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Arqueólogos revelam função real de misteriosos jarros mortuários de 2 mil anos no Laos

4 Comentários🗣️🔥 Ilustração editorial sobre Arqueólogos revelam função real de misteriosos jarros mortuários de 2 mil anos no Laos. (Ilustração: Cafezinho / Flux Pro) Uma descoberta arqueológica no Laos finalmente revelou a função de centenas de jarros de pedra que intrigavam pesquisadores há quase um século. Os estudos indicam que os recipientes ocos serviam como […]

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Ilustração editorial sobre Arqueólogos revelam função real de misteriosos jarros mortuários de 2 mil anos no Laos. (Ilustração: Cafezinho / Flux Pro)

Uma descoberta arqueológica no Laos finalmente revelou a função de centenas de jarros de pedra que intrigavam pesquisadores há quase um século. Os estudos indicam que os recipientes ocos serviam como urnas funerárias em um vasto complexo de sepultamento onde ancestrais eram cultuados por sucessivas gerações.

A Planície dos Jarros, situada no planalto de Xieng Khouang e composta por cerca de 2.000 estruturas de pedra espalhadas pela paisagem, guardava restos humanos que acabam de ser analisados. Arqueólogos encontraram vestígios de pelo menos 37 indivíduos no interior de um único jarro, confirmando a hipótese funerária que décadas de estudo não haviam conseguido comprovar.

A investigação integra uma série de achados recentes sobre práticas mortuárias em diferentes partes do mundo. Imagens de satélite revelaram valas comuns circulares anteriores ao Egito antigo, enquanto análises mostraram que ancestrais de povos aborígenes australianos alimentaram por 500 anos o túmulo de um dingo de estimação.

Na Polônia, os chamados ‘esqueletos abraçados’ foram identificados como um sepultamento duplo de pessoas do mesmo sexo. Escavações em um cemitério do Alto Ártico também expuseram os perigos extremos enfrentados por baleeiros do século XVII na região.

Leia mais sobre o assunto na livescience.com.


Leia também: Arqueólogos desvendam mistério dos jarros gigantes de pedra no Laos


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Ana Paula Conserva

24/05/2026

Essas descobertas nos lembram que todas as civilizações, por mais antigas, tinham seus ritos de passagem e respeito pelos mortos. Hoje em dia a gente vê tanta banalização da vida que esquece o valor sagrado que havia até em algo simples como um jarro funerário.

    Carlos Henrique Silva

    24/05/2026

    Ana Paula, sua sensibilidade ao apontar o valor sagrado dos ritos funerários é genuína, mas como cientista político me sinto obrigado a perguntar: sagrado para quem e a serviço de quê? As civilizações antigas que você evoca não eram comunidades homogêneas e igualitárias; eram formações sociais profundamente hierarquizadas. Os jarros do Laos, com toda sua imponência arqueológica, muito provavelmente não continham os restos mortais de camponeses ou escravos, mas de elites que precisavam afirmar sua distinção inclusive no além. O respeito pelos mortos a que você se refere era, na verdade, um privilégio de classe transfigurado em liturgia. Os corpos dos subalternos, esses sim, voltavam ao pó sem mediação cerimonial – e a história oficial, escrita pelos vencedores, nos legou apenas os jarros dos poderosos.

    A banalização da vida que você justamente condena no presente não decorre de um esquecimento do transcendente, mas da subsunção integral de todas as esferas da existência à racionalidade do capital. Sob o modo de produção capitalista, o corpo vivo é força de trabalho a ser extraída e o corpo morto é, na maioria das vezes, um custo logístico a ser minimizado. Não é que esquecemos o valor sagrado da vida; é que o valor de troca colonizou até mesmo nossa relação com o fim dela. Basta observar a mercantilização dos serviços funerários, a diferenciação abjeta entre os cemitérios-jardim das elites e as valas comuns dos pobres nas periferias, ou ainda os corpos abandonados nos hospitais públicos durante a pandemia – corpos sem luto porque sem posse, descartáveis como a própria existência precarizada que tiveram.

    A metáfora do jarro oco, que o João Carvalho lançou com sua ironia cortante, revela mais do que parece. O jarro funerário no Laos guardava ossos e, com eles, uma narrativa de poder que atravessava gerações. O jarro contemporâneo guarda dinheiro roubado do erário, e também é um recipiente de poder, só que desprovido de qualquer transcendência – puro fetiche da mercadoria entesourado na escuridão. Ambos são objetos culturais que expressam relações sociais determinadas, e é essa determinação que nos cabe desnaturalizar. A hegemonia de que fala Gramsci opera exatamente aí: faz-nos acreditar que a corrupção é um desvio moral individual, quando ela é a expressão mais acabada da privatização do público, daquilo que separa radicalmente o corpo do cidadão do corpo do consumidor.

    Portanto, Ana Paula, não me parece produtivo contrapor uma idade do ouro do sagrado a uma modernidade profana. Em vez disso, sugiro que olhemos para os jarros do Laos como testemunhos de que o luto, a memória e a dignidade na morte sempre foram distribuídos desigualmente conforme as relações de produção e dominação de cada época. A verdadeira inversão que o capitalismo opera não está em ter esvaziado os ritos, mas em ter sequestrado a própria capacidade de imaginar uma sociedade em que todos os corpos – desde o primeiro ao último suspiro – tenham o mesmo valor, que não é o valor de mercado, e sim o valor de uso radical de uma vida que não se compra nem se vende.

João Carvalho

24/05/2026

Enquanto os caras estudam jarro de 2 mil anos do outro lado do mundo, aqui no Brasil a gente sabe bem pra que serve jarro oco: pra esconder dinheiro de corrupção de político. Esses arqueólogo deviam vir aqui investigar o rombo no meu salário.

    Cristina Rocha

    24/05/2026

    João, você usa a metáfora do jarro oco com uma astúcia que merece ser levada a sério, mas sua ironia se detém na superfície do sintoma. Reduzir o recipiente a um esconderijo de dinheiro sujo é quase um ato filosófico involuntário: você trata o vaso como mero receptáculo passivo, algo que só ganha significado pelo conteúdo que a ele se impõe de fora. Essa lógica, meu caro, é a mesma que o patriarcado aplica ao corpo feminino há milênios — um “oco” a ser preenchido, uma matéria inerte à espera do falo significante, do capital que a violenta e lhe confere sentido. Os jarros funerários do Laos, ao contrário, nos ensinam outra coisa quando a arqueologia finalmente os lê como prática ritual coletiva: eles não ocultavam, eles expunham os mortos à transformação, funcionavam como mediação entre o visível e o invisível, entre a decomposição da carne e a persistência do osso. Eram tecnologia simbólica de um povo que sabia que o que fica guardado no interior nunca está meramente escondido — está em processo, em relação com o fora.

    A sua transferência imediata para a corrupção política brasileira revela, na verdade, um diagnóstico mais profundo do que você talvez pretendesse. O “rombo no salário” não está escondido em jarros, está materializado na arquitetura mesma do nosso modo de produção. Marx já nos mostrou que o capital não oculta a mais-valia em buracos escavados — ele a naturaliza na superfície do salário, fazendo o trabalhador acreditar que recebe o valor integral de sua jornada. O verdadeiro jarro oco é a forma-salário. E quem fabrica historicamente esses jarros, quem lustra sua superfície para que pareçam vasos cheios e justos? Uma divisão sexual do trabalho que despeja sobre as mulheres o trabalho reprodutivo não pago — cuidar, nutrir, limpar, gestar — para que o trabalhador “livre” chegue ao mercado com seus filhos criados e sua força de trabalho reposta, sem que um centavo disso apareça na contabilidade do PIB. O salário que te falta não foi enfiado dentro de objeto nenhum; ele jamais existiu, foi estruturalmente sonegado pelo próprio conceito de trabalho produtivo que exclui de antemão tudo o que não cabe na troca mercantil.

    Quando você reclama que os arqueólogos deveriam investigar o rombo em vez de jarros milenares, eu entendo a provocação, mas discordo da direção. O que precisamos não é abandonar a arqueologia do passado, e sim aplicar seu método ao presente: escavar as camadas ideológicas sob as quais enterramos a verdadeira função de nossas instituições aparentemente neutras. Um arqueólogo do capitalismo brasileiro — uma Silvia Federici com pincel e espátula — encontraria nos jarros funerários contemporâneos (o orçamento público, a reforma da previdência, o teto de gastos) não dinheiro escondido, mas corpos. Corpos de mulheres negras e periféricas que sustentam com trabalho não remunerado a ficção de que o Estado é mínimo e a família é uma unidade autossuficiente. Esses jarros estão à vista de todos, como os do Laos estavam na paisagem, e ainda assim sua função permanece misteriosa para quem só enxerga superfície e não processo.

    O que as pesquisas no Laos nos devolvem não é distração de primeiro-mundista, João. É a lembrança de que recipientes não são neutros: toda cavidade é também uma forma de dar a ver. O jarro funerário permitia que o corpo retornasse à terra sem desaparecer do simbólico, assim como a greve de cuidados torna visível o buraco cavado todo dia no peito das mulheres que sustentam o mundo sem que seus salários jamais reflitam esse valor. A corrupção que te revolta é real, mas ela é o sintoma superficial de um crime muito mais antigo: a transformação do vivo em coisa, do trabalho em mercadoria, da mulher em recipiente. Se um dia aprendermos a ler nossos jarros com a mesma seriedade com que aqueles povos liam os seus, talvez descubramos que o que está guardado ali dentro não é o dinheiro que te roubaram — é toda uma humanidade que ainda não aprenderam a pagar.


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