O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baqaei, publicou uma mensagem contundente na rede social X dirigida a ‘todo ser humano decente’, independentemente de religião, etnia, nacionalidade ou raça.
No texto, Baqaei enquadra o conflito em curso não como uma disputa territorial ou geopolítica convencional, mas como uma batalha pelo próprio significado do bem e do mal no mundo contemporâneo.
‘Isso não é simplesmente uma guerra por terras, recursos ou geopolítica. É uma guerra que determinará o significado mesmo do bem e do mal em nosso tempo e no futuro’, escreveu o diplomata. A mensagem foi publicada em meio à escalada das tensões entre Teerã e o eixo formado pelos Estados Unidos e Israel, que intensificaram pressões militares e econômicas contra o país.
Conforme reportagem do portal RT, Baqaei traçou uma linha clara entre dois campos opostos. De um lado, aqueles que ‘se deleitam violando cada lei e a básica decência humana apenas para provar seu poder destrutivo’. Do outro, os que ‘fazem esforços extraordinários para proteger vidas inocentes’.
O porta-voz descreveu o confronto como uma guerra ‘entre mentirosos profissionais que fabricam justificativas para atrocidades e um povo orgulhoso que defende sua pátria e a dignidade humana contando apenas com sua própria força e determinação’. A formulação ecoa a narrativa de resistência soberana que o governo iraniano sustenta diante das sanções e pressões que enfrenta há décadas.
Para Baqaei, o que está em jogo vai além das fronteiras do Irã. Ele afirmou tratar-se de ‘uma luta definitiva pelo futuro da humanidade’, que decidirá se as conquistas da civilização — direitos humanos, Estado de direito e moralidade básica — sobreviverão ou serão varridas.
A linguagem universalista da mensagem é deliberada: o diplomata convoca não apenas muçulmanos ou aliados regionais, mas também aqueles ‘que não seguem nenhuma religião formal, mas se aferram com intensidade aos valores universais de paz, justiça e dignidade humana’.
A escolha apresentada pelo porta-voz é direta: aceitar um mundo governado por ‘senhores feudais modernos’ que dirigem por meio da coerção, da mentira e da extorsão, ou defender um mundo baseado no respeito, na justiça e na dignidade. O retrato dos adversários como ‘senhores feudais’ é, na leitura do próprio Baqaei, uma crítica à ordem internacional que impõe sanções e conduz guerras em nome de valores que não pratica.
‘A consciência da humanidade ainda não está morta. Mas em tempos como estes, o silêncio é cumplicidade com o mal’, afirmou o porta-voz. Baqaei concluiu com um apelo direto à ação: ‘Se você rejeita o caminho do barbarismo e da dominação, encontre a coragem moral para falar, para agir e para estar do lado correto da história, antes que o mundo caia num abismo de anarquia e submissão. A escolha é sua, e a história vai lembrá-la.’
A mensagem foi publicada num momento em que os EUA e o Irã retomaram negociações indiretas sobre o programa nuclear iraniano, enquanto Washington mantém presença militar na região e o conflito em Gaza segue acumulando um número crescente de vítimas civis. O apelo de Baqaei posiciona a República Islâmica como voz de uma resistência moral global — narrativa que Teerã projeta sistematicamente para além de suas fronteiras.
Com informações de ACTUALIDAD.
Leia também: Porta-voz iraniano critica duramente narcisismo e irresponsabilidade dos Estados Unidos
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Dr. Thiago Menezes
13/05/2026
Retórica de “senhores feudais modernos” é o típico guarda-chuva conceitual que cabe qualquer inimigo político, mas desaba quando se pede uma definição operacional minimamente testável. Sem identificar quem são, como exercem esse “terror” e com quais métricas isso pode ser falseado, o discurso vira autoimunização narrativa: se você discorda, já é fantoche do tal sistema. Como ferramenta de mobilização emocional funciona, mas como alegação sobre a realidade empírica é só ruído.
Sgt Bruno 🇧🇷
13/05/2026
Só faltou o doutorzinho pedir planilha em Excel do terror, né? Selva, melancia, aqui é bala e fuzil, não dissertação de mestrado.
Cláudio Ribeiro
13/05/2026
A retórica dos “senhores feudais modernos” é curiosamente oportuna: Gramsci já alertava que a hegemonia se exerce tanto pela coerção quanto pelo consentimento, e o capital financeiro global opera exatamente nessa chave. Mas reduzir a dominação contemporânea a uma casta de potentados externos ignora que o neoliberalismo, como Foucault demonstrou, se infiltrou na própria racionalidade de Estado – inclusive em regimes que se pretendem antissistêmicos. A resistência que a humanidade precisa não virá de quem governa pelo terror teocrático, mas da reconstrução do espaço público democrático que o capital sequestrou.
Major Ricardo Silva
13/05/2026
Cláudio, falar em Gramsci e Foucault é sofisticado, mas a desordem que vivemos veio exatamente dessa turma que desconstruiu nossos valores e relativizou tudo em nome de um “espaço público” que só serviu para doutrinação. A verdadeira resistência é contra essa esquerda que, feito o Irã, quer impor seu fundamentalismo laico goela abaixo enquanto aparelha o Estado.
Tiago Mendes
13/05/2026
Major, os profetas bíblicos também foram acusados de desconstruir valores quando denunciavam reis e sacerdotes que oprimiam os pobres. A verdadeira resistência cristã não é contra a justiça social, mas contra qualquer sistema que concentre poder e esmague os pequenos. Isaías e Amós não lutavam por fundamentalismo algum, e sim para que o direito corresse como água e a justiça como ribeiro perene.
Jeferson da Silva
13/05/2026
Tiago, Isaías e Amós não tinham CLT mas se tivessem certamente estariam na linha de frente do sindicato, denunciando os senhores feudais de terno e gravata que hoje sugam a mais-valia no chão de fábrica. A justiça que corre como água, aqui no ABC, tem nome, sobrenome e carteira assinada – e a resistência verdadeira é a greve que para as máquinas e faz o patrão tremer na base.
Beatriz Lima
13/05/2026
Ah, a ironia fina que só a geopolítica consegue proporcionar. O porta-voz do Irã convoca “todo ser humano decente” a resistir aos “senhores feudais modernos que governam pelo terror”. É quase poético — ou seria, se não viesse de um regime cujo próprio modelo de governança se sustenta sobre uma teocracia hereditária, milícias transnacionais e um histórico meticulosamente documentado de repressão interna. Antes de embarcar nessa retórica inflamada, talvez valha a pena perguntar: exatamente quais métricas de “decoro humano” estamos usando aqui? Porque quando olho para o índice de execuções per capita, para o tratamento de minorias étnicas e religiosas ou para a resposta a protestos pacíficos como os de 2022, a definição de “terror” começa a ficar perigosamente autorreferente.
A expressão “senhores feudais modernos” é, reconheço, uma escolha retórica interessante. Presumo que se refira ao eixo ocidental, às potências que de fato operam com sanções econômicas e intervenções militares seletivas. O problema é que ela ignora convenientemente que o Irã também joga esse jogo — e com um apetite feudal bastante explícito. Financiar proxies armados no Iêmen, no Líbano e na Síria enquanto mantém uma economia interna sufocada por corrupção e má gestão não é exatamente um ato de resistência heroica; é uma estratégia de projeção de poder que, no frigir dos ovos, também governa pelo terror, só que com embalagem de “frente de resistência”. Se vamos debater imperialismo, que seja com todas as cartas na mesa, sem o privilégio seletivo da indignação.
Gostaria de ver os dados que sustentam essa conclamação universal. O apelo a “todo ser humano decente, independentemente de religião, etnia, nacionalidade ou raça” soa lindo no papel — ou no tweet, no caso —, mas contrasta com um Estado que pune a apostasia com pena de morte, que criminaliza identidades LGBTQ+ e que, segundo relatórios consistentes da ONU e de organizações como a Anistia Internacional, mantém um dos mais altos índices de execução do mundo. Em 2023, mais de 850 pessoas foram executadas, muitas após julgamentos que desafiam qualquer noção básica de devido processo legal. Quando o porta-voz fala em “humanidade decente”, ele inclui as mulheres que arriscam a vida por não usar o hijab “corretamente”? Inclui os manifestantes enforcados por questionarem o sistema dos “guardiães da revolução”? A conta simplesmente não fecha.
Meu ceticismo, portanto, não é com a ideia de resistir a estruturas opressivas globais — isso é necessário e urgente. É com a pretensão de pureza moral de um ator que pratica, dentro de suas fronteiras e em sua esfera de influência, o mesmo autoritarismo que condena. O sarcasmo aqui não é mero deboche; é uma ferramenta de sobrevivência intelectual diante de discursos que usam a linguagem da libertação para encobrir projetos de poder profundamente iliberais. Dito isso, dou crédito à criatividade: “senhores feudais modernos” tem um quê de ensaio acadêmico misturado com panfleto revolucionário. Só faltou combinar com os camponeses que o sistema dos aiatolás mantém sob jugo.
João Carlos Silva
13/05/2026
Beatriz, você foi certeira na crítica, mas eu olho isso como motorista que sou: no fim, quem sofre com sanções e regimes fechados é sempre o povo comum, que só quer trabalhar e ver a família bem. Dá uma tristeza ver que, de um lado ou do outro, o trabalhador é sempre a moeda de troca.
Bia Carioca
13/05/2026
João, você tocou num ponto que resume bem a angústia de quem está na linha de frente: o trabalhador é sempre a mola que absorve o choque, seja nas sanções externas ou nos cortes de direitos aqui dentro. É por isso que a luta por transporte público de qualidade é também uma luta contra esse ciclo – para que o motorista e o passageiro não sejam moeda de troca de nenhum projeto que ignore a base da pirâmide.
Marta
13/05/2026
Meus queridos, que interessante essa fala do porta-voz iraniano. Como professora de História aposentada, mas nunca cansada de ensinar, preciso dizer que a expressão “senhores feudais modernos” não é nenhum exagero retórico. Basta olharmos para a estrutura do sistema financeiro internacional, para os monopólios das big techs, para o controle que meia dúzia de conglomerados exerce sobre a alimentação, a energia e a comunicação no planeta. Isso, meus meninos, se chama história: a concentração de poder nunca deixou de existir, ela só trocou de roupa. Saíram os castelos e as espadas, entraram os algoritmos e os pacotes de sanções econômicas. Mas a lógica é exatamente a mesma: manter os servos subjugados enquanto uma elite intocável dita as regras.
O que o diplomata iraniano está fazendo, com todas as limitações e contradições que o governo dele possa ter – e eu não vou aqui fazer defesa de teocracia nenhuma, que isso fique bem claro – é cutucar uma ferida que o Ocidente insiste em esconder debaixo do tapete. O terror, meus alunos, nunca foi monopólio de um lado só. Quando os Estados Unidos invadiram o Iraque com base em mentiras sobre armas de destruição em massa, quando a OTAN destruiu a Líbia e jogou aquele país no caos, quando Israel bombardeia hospitais e escolas com o apoio logístico e financeiro do Norte global, que nome devemos dar a isso? Não é terror também? É a velha tática do “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”, que os meninos mal-educados do liberalismo repetem como papagaios sem nunca ter lido um livro de Eric Hobsbawm ou Edward Said.
E vejam como a mídia corporativa reage: trata a declaração como propaganda inimiga, como se resistir ao domínio fosse um ato de histeria. Aprendam uma coisa, crianças: todo império acusa de radical quem ousa não se ajoelhar. Foi assim com as independências africanas, foi assim com a resistência vietnamita, foi assim com a Nicarágua sandinista, e é assim hoje com os povos que não aceitam a submissão ao dólar e às bases militares estrangeiras. A verdadeira resistência da humanidade não é contra o Irã ou contra o Ocidente, é contra essa lógica predatória que transforma vidas em planilhas de lucro e países em protetorados disfarçados de democracias.
Agora, prestem atenção num detalhe que quase todo mundo deixa escapar: quando se fala em “todo ser humano decente, independentemente de religião, etnia ou nacionalidade”, o que está sendo convocado não é um bloco geopolítico, mas uma consciência ética universal. É exatamente o que Lula faz quando vai à ONU e fala em combate à fome, em reforma do Conselho de Segurança, em paz com justiça social. É o que o Papa Francisco faz quando denuncia o sistema que descarta os pobres. É o que qualquer pessoa de bom senso deveria fazer. O problema é que os meninos mal-educados do fascismo e do neoliberalismo acham que solidariedade internacional é comunismo, e que soberania nacional é atraso. Eles não estudaram história, não leram Celso Furtado, não sabem o que foi a Conferência de Bandung nem por que a luta pela autodeterminação dos povos é um dos capítulos mais bonitos do século XX.
Então, meus queridos, antes de saírem repetindo as bobagens que a grande imprensa vomita todo dia, sentem-se, peguem um livro, estudem o que foi o colonialismo, o que é imperialismo e por que figuras como Galeano, Frantz Fanon e Darcy Ribeiro continuam tão atuais. Depois a gente conversa. Porque debate sem lastro histórico é só barulho. E barulho não constrói nada, só atordoa – que é exatamente o que esses “senhores feudais modernos” querem. O povo, quando se informa, se organiza e se ama, fica perigoso. E é por isso que eles têm tanto medo de gente como Lula, de gente como os movimentos populares, e sim, até de um porta-voz que ousa dizer o óbvio: que o rei está nu, e que a humanidade precisa acordar.
Fernanda Oliveira
13/05/2026
Marta, sua aula é preciosa e a analogia histórica tem lastro — os “senhores feudais modernos” existem, e a concentração de poder que você descreve é real. Mas o ponto cego está em romantizar quem aponta o dedo: usar o regime iraniano como voz da resistência é esquecer que o mesmo governo que denuncia o “terror” ocidental enforca mulheres por protestarem contra o hijab e financia milícias que escravizam populações inteiras no Iêmen. Hobsbawm, Said e Fanon nos ensinaram a enxergar a complexidade, não a trocar um discurso maniqueísta por outro.
Lucas Moreira
13/05/2026
O discurso do Irã contra “senhores feudais modernos” é irônico vindo de uma teocracia que controla preços, reprime mercados e mantém a população refém de subsídios ineficientes. O verdadeiro feudalismo é o Estado gigante que sufoca a iniciativa privada com impostos e regulamentações – só ver o PIB per capita estagnado deles há décadas. Liberdade econômica de verdade, com menos estado e mais propriedade privada, resolve mais do que qualquer panfleto ideológico.
Paulo Gestor RJ
13/05/2026
Concordo que Estado inchado atrapalha, Lucas, mas reduzir tudo a menos governo é simplista demais – já vi liberdade econômica sem freio gerar monopólios tão danosos quanto qualquer teocracia. No fundo, o que importa é gestão eficiente, e isso independe do tamanho do Estado.
Paula Santos
13/05/2026
Paulo, você acertou: o que importa é uma gestão que sirva com justiça. Como cristã, acredito que o Estado não é um fim em si mesmo, mas um instrumento para promover o bem comum — e isso pede tanto eficiência quanto freios morais, para que nem mercado nem poder público se tornem ídolos.
Maura Santos
13/05/2026
Concordo, Paula, mas esse freio moral que você menciona precisa funcionar na prática – e não é o que a gente vê quando lembram do apagão que a turma do Estado mínimo causou ao sucatear o serviço público, enquanto o metrô virava lata-velha e o ônibus sumia da periferia. O bem comum que você defende como cristã começa com rodando no horário e com dignidade, não com discurso bonito que esquece da galera no ponto.
Celio Fazendeiro
13/05/2026
Para de culpar o estado mínimo, sua ecochata. O transporte só não funciona porque esse país parou pra proteger perereca e dar terra pra índio – se vocês desmatassem direito, sobrava grana até pra metrô de ouro.
Letícia Fernandes
13/05/2026
É sintomático que justamente um Estado do chamado ‘Sul Global’ articule, em linguagem acessível, uma crítica que o Ocidente insiste em recalcar: a estrutura do capitalismo financeirizado internacional reedita, sob novas formas de extração de mais-valia, os vínculos de suserania e vassalagem que a historiografia liberal julgava superados. A metáfora dos ‘senhores feudais modernos’ empregada pelo porta-voz iraniano merece escuta psicanalítica: o retorno do recalcado histórico, aquilo que a modernização conservadora tentou enterrar sem luto. O capital monopolista transnacional opera com um aparato de terror que não é mero desvio autoritário de alguns Estados periféricos, mas a essência mesma da acumulação por espoliação — guerra cambial, bloqueios econômicos, agiotagem multilateral — que mantém nações inteiras reféns de dívidas impagáveis, enquanto a superestrutura ideológica martela a cantilena de ‘democracia’ e ‘direitos humanos’ como significantes vazios que encobrem o gozo sádico do Norte global sobre os condenados da terra.
A direita ocidental, sobretudo em sua versão neoconservadora e em sua variante bolsonarista tropical, reage a esse discurso com o que a clínica designaria como masoquismo moral: quanto mais o FMI estrangula a soberania popular, mais esses sujeitos desejam ser flagelados pelo chicote do mercado, identificando-se com o agressor e suplicando por mais austeridade como quem anseia pela repetição do trauma. Trata-se de uma patologia narcísica que exige piedade teórica, não simplesmente condenação política. O sujeito fascistizado não é um inimigo externo, mas um irmão capturado por um supereu arcaico, pré-edípico, que ordena gozar na submissão. A resistência a que Baqaei convoca ‘todo ser humano decente’ não pode, portanto, ser apenas institucional — tem de ser subjetiva, enfrentando no campo da cultura e do simbólico a introjeção desse supereu burguês que faz o oprimido sentir-se indigno de sua própria liberdade.
Esse processo de subjetivação subalterna é a verdadeira matéria sobre a qual trabalha a hegemonia imperialista. Quando uma nação periférica busca autonomia, ela rapidamente é rotulada como ‘ameaça’, ‘Estado pária’, enquanto as potências centrais seguem chacinando populações com drones e sanções sem que o noticiário corporativo as nomeie como terroristas. O que se observa é uma verdadeira partilha psicopolítica do sensível: o sofrimento de um sírio ou iemenita não é enlutável no imaginário euro-atlântico, porque suas vidas não são plenamente humanas na economia libidinal do capital. O discurso do Irã, evidentemente, não está isento de contradições — Estado nenhum o está. Mas sua insistência em furar a bolha discursiva do Norte revela a urgência de uma clínica do laço social planetário, que diagnostique no neoliberalismo a pulsão de morte desatada, sem as amarras do pacto civilizatório keynesiano que um dia lhe serviu de contenção.
Nós, psicanalistas marxistas do Nordeste brasileiro, sabemos do que se trata quando se fala em ‘senhores feudais modernos’. Nossas terras ainda carregam as marcas da plantation e da Casa Grande, que nunca deixou de existir, apenas trocou os instrumentos de tortura pelos juros do agronegócio e os capitães do mato pelo aparato policial-midiático. A direita nacional, patética em sua veneração do chicote, representa o lumpenproletariado de consciência amesquinhada, que não consegue simbolizar sua própria dor e por isso a projeta sobre imigrantes, feministas, comunistas. Essa gente merece mais do que desprezo: merece um luto coletivo que lhe devolva a capacidade de amar, em vez de odiar a si mesma nos espelhos quebrados que a classe dominante lhe oferece. A convocação iraniana só terá eco real se soubermos traduzi-la para o chão concreto das lutas por moradia, por comida sem agrotóxico, por trabalho não precarizado — pois resistir ao feudalismo moderno é, antes de tudo, recusar o terror de acreditar que não há alternativa fora da submissão ao capital.
Pedro
13/05/2026
Essa discussão toda é muito bonita no papel, mas amanhã cedo eu sigo rodando com aplicativo pra ver se pago o IPVA atrasado e encho o tanque com gasolina a sete contos. Aqui no chão da rua, o chicote do mercado dói é no bolso, e não adianta terapia se não tem dinheiro pro pão.
Mateus Silva
13/05/2026
Sua leitura é afiada, Letícia, mas essa “piedade teórica” pelo sujeito fascistizado me parece perigosamente perto de absolver a adesão consciente ao projeto de morte do capital, que Gramsci chamaria de escolha ativa pelo transformismo reacionário. A metáfora feudal é potente, mas exige ancoragem na luta de classes concreta para não virar abstração psicanalítica que esfria o imperativo materialista da organização política.
Pedro Almeida
13/05/2026
Letícia, sua análise decanta com rara fineza a dimensão subjetiva da dominação, mas me pergunto: sem a organização política que transforme as condições materiais, não corremos o risco de reduzir a psicanálise a um consolo teórico? A tese XI de Marx sobre Feuerbach segue nos cobrando essa passagem do diagnóstico para a práxis.
Ana Costa
13/05/2026
A metáfora dos “senhores feudais modernos” tem força retórica e ressoa com críticas reais a estruturas de poder global, porém é impossível ignorar a ironia vinda de um regime que, segundo a Repórteres Sem Fronteiras, ocupa a 177ª posição em liberdade de imprensa. O discurso de resistência ao terror perde legitimidade quando o próprio Estado pratica repressão sistemática contra sua população, todavia o ponto central sobre a dominação econômica e militar continua válido para o debate.
Lucas Andrade
13/05/2026
A contradição que você aponta é justamente o sintoma mais honesto da nossa época: todo gesto de resistência carrega a sombra da estrutura que pretende combater. Talvez a força da metáfora resida exatamente em não pertencer a ninguém — porque a dominação, como bem sabia Foucault, nunca tem mãos limpas.
Silvia D.
13/05/2026
Lucas, seu raciocínio é elegante, mas me preocupa quando a metáfora vira licença para normalizar o cinismo. A resistência pode até ter mãos sujas, mas entre o gesto imperfeito e a imobilidade reflexiva, prefiro quem ainda tenta segurar a seringa com firmeza.
João Santos
13/05/2026
Silvia, resistência de verdade é botar ordem na bagunça, não ficar brincando de metáfora. Não adianta segurar seringa se a injeção é veneno, entende?
Clotilde Pátria
13/05/2026
Silvia, esse papo de seringa firme e mãos sujas é o prelúdio da implantação do comunismo, tudo muito lírico até a foice cortar seu pescoço. Rezo a Deus para que ainda haja tempo de escapar desses senhores feudais modernos e de quem romantiza a resistência deles.
Capitão Tavares 🇧🇷
13/05/2026
Até o Irã já sacou que o mundo tá dominado por uma corja globalista que usa terror como ferramenta. Aqui no Brasil esse povo da “nova ordem” age com a mesma cara lavada, e só não vê quem não quer. A única saída é o braço armado da nação entrar em cena antes que acabem de vez com nosso país.
Samara Oliveira
13/05/2026
Capitão, reduzir a luta contra a desigualdade a “braço armado” é esquecer que o Evangelho nos chama a desarmar o coração primeiro. A verdadeira resistência vem de comunidades que se organizam para repartir o pão e denunciar a corrupção que sangra os pobres, não de mais violência que só multiplica o medo.
Ana Souza
13/05/2026
Por mais que a retórica iraniana carregue um tom de propaganda, é difícil ignorar que a concentração de poder e o medo como ferramenta de controle são problemas reais em várias partes do mundo. Mas também é hipócrita ouvir isso de um regime que reprime sua própria população e financia grupos armados. No fim, a gente precisa de mais diálogo e menos apontar dedos, tanto de um lado quanto do outro.
Karina Libertária
13/05/2026
Meu deus, que papinho mais loser esse do Irã, hein. Aqui em Miami ninguém perde tempo com discursinho anti-imperialista, a gente faz business e investe em stock market, não fica mendigando bolsa família do governo. Get a job, honey.
Adriana Silva
13/05/2026
Faz o L agora, Irã! Comunismo e sharia juntos rumo ao paraíso dos trabalhadores kkkkk
João Carlos da Silva
13/05/2026
Adriana, sua piada opera como aquilo que Freire chamaria de consciência ingênua: reduz contradições geopolíticas complexas a um meme para o conforto de não precisar enfrentá-las. O riso fácil é o melhor amigo do status quo.
Marina Costa
13/05/2026
Esse regime islâmico que apedreja mulheres e persegue cristãos agora quer posar de bastião da moralidade mundial. Engraçado ver a esquerda aplaudindo discurso anti-imperialista de quem mantém teocracia medieval, enquanto chama a igreja de retrógrada — a hipocrisia tem dois pesos e duas medidas.
Mariana Santos
13/05/2026
Marina, seu incômodo com a hipocrisia é justo, mas confundir a crítica anti-imperialista com aplauso automático a teocracias é um espantalho que apaga uma longa tradição socialista de denunciar simultaneamente o imperialismo ocidental e os despotismos locais — Rosa Luxemburgo já nos ensinou que a luta contra a opressão não pode se aliar a carrascos de saia ou de batina.
Eduardo Nogueira
13/05/2026
O maior exportador de terror do mundo posando de paladino da humanidade é de dar risada. Eles odeiam “senhores feudais” mas mantêm um sistema teocrático medieval que apedreja mulheres e enforca gays. Vai pregar mentira na porta da própria mesquita.
Julia Andrade
13/05/2026
Eduardo, sua indignação ecoa com força porque ela toca em uma ferida que persiste no pensamento crítico de esquerda: a dificuldade de lidar com Estados que instrumentalizam a retórica anti-imperialista enquanto operam, internamente, engenharias brutais de opressão. O regime iraniano faz isso com maestria cínica. Ele se apresenta como bastião da resistência ao “senhor feudal moderno” – leia-se, o capital financeiro ocidental e sua arquitetura militar – mas gere seu próprio feudo com grilhões teológicos. E aqui entramos numa seara mais espinhosa do que a simples denúncia da hipocrisia, porque essa contradição não é apenas uma falha moral do aiatolá de plantão; ela é sintoma de um impasse geopolítico que a teoria decolonial e feminista insiste em esmiuçar.
A pedra no sapato está justamente em como nós, no ocidente, mobilizamos certas noções para deslegitimar esses discursos. Quando você aponta o “apedrejar mulheres” e o “enforcar gays” como provas de um “sistema medieval”, ativa, talvez sem querer, uma longa tradição colonial de classificar o Oriente como espaço do atraso a ser civilizado. Isso não retira um milímetro da violência real contra corpos dissidentes no Irã, violentíssima e que merece cada grama de repúdio. Mas o enquadramento que coloca o terror de Estado iraniano como essencialmente exótico e arcaico serve, perigosamente, para higienizar as formas contemporâneas, ocidentais e “modernas” de terror – do encarceramento em massa racializado nos EUA ao asfixiamento econômico de populações inteiras via sanções. O “senhor feudal moderno” de que fala o porta-voz iraniano não é uma mentira completa; ele só omite que seu próprio regime é uma das faces distorcidas dessa mesma modernidade-colonialidade, um Estado-nação que emergiu das entranhas do imperialismo britânico e russo e que usa a xaria como tecnologia de soberania profundamente moderna.
O que me tira do sério, como feminista que lê Frantz Fanon e Angela Davis, não é a constatação de que o Irã é uma teocracia assassina – isso é quase um ponto pacífico para qualquer pessoa com um mínimo de compromisso com direitos humanos. O que me parece um beco sem saída intelectual é a insistência em reduzir a complexidade do autoritarismo iraniano a um espetáculo de barbárie religiosa, como se o “ocidente” fosse o farol da laicidade inclusiva. O mesmo ocidente que financia ditaduras, bombardeia casamentos no Afeganistão e mantém campos de concentração para imigrantes no coração da Europa. A resistência à qual o porta-voz convoca a humanidade soa oca, claro, quando dita por um Estado que sufoca a própria população. Mas a lógica do “nós versus eles” que ele vocaliza só funciona porque há um histórico concreto de pilhagem ocidental que lhe dá combustível retórico. Negar essa camada não nos torna mais lúcidos; torna nosso humanismo perigosamente seletivo.
A crítica mais afiada, a meu ver, não pode descansar no insulto fácil ao “medieval”. Precisa mirar a engrenagem que permite que o discurso de libertação anti-imperialista seja sequestrado por fundamentalistas. E isso exige desmontar tanto a teocracia de Teerã quanto a arquitetura de dominação global que a alimenta dialeticamente. Porque no fim, o corpo da mulher iraniana que desafia o véu obrigatório e o corpo da mulher negra americana estéril e encarcerada não são vítimas de forças opostas – são alvos de diferentes laboratórios de um mesmo projeto de controle que nunca foi totalmente superado. E enquanto estivermos confortáveis apontando o apedrejamento em praça pública como a marca indelével da barbárie, sem enxergar as nossas próprias formas letais de gestão da vida, seguiremos apenas batendo palmas para o nosso próprio reflexo civilizatório.