Uma análise genética detalhada revelou informações surpreendentes sobre dois homens enterrados no Dolmen de Menga, um monumento megalítico construído no quarto milênio a.C., durante o período Neolítico, localizado na Espanha.
Os restos mortais, datados entre os séculos 10 e 11 d.C., foram examinados em um estudo publicado no Journal of Archaeological Science: Reports, trazendo novas perspectivas sobre a composição populacional da Península Ibérica na Idade Média.
Conforme reportado pelo portal Live Science, um dos indivíduos analisados apresenta uma ancestralidade diversificada, com raízes europeias, norte-africanas e do Oriente Médio, evidenciando a intensa interação cultural na região durante aquele período.
Os resultados do DNA mostram que o cromossomo Y do homem remonta ao Calcolítico na Península Ibérica, enquanto seu DNA mitocondrial compartilha mutações com populações contemporâneas do Marrocos e da Argélia.
Essa mistura genética reflete a presença significativa de ancestrais norte-africanos no sul da Península Ibérica, especialmente a partir do século 8 d.C., com a chegada do domínio islâmico em 711 d.C. Esse período marcou o início de trocas culturais e demográficas intensas através do Mediterrâneo, consolidando uma herança genética diversificada na região que perdurou por séculos.
Na época em que os homens foram sepultados, o sul da Espanha integrava o território de Al-Andalus, uma área sob administração islâmica que abrigava uma coexistência de diferentes tradições religiosas, incluindo islamismo, cristianismo, judaísmo e práticas pagãs.
Um detalhe intrigante do sepultamento é a orientação dos corpos, com as cabeças voltadas para o sudoeste, alinhadas ao eixo do próprio monumento. Essa disposição diverge dos padrões observados em necrópoles islâmicas da região, onde os corpos geralmente apontam para o sudeste, na direção de Meca, levantando hipóteses sobre possíveis influências de crenças mistas no ritual funerário.
Leonardo García Sanjuán, professor da Universidade de Sevilha e coautor do estudo, argumenta que a escolha de sepultar os indivíduos na entrada de um monumento tão antigo pode indicar uma reverência especial ao dolmen, sugerindo uma fusão de visões de mundo que combinavam elementos islâmicos e pagãos.
Yves Gleize, arqueólogo e antropólogo biológico, complementa essa análise ao destacar o simbolismo das cavernas no contexto muçulmano, frequentemente associadas a retiros espirituais. Assim, o dolmen poderia ter sido interpretado como um espaço sagrado ou de introspecção, o que reforça a complexidade das práticas culturais da época.
A ausência de objetos funerários no local dificulta uma conclusão definitiva sobre as crenças religiosas dos indivíduos. Embora a análise genética tenha esclarecido aspectos de sua origem, as questões sobre suas práticas espirituais permanecem abertas.
O estudo, publicado em março de 2026, continua a expandir o conhecimento sobre as dinâmicas populacionais e culturais na Península Ibérica medieval, destacando como a região foi um ponto de convergência de diferentes tradições e linhagens ao longo dos séculos. Pesquisas futuras podem trazer mais luz sobre os significados dos rituais observados no Dolmen de Menga e sobre a vida desses homens que habitaram um período de profundas transformações históricas.


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