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A Fábula do Presidente Decorativo

Por Rogerio Dultra

15 de maio de 2016 : 02h18

 

 

 

 

Por Rogerio Dultra dos Santos

Era uma vez um país cuja Presidente legítima foi acusada de não ter dado a atenção devida ao seu Vice. Ela confiava que era dele o dever de cumprir rigorosamente o papel moral de discrição e lealdade.

Contudo, neste país específico, havia já uma larga história de golpes, intentonas e traições, geralmente envolvendo Vice-Presidentes. E alguns deles, por bem ou por mal, acabavam chegando ao poder.

Então, era forçoso que a Presidente legítima tivesse todo o cuidado para não sofrer uma ferroada insidiosa.

Aguilhoada tanto mais previsível quanto se sabia que o seu Vice queria ser presidente já quando criança. Tal estranha natureza fora documentada desde as arcadas de sua faculdade, quando este Vice tentava ganhar eleições majoritárias, sempre sem sucesso.

Deste modo, se, ou melhor, quando a picada viesse, esta não só chegaria de surpresa, mas seria cheia de veneno.

Mas, diferentemente do que era de se esperar, e numa estratégia canhestra como somente aqueles anormalmente sem talento podem fazer, o Vice se denunciou golpista através de uma rocambolesca carta “vazada” para a imprensa. Ali foi adiantado o estratagema: um lamentável muro de acusações, um triste e peçonhento relato de alguém que supostamente fôra abandonado pela Presidente legítima.

O Vice, ausente o elemento surpresa, acusava o caráter de sua situação: era meramente decorativo.

E, como todo sujeito sem talentos, como todo aquele talhado para protagonizar os rodapés e os apêndices da história, como os que demonstram sua deslealdade em previsíveis ardis subterrâneos, esse Vice finalmente foi, de forma solene, ignorado pela Presidente legítima.

Magoado, ferido em seu orgulho, o Vice-decorativo resolveu abandonar a pele de cordeiro e passou a conspirar abertamente para surrupiar o poder da Presidente legítima.

As oposições, entenderam o recado e organizaram um modo de transformar o traiçoeiro Vice em um mandatário de fachada, isto é, em um Presidente verdadeiramente Decorativo.

Contaram, para seu plano maléfico e mordaz, com o apoio animado dos meios de comunicação e de uma decadante porém grande potência alienígena.

Soube-se depois que o Presidente Decorativo e ilegítimo adornara o seu vazio discurso  de posse com a retórica grandiloquente dos ressentidos sem autoridade.

E os sobreviventes daquele episódio disseram que o Presidente Decorativo fabulou, prometeu, floreou e – lacaio a interesses variados, mas todos voltados para canibalizar aquele belo e indefeso país –, permitiu que se montasse o governo mais esdrúxulo que jamais fôra visto naquelas plagas.

Ocorreu, portanto, que sequer pôde controlar a escolha de seus ministros. E nem mesmo teve condições de definir as políticas de seu país, não obstante o desmonte da maioria delas tenha sido de sua única e exclusiva responsabilidade.

Machistas para “cuidar” das mulheres, racistas para “proteger” negros, mal-criados dirigindo universidades, ladrões ministeriando o erário, enfim, um conjunto de raposas controlando o galinheiro.

Estórias como esta já se sabe como terminam.

O insidioso Vice, transmutado artificiosamente em Presidente, só que Decorativo e bastardo, sem povo, sem dirigir um Centro Acadêmico, no momento em que se tornou interino-traidor-golpista-decorativo, foi usado pelos que acolheram a sua bile prenhe de torpeza.

Tornou-se um Presidente Decorativo sem poder, uma espécie de engenheiro sem diploma ou poeta sem alma.

A oposição, tão ou mais vil e ardilosa que o Presidente Decorativo, controlara tudo de longe, sem sujar as mãos, mesmo negando de pés juntos apoiar tamanha mediocridade.

E foi assim que se acabou o curto período daquele que foi sem nunca ter podido ou devido ser.

Desacreditado em sua capacidade de comando, perdido em devaneios lunáticos com a sua primeira dama ricamente adquirida, ele, num dia de luz, também foi apeado do poder.

Só que a sua queda não foi nem chorada, nem combatida pelo povo. É que ele, Presidente Decorativo, não era o Presidente legítimo. No frigir dos ovos, ele sequer tinha voto.

Pego de surpresa – como nunca conseguira fazer com suas vítimas –, acabou atingido como os embriagados pela ilusão de que o poder é soberano (ou eterno) e também caiu. Afundou em silêncio e no ostracismo daqueles disponíveis para o descarte.

Ser ou não ser – presidente – não era mais uma questão.

E a moral da estória é que a sua queda se deu exatamente por acreditar que tinha deixado de ser decorativo. Confiou, temerariamente, que os traíras teriam vez. Soçobrou no rio caudaloso da política, engasgado no seu próprio veneno.

Ao atravessar esta fábula, poderemos nos perguntar se, com a queda do Presidente Decorativo,  foi o caso de ter morrido também a democracia. Mas resposta não virá ainda desta vez, visto que tal estória, infelizmente, é uma outra…

FIM

Rogerio Dultra

Professor do Departamento de Direito Público da Universidade Federal Fluminense (UFF), do Programa de Pós-Graduação stricto sensu em Justiça Administrativa (PPGJA-UFF), pesquisador Vinculado ao INCT/INEAC da UFF e Avaliador ad hoc da CAPES na Área do Direito.

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11 comentários

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Eisenheim

16 de maio de 2016 às 03h56

O que eu tenho mais nojo na política é quando entram na vida pessoal das pessoas.

Por favor, não vamos cometer esse erro. Deixem a Marcela para lá. E seu filho também.

Nosso alvo é o Temer. E outros golpistas iguais a ele.

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    Sophia Theo

    16 de maio de 2016 às 11h17

    Segundo o velho ditado: diz-me com quem tu dormes, ops, dir-te-ei quem tu es. Ela dorme com um presidente golpista, portanto ela e’ a primeira dama golpista. E outra, vc esqueceu que Rosane Malta era do mesmo naipe que Fernando Collor, näo se iluda ,säo tudo m2rda da mesmo privada.

    Responder

      Eisenheim

      16 de maio de 2016 às 11h40

      Não tiro sua razão. Mas vou te falar de algo pessoal. Na minha família tem político. E numa disputa eleitoral, acabou sobrando para mim, que não botava os pés no Brasil há mais de um lustro.

      E eu nunca participei de nada. Sequer votei. Mas fui atingido em minha honra. Porém, o FDP que me atacou estava concedendo uma entrevista numa rádio. Liguei para a emissora e pedi para entrar ao vivo. E mandei o safado para a PQP. Isso ao meio-dia.

      Responder

Reinaldo Mechica Miguel

15 de maio de 2016 às 13h12

Esta é a surpresa para os coxinha…

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JOHN J.

15 de maio de 2016 às 14h04

TEMER JAMAIS
RESISTIR E LUTAR SEMPRE
EM DEFESA DOS DIREITOS
TEMER JAMAIS.
“TENTARAM NOS ENTERRAR, MAS NÃO SABIAM QUE ÉRAMOS SEMENTES”. (Provérbio mexicano).
100 mil pro MICHEL: https://www.facebook.com/rodrigo.cardoso.33483/videos/10207948613492111/
CUNHA repassou 5 MI para TEMER: http://www1.folha.uol.com.br/poder/2015/12/1721131-em-mensagem-cunha-cita-repasse-de-r-5-milhoes-a-michel-temer.shtml
J. Barbosa e o Golpe: https://www.youtube.com/watch?v=05clF9qffIM
Ministério de Dilma e Quadrilha de Temer: https://pbs.twimg.com/media/CiYWXpkW0AAhpgX.jpg
Cunha e Malafeita. https://www.youtube.com/watch?v=KQSWyIjeUGY

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Atineli

15 de maio de 2016 às 11h16

Genial !!! Arrisco dizer que esse temerário vai levar em sua queda muitas cabeças que há muito nos infernizam. A ver…

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Robinson Pimentel

15 de maio de 2016 às 09h46

KKKK, ” com a sua primeira dama ricamente adquirida”, de todas, gostei muito desta. E não é estória não, viu? Quanto ao texto, em sí, espero e tenho fé, tornar-se-á uma história.

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    Mariana

    15 de maio de 2016 às 12h40

    Que tal todos repetirmos em coro:
    “Apeia, Marcela, apeia! Antes que seu filhinho também seja conspurcado pela biografia do pai !!!”

    Responder

maria nadiê Rodrigues

15 de maio de 2016 às 08h39

A estória não terminou. O tempo é o senhor da razão. O Vice-golpista por mil razões não pode sequer condenar as políticas de Dilma, se estava de mãos dadas com ela em seus mandatos. A carta, como todos sabem, foi apenas o introito do golpe,e mais nada, e uma vergonha já registrada nos anais da República.
A falta de credibilidade desse Vice é tanta que ainda se sustenta pelas embromações da Globo e suas seguidoras. Hoje, aliás, o Fantástico o entrevistará e promete grandes revelações. Vem mais enrolações até de noite para embrulhar os incautos.

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Eisenheim

15 de maio de 2016 às 06h23

Excelente, Rosário! Gostei do TEMERaricamente. hahahahahaha

Por favor: corrija uma palavrinha com erro de digitação, destacada em negrito abaixo.

"E nem mesmo teve condições de definir as políticas de seu país, não obstante o desmonte da maioria delas tenha sido de sua úlnica e exclusiva responsabilidade."

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sbernardelli

15 de maio de 2016 às 03h24

MUITO BOM, OU MANDAR PARA A RAPOSA CRISTOVAM

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