Bahia: Refinaria privatizada provoca desabastecimento de Gás de Cozinha

Bolsonaro canta parabéns para o ministro Marcos Pontes: cada vez menos motivos para comemorar. Foto: Leonardo Marques - ASCOM/MCTI

A hora do xeque

Por Pedro Breier

18 de março de 2021 : 11h27

“Bicha”, “representante do mal”, “viciados”, “sodomitas”. Roberto Jefferson, presidente do PTB, usou essas palavras, dentre outras (como comunistas, é claro), para se referir aos tucanos João Doria e Eduardo Leite, governadores respectivamente de São Paulo e do Rio Grande do Sul, em um áudio de Whatsapp vazado (ouça aqui, com o perdão pela fonte). Roberto Jefferson é um dos principais aliados e articuladores de Jair Bolsonaro hoje, a ponto do PTB ser uma das siglas com maiores chances de receber Bolsonaro para a disputa eleitoral de 2022.

Em outra conversa recente, esta pública (veja aqui), Jefferson diz, exaltado, que “é hora da força armada agir”, chama Doria de “bicha louca”, diz que “tá na hora, presidente Bolsonaro”, seguido de um “excesso de democracia dá nisso, é anarquia” e sugere o fechamento do Congresso, “aquela lata de lixo”. E completa, falando dos ministros do STF:

Pau neles, presidente. O senhor tem apoio do povo. Pau neles, ponha pra voar aqueles onze urubus. Tire aqueles malandros comunistas de lá. (…) Corruptos, lobistas, comunistas, satanistas.

Esse discurso nazista-delirante está na boca do presidente do partido que deve abrigar Bolsonaro para uma eventual disputa em 2022.

Em sua live da semana passada Bolsonaro também insinuou medidas de exceção, e seus apoiadores urraram pelas ruas de algumas cidades do país no último fim de semana, em pleno colapso nacional da saúde. Para completar, o vereador Carlos Bolsonaro fez uma denúncia contra Felipe Neto e o youtuber recebeu a visita da polícia, que o intimou para depor por suposto crime contra a segurança nacional. Felipe Neto acredita que foi denunciado por ter chamado o presidente de genocida.

Cito esses fatos porque eles apontam para uma radicalização de personagens importantes do bolsonarismo no sentido de um autoritarismo mais explícito.

É, tudo indica, uma ofensiva de quem sabe estar encurralado.

Bolsonaro passar a usar máscara, seu filho Eduardo escrever que “nossa arma agora é a vacina”, a troca do ministro da saúde, tudo isso é uma tentativa mambembe de autoblindagem, pois o governo federal certamente estava muito bem informado sobre o que estava para acontecer (e tende a piorar drasticamente): 3 mil mortos diários e subindo, enfermarias de hospitais fechando, UTIs sem vagas, gente morrendo em casa. O caos.

Era evidente que os gritos (ao menos os virtuais) de genocida iriam ressurgir com força e o impeachment voltaria à pauta. Como o bolsonarismo sobrevive do confronto e da radicalização, numa situação como essa, quando se tona inviável afastar a culpa do governo federal pelo morticínio, a reação só pode ser violenta, autoritária. Ainda mais fascista do que já estamos acostumados.

A tendência é o quadro degringolar. Bolsonaro esboçou nomear uma pessoa razoável para o ministério da saúde, mas sua horda de fanáticos não permitiria uma ousadia dessas. O presidente sabe disso e acabou nomeando algém menos hostil ao negacionismo, alguém capaz de elogiar e dizer que vai continuar o trabalho do “”especialista em logística”” que o precedeu.

Marcelo Queiroga, o novo ministro, defendeu ontem (17) o distanciamento social, mas antes disso afirmou que a política de combate à pandemia é do governo Bolsonaro, e não do ministério da saúde. Esses sinais trocados são emblemáticos da estratégia do presidente, que precisa manter o discurso psicopata junto à sua base mas também pretende afastar de si o carimbo de genocida com medidas minimamente respaldadas pela ciência.

Só que há um outro aspecto nessa afirmação do ministro (a de que a política de saúde é de responsabilidade do presidente). Vejamos o que o vice, Hamilton Mourão, falou sobre o assunto:

A função do ministro quem define é o decisor, é o presidente da República. O ministro é um executor das decisões do presidente da República. Até por isso, então, o presidente é o responsável por tudo o que aconteça ou deixe de acontecer, essa é a realidade.

Não sei vocês, mas para mim este “o presidente é o responsável por tudo o que aconteça ou deixe de acontecer” soou como um tirar o corpo fora. Mourão está, assim como Bolsonaro, muito bem informado sobre o que vem pela frente. Ele sabe o tamanho do crime continuado que o governo federal está cometendo e, por isso, tenta empurrar de antemão toda a responsabilidade para o presidente. A frase de Queiroga, que também está bem informado sobre a situação, parece obedecer à mesma lógica: vou assumir o ministério no meio do caos, mas o responsável pela tragédia em curso é Jair Bolsonaro.

Obviamente ambos, ministro e vice-presidente, assim como todos os que dão suporte a este governo, têm sua parcela de responsabilidade. Mas o genocida-mor é, de fato, o presidente, e quem tem algum bom senso sabe que a chance do genocídio ficar impune é cada vez menor.

Abundam, portanto, os motivos para que Bolsonaro se sinta acuado. O presidente não teve uma revelação, nenhum anjo apareceu em seu sonho e disse “Você tá fazendo merda, cara, troca o ministro da saúde e muda essa política negacionista aí”. Bolsonaro entregou o peão Pazuello para dar uma sobrevida ao rei (ele próprio), à rainha (Micheque? Queiroz? Seus filhos tresloucados?) e aos bispos falastrões que formam sua base de apoio mais fiel.

O centrão – essa entidade quase sobrenatural da política brasileira que é uma exímia jogadora de xadrez – já percebeu que a família real está exposta. O descontentamento com a escolha de Bolsonaro para a Saúde (o presidente ignorou as indicações do centrão) foi bem divulgado para a imprensa. Centrão arisco cobra mais caro pelo seu apoio e é (mais um) indicativo de que o governo está enfraquecendo.

E isso é uma boa notícia. É urgente derrubar Bolsonaro. Todo o resto é supérfluo diante do massacre diário a que estamos sendo submetidos. As palavras genocida e impeachment não devem sair das bocas e dos teclados oposicionistas até que o presidente caia. É hora de deixar Bolsonaro em xeque permanente.

Pedro Breier

Pedro Breier nasceu no Rio Grande do Sul e hoje vive em São Paulo. É formado em direito e escreve sobre política n'O Cafezinho desde 2016.

Apoie O Cafezinho

Crowdfunding

Ajude o Cafezinho a continuar forte e independente, faça uma assinatura! Você pode contribuir mensalmente ou fazer uma doação de qualquer valor.

Veja como nos apoiar »

7 comentários

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do site O CAFEZINHO. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie.

Escrever comentário »

Getúlio

18 de março de 2021 às 15h17

A lucidez de Pedro Breier é a gota de adoçante que tempera o Cafezinho. Bem temperado podemos brindar: Ciro Gomes – Ministro da Fazenda de um próximo governo de forças progressistas . Ta Ok!?

Responder

EdsonLuiz.

18 de março de 2021 às 14h07

Então, cadê a nossa plaquinha pendurada na parede deste ‘ocafezinho’:

FORA bOLSONARO!
(escrita assim mesmo, gritando a minusculosidade do genocida).

Responder

Alan C

18 de março de 2021 às 12h48

1) bozo não vai cair, por mais incrível que possa parecer ele ainda é o idiota útil para quem manda DE VERDADE no país, que, obviamente, nunca foi ele.

2) o idiota útil acusou o golpe na coletiva do Lula e está desesperado.

3) O dudu bananinha puxou mesmo o pai… falar nossa arma “agora” é a vacina, depois de mais de um ano de pandemia, com a Pfizer tendo oferecido 70 milhões de doses a meses atrás, é um atestado de imbecilidade. Nada de novo…

4) bozolândia, e associados, sempre dão um jeito de colocar palavras como maricas, bicha louca, sodomitas e sempre incluem o ânus na conversa. Freud explica essa fixação…

Responder

    Pedro Breier

    18 de março de 2021 às 14h52

    concordo com o 2, 3 e 4. quanto ao 1 tenho esperanças de que caia… mas realmente pra muita gente poderosa é interessante que ele continue por enquanto.

    Responder

Alexandre Neres

18 de março de 2021 às 12h10

A título de curiosidade, para acompanhar como os fatos se sucedem historicamente, vale registrar que Roberto Jefferson era da tropa de choque do governo Collor e foi ele que cunhou o termo “mensalão” no governo Lula.

Responder

    Pedro Breier

    18 de março de 2021 às 14h51

    Bem lembrado! Foi ele quem fez a denúncia inicial no mensalão inclusive, não?

    Responder

      Alexandre Neres

      18 de março de 2021 às 16h04

      Bingo! Temos de compreender o mecanismo que leva essas personagens esdrúxulas, pretensamente desinteressadas, a reaparecerem de quando em quando à frente dos holofotes.

      Responder

Deixe um comentário