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Bolsonaro e seus amigos: quase um remake de Cães de Aluguel. Foto: Marcos Corrêa/PR

Notas sobre a insanidade

Por Pedro Breier

07 de maio de 2020 : 23h12

Em meio ao caos passou meio despercebido o ataque sofrido pela Venezuela por homens armados em barcos. Maduro acusa os EUA de o terem arquitetado juntamente com o governo colombiano, havendo indícios importantes desse fato, conforme informou a Ana Prestes aqui no Cafezinho. Agora, vejam que interessante a frase proferida pelo secretário de Estado Mike Pompeo para negar o envolvimento do governo dos EUA no caso: “se estivéssemos envolvidos, seria diferente”.

Não é uma loucura? O país-modelo do sistema capitalista comporta-se como um valentão de colégio, com seus mais altos representantes jactando-se de sua força bruta. O pós pandemia é uma boa oportunidade para que os demais países do globo articulem-se e façam arrefecer os arreganhos imperialistas do Tio Sam. Fortalecer os organismos internacionais como a ONU e a OMS é um dos caminhos – para desespero do ministro das Relações Exteriores.

A passeata do presidente Bolsonaro, do ministro Paulo Guedes e seus amigos empresários até o STF, feita hoje (7), é mais uma ação que entra para o extenso rol de atos esdrúxulos do ex-capitão. A aglomeração em plena pandemia e a maneira espetacularmente antiquada de pressionar os ministros do Supremo – estilo cidade do interior em que o dono das fazendas vai ter uma conversinha amistosa com o juiz da vez (Bolsonaro é, não se pode negar, cioso de nossas tradições) – conseguiram aumentar a sensação de que há uma considerável dose de insanidade nas decisões do presidente.

Seria até engraçado não fosse um genocídio o resultado desse nonsense. Por conta da política de Bolsonaro, o isolamento social caiu em abril, exatamente no momento em que nossa curva de contágio e mortes dispara. Enquanto isso, o presidente faz um anúncio importante:

Estou cometendo um crime. Vou fazer um churrasco no sábado aqui em casa. Vamos bater um papo, quem sabe uma peladinha, alguns ministros, alguns servidores mais humildes que estão do meu lado.

Alguém informe às autoridades responsáveis por denunciar e condenar Bolsonaro (alô Augusto Aras, Rodrigo Maia e STF!) que já temos a confissão.

Por fim, também hoje a secretária da cultura Regina Duarte protagonizou uma cena perturbadora ao exaltar, cantando, a ditadura militar, além de minimizar as torturas e os assassinados nos anos de chumbo. Ela ainda emendou um “e o Stálin?” digno de algum adolescente “anarco-capitalista” de Facebook. Falta de empatia, humanidade, decoro, bom senso, tudo isso muito mal escondido atrás de um sorriso assustadoramente mecânico.

Mais uma cena de insanidade?

Ou tudo isso a que chamamos de loucura é, na verdade, uma racionalidade que “sente-se livre, sem qualquer controle institucional e/ou moral que interrompa o avanço do seu desprezo à humanidade para além de si e dos seus”, como defende a psicóloga Cynthia Ciarallo em um artigo profético de julho de 2019?

“Respeitem a loucura!”, conclama a doutora em psicologia, “até porque a loucura – enquanto subversão dessa racionalidade historicamente hegemônica – seria amar, solidarizar-se, reconhecer a diversidade de existências e respeitá-la, sacralizar a mãe-terra e seus guardiões, dividir o pão em uma sociedade que faz do mérito a justificativa para a manutenção da desigualdade”.

Bolsonaro não representa a desrazão, segundo ela, mas a “racionalidade da destruição”. Tendo a concordar. Louco mesmo, hoje em dia, é quem ama, ajuda, cuida, respeita e divide o pão.

Pedro Breier

Pedro Breier é graduado em direito pela UFRGS e colunista do blog O Cafezinho.

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