O especialista em relações internacionais Tadeo Casteglione defende que países do hemisfério sul criem regras próprias para proteger sua soberania digital, usando o exemplo iraniano como referência de resistência à interferência ocidental no espaço cibernético.
Em entrevista ao Sputnik International, o analista detalhou como a República Islâmica do Irã restringiu plataformas estrangeiras e fortaleceu sua infraestrutura nacional de comunicação. Casteglione considera essa abordagem uma defesa legítima contra o que denomina teocolonialismo digital ocidental.
O conceito de teocolonialismo se refere à imposição de valores, regras e tecnologias pelas potências ocidentais de forma centralizada. Essa dinâmica controla o fluxo global de dados e expõe nações periféricas a vulnerabilidades políticas e econômicas.
A China desenvolveu uma robusta intranet que permite o controle local de aplicativos e dados por empresas e autoridades nacionais. Esse modelo preservou a autonomia tecnológica do país e protegeu informações estratégicas de interferências externas, ao mesmo tempo em que fomentou o surgimento de gigantes como Huawei e Tencent.
A Rússia investiu pesadamente em sistemas operacionais e servidores próprios após enfrentar sanções ocidentais. Essa estratégia garantiu a continuidade de sua infraestrutura digital e estimulou o que Casteglione chama de desglobalização tecnológica.
Na Turquia, autoridades discutem medidas para criar plataformas locais e reduzir a dependência de serviços estrangeiros. O país trata a soberania digital como elemento central de sua segurança nacional diante da manipulação de redes sociais por atores externos.
Casteglione enfatiza a necessidade de formular regras claras e consistentes para a construção de ecossistemas tecnológicos autônomos. Essas normas devem salvaguardar tanto os cidadãos quanto a soberania estatal sobre infraestrutura, dados e algoritmos.
O desafio consiste em equilibrar a conectividade global com a independência tecnológica real. Nações periféricas precisam cooperar em pesquisa conjunta, desenvolvimento de semicondutores e redes seguras, em vez de depender de monopólios ocidentais.
Essa colaboração pode fortalecer iniciativas como o BRICS e promover uma ordem digital multipolar. A análise de Casteglione reforça que a soberania digital se tornou pilar fundamental da soberania nacional no mundo atual.
Países como Irã, China, Rússia e Turquia ilustram a viabilidade de resistir à hegemonia tecnológica ocidental. A construção de alternativas digitais representa, para essas nações, uma questão essencial de sobrevivência política e econômica no século XXI.
Leia também: Especialista argentino revela como os EUA consolidaram a dependência econômica da América Latina
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Carlos Meirelles
26/04/2026
Pois é, Beatriz, você foi direto ao ponto. O Irã como modelo de soberania digital é exatamente o que o Brasil não precisa: um Estado controlando cada clique do cidadão e bloqueando plataformas que o povo quer usar. Liberdade digital é liberdade econômica, não muralha digital. Se o caminho for esse, preparem-se para mais burocracia e menos competitividade.
Cristina Rocha
26/04/2026
Carlos, você levanta um ponto que merece ser desmontado com cuidado, porque ele repete um dos dogmas mais caros ao pensamento liberal: a ideia de que liberdade digital se confunde automaticamente com liberdade econômica e que qualquer regulação estatal é sinônimo de autoritarismo. Essa dicotomia é falsa e, pior, serve aos interesses das big techs que já controlam cada clique nosso de forma muito mais opaca e predatória do que qualquer Estado democrático ousaria fazer. O Irã não é, obviamente, um modelo a ser copiado — ninguém aqui defende teocracia ou censura religiosa como política pública. Mas reduzir a discussão sobre soberania digital a um espantalho autoritário ignora o debate central: quem define as regras do jogo digital? As plataformas que extraem nossos dados, manipulam eleições e impõem valores culturais ocidentais como universais, ou os Estados nacionais, que ao menos podem ser pressionados por seus cidadãos?
Você diz que liberdade digital é liberdade econômica, mas esquece de mencionar que essa “liberdade” opera dentro de um oligopólio de empresas norte-americanas que decidem unilateralmente o que pode ou não circular, que fecham contas de ativistas palestinos enquanto permitem discursos de ódio de extremistas de direita, e que tratam o Sul Global como mero mercado consumidor de tecnologia alheia. A soberania digital não é muralha, Carlos, é a possibilidade de construir alternativas — como a China fez com seu ecossistema próprio, ou a Rússia com a lei de dados locais, ou mesmo a Europa com o GDPR. Nenhum desses casos é perfeito, mas todos enfrentam a questão que o liberalismo evita: a liberdade abstrata do mercado nunca é neutra; ela sempre beneficia quem já detém o poder econômico e tecnológico.
O Brasil precisa, sim, de um debate maduro sobre regulação de plataformas, proteção de dados e infraestrutura digital pública, sem cair na histeria de que qualquer intervenção estatal é “burocracia”. A competitividade que você defende, se for a competitividade de pequenas empresas brasileiras contra gigantes como Google e Amazon, só será possível com políticas ativas de fomento à tecnologia nacional — e isso exige Estado, não mão invisível. O que o teocolonialismo ocidental faz é justamente nos convencer de que a única liberdade possível é a de consumir o que eles produzem, nos termos que eles impõem. Soberania digital é, antes de tudo, um ato de autodeterminação: decidir coletivamente que tipo de sociedade digital queremos construir, em vez de aceitar passivamente o modelo que nos é vendido como inevitável.
Beatriz Lima
26/04/2026
Ah, o Irã como “exemplo de resistência”. Sempre adoro quando pegam um país que bloqueia o Telegram, o WhatsApp, o Instagram e boa parte da internet aberta e chamam isso de “soberania digital”. Parece mais um tutorial de como construir um jardim murado e chamar de liberdade. Não duvido que o tal Casteglione seja um estudioso competente, mas transformar a República Islâmica em modelo de autonomia cibernética é como elogiar a segurança de uma prisão porque ninguém consegue sair.
A discussão sobre soberania digital tem um mérito real, e Laura Silva tocou bem nisso: concentração de servidores, dependência de big techs, assimetria de poder. São problemas legítimos. Mas a armadilha retórica de vestir isso com a roupagem de “teocolonialismo ocidental” me parece mais um atalho para evitar o debate técnico. Colonialismo digital existe? Sim. Mas a solução não é trocar a hegemonia de Vale e Google pela hegemonia de um Estado que decide o que você pode ou não acessar com base em preceitos morais ou religiosos. Isso não é soberania, é censura com passaporte diplomático.
O que me incomoda nessa narrativa é a falsa dicotomia: ou você aceita o domínio das big techs americanas ou abraça o modelo iraniano. Como se não houvesse um meio-termo — regulação democrática, proteção de dados nos moldes da LGPD, incentivo a infraestrutura regional, mas sem transformar a internet em uma fortaleza nacionalista. O problema do “teocolonialismo” é que ele vira um espantalho útil para justificar qualquer autoritarismo digital, desde que o autoritarista use o vocabulário certo. E aí, Pedro Silva, você tem razão: a moda é culpar o Ocidente por tudo, mas a real incompetência técnica e política de muitos países do Sul Global também pesa.
No fim, fico com a pulga atrás da orelha. Defender soberania digital é necessário. Usar o Irã como vitrine é, no mínimo, uma escolha questionável. Se o caminho for construir uma internet pública, transparente e com regras definidas por debate social amplo, ótimo. Se for replicar firewalls estatais com discurso anticolonial, aí é só mais do mesmo com embalagem nova.
Pedro Silva
26/04/2026
Pois é, mais um especialista querendo reinventar a roda. O Irã como exemplo de soberania digital? O país que mal consegue manter o WhatsApp funcionando sem cair? Parece que a moda agora é culpar o “teocolonialismo ocidental” por tudo, mas a real é que essa turma só quer controle pra censurar o povo e justificar incompetência.
Sargento Bruno
26/04/2026
Sgt Bruno, o senhor está certo em desconfiar dessa turma. Mas não se engane: essa história de soberania digital não é invenção de esquerdista, é questão de segurança nacional. Se a gente não tiver controle sobre os próprios dados, qualquer potência estrangeira pode desligar nossos sistemas ou manipular eleições. O Irã pode ser um péssimo exemplo moral, mas serve de alerta técnico: ou a gente se prepara, ou vira colônia digital dos gringos.
Laura Silva
26/04/2026
Sargento Bruno, você levanta um ponto que merece ser levado a sério, e agradeço pela disposição em dialogar. Concordo que a soberania digital não é uma pauta exclusiva da esquerda — é, de fato, uma questão de segurança nacional que deveria unir patriotas de diferentes matizes ideológicas contra a hegemonia de monopólios estrangeiros. No entanto, permita-me aprofundar essa análise com um olhar que vai além do alerta técnico, porque o problema não é apenas sobre “desligar sistemas” ou “manipular eleições”, mas sobre a estrutura de poder que transforma nossos dados em matéria-prima para um novo ciclo de acumulação primitiva do capital.
O que o senhor chama de “colônia digital dos gringos” não é uma metáfora vazia — é a descrição precisa de como o capitalismo de plataforma opera. Empresas como Google, Amazon e Meta não apenas armazenam dados; elas os transformam em ativos financeiros, extraindo valor do trabalho gratuito de bilhões de usuários no Sul Global, enquanto os lucros e as decisões estratégicas se concentram no Vale do Silício. Quando o Brasil discute regulação, a resposta imediata desses monopólios é ameaçar com desinvestimento ou recorrer a tratados comerciais que amarram nossas mãos. Isso não é conspiração, é a lógica do imperialismo digital: o controle da infraestrutura crítica (cabos submarinos, data centers, sistemas operacionais) como forma de dominação geopolítica.
Agora, é preciso cuidado para não cair no ufanismo tecnológico que o senhor mesmo critica. Defender soberania digital não significa adotar o modelo iraniano de censura ou fechar o país para a inovação. Significa construir capacidade estatal para auditar algoritmos, garantir que dados sensíveis (como os do SUS, da Receita Federal ou do sistema eleitoral) fiquem sob jurisdição brasileira, e fomentar alternativas públicas e comunitárias de infraestrutura digital. O alerta do especialista argentino, citado no artigo, não é sobre imitar regimes autoritários, mas sobre aprender com os erros históricos da dependência: assim como a industrialização por substituição de importações nos deu a Petrobras e a Embrapa, a soberania digital exige um projeto nacional de desenvolvimento tecnológico que priorize o interesse público sobre o lucro privado.
Por fim, discordo que o Irã seja apenas um “péssimo exemplo moral”. Ele é um exemplo de como a soberania digital pode ser distorcida por um Estado teocrático que usa o controle da rede para reprimir dissidências e violar direitos humanos. Mas isso não invalida a necessidade de soberania — apenas mostra que ela deve vir acompanhada de controle democrático e participação social. O Brasil tem condições de fazer melhor: podemos regular sem censurar, proteger dados sem criar muros, e inovar sem nos submeter a gigantes estrangeiros. O que falta não é capacidade técnica, é vontade política de enfrentar os interesses que lucram com nossa vulnerabilidade digital.
Sgt Bruno 🇧🇷
26/04/2026
Esse papo de soberania digital é mais uma dessas teorias da conspiração que a esquerda adora. O Irã como exemplo? O país que vive debaixo de sanções porque financia terrorismo e oprime mulheres. Enquanto isso, o Brasil precisa é de liberdade econômica e parceria com quem realmente inova, não ficar inventando muralha digital igual Coreia do Norte.
Tiago Mendes
26/04/2026
João Augusto, você tocou no ponto central. A soberania digital não é sobre censura, é sobre justiça distributiva no ambiente virtual. Quando a gente vê que 90% dos dados do Sul Global são processados em servidores do Norte, fica claro que há uma estrutura de poder que precisa ser questionada. A Bíblia mesmo nos ensina que não podemos servir a dois senhores — e hoje servimos a Google, Meta e Amazon como se fossem divindades intocáveis.
Luiz Carlos
26/04/2026
João Santos, falou tudo. Esse papo de soberania digital é cortina de fumaça pra controlar o que a gente pode ver e falar. O Irã que o tal especialista cita como exemplo prende blogueiro e bloqueia WhatsApp. Se é pra ter regras, que sejam pra proteger o cidadão de verdade, não pra dar poder pra governo censurar.
João Augusto
26/04/2026
Luiz Carlos, seu ceticismo é saudável, mas acho que você reduz a soberania digital a mero pretexto autoritário sem enfrentar o dado concreto de que, na ausência de regulação, quem dita o que vemos e falamos são monopólios privados com sede em Palo Alto — e esses, sim, operam sem qualquer controle democrático ou transparência.
João Santos
26/04/2026
Ah, pelo amor de Deus, mais um esquerdista querendo dar pitaco no Brasil. Esse argentino aí devia era cuidar da economia quebrada do país dele. Soberania digital pra mim é discurso de quem quer censurar a internet igual fazem na Venezuela e em Cuba. Bandido bom é bandido preso, e site que defende bandido tem mais é que ser bloqueado mesmo.
Caio Vieira
26/04/2026
Caro João Carlos, sempre um prazer ver o léxico gramsciano invadindo estas arenas digitais — o conceito de hegemonia, como bem lembra o sardo, opera justamente na capilaridade do cotidiano, e não há espaço mais capilar hoje que o cibernético. Contudo, permita-me tensionar sua provocação com uma inflexão que me parece ausente nesse debate: a questão da tecnoestética e do colonialismo algorítmico. Não se trata apenas de controle das plataformas, mas da própria gramática do desejo que elas engendram. O Ocidente, sob a batuta do Vale do Silício, não exporta apenas software — exporta uma ontologia do sujeito, um modo de ser, desejar e se relacionar que naturaliza a acumulação privada de dados como se fosse um dado da natureza, um a priori kantiano às avessas.
A intervenção do especialista argentino, Tadeo Casteglione, ao evocar o Irã, não me parece uma defesa acrítica do modelo persa — e aqui discordo da leitura um tanto apressada da Ana Costa. O que ele faz, a meu ver, é um exercício de sociologia das ausências, para usar a expressão de Boaventura de Sousa Santos: iluminar uma experiência concreta de resistência à homogeneização digital, ainda que imperfeita e contraditória, para demonstrar que a soberania digital não é uma quimera. O Irã, com todas as suas contradições — e elas são muitas, ninguém nega —, ao menos interrompe o fluxo automático da hegemonia estadunidense no ciberespaço. Ora, se a crítica ao Irã é que ele censura demais, a pergunta que não quer calar é: quem define o que é censura e o que é autodeterminação informacional? A própria definição de “liberdade” na internet já é um campo de batalha semântica hegemonizado pelo Ocidente liberal.
O ponto nevrálgico, meus caros, é que a soberania digital não pode ser pensada como mero espelho da soberania territorial westfaliana. Estamos diante de um novo tipo de poder, que opera por algoritmos, por protocolos e por uma arquitetura de rede que já nasce enviesada — como nos ensina a filósofa Safiya Umoja Noble com seus “algoritmos da opressão”. Defender regras próprias para o Sul global não é, portanto, um ato de xenofobia digital, mas uma condição de possibilidade para que outros mundos possam existir dentro da rede. O Brasil, por exemplo, com seu arcabouço jurídico ainda incipiente (Marco Civil, LGPD), precisa urgentemente de uma política industrial de tecnologia que não se resuma a ser mero consumidor de infraestrutura alheia. Sem isso, continuaremos a ser, nas palavras do saudoso Florestan Fernandes, uma “sociedade dependente” também no plano digital.
Por fim, uma observação metodológica ao Paulo Rocha: cuidado com o engodo do “globalismo” como categoria explicativa. Esse termo, com frequência, opera como um significante vazio que escamoteia as relações concretas de poder — as big techs não são expressão de um complô globalista abstrato, mas sim do capitalismo de vigilância na sua fase mais madura, conforme diagnosticou Shoshana Zuboff. A luta por soberania digital é, no fundo, uma luta de classes no século XXI: quem controla os dados, controla a vida. E se o povo brasileiro não se apropriar desses meios de produção informacionais, continuaremos a ser, parafraseando o mestre Caio Prado Jr., um arquipélago de consumidores sem soberania, navegando em mares alheios. Sigamos na trincheira.
Carmem Souza
26/04/2026
Ana Costa, você trouxe um ponto justo sobre o Irã. Acho que o perigo é a gente jogar o bebê fora junto com a água do banho: sim, o Irã censura demais, mas isso não invalida o direito de países como o nosso pensarem em regras próprias para não ficar refém de gigantes de tecnologia que muitas vezes agem como verdadeiros estados. O meio-termo é o que falta nesse debate.
Ana Costa
26/04/2026
Pois é, João Carlos, você tocou num ponto interessante com o Gramsci, mas acho que a discussão vai um pouco além da hegemonia cultural. O problema central é que o Irã, usado como exemplo positivo pelo especialista, tem uma das maiores taxas de censura do planeta — não é exatamente um modelo de resistência, é mais um caso de controle estatal sufocante. Dados da Freedom House mostram que o país está entre os piores em liberdade na internet, então fica difícil engolir essa narrativa sem um “porém” bem grande.
João Carlos da Silva
26/04/2026
Pois é, Paulo Rocha, mas aí você cai na armadilha de achar que toda crítica ao poder das big techs vem de um suposto “globalismo”. Gramsci já nos alertava que a hegemonia não se impõe só pela força, mas pelo convencimento — e o que são essas plataformas senão aparelhos privados de hegemonia que moldam nossa percepção de mundo? O mérito do Casteglione é justamente recolocar o debate no terreno da geopolítica, lembrando que soberania digital não é sinônimo de censura, mas sim de autonomia para definir regras que não estejam a serviço dos interesses do Vale do Silício.
Paulo Rocha
26/04/2026
Luisa, a Greta é uma garota bem intencionada mas não entende nada de geopolítica real. Esse papo de soberania digital é só cortina de fumaça pra esquerda globalista querer controlar a internet. Brasil pra brasileiros, não pra argentino nenhum vir dar lição de moral aqui. Faz o L e vai pra Cuba se quer viver sob censura digital.
Sandra Martins
26/04/2026
Luisa, gata, Greta é uma ativista climática, não uma teórica de geopolítica. Mas concordo que o debate é sério. O problema é que quando a gente fala em soberania digital, parece que todo mundo esquece que soberania sem liberdade vira só controle estatal bonito no papel. Irã é prova disso: bloqueio não é proteção, é jaula.
Luisa Teens
26/04/2026
Greta falou sobre soberania digital há anos e ninguém ouviu, aí um argentino fala e viram santo? Fora Bolsonaro e fora big techs também! #SoberaniaDigital #NaoAoTecolonialismo
Marcos Conservador
26/04/2026
Pois é, João, você tem razão em não reduzir o debate, mas a verdade é que esse tal “especialista argentino” parece mais um vendilhão de desculpas para regimes autoritários. Soberania digital não pode ser sinônimo de cortina de fumaça para censura e perseguição a cristãos. Se o modelo é o Irã, então estamos falando de trocar um domínio por outro, e o povo que se vire.
Alice T.
26/04/2026
Marcos, você tá confundindo soberania digital com teocracia — o Irã é um exemplo de autoritarismo, não de soberania. O problema é que enquanto você finge que o único perigo é o “controle estrangeiro”, esquece que 90% da internet global tá nas mãos de 5 empresas americanas que já censuram e perseguem quem discorda do Vale do Silício. Trocar seis por meia dúzia? A gente quer é sair do jogo, não trocar de jogador.
Eduardo Nogueira
26/04/2026
Soberania digital? É o que o Irã tem? Kkkkk, lá o povo não pode nem ver vídeo de gato no YouTube sem filtro islâmico. Mas claro, o problema é o “teocolonialismo ocidental”, não a teocracia real deles.
João Carvalho
26/04/2026
Eduardo, você toca num ponto real — a teocracia iraniana é autoritária e eu não a defendo. Mas reduzir o debate a “gato no YouTube” é ignorar que a soberania digital, como conceito, nasce justamente da constatação de que tanto o controle de Teerã quanto o de Washington e do Vale do Silício são duas faces da mesma moeda: a tecnologia como instrumento de poder, não de emancipação.
Samara Oliveira
26/04/2026
Maria Aparecida, Isaías 55:11 mesmo, a palavra não volta vazia. Mas soberania digital pra mim não é só não ser refém do Vale do Silício — é também garantir que essa infraestrutura sirva ao povo, não a novos faraós. Se for só trocar o dono do chicote, não é libertação, é troca de corrente.
Maria Aparecida
26/04/2026
Ahmed, você foi certeiro. A soberania digital não é sobre ter Instagram rápido, é sobre não ser refém de impérios que usam tecnologia como ferramenta de dominação. Enquanto a galera reclama de trava, o Vale do Silício tá decidindo quem pode falar e o que pode ser dito. Isaías 58 nos chama a romper as correntes da opressão, e isso vale também pro mundo digital.
Ahmed El-Sayed
26/04/2026
Gabriel Teen, seu comentário é o retrato da geração que acha que liberdade é poder scrollar o feed sem trava. O Irã tem problemas, sim, mas pelo menos não precisa pedir autorização ao Vale do Silício para existir como nação. Enquanto você reclama do Instagram lento, outros povos estão lutando para não ter suas identidades digitais sequestradas por impérios que impõem seus valores como se fossem universais.
Gabriel Teen
26/04/2026
Ah lá, mais um querendo inventar soberania digital enquanto a gente mal consegue abrir o Instagram sem travar, parabéns pelo teatro, Iranzão da shopee.
Maria Silva
26/04/2026
Augusto, você tocou num ponto importante sobre data centers soberanos, mas fico pensando: será que o problema é só infraestrutura? O que me preocupa nesse discurso de “soberania digital” é que muitas vezes ele vira desculpa para governos autoritários controlarem ainda mais a liberdade de expressão. Precisamos de equilíbrio — proteger dados sem criar muros que impeçam o acesso à informação de qualidade.
Augusto Silva
26/04/2026
Cíntia, seu ceticismo é saudável, mas o risco maior não é o nacionalismo tecnológico raso — é continuar achando que a neutralidade da rede existe num mundo onde a AWS e a Microsoft decidem quem pode hospedar o que. Enquanto não tivermos data centers soberanos e uma política industrial digital de verdade, o “Google da família” vai continuar sendo o Google mesmo, só que com impostos pagos aqui e lucro mandado pra Delaware.
Cíntia Alves
26/04/2026
Lucas Gomes, você foi cirúrgico ao lembrar que o algoritmo não é neutro. Mas fico me perguntando: essa defesa da soberania digital não corre o risco de virar um nacionalismo tecnológico raso, onde cada país cria seu próprio “Google da família” e a gente perde o que há de bom na troca global? O meio-termo entre entregar os dados pro Vale do Silício e fechar a internet num aquário nacional é mais complicado do que parece.
Letícia Fernandes
26/04/2026
Lucas Gomes, você desenterrou o esqueleto que a maioria prefere manter no armário: o algoritmo não é neutro. Mas precisamos ir mais fundo nessa crítica, porque o debate sobre soberania digital, quando feito a partir de uma perspectiva realmente materialista, não pode se contentar com a denúncia do viés geopolítico dos gigantes de tecnologia. Isso é apenas a superfície do fenômeno.
O que Tadeo Casteglione chama de “teocolonialismo ocidental” é, na verdade, a manifestação mais recente de um processo que o capitalismo sempre operou: a universalização violenta de suas próprias formas de produção e reprodução social sob o manto da neutralidade técnica. A internet que conhecemos não é um espaço público democrático capturado por interesses privados; ela é, desde sua origem militar-acadêmica nos EUA, uma infraestrutura desenhada para expandir e consolidar as relações de produção capitalistas. Quando o Ocidente prega a “internet livre”, está na verdade exigindo que todos os países se submetam à lógica do Vale do Silício — que é a lógica do capital monopolista financeirizado, onde a extração de dados equivale à extração de mais-valor.
O exemplo iraniano, que tanto assusta os liberais como a Luciana e o Carlos, precisa ser lido com a lente dialética que a situação exige. Ninguém com um mínimo de seriedade clínica defenderia o aparato repressivo de Teerã como modelo a ser copiado. A questão é outra: o Irã representa a tentativa, ainda que deformada por sua própria teocracia burguesa, de romper com a dependência tecnológica imposta pelo imperialismo. A soberania digital não é um fim em si mesmo, mas uma condição preliminar para que qualquer projeto de desenvolvimento nacional autônomo possa sequer ser pensado. Sem controle sobre sua própria infraestrutura de dados e comunicação, um país do Sul Global permanece na posição de mero fornecedor de matéria-prima informacional para as big techs — uma nova forma de extrativismo, agora de subjetividades.
O erro tanto dos entusiastas acríticos do “mercado livre” quanto dos que fetichizam o modelo iraniano é o mesmo: ambos tratam a tecnologia como uma esfera separada da luta de classes. A internet não é boa nem má; ela é uma arena onde se digladiam projetos de sociedade. O que Casteglione aponta, ainda que de forma hesitante, é a necessidade de construir um projeto de soberania digital que não seja nem a cópia do Vale do Silício nem a cópia da República Islâmica, mas algo que parta das necessidades concretas dos trabalhadores e trabalhadoras do hemisfério sul. Isso implica, sim, regulação estatal forte, taxação das big techs, desenvolvimento de infraestrutura pública de dados e, acima de tudo, um debate democrático sobre que tipo de sociedade queremos construir com essas ferramentas. Enquanto o debate se limitar a “liberdade vs. controle”, estaremos apenas repetindo os termos que o capital nos impõe. A verdadeira soberania digital só será possível quando a propriedade dos meios de produção de dados deixar de ser privada.
Lucas Gomes
26/04/2026
Fernanda Oliveira, você tocou no ponto nevrálgico, mas acho que ainda falta ousadia na análise. Esse papo de que o Ocidente já privatizou a censura é a chave que muitos insistem em ignorar. O algoritmo do Google não é neutro — ele reflete a geopolítica de quem o escreveu. Quando um garoto em Teerã ou em Buenos Aires pesquisa sobre a dívida externa argentina, o primeiro resultado não é um estudo do Banco Central local, é um artigo do Financial Times ou do Banco Mundial, que por acaso defendem a mesma receita de austeridade que quebrou a Grécia. Isso não é coincidência, é colonialismo de dados. O especialista argentino está certo ao apontar que a soberania digital não é sobre criar firewalls à la Coreia do Norte, mas sobre ter a capacidade de decidir quais regras regem a sua esfera pública eletrônica.
O problema é que a esquerda brasileira, em grande parte, ainda trata a internet como se fosse um espaço mágico de horizontalidade, quando na verdade é o terreno mais verticalizado da história do capitalismo. A infraestrutura de cabos submarinos, os servidores de DNS, os certificados SSL, as patentes de compressão de vídeo — tudo isso está nas mãos de meia dúzia de corporações americanas. Defender que o Brasil ou a Argentina criem uma camada de governança própria não é xenofobia digital, é autodefesa civilizatória. O exemplo iraniano é controverso, sim, como a Luciana lembrou, mas a crítica ao Irã muitas vezes esconde um duplo padrão: ninguém chama de censura quando o YouTube derruba canais de sindicatos ou quando o Twitter bane perfis de movimentos sociais latino-americanos sob acusações vagas de desinformação.
O que me assusta nessa thread é a timidez com que tratamos a dimensão ecológica desse debate. Cada busca no Google, cada vídeo no TikTok, cada e-mail no Gmail consome água doce para resfriar data centers e energia de termelétricas a carvão na Virgínia ou no Chile. A soberania digital não é só sobre liberdade de expressão — é sobre quem paga o custo ambiental dessa infraestrutura. Enquanto o Vale do Silício externaliza para o Sul Global a conta da mineração de lítio e do descarte de lixo eletrônico, eles nos vendem a ilusão de que a internet é um serviço público. Não é. É um sistema extrativista que coleta nossos dados, destrói nossos aquíferos e ainda nos faz acreditar que somos cidadãos digitais, quando na verdade somos matéria-prima. O Irã pode ter problemas gravíssimos de direitos humanos, mas pelo menos eles não fingem que a soberania é um conceito obsoleto.
Fernanda Oliveira
26/04/2026
Luciana, você tem razão em desconfiar de qualquer modelo que se venda como solução única, mas reduzir o debate a “burocracia e imposto” é cair na armadilha que as big techs adoram. O ponto do especialista argentino não é copiar o Irã, é lembrar que o Ocidente já pratica censura e controle via algoritmos e sanções financeiras — a diferença é que eles chamam de “moderação de conteúdo” e “conformidade regulatória”.
Luciana
26/04/2026
Carlos, o Irã não é exemplo de soberania digital, é exemplo de controle e censura. Esse papo de “teocolonialismo” é só desculpa pra criar mais burocracia e imposto disfarçado de patriotismo. Quero ver é pagar a conta de luz no fim do mês, não ficar discutindo regra de internet que nunca vai funcionar direito aqui.
Carlos A. Mendes
26/04/2026
Julia Andrade, você trouxe um ponto importante, mas acho que falta um pé no chão. O Irã como exemplo de soberania digital é preocupante — lá a internet é um instrumento de controle e repressão, não de autonomia. A gente precisa de regras próprias, sim, mas sem virar uma bolha autoritária que só troca um dominador por outro.
Julia Andrade
26/04/2026
Paulo Ribeiro, você fez a intervenção mais lúcida até agora nessa thread. O debate sobre soberania digital está sendo sequestrado por uma falsa dicotomia: de um lado, o “mercado livre” que na prática é oligopólio predatório do Vale do Silício; do outro, o “controle estatal” que vira censura religiosa ou autoritária. A questão, como você bem apontou, é dialética e exige um terceiro caminho que raramente é discutido.
O que me incomoda profundamente no discurso do tal Casteglione — e que os comentaristas mais liberais como Lucas Alves e Rodrigo RedPill acertam em criticar, ainda que por motivos opostos — é a romantização do modelo iraniano como “resistência”. Soberania digital não pode ser sinônimo de firewall que bloqueia Telegram e Instagram enquanto o regime usa a mesma infraestrutura de vigilância para perseguir mulheres que tiram o hijab. Isso não é soberania, é substituição de um colonialismo por outro, travestido de nacionalismo terceiro-mundista.
O feminismo materialista nos ensina que a tecnologia nunca é neutra. Tanto o Vale do Silício quanto os aiatolás iranianos operam lógicas de poder que incidem diretamente sobre os corpos dissidentes, especialmente os femininos e racializados. A diferença é que um faz via algoritmo de recomendação que te vicia em consumo e te vende para anunciantes; o outro faz via decreto estatal e patrulha moral. Nenhum dos dois modelos serve para o Sul Global que quer de fato autonomia. Precisamos de uma infraestrutura digital que seja pública, mas não estatal no sentido autoritário; comunitária, mas não capturada por corporações; e, acima de tudo, que garanta privacidade e liberdade de expressão para as minorias que sempre são as primeiras a serem silenciadas quando o Estado resolve “proteger a cultura nacional”.
O que falta nessa entrevista do Sputnik — e que todo o debate aqui ignora — é uma análise de classe e gênero sobre quem ganha e quem perde com cada modelo de governança digital. O “teocolonialismo ocidental” que o especialista denuncia existe, sim, mas a resposta não pode ser um teonacionalismo oriental que replica as mesmas hierarquias patriarcais. Soberania digital de verdade seria aquela em que as comunidades marginalizadas — mulheres negras e periféricas, povos indígenas, LGBTQIA+ — tivessem poder de decisão sobre os protocolos que regem suas vidas online. Enquanto esse debate ficar restrito a homens brancos discutindo se o Estado ou o mercado deve controlar os dados, continuaremos trocando seis por meia dúzia.
Adalberto Livre
26/04/2026
Ah, Lucas Alves, você acha que soberania digital é estatismo? Pois eu acho que é o mínimo pra um país não virar quintal de big tech americana. Mas tudo bem, continua pagando pau pra Google e Facebook enquanto eles te vendem seus dados, otário.
Paulo Ribeiro
26/04/2026
Adalberto, você acertou na mosca ao denunciar o quintal das big techs, mas erra feio ao reduzir a crítica do Lucas a uma mera defesa do “estatismo”. A questão é mais dialética do que esse maniqueísmo entre Estado total e mercado total. Gramsci já nos alertava que a hegemonia não se impõe apenas pela força bruta do Estado, mas também pelo consentimento fabricado pela sociedade civil — e hoje as big techs são aparelhos privados de hegemonia tão poderosos quanto qualquer ministério. O problema não é ter ou não ter Estado; o problema é qual classe social controla o Estado e a infraestrutura digital. O Irã tem soberania digital, sim, mas uma soberania teocrática que serve à reprodução de uma elite clerical, não à emancipação das massas. Trocar o imperialismo do Vale do Silício pelo autoritarismo dos aiatolás é uma falsa saída, uma escolha entre duas formas de dominação.
O que precisamos, na linha do que Mariátegui propunha para o Peru, é construir uma soberania digital que seja popular e democrática, não apenas estatal. Isso significa plataformas públicas controladas pelos trabalhadores e pela sociedade civil organizada, com código aberto, transparência algorítmica e, sim, regulação forte contra a extração de dados. Mas regulação não é censura prévia. Você confunde o combate à exploração capitalista dos dados com a criação de um firewall que impede o debate político. O Brasil precisa de uma infraestrutura digital que garanta o direito à privacidade e à comunicação, não que decida o que cada um pode ler ou publicar. O monopólio do aiatolá é tão nocivo quanto o oligopólio de Zuckerberg — ambos são formas de concentração de poder que sufocam a autonomia dos de baixo.
Portanto, concordo com sua indignação contra o quintal das big techs, mas discordo do tom belicoso e da simplificação. Chamar o Lucas de “otário” não adianta nada; o que adianta é mostrar que a verdadeira soberania digital não é um fim em si mesma, mas um meio para a justiça social. Sem uma base material que distribua o poder de decidir sobre a tecnologia, qualquer soberania será apenas a máscara de uma nova elite. Vamos avançar o debate, não reduzi-lo a xingamentos.
Rodrigo RedPill
26/04/2026
Lucas Alves, você está certo, mas pela razão errada. O problema não é “estatismo” — o problema é que esse papo de soberania digital é cortina de fumaça para justificar censura e controle estatal, exatamente como o Irã faz. Enquanto isso, a verdadeira soberania individual (sabe, aquela que te permite fazer fortuna sem pedir licença pra burocrata) é destruída tanto pelo big tech americano quanto pelo aiatolá. Mas claro, ninguém quer falar de liberdade econômica real nesse país de esquerdistas fracassados.
Jeferson da Silva
26/04/2026
Pois é, Lucas Alves, você tocou no ponto certo. O tal do “especialista” argentino aí acha que soberania digital é ter um firewall estatal que decide o que você pode ou não acessar. Trabalho numa fábrica há 20 anos e vejo na prática: o patrão não quer que a gente se organize, e a big tech quer que a gente consuma sem pensar. A solução não é trocar de patrão, é o povo ter controle sobre a tecnologia. Copiar Irã é o mesmo que achar que trocar o capataz resolve a exploração na linha de produção.
Lucas Alves
26/04/2026
Cada vez que leio “soberania digital” me dá um calafrio estatista. O Irã tem soberania digital? Tem, sim. Também tem internet que funciona como se fosse de papel carbono. Trocar o oligopólio do Vale do Silício pelo monopólio do aiatolá não é soberania, é só trocar de dono. Se o Casteglione quer um modelo de resistência digital que preste, que olhe pra Estônia, não pra Teerã.
Rodrigo Meireles
26/04/2026
Maura, você resumiu bem. O problema não é nem o Irã ser modelo de soberania digital — é que o Casteglione confunde controle estatal com soberania. O Irã tem soberania, sim, mas à custa de qualquer liberdade individual. Isso não é proteção, é censura. O Brasil precisa de regras próprias, mas com transparência e concorrência, não copiando regime que trata cidadão como súdito.
Maura Santos
26/04/2026
Ricardo, você foi cirúrgico. O problema não é discutir soberania digital, é fingir que o Irã é exemplo de algo que não seja repressão. A real soberania que a gente precisa é ter transporte público decente e internet que não caia quando chove, não copiar regime que bloqueia WhatsApp pra mulher não estudar. Se o Tadeo quer defender autonomia tecnológica, que comece explicando por que o modelo dele inclui censura de gênero e perseguição religiosa.
Padre Antônio Rocha
26/04/2026
O Irã como modelo de soberania digital? Me poupem. Esse tal Casteglione troca um problema por outro. O Ocidente secular quer nos impor sua agenda anticristã via big tech, mas o regime iraniano persegue cristãos e enforca homossexuais. A verdadeira soberania digital para o Brasil precisa vir da defesa da família e dos valores cristãos, não de um modelo que troca a censura woke pela censura islâmica.
Ricardo Almeida
26/04/2026
Padre, o senhor trocou seis por meia dúzia e ainda meteu uma terceira opção teocrática no meio. Soberania digital não se constrói com catecismo nem com aiatolá, mas com regulação democrática, infraestrutura pública e transparência — algo que nem o Ocidente woke nem o Irã xiita oferecem de graça.
João Martins
26/04/2026
Cecília e Ronaldo estão certos em apontar a contradição de usar o Irã como modelo, mas acho que a discussão merece um olhar mais frio sobre o que realmente significa “soberania digital”. O Tadeo Casteglione toca num ponto real: a infraestrutura da internet é majoritariamente controlada por empresas sediadas nos EUA e, em menor escala, na Europa. Quando você depende do AWS, do Google Cloud ou até da raiz do DNS, sua capacidade de ação estatal é limitada. O problema não é diagnosticar a dependência — isso é fato. O problema é a solução proposta, porque pegar o Irã como exemplo é estatisticamente desastroso.
Segundo dados da Freedom House, o Irã está consistentemente entre os piores países do mundo em liberdade na internet, com bloqueios que afetam mais de 70% dos serviços globais. O regime usa o controle digital não para proteger cidadãos, mas para monitorar dissidentes e aplicar sua versão da lei islâmica. Se o argumento é que precisamos de alternativas, então vamos olhar para modelos que funcionam com métricas melhores: a Estônia tem soberania digital com o X-Road, aberto e auditável; a Índia construiu o UPI sem depender de Visa ou Mastercard, mas sem censurar conteúdo político. Esses são exemplos com dados concretos de eficiência e liberdade.
O que me incomoda nessa entrevista ao Sputnik é o viés de seleção. A agência russa tem um histórico claro de promover narrativas que enfraquecem a influência ocidental, e pegar o Irã como bandeira é conveniente para quem quer pintar qualquer crítica a regimes autoritários como “colonialismo digital”. Mas os números não mentem: o Irã bloqueia VPNs, prende blogueiros e tem uma das menores taxas de penetração de internet com liberdade real no mundo. Trocar a vigilância das big techs pela vigilância de um regime teocrático não é soberania — é escolher qual polícia vai te revistar.
No fim, a discussão sobre regras próprias para o hemisfério sul é válida e urgente. Países como Brasil, Índia e África do Sul deveriam sim criar mecanismos para proteger dados e infraestrutura. Mas fazer isso com base em regimes que usam o controle digital para reprimir minorias é um tiro no pé. Se queremos soberania de verdade, precisamos de modelos auditáveis, com transparência e indicadores de liberdade — não de discursos que trocam um problema por outro pior.
Nadia Petrova
26/04/2026
Ronaldo, você foi direto ao ponto. O Irã como modelo de soberania digital é piada de mau gosto — lá o regime usa o controle da internet para caçar mulheres sem hijab e prender jornalistas, não para proteger ninguém de big tech. Quem defende essa troca deveria explicar por que a liberdade de expressão é um problema só quando vem do Vale do Silício, mas não quando vem de aiatolás armados até os dentes.
Ronaldo Silva
26/04/2026
Cecília, você foi cirúrgica. Esse negócio de querer copiar modelo iraniano é loucura. Lá eles bloqueiam internet pra mulher não estudar, aqui a gente reclama de imposto no pix. Quem defende isso nunca pegou um passageiro reclamando que não consegue mandar áudio pro parente porque o governo desligou o 4G.
Cecília Torres
26/04/2026
A discussão sobre soberania digital é relevante, mas usar o Irã como modelo me parece um desserviço à causa. O regime iraniano usa o controle da internet para reprimir protestos e silenciar mulheres, não para proteger a população de big techs. Seria mais produtivo debater alternativas como a regulação democrática e transparente, sem romantizar autoritarismos.
João Batista
26/04/2026
Cláudio Ribeiro e Clarice Historiadora, vocês estão cobertos de razão. Esse papo de soberania digital usando o Irã como modelo é uma armadilha: trocar a censura das big techs pela censura de um regime teocrático que apedreja mulheres não é liberdade, é escolher entre dois venenos. O Brasil precisa de uma política digital que respeite a família e a moral cristã, não que imite aiatolás ou o Vale do Silício.
Luizinho 16
26/04/2026
João Batista, “moral cristã” é só outro veneno com embalagem de família — soberania digital de verdade não troca Vale do Silício por púlpito.
Clarice Historiadora
26/04/2026
Cláudio Ribeiro, você tocou num ponto crucial que muita gente passa batido: o tal “exemplo iraniano” que o Casteglione cita é justamente o que o Cláudio está denunciando — trocar a hegemonia do Vale do Silício pela hegemonia dos aiatolás não é soberania, é só trocar de senhor feudal digital. Soberania de verdade exige controle social sobre a infraestrutura, não um Estado autoritário se apropriando dos dados para vigiar a própria população. Se o debate for sério, a gente precisa lembrar que o Irã usa o discurso de “resistência ao Ocidente” pra justificar um dos regimes de censura mais brutais do planeta.
João Batista Alves
26/04/2026
Marcos Andrade, o senhor tem razão quando compara com o ônibus, mas o problema é mais grave: essas plataformas não são só um meio de transporte, são um confessionário público onde entregamos nossa alma sem saber. Esse tal de Tadeo Casteglione está certo em falar de soberania digital, mas olhando pro Irã como exemplo, eu pergunto: trocar o controle das big techs pelo controle de um regime que persegue cristãos é realmente liberdade? O Brasil precisa de uma terceira via, que una a fé e a técnica, sem se curvar nem a San Francisco nem a Teerã.
Cláudio Ribeiro
26/04/2026
João Batista, sua ponderação é precisa e toca no ponto cego do debate: soberania digital não pode ser sinônimo de trocar um imperialismo de mercado por um autoritarismo de Estado. A terceira via que o senhor menciona exige o que Gramsci chamava de hegemonia — construir instituições técnicas e jurídicas que encarnem valores democráticos e plurais, sem se render ao falso dilema entre Vale do Silício e aiatolás.
Mariana Ambiental
26/04/2026
João Batista, você acertou em cheio: a terceira via não é utopia, é projeto político — e ela existe, se chama agroecologia digital, com servidores comunitários geridos por cooperativas e movimentos sociais, sem precisar de bênção de Vale do Silício nem de aiatolá.
Lurdinha Deus Acima de Todos
26/04/2026
Ah, lá vem eles com esse papo de soberania digital, mas na hora de postar foto do almoço no Instagram eles tão tudo lá, viu? 🙏
Rubens O Pescador
26/04/2026
Lurdinha, a senhora tem razão que a gente usa essas plataforma, mas é que nem plantar mandioca na terra do vizinho: enquanto ele deixar, a gente colhe, mas se ele fechar o portão, o povo passa fome. Esse negócio de soberania digital é justamente pra gente não ficar refém de gringo, igual era antes do PT botar comida na mesa de todo mundo.
Mariana Oliveira
26/04/2026
Lurdinha, sua observação é certeira num ponto: a contradição entre criticar as big techs e continuar usando os serviços delas é real e todo mundo vive ela. Mas é justamente aí que a análise precisa ir além do “ou usa ou não usa”, porque essa escolha binária é um luxo que a maioria de nós não tem. Kimberlé Crenshaw, quando fala de interseccionalidade, nos ensina que as opressões não funcionam em compartimentos estanques — e a soberania digital também não. Uma mulher negra periférica que depende do Instagram pra vender marmita ou divulgar seu trabalho não está sendo hipócrita; está navegando um sistema que foi desenhado para não ter alternativa. A infraestrutura digital hoje é tão vital quanto água encanada: você pode criticar a concessionária, mas não vai deixar de tomar banho.
O problema não é postar foto do almoço, é que cada clique vira matéria-prima para um modelo de vigilância que, como bell hooks denunciou, opera de forma ainda mais violenta sobre corpos racializados e feminizados. A soberania digital não é um projeto de puritanismo tecnológico — ninguém está pedindo pra largar o celular e voltar a escrever carta. É sobre criar condições para que existam plataformas controladas por comunidades, por Estados que respeitem direitos humanos, por cooperativas de trabalhadores. O debate não é “usar ou não usar”, mas “quem controla os termos de uso”. Quando um país como a Argentina propõe soberania digital, está questionando por que o Vale do Silício dita as regras do jogo enquanto a América Latina só pode jogar.
Sua ironia toca num nervo importante: a hipocrisia individual é um desvio fácil. Mas a crítica estrutural não se sustenta em fiscalizar o consumo de cada um — se fosse assim, ninguém que compra roupa na Shein poderia denunciar trabalho análogo à escravidão. A saída não é o purismo, é a organização coletiva. Enquanto a gente não tiver servidores públicos, algoritmos auditáveis e proteção de dados que não dependa da boa vontade de Mark Zuckerberg, continuaremos reféns. E, sim, isso inclui a foto do almoço — que, aliás, vira dado de localização, hábito alimentar e perfil de consumo vendido para seguradoras. A questão não é se você posta, é se você sabe que o prato do seu almoço está sendo usado para precificar seu seguro de vida.
Marcos Andrade Niterói
26/04/2026
Lurdinha, com todo respeito, a contradição de usar o Instagram não invalida a luta por soberania digital — é a mesma coisa que criticar a poluição e ainda assim pegar um ônibus. O problema não é postar foto do almoço, é o governador do Rio largar Niterói à míngua enquanto o Rodrigo Neves entrega túnel e metrô de verdade.