às 11h07

Desgoverno. Fascitas.

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Wilton Cardoso

20 de abril de 2020 às 08h48

Só vão agir, meu caro, quando a popularidade do Bozo estiver em níveis críticos, abaixo de 15%. Ou seja, quando os mortos não puderem ser enterrados e se esta situação de caos deixar o Bozo sem populariade.
Se a popularidade não cair mesmo com o caos, vão se compor com o fascista, como a direita sempre fizeram com governos fascistas.
A esquerda atualmente é mero coadjuvante, sem poder para nada.

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Saulo Barbosa

20 de abril de 2020 às 07h56

Gilmar Mendes, Dória, Botafogo e FHC, faltam só Lula, Frota e o impeachment tá feito…kkkkkkkkkkkkkk

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Alan C

20 de abril de 2020 às 00h56

Sendo bem sincero, adoraria que ele tivesse feito essa piadinha de tiozão do churrasquinho da forma como vc colocou, mas acho que só foi uma piada totalmente sem graça sem nenhum sentido, como é o Mourão nesse governo, sem graça e sem sentido.

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Paulo

19 de abril de 2020 às 23h43

Provavelmente, a sua matéria mais pertinente, Pedro! Sinceramente, depois de ouvir as manifestações de Botafogo, OAB, Barroso, FHC, governadores, etc, eu chego à conclusão de que todos estão num estágio de “alienação consciente”, ou algo próximo de uma retórica covarde, escapista, utilizada apenas para se esquivarem de seus deveres…

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    Pedro Breier

    20 de abril de 2020 às 09h50

    Valeu Paulo. Acho que é por aí mesmo.

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