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Yellow Nude, de Sonia Delaunay

Cafezinho Literário: um conto vermelho de José Rezende Jr.

Por Paulliny Gualberto Tort

19 de junho de 2016 : 22h46

O Cafezinho Literário comemora um mês de existência e a festa quem oferece é o jornalista e escritor José Rezende Jr. O conto “Eu morrendo e você pintando as unhas de vermelho” abre a coletânea “Eu perguntei pro velho se ele queria morrer (e outras estórias de amor)”, publicado pela 7Letras. A obra foi vencedora do Prêmio Jabuti, em 2010, na categoria Contos e Crônicas. E, com um pedacinho dela, brindamos a esses primeiros dias de vitória.

O José é um cara discreto. De fala mansa. Repertório diversificado. Seu mestre foi o escritor Moacir Scliar, que decerto assistiu com orgulho ao revelar do pupilo. A escrita de José Rezende Jr. é consistente, dura como a realidade que descreve, mas envolvente como as unhas vermelhas da personagem que você conhecerá a seguir.

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Um abraço,

Paulliny Gualberto Tort

Editora do Cafezinho Literário

Eu morrendo e você pintando as unhas de vermelho
José Rezende Jr.

eu morrendo e você pintando as unhas de vermelho mesmo
sabendo que suas unhas te deixarão com cara de puta, eu
morrendo e você com cara de puta, eu morrendo e você diante
do espelho vestindo-se como quem vai a uma festa dançar
a noite inteira, a saia rodada que eu gostava de ver rodando
no meio do salão deixando à mostra suas pernas de ginasta
e exaurindo meu fôlego de amante sedentário, eu sem fôlego
de tanto tossir sangue e você com o salto alto vermelho que
lhe empina a bunda, você enorme no alto das sandálias e eu
ainda menor do que antes encolhido em meu leito de morte,
eu morrendo e seu corpo tão cheio de vida, meu corpo já
quase vazio da alma, eu pálido e quase morto e o rosa vivo
dos seus mamilos durinhos, minha boca seca e o beijo úmido
que adivinho se desenhando no forro da sua calcinha, sua
menor calcinha, a que mal acomoda seus lábios cor de flor,
lábios que eu beijava e mordiscava prendendo sua fome entre
meus dentes, os poucos dentes que me restam trincando
de febre e você de peito de fora ignorando o frio que congela
minhas veias perfuradas, você demorando de propósito a
vestir o sutiã, você vestindo o sutiã que em outros tempos eu
abriria com não mais que dois dedos da mão esquerda, meus
dedos entrevados e você vestindo o sutiã que faz seus peitos
ainda maiores, meu peito ardendo por causa da falta de
ar e você com ares de puta que vai a uma festa trepar a noite
inteira, a noite inteira eu morrendo e você se encharcando
de perfume caro neutralizando o suor futuro do seu corpo
de dançarina e os odores de morte que já empestiam o
quarto, a sombra da morte passando pelos meus olhos e você
com mão firme desenhando sombras debaixo dos olhos,
você de rímel e sutiã mais radiante do que nunca e eu envelhecido
pela radiação inútil contra os tumores que me devoram,
sua boca que eu devorava vermelha no espelho que
reflete você de saia rodada e o batom vermelho da sua boca,
minha boca clamando em silêncio pelo algodão molhado sobre
o pires no criado-mudo, você sedenta de vida e meus lábios
ressecados, minha garganta seca e você desfilando pelo
quarto com a leveza de Debbie Reynolds dançando na chuva,
meu pijama encharcado de suor e urina e você limpa, saudável
e linda, sua cabeleira bailando feito um açoite, meu corpo
todo lanhado, minha cabeça quase sem cabelo, eu já quase
sem dentes, eu quase sem tempo, a areia do meu tempo
escorrendo ligeira entre os dedos e você com todo o tempo
do mundo se enfeitando diante do espelho, você rodando
a saia antecipando festas para as quais eu nunca mais serei
convidado, você enorme na frente do espelho e no fundo do
espelho eu minúsculo no leito de morte, eu em meus catéteres,
até que no espelho eu vejo você só de sutiã e saia rodada
flutuando de salto alto na direção da cama, até que sinto
seu frescor no mau-hálito da minha boca, meus últimos suspiros
e você suspirando no meu ouvido, descendo até minha
virilha, colhendo meus bagos feito um cacho de uvas secas,
meu membro moribundo voltando devagar à vida com o bálsamo
da sua língua, lázaro ressuscitado entre os mortos, tudo
o que resta da minha circulação sanguínea atendendo ao
chamado urgente das suas mãos e da sua boca, eu morrendo
e você chupando e empunhando meu pau com as unhas pintadas
de vermelho, e somente um segundo antes da morte
e do gozo árido que chega com a morte eu vejo você inteira
e descubro o rímel borrado, a nascente salgada que escorre
dos seus olhos vermelhos, os soluços que fazem seu corpo
tremer como num orgasmo furioso, mas não é gozo, você
treme de tristeza e horror, eu gozando a seco e suas lágrimas
molhando meus pentelhos, eu morrendo e você a mais bela,
a mais triste, a mais doce viúva do mundo.

***

José Rezende Jr. diante do horror

Quem é José Rezende Jr.?

Um menino que envelheceu sem perder o encantamento de olhar as coisas como se as visse sempre pela primeira vez. Mas que volta e meia sucumbe à tentação de resumir a existência humana àquela célebre passagem de “O Coração das Trevas”, de Joseph Conrad: “o horror, o horror”.

Acredita em amor incondicional?

Depois de tanto conviver com cães, gatos e outros bichos, minha resposta não poderia ser outra: sim, acredito em amor incondicional.

O que é ser homem nos dias de hoje?

As conquistas feministas nos libertaram. Ser homem nos dias de hoje é o mesmo que ser mulher. É ser livre para lutar por uma mesma causa: um mundo com mais delicadeza.

Quais foram as motivações para escrever este conto?

Se eu fosse crítico literário diria que José Rezende Jr. escreve obsessivamente sobre dois temas: vida e morte. “Eu morrendo e você pintando as unhas de vermelho” é um conto sobre a delicadeza e o horror; o encontro entre a vida e a morte, num único suspiro.

* A obra que ilustra esta postagem se chama Yellow Nude (1908), de Sonia Delaunay.

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2 comentários

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Darci Borges

20 de junho de 2016 às 13h01

Demasiadamente humano. E triste. Vida e morte dentro do quarto. Um quarto não, uma ante-sala do túmulo e da festa (a dela, de unhas e batom vermelhos, como já fora o sangue dele um dia, agora esvaído…).

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Ângela Maria de CarvalhoAlmeid

19 de junho de 2016 às 23h32

José Rezende, meu mano, você é simplesmente demais! Um escritor para quem eu tiro meu chapéu!

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