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Imagem: Divulgação

Maurício Habert: O clarão das águas, no deserto negro

Por Redação

14 de junho de 2022 : 08h27

Por Maurício Rezende Habert

Foi difícil ouvir hoje a música Matita Perê, de Tom Jobim e Paulo Cesar Pinheiro, e não conectá-la com o recente caso do desparecimento do jornalista britânico Dom Philips e o indigenista Bruno Pereira na floresta amazônica.

A música, que dá nome ao ser folclórico que se transforma em um pássaro agourento, relata a história de um certo “João”, que acorda dentro de um pesadelo, no qual ele é emboscado por um certo “Você”.

Desde o início deste épico musical de Jobim, se percebe pelo tom circular de um violão melancólico que o destino trágico do personagem em fuga já está traçado, corresse ele para onde fosse. O grito do pássaro, emulado pela orquestra, dá início a emboscada.

No jardim das rosas
De sonho e medo
Pelos canteiros de espinhos e flores
Lá, quero ver você
Olerê, Olará, você me pegar

Madrugada fria de estranho sonho
Acordou João, cachorro latia
João abriu a porta
O sonho existia

Dom e Bruno sempre souberam que suas ações de apoio a proteção da mata e tribos estavam marcadas por um grande risco. Ameaças do garimpo. Ameaças de madeireiros ilegais. Ameaças de pescadores invasores. Eram comuns. Curiosamente cada vez mais comuns desde 2019.

Mesmo assim, apoiados pela paixão ao que faziam continuavam com o trabalho de sonho e medo. Além do mais, podiam contar com a parceria dos índios da região do Vale do Javari – conhecedores e guardiães do verde amazônico. Seguiam firmes rio abaixo. “Quero ver você… você me pegar”.

Manhã noiteira de força viagem
Leva em dianteira um dia de vantagem
Folha de palmeira apaga a passagem
O chão, na palma da mão, o chão, o chão

E manhã redonda de pedras altas
Cruzou fronteira de servidão
Olerê, quero ver
Olerê

Às 7h de uma manhã noiteira, Bruno e Dom mandaram sinais de partida. Origem: Comunidade de São Rafael. Destino: Atalaia do Norte. Estado do Amazonas, próximo a fronteira com Peru e Colômbia. Rota esta que não é possível de “cálcular no google”, uma vez que só é feita de canoa pelas vias do sinuoso Rio Itaquaí. Que desagua no Javari, que desagua no Amazonas.

Itaquaí. Do tupi antigo: itá (pedra), kûá (enseada) e ‘y (rio). Rio da enseada de pedra.

Lugares de um Brasil que provavelmente nós, do longínquo sul urbano, só conheceremos por satélite ou por notícias de jornal. É verdade que alguns poucos as adentraram mentalmente, como Jobim e Villa Lobos tão bem fizeram, através de suas leituras, inspirações e invencionices de brancos aspirantes à navegantes mentais de um Brasil remoto e infinito.

Alguns outros poucos brancos, tais como João, Bruno e Dom, ousaram romper o mundo das subjetividades imaginadoras e adentraram de fato fisicamente este universo. Estariam fugindo ou buscando algo? Doaram suas vidas dentro destas manchas, instavelmente gigantes e verdes. Cruzaram a fronteira da servidão.

Não sabemos o que se passou entre um ponto e outro da viagem. Daqui em diante, só especulação tal como os Tons, Villas e Drummonds.

Seguimos com o relato do estranho João:

E por maus caminhos de toda sorte
Buscando a vida, encontrando a morte
Pela meia rosa do quadrante Norte
João, João

Um tal de Chico chamado Antônio
Num cavalo baio que era um burro velho
Que na barra fria já cruzado o rio
Lá vinha Matias cujo o nome é Pedro
Aliás Horácio, vulgo Simão
Lá um chamado Tião
Chamado João

Provavelmente, um encontro, (in)esperado com milicianos integrantes do grupo de seus ameaçadores? Chico? Antônio? Pedro?

Ou teriam naufragado a canoa em algum choque contra as pedras arredondadamente esculpidas pelo Rio Itaquaí?

Recebendo aviso entortou caminho
De Nor-Nordeste pra Norte-Norte
Na meia vida de adiadas mortes
Um estranho chamado João

A dupla já vinha de um histórico de adiadas mortes. Bruno havia sido exonerado de sua função de coordenador na FUNAI em 2019, por talvez demonstrar muito afinco nas ações contra o garimpo. No mesmo ano, o jornalista britânico Dom, com seu sotaque inglês carregado, fora já execrado por bolsonaristas, após enfrentar o presidente em uma coletiva de imprensa, ao perguntar-lhe sobre os aumentos de casos de desmatamento na Amazônia.

Entortar caminhos para continuar a caminhada e adiar a morte. E adiar o fim do mundo… É o lema dos que vivem neste país com o objetivo de proteger o meio-ambiente e povos originários, constantemente ameaçados por gangues ilegais e até mesmo por gangues legalizadas e empossadas em palácios.

Retomados pelo assobio premonitório do pássaro instrumental Matita-Perê, retomamos o início do épico-lírico:

Que João fugisse
Que João partisse
Que João sumisse do mundo
De nem Deus achar, Ierê

João, nossa fusão poética de Bruno e Dom, já tinha seu sumiço marcado desde o início da emboscada, uma vez que terceiros já haviam condenado as fronteiras de vida e morte aos dois tipos que atrapalhavam seus negócios.

Chico Mendes e Dorothy Stang são somente alguns exemplos mais conhecidos, dentre os milhares de defensores da natureza – um sinônimo de refreadores do capitalismo – que morrem ano após ano pelas indústrias mineradoras, madeireiras, do agronegócio e outras mais.

Por sete caminhos de setenta sortes
Setecentas vidas e sete mil mortes
Esse um, João, João
E deu dia claro
E deu noite escura
E deu meia-noite no coração

Passa sete serras
Passa cana brava
No brejo das almas
Tudo terminava
No caminho velho onde a lama trava
Lá no todo-fim-é-bom
Se acabou João

Após mais de sete dias da meia-noite no coração, com os corpos de Dom e Bruno ainda não encontrados, é quase certo afirmar que “se acabou João”.

Seus corpos-espectros já viraram histórias, narrativas, notícias e possivelmente virarão canções-épicas. Suas trajetórias e exemplos serão levados adiante, pois apesar de todo o risco iminente, a outra alternativa da história é impossível de ser uma aliada.

Uma esperança sempre irá ressurgir nos lábios dos combalidos que, mesmo após derrotas, continuam a sussurrar ao inimigo: “quero ver você, você me pegar”.

O quiasmo de expressões formado pela estrofe final de Matita Perê é o destino de nossos tempos: no clarão das águas, no deserto negro, é o ambiente de contraposições, de idas e vindas, que seguiremos com força nossa navegação de busca, fuga, descoberta e redenção.

No Jardim das rosas
De sonho e medo
No clarão das águas
No deserto negro
Lá, quero ver você
Lerê, lará
Você me pegar

Dom e Bruno vivem.

Maurício Rezende Habert é engenheiro de energia pela Escola Politécnica da USP, 29 anos, apaixonado por música e literatura.

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3 comentários

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Wanise Bloc

15 de junho de 2022 às 12h46

Um belo texto! Reflexões altamente pertinentes. O que vivemos neste país com este desgoverno é tão absurdo que chegamos a nos envergonhar. Como chegamos a isso é a pergunta que não deve calar.

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Querlon

14 de junho de 2022 às 12h18

Poucos dias atràs uma mulher (professora) se recusou a retirar a camera de segurança que havia instalado na frentede casa…morreu a tiros.

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Natalia

14 de junho de 2022 às 09h51

Hipocrisia em doses industriais…centenas de pessoas somem e morrem todos os dia no Brasil e ninguem tà aì.

Uma menina de 7 morreu a tiros semana passada e Cabo de Santo agostino.

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