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Datafolha: São Paulo tem disputa acirrada de rejeição entre Doria, Bolsonaro e Lula

Por Miguel do Rosário

27 de setembro de 2020 : 14h39

A julgar pela última pesquisa Datafolha, as eleições em São Paulo sinalizam o que uma boa série da Netflix não deveria trazer jamais: um final previsível e insosso.

Entretanto, as temporadas anteriores da série nos garantem que o eleitor paulistano é um roteirista talentoso, com grande apreço a reviravoltas surpreendentes.

Em 2016, por exemplo, a 39 dias das eleições, o então candidato Russomano aparecia em liderança isolada, com 31% das intenções de voto. Quando as urnas se abriram, porém, o apresentador  de TV, conhecido em quase todos os lares paulistanos, teve apenas 13,6% dos votos válidos, num terceiro distante lugar, enquanto João Dória, que estava em quinto lugar na pesquisa Datafolha do dia 24 de agosto, com 5% dos votos, ganhava no primeiro turno, com 53% dos votos.

Agora estamos a 49 dias das eleições, e Russomano novamente desponta na frente, com 29% das intenções de voto, seguido de perto pelo atual prefeito, Bruno Covas (que herdou o mandato de João Dória), com 20% . Pelo histórico do eleitor paulistano, é bem possível que o resultado final seja completamente distinto.

Há algumas mudanças importantes ocorridas de 2016 para cá que precisamos levar em conta.

Não parece plausível, por exemplo, que algum candidato leve no primeiro turno, como ocorreu naquela eleição.

Há ainda dois fatores, conectados: o voto tucano foi em grande parte absorvido pelo bolsonarismo, e Russomano, desta vez,  tem um padrinho poderoso, incrustado no Palácio do Planalto.

Por outro lado, o presidente Bolsonaro não apresenta boa imagem junto ao eleitor paulistano: uma maioria impressionante de 64% afirma que o apoio de Bolsonaro teria o efeito de não votar naquele candidato, ao passo que apenas 11% disseram que o apoio de Bolsonaro seria determinante em seu voto.

Então voltamos a estaca zero e a expectativa de um turning point permanece alta!

Outra mudança relevante é que, à diferença de 2016, quando o então prefeito Fernando Haddad sofria com uma péssima avaliação dos eleitores, o atual ocupante do cargo, Bruno Covas, tem um desempenho razoável. Os 25% de bom e ótimo não é nada de sensacional, sobretudo se compararmos com os graus de satisfação de alguns outros prefeitos, como Kalil em Belo Horizonte e ACM Neto em Salvador; a vantagem de Covas é sobretudo o percentual relativamente baixo de ruim e péssimo, apenas 27%. Haddad, no mesmo período, tinha 49% de ruim e péssimo; Marta Suplicy e Erundina, 49% e 51%, respectivamente, no mesmo período de suas administrações.

Essa nota de Covas pode lhe garantir um lugar no segundo turno. Mas isso seria, como dissemos no início, um dos resultados “insossos”.

Todas as expectativas, da oposição brasileira, estão depositadas na performance de três candidatos do campo progressista: Guilherme Boulos (Psol), Marcio França (PSB) e Jilmar Tatto (PT).

Impulsionado pelo recall de sua participação nas eleições presidenciais, mas sobretudo por seu notável vigor pessoal, Guilherme Boulos, apresenta uma pontuação bastante digna e promissora, de 9%. Está mais ou menos claro que Boulos está absorvendo o voto petista/lulista da classe média progressista paulistana, e poderá crescer ainda mais se conseguir trazer para si o voto lulista da periferia.

A mesma pesquisa Datafolha estima que 20% dos paulistanos votariam “com certeza” num candidato apoiado pelo ex-presidente Lula. Esse percentual garantiria sua ida ao segundo turno. O problema é que o PT tem um candidato, Jilmar Tatto, que terá o monopólio da imagem de Lula em sua propaganda eleitoral.

Entretanto, um dos pontos mais sugestivos desta pesquisa é a convergência entre as rejeições a Lula e a Bolsonaro em alguns segmentos sociais relevantes.

Entre eleitores do sexo masculino, por exemplo, 60% responderam que não votariam de jeito nenhum tanto em Lula como em Bolsonaro. Essa rejeição a Lula atrapalha tanto o candidato do PT como Boulos, cuja figura está mais entrelaçada a Lula do que a de qualquer outro candidato.

A rejeição a Lula é igualmente forte junto aos eleitores com ensino superior, que formam quase um terço do eleitorado paulistano: neste segmento, 64% responderam que não votariam num candidato apoiado pelo ex-presidente; Bolsonaro, por sua vez, tem rejeição de 59% neste eleitorado; o governador João Doria é rejeitado por 60% dos eleitores paulistanos com ensino superior.

A rejeição a Lula e a Bolsonaro convergem também entre eleitores de renda média: entre os que auferem renda familiar de 2 a 5 salários, a rejeição a Lula e a Bolsonaro é de 58% e 66%, respectivamente; entre os que ganham entre 5 e 10 salários, de 63% e 61%. O Datafolha confirma a deterioração profunda de Bolsonaro junto à classe média paulistana.

Quanto a Marcio França, o seu potencial está ligado diretamente à sua capacidade de receber os eleitores que se desgarrarem de Russomano. Em virtude do perfil mais radical de Boulos, que talvez dificulte a absorção de votos mais conservadores, sobretudo do eleitorado evangélico, França tem um bom espaço para herdar o voto de oposição à prefeitura.

Outra vantagem de França é seu relativo distanciamento dos três “padrinhos” políticos que atuam sobre as eleições na capital: Dória, Bolsonaro e Lula. Nenhum outro candidato pode ostentar esse distanciamento. Isso tem um custo, naturalmente, sobretudo no primeiro turno, mas certamente será um excelente trunfo num eventual segundo turno, em virtude da alta rejeição dessas três lideranças junto aos paulistanos.  Pesquisas que trazem cenário de segundo turno, como uma recente divulgada pela Exame/Ideia, e sobretudo o bom senso de quem analisa as coisas com isenção, deixam bem claro que França está bem posicionado para herdar os votos centristas, tanto de Covas como de Russomano. Segundo a Exame/Ideia, um eventual segundo turno entre Russomano e França daria vitória de 38% X 34% ao socialista, ao passo que uma disputa entre Russomano e Boulos, daria vitória de 39% X 26% a Russomano.

Para chegar ao segundo turno, Marcio França terá que ampliar o voto na população de baixa renda. Este é seu maior desafio. Junto à classe média paulistana, por sua vez, França poderá contar com alguma ajuda de Ciro Gomes, que tem um desempenho bom neste segmento. O resultado das eleições de 2018, mostrou que o pedetista teve excelente performance em bairros de classe média da capital paulistana; em Pinheiros, por exemplo, um dos distritos mais sofisticados de São Paulo, Ciro obteve 22,44% dos votos, contra 11% de Alckmin, 10,6% de Haddad e 9% de Amoedo, perdendo apenas para Bolsonaro, que obteve 42%.

Hoje, França tem um desempenho numérico superior a Boulos (embora dentro da margem de erro, ou seja, há empate técnico) em alguns segmentos estratégicos: sexo masculino, baixa renda, com até o ensino médio, católicos, evangélicos e sem partido. Já Boulos leva vantagem expressiva, sobre França, entre eleitores com ensino superior, de renda mais alta e com preferência pelo PT.

De qualquer forma, tanto Boulos como França terão o desafio central de desinflar as intenções de voto em Russomano e Covas. O histórico de outras eleições favorece a suposição de que isso é viável, mas isso somente o tempo irá dizer.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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6 comentários

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Thadeu

29 de setembro de 2020 às 14h34

Esses números equilibrados mostram que – felizmente – não teremos uma eleição como em 2016-18 com o PT x antiPT, ou seja, os caciques tradicionais (PT-MDB-PSDB) voltam a sua força padrão, o que já era esperado com a cláusula de barreira e o fim das coligações. Na cidade de SP, isso favorece principalmente Covas, por ser o atual prefeito, ter passado por um drama pessoal e administrado razoavelmente bem na pandemia. Penso que cabe às esquerdas já pensar num eventual apoio a Covas no segundo turno, pra, no mínimo, manter a situação pra 2022 contra o RusseBoso.

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Tadeu

28 de setembro de 2020 às 12h33

SP tem três forças políticas, que são o petismo, o tucanismo e o malufismo. Os dois primeiros foram para o 2o turno em 2012, um resultado normal, dentro do que era normal na política brasileira até então. Em 2016, o tucanismo levou no 1o. turno porque os votos tucanistas e malufistas (aqui já com tendência para o bolsonarismo) se uniram em torno da candidatura Dória. Ou seja, o que derrubou o malufismo-bolsonarismo em 2016 foi o voto útil antipetista, não esse suposto caráter de cavalo paraguaio do Russomano. Não me parece haver contexto para esse mesmo voto útil agora.

2020 vai aclarar a estrutura política atual de SP. Se algum candidato petista (entendido aqui no sentido amplo, que engloba tanto Tatto quanto Boulos) chegar ao 2o. turno, será uma indicação que o petismo permanece vivo na cidade. Se, ao contrário, as duas candidaturas confirmarem que apenas conseguem chafurdar pelos 9%, é atestado de óbito para o petismo na cidade, o que vai ter consequências severas sobre toda a organização da esquerda, em nível nacional. Existe uma possibilidade enorme de essa eleição marcar o início do fim do hegemonismo petista, que de resto seria apenas uma consequência previsível da derrocada dos sindicatos. A incógnita é que forma a esquerda brasileira tomaria depois disso. Social-democracia sob a liderança do PSDB? Globalismo gayzista sob a liderança do PSOL? As coisas já mudaram um monte, e aparentemente vão mudar mais ainda.

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Walter

28 de setembro de 2020 às 11h00

Falar sobre rejeição à Lula em São Paulo é o mesmo que enxugar gêlo SP historicamente sempre votou conta o PT, desde sempre!
O que surpreende mesmo é a súbita rejeição aos dois , Doria e Bolsonaro

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Gilmar Tranquilão

27 de setembro de 2020 às 23h39

Rindo litros da rejeição da bozolândia kkkkkkkkk 2022 taí kkkkk

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Frank

27 de setembro de 2020 às 19h30

O Lula está INELEGÍVEL. Qualquer pesquisa com o nome dele incluso é lixo.

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Miramar

27 de setembro de 2020 às 17h36

Nunca imaginei que eu representasse 60% da população paulistana…

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