Ato em defesa da imprensa

Imprensa brasileira esqueceu o que é o fato

Por Miguel do Rosário

11 de abril de 2016 : 14h07

O dia hoje iniciou-se com um episódio engraçado. O jornalista Gleen Greewald, que não tem escondido sua perplexidade com o nível de militância pró-golpe dos repórteres da Globo, menciona um tweet de Jorge Pontual, correspondente da Globo em Nova York, no qual Pontual demonstra a mais crassa ignorância sobre as leis brasileiras.

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Ignorância não é crime. Mas partindo de um jornalista influente, correspondente em Nova York da maior rede de TV do Brasil, e num momento tão delicado da vida nacional, é um tropeço imperdoável.

Quer dizer, seria até perdoável, se o autor – em vista da enxurrada de críticas que recebeu – pedisse desculpas por sua ignorância.

Não. Pontual bloqueou todo mundo, inclusive Glenn Greenwald, revelando o que está por trás do golpe: violência, censura e recusa ao debate.

Envergonhado da besteira que tinha dito, Pontual apagou o tweet. Para alguns, ensaiou uma justificativa esfarrapada… Disse que se referia ao direito anglo-saxão…

Ora, em pleno processo de impeachment no Brasil, um jornalista mandar uma dessas? Se era assim, porque bloqueou Glenn Greenwald, eu, etc?  Nós nunca o xingamos.

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Vendo o TL de Jorge Pontual, vemos que ele é um fanático pelo Dalton Dallagnol, o procurador estrelinha da Lava Jato que frequenta igrejas pregando ajuda divina para o fim da corrupção no Brasil (ajuda ao fim da sonegação da Globo, ele não pede, não sei porque).

Deixemos Pontual para lá. Ele é golpista porque se não fosse não continuava na Globo. Os raríssimos não-golpistas do jornalismo global nunca duraram muito.

A situação deve estar muito tensa entre os profissionais da emissora. Todo mundo quer dar algum tipo de demonstração golpista, como forma de segurar o emprego.

A manhã terminou com outra jabuticaba brasileira. Catia Seabra, repórter de política da Folha, entrevista Henrique Fontana, deputado petista, perguntando se ele confirmava história sobre desfiliação em massa de parlamentares petistas. Fontana negou peremptoriamente. Não adiantou. A Folha tinha uma pauta pronta e os fatos eram apenas um detalhe sem importância. A matéria foi publicada.

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Todos os procurados pela reportagem negaram o teor da matéria. Mas isso não vem ao caso. O que importa era produzir alguma coisa que impactasse negativamente o PT, ou seja, alguma coisa que contribuisse para o golpe.

O jornalismo brasileiro perdeu qualquer compromisso com os fatos.

O jornalismo brasileiro vive uma profunda crise epistemológica. Esqueceu o que é verdade e o que é mentira.

O que é verdade, para o jornalismo brasileiro, é apenas o que interessa ao golpe. Ponto final.

Conversa entre Catia Seabra e Henrique Fontana:

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Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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