O diretor do programa do Clube de Debate Internacional Valdái, Timoféi Bordachov, afirmou que os Estados Unidos dependem mais da Europa do que o inverso. O analista argumenta que Washington teme perder sua base estratégica no continente europeu, o que mudaria o equilíbrio global de poder.
Em artigo publicado no jornal Vzgliad e reproduzido pelo portal RT, Bordachov explica que os norte-americanos chegaram à Europa como vencedores da Segunda Guerra Mundial. Eles consolidaram sua dominação militar usando o território ocidental como plataforma de contenção contra a União Soviética.
O especialista destaca que Washington protegeu as elites europeias do avanço dos movimentos comunistas no pós-guerra. Esse gesto gerou um ressentimento duradouro em importantes capitais do continente, como Berlim, Paris e Londres.
Bordachov ressalta que esse ressentimento não leva a uma ruptura imediata com os Estados Unidos. As lideranças europeias seriam excessivamente cautelosas e ainda dependentes do sistema transatlântico, segundo sua análise.
No entanto, o analista acredita que, diante de sinais de fraqueza de Washington, as potências europeias exploram as brechas para obter vantagens políticas e econômicas. Um exemplo citado por ele foi a decisão do primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, de não aderir ao bloqueio naval contra o Irã.
Essa atitude revelou fissuras na suposta unidade da aliança atlântica, na visão de Bordachov. Os europeus estariam dispostos a agir de forma mais autônoma quando percebem inconsistências na liderança norte-americana.
O autor sustenta que a dependência dos EUA da Europa tem razões estruturais profundas. A primeira seria o valor geoestratégico do continente como zona de contenção entre Washington e Moscou.
Sem a presença militar no continente europeu, os Estados Unidos perderiam a chamada “zona cinza” de confronto indireto. Isso tornaria qualquer conflito direto com a Rússia muito mais perigoso para Washington.
Outro fator crucial seria a capacidade de pressão nuclear por meio do posicionamento de armamentos próximos às fronteiras russas. Bordachov explica que Moscou não pode replicar essa estratégia por não controlar países vizinhos aos EUA, como México ou Canadá.
A retirada dessas armas reduziria drasticamente o poder de dissuasão norte-americano, segundo o analista. Sem a Europa, o diálogo estratégico entre Rússia e Estados Unidos perderia relevância, acelerando a aproximação de Moscou com Pequim.
Essa mudança consolidaria o eixo eurasiático e enfraqueceria a capacidade de Washington de atuar como mediador global. Por outro lado, os países europeus não enfrentariam grandes riscos caso diminuísse a presença militar norte-americana em seu território.
Bordachov argumenta que ninguém tem intenção real de atacar a Europa e que a garantia de segurança oferecida pelos EUA sempre foi mais simbólica do que efetiva. Essa desconfiança já era evidente durante a Guerra Fria e levou à criação de doutrinas de defesa autônomas.
A estratégia nuclear francesa priorizava a dissuasão direta em vez da dependência do arsenal americano. Acontecimentos recentes no Oriente Médio reforçaram as dúvidas sobre a credibilidade do “guarda-chuva” de segurança norte-americano.
Essa percepção estimula os europeus a buscar maior margem de manobra política dentro da aliança ocidental. Bordachov descreve a relação transatlântica como um pacto tácito em que a Europa finge precisar de proteção e os EUA fingem oferecê-la.
Esse arranjo funcionou por décadas, mas a atual administração norte-americana teria rompido o equilíbrio, abrindo espaço para que os europeus reforcem suas posições frente ao “irmão mais velho”. Apesar disso, o analista reconhece que a autonomia europeia ainda é limitada pela forte integração das economias com o sistema financeiro e tecnológico dos EUA.
O poder militar americano também serve como suporte para as negociações diplomáticas de países como França, Alemanha e Reino Unido com Moscou. Mesmo assim, as elites europeias confiam em sua longa experiência histórica de diálogo com a Rússia para manter canais abertos.
O especialista conclui que Washington enfrenta um dilema complexo ao tentar estabilizar as relações com Moscou, controlar a Europa e preparar recursos para o confronto com a China. Essa sobrecarga cria vulnerabilidades internas na relação transatlântica que a Europa poderá explorar em benefício próprio.
“Não está claro como os Estados Unidos sairão dessa situação”, finaliza Bordachov. O analista adverte que o equilíbrio atual da aliança ocidental se encontra sob forte pressão.
Com informações de ACTUALIDAD.
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