Analista da Ideia fala sobre “voto útil” dos eleitores de Ciro a Lula no 1° turno

Foto tirada no aniversário de Freixo, 12 de abril de 2022. Twitter do deputado.

Análise Datafolha no RJ: desempenho forte de Freixo na classe média fluminense vai ajudar Lula

Por Miguel do Rosário

13 de abril de 2022 : 18h45

O relatório completo da pesquisa Datafolha para o governo do Rio, divulgado há poucos dias, nos permite fazer uma análise detalhada do processo eleitoral no estado.

Os comentários vem após as tabelas e gráficos. Iremos usar apenas a situação 2, que traz sete candidatos (contra 10 candidatos na situação 1).

Destacamos, na tabela e nos gráficos, o voto estimulado dos três principais candidatos competitivos.

Freixo lidera decididamente entre mulheres, o que repete o padrão visto nas pesquisas nacionais para presidente, com mulheres adotando opiniões políticas mais progressistas do que os homens. Bolsonaro, por exemplo, tem um desempenho muito pior entre mulheres do que entre homens.

Repare, no entanto, que o voto de Freixo (assim como de Lula) é mais ou menos equilibrado, com percentuais parecidos entre homens e mulheres.

A rejeição de Freixo, que alguns observadores políticos no estado apontavam como um de seus principais problemas, com alguns assegurando que o candidato seria o “ideal para perder no segundo turno”, não aparece tão ameaçadora nessa pesquisa: apenas 26% dos entrevistados responderam que não votariam “de jeito nenhum” no candidato do PSB. Qualquer rejeição abaixo de 30% hoje, especialmente para candidatos que são muito conhecidos, como é o caso de Marcelo Freixo, pode ser considerada baixa.

Acrescente-se que não é bom, para um candidato, ter rejeição baixa demais, porque isso significa que ninguém irá mencioná-lo, nem para falar mal. Quando se tem algum grau de rejeição, o seu nome vira assunto e isso desperta o interesse dos eleitores.

Freixo tem um ótimo desempenho entre eleitores de renda mais alta, o que será muito útil para quebrar o tradicional antipetismo desses segmentos.

De quebra (e isso não é trivial), ajudará Lula a reduzir sua rejeição junto à classe média fluminense.

Entre eleitores fluminenses com renda entre 5 e 10 salários, Freixo tem 30%, 10 pontos a mais que o governador Claudio Castro, que tenta continuar no cargo.

Freixo não vai mal, todavia, entre o eleitorado de baixa renda. O deputado tem 16% nesse segmento, 3 pontos à frente de Claudio Castro. A expectativa da campanha de Freixo é que ele cresça junto a esse eleitorado na medida em que o eleitor o identificar como o candidato mais alinhado ao projeto de Lula.

Freixo lidera em todas as faixas de renda.

A rejeição de Freixo também não é alta nas faixas de renda média, e é baixa entre famílias pobres. Sua rejeição cresce conforme aumenta o poder aquisitivo dos eleitores, mas não chega nunca a mais de 40%.

Na faixa superior, de eleitores com renda familiar acima de 10 salários, um eleitorado pequeno, mas perigoso, o campeão de rejeição é Claudio Castro, com 44% dos entrevistados afirmando que não votariam nele “de jeito nenhum”.

O deputado do PSB tem um desempenho vigoroso entre eleitores mais jovens, até 34 anos. Isso pode constituir um trunfo para sua campanha, porque é um eleitorado energizado, disposto a sair nas ruas, além de ser mais ativo nas redes sociais.

Aliás, esse combo – bons números entre jovens e classe média – será muito útil para Freixo, por lhe dar uma base tradicionalmente muito barulhenta nas ruas e na internet. Esse combo também servirá como uma base importante para Lula.

Em 2018, um dos problemas do PT foi o seu isolamento entre eleitores de baixíssima renda e pouca instrução, que são mais tímidos, silenciosos ou mesmo ausentes nas discussões de rede social. Bolsonaro, ao contrário, vinha se tornando o campeão da classe média desde 2017.

Segundo o Datafolha, Freixo lidera isolado entre eleitores com ensino superior, com 36%, quase 20 pontos à frente de Claudio Castro, que pontuou 18% nesse segmento.

Ter um eleitorado mais instruído, repito, será um trunfo importante para a construção de uma campanha militante e ativa nas redes, tanto para Freixo como para Lula.

Rodrigo Neves tem apenas 4% entre eleitores com ensino superior.

Freixo tem 29% na capital, 10 pontos à frente de Claudio Castro. A capital abriga 40% dos eleitores do estado, os mais conectados e instruídos. É lógico que liderar na capital é um importante trunfo para qualquer candidato, embora em outras eleições estaduais tivemos vencedores que compensavam o baixo desempenho na capital com um altíssimo índice de votos no interior. Claudio Castro, no entanto, está muito longe de repetir o fenômeno Garotinho.

As demais regiões metropolitanas (que não a capital) representam 36% do eleitorado fluminense. O interior tem 25% dos eleitores. Ou seja, o segredo é ter eleitores na capital e nas demais regiões metropolitanas (também chamadas de “periferia”).

Entretanto, Freixo não faz vergonha no interior, região na qual ele pontua 15%, apenas 3 pontos atrás dos 19% de Claudio Castro, além de muito à frente dos 5% de Rodrigo Neves.

O Rio de Janeiro é o único estado brasileiro onde o eleitorado evangélico já superou o católico. Segundo o Datafolha, 34% dos eleitores fluminenses são evangélicos, contra 31% de católicos, 5% de espíritas/kardecistas, 2% de adeptos do candomblé, 1% da umbanda. Temos ainda 7% que são de “outras religiões”, e 18% de eleitores que declararam “não ter religião”. Há diferenças entre capital e interior. Na capital, ainda há maioria de 35% de católicos, contra 27% de evangélicos. Mas na região metropolitana em geral (que engloba a capital), os evangélicos passam à frente, com 33%, contra 29% de católicos. No interior, há empate: 37% de evangélicos e 36% de católicos.

Freixo lidera entre católicos, mas perde entre evangélicos. Mas igualmente não passa vergonha: sua rejeição entre evangélicos é apenas ligeiramente superior a 30%, o que é tranquilo.

Como era de se esperar, Freixo tem um desempenho muito bom entre os entrevistados que declararam preferência partidária pelo PT, pontuando quase 40% neste segmento. Mas ele também vai bem entre os simpatizantes do PDT, entre os quais tem mais de 30%. Curiosamente, o candidato do PDT, Rodrigo Neves, fica em terceiro lugar junto a esses eleitores, mas esses dados tem margem de erro muito alta, porque apenas 3% dos entrevistados declararam preferência pelo PDT. O percentual de preferência pelo PT no Rio de Janeiro, por sua vez, é de 19%, sendo 23% na capital.

Aliás, uma curiosidade: 49% dos entrevistados que declararam preferência pelo PDT tem mais de 60 anos, o que provavelmente significa que a herança brizolista no estado envelheceu. Apenas 13% dos entrevistados que declararam preferência pelo PDT tem entre 16 e 34 anos, ao passo que 36% dos simpatizantes petistas estão nessa faixa.

O Datafolha também cruzou dados de intenções de voto e rejeição com a aprovação ao governo de Eduardo Paes. O resultado é o seguinte: entre eleitores que aprovam positivamente o prefeito Eduardo Paes (dão nota bom/ótimo à sua administração), Freixo tem 43% dos votos, contra 16% de Claudio Castro e 4% de Rodrigo Neves.

Já entre aqueles que não gostam de Paes, ou seja, que consideram sua gestão como ruim ou péssima, Freixo tem apenas 16% dos votos, contra 21% de Castro.

Os dados cruzados com a avalição de Bolsonaro mostram que a polarização nacional está fortemente presente nas eleições para o governo do Rio.

Entre eleitores que gostam de Bolsonaro, apenas 5% votam no Freixo, ao passo que, entre aqueles que não gostam de Bolsonaro, o deputado pontua 35%. Esses números são quase que exatamente invertidos quando se olha para as intenções de voto de Claudio Castro: entre admiradores de Bolsonaro, o governador tem 31%; entre os que não gostam de Bolsonaro, tem apenas 10%.

O Datafolha também cruzou dados de cor de pele e voto, e Freixo lidera isoladamente entre eleitores de cor preta, com 26%, contra 15% de Claudio Castro. Mas o deputado também está à frente entre brancos e pardos.

Conclusão

Freixo larga com uma base social muito forte, com força na capital e entre eleitores tradicionais de esquerda. Ele precisa crescer no interior e entre evangélicos. O seu palanque será muito útil para Lula, por causa da entrada de Freixo numa classe média que, até pouco tempo, ainda tinha forte rejeição ao petista. Por outro lado, Lula ajudará Freixo a ampliar sua votação junto ao eleitorado de baixa renda, especialmente na baixada fluminense.

Claudio Castro larga na frente no interior e junto aos evangélicos. Sua chance é colar no Bolsonaro e apostar no antipetismo, mas a estratégia não tem mais a força de antes, porque o presidente perdeu grande parte do apoio que tinha na classe média, que era seu núcleo duro, e o eleitor de baixa renda e morador na periferia está insatisfeito com a economia. Lula está obtendo um bom desempenho junto a esse eleitorado fluminense de baixa renda, como já analisamos num post anterior.

Quanto a Rodrigo Neves, ele voltou ao isolamento político, que parecia ter rompido quando celebrou um acordo com Eduardo Paes e o PSD. Tudo não passou, aparentemente, de um jogo de cena de Paes, uma tentativa do prefeito de chamar atenção de Lula e convencê-lo a desmontar ou debilitar a aliança em torno de Marcelo Freixo. O PDT foi usado. Neves agora se encontra na mesma situação de Ciro Gomes no plano nacional.

As vagas de esquerda e direita já estão ocupadas, e ambos os candidatos que lideram a pesquisa são, cada um à sua maneira, extremamente fortes.

Freixo tem 1,7 milhão de seguidores no Twitter, e 1,1 milhão no Instagram, enquanto Rodrigo Neves tem 40,2 mil seguidores no twitter e 29,5 mil no Instagram. Hoje em dia, rede social é uma das principais armas políticas de um candidato. Além disso, Freixo tem apoio explícito do PT, do eleitor da capital e está, rapidamente, se consolidando como o “candidato de Lula” no Rio de Janeiro.

Do outro lado, à direita, há o governador Claudio Castro, que tem apoio do presidente Jair Bolsonaro e vive um momento de bonança, por causa do dinheiro da venda da Cedae e dos royalties do petróleo, que voltaram a crescer.  Além dessa dificuldade, Neves se encontra amarrado pela candidatura de Ciro Gomes. Se fizer qualquer movimento na direção de Lula, é massacrado pela militância cirista. Por outro lado, se abraçar a campanha de Ciro Gomes, entrega o eleitorado lulista no estado a Freixo.

O relatório completo da pesquisa Datafolha pode ser baixado aqui.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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2 comentários

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Galinzé

15 de abril de 2022 às 10h52

O Datafolha também cruzou dados de cor de pele e voto…

E’ normal isso ou é racismo puro…?

Responder

    Miguel do Rosário

    15 de abril de 2022 às 18h19

    É normal.

    Responder

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