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Sobre os estilhaços das obras de arte: bate papo com Thiago Nassif sobre “Três”

Por Bernardo Oliveira

10 de agosto de 2016 : 12h14

Por Bernardo Oliveira*, editor de música do Cafezinho.

A música de Thiago Nassif é povoada por sons provenientes de muitas fontes sonoras, eletrônicas, digitais, híbridas, fruto de uma pesquisa atravessada por atividades diversas que vão da composição à engenharia de som. Através de um interesse difuso nas expressões da arte contemporânea, Nassif incorpora também os elementos e estratégias extraídas da fotografia, da arquitetura, das artes plásticas. Parceiro de Paulo Barnabé, Arto Lindsay, Domenico, entre outros artistas importantes no campo das experiências sonoras com a canção, Nassif é também um admirador da pincelada que o acaso imprime no “Grande Vidro”, aquela teia de rachaduras que dá o toque final na obra mais complexa de Marcel Duchamp, sendo também um artista interessado no improviso, no repente, nos elementos que surgem ao sabor das dinâmicas de tentativa-e-erro.

Formado em engenharia de som e produção musical, Nassif iniciou seu trabalho na cena de musica experimental de São Paulo, improvisando em galerias e ateliês de arte. Neste momento, sua pesquisa gira em torno de uma busca pelos aspectos visuais dos sons — ou, nas palavras do artista, “as sensações visuais que os sons geram”. Lança em 2009 seu primeiro registro autoral, Garçonnière, todo calcado sobre colagens sonoras e contando com a produção musical de Rubens E. Santo, artista plástico e professor de filosofia da arte. Em 2011 lança o álbum duplo Práxis, no qual  atua como produtor musical. Práxis é um disco mais experimental, preocupado em catalisar uma sonoridade saturada pela atuação de artistas de vários segmentos, como pintores, escultores e arquitetos.

Preparando-se para lançar seu terceiro disco, Três, amanhã (11/08/2016) na Audio Rebel, Nassif bateu um papo breve por email com O Cafezinho, expondo conceitos e motivos que o levou a construir um disco equilibrado entre as canções, a musica eletrônica e a música de ruídos. Três conta com a produção e a participação musical de Arto Lindsay, que também estará presente amanhã junto com o trio Chelpa Ferro.

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Embora seja essencialmente um trabalho com canção, seus discos geralmente tem um tratamento sonoro bastante apurado. Em seu novo trabalho, Três, não é diferente, tanto do ponto de vista técnico, como da diversificação de timbres e estruturas de arranjo. O quanto sua atividade criativa se confunde com seu trabalho como engenheiro e produtor?

Em todos os meus discos, inclusive o Três, pensei musica não só em seu sentido estrutural e performático, mas também em sentidos visuais, de maneira que texturas, cores e diferentes planos ou perspectivas sonoras saltassem aos ouvidos. Especificamente no Três, além do modo convencional de gravação — que é: o microfone indo para um pre-amp, seguindo para um conversor analógico/digital —, usei outros recursos diversos: gravadores toscos, gravadores de rolo… Em uma das faixas, coloquei o microfone em frente a uma caixa de som para captar a interferência do celular. Tudo isso para tentar atingir estes efeitos que busco. E as estruturas de arranjo, vem da união ou arquitetação destes timbres com intuito de edificar estruturas composicionais. Fui me formar em engenharia de som e produção exatamente para conseguir autonomia nestes processos. Gravar, editar e mixar, para assim chegar o mais próximo possível da imagem musical que existe na minha mente.

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Você costuma partir da canção ou da ideia sonora? Como você percebe esse trânsito entre pesquisa cancional e experimentação sonora? 

Este meu novo disco é um retorno que faço à ideia de canção. No meu disco anterior, o Práxis, eu havia feito uma quebra com este ideal e isso me permitiu ir longe na experimentação a ponto de me defrontar com o “abismo” entre as duas coisas. Este distanciamento da canção, a forma de fazer que a mim era mais inerente, me permitiu chegar a lugares desconhecidos, me deixou com menos medo de apresentar coisas que não eram formalmente estruturadas para a comodidade do ouvinte. Foi muito importante esta quebra e também a ajuda e influência de amigos relacionados a outros meios de arte — artes visuais, fotografia e arquitetura —, para que eu superasse este abismo. Fiquei satisfeito com o resultado do Práxis, mas fiquei mais satisfeito com alguns feedbacks que recebi depois de lançá-lo. A partir daí percebi que as pessoas buscam na musica não só uma compreensão sensorial básica. Percebi que a musica deve, em determinados momentos, trazer o ouvinte de volta de sua viagem, como um puxão mesmo, pra que assimile e retome sentidos menos explorados no ato de ouvir musica. Estes sentidos são mais táteis do que auditivos, eles realmente te pegam e te chacoalham, entende? A experimentação sonora tem disso, dinâmicas extremas e ruídos em contraposição com harmonias. E por que não utilizar estes recursos em canções, não é tudo música?

Voltando ao Três, de forma oposta ao Práxis, fiz as musicas do jeito mais careta mesmo. Todas foram compostas no violão ou guitarra. O Arto Lindsay, produtor do disco e co-autor em algumas das canções, me fazia mostrar essas canções em seu formato mais básico. Muitas vezes eu ficava constrangido em fazer essas performances pra ele. Cantando ao violão, porém, fui percebendo que ele buscava encontrar neste modo de apresentação o cerne de cada canção. Aí discutíamos horas sobre aquilo que ele sacava. Depois as letras eram modificadas, para que também a palavra atingisse este mesmo estado. Arto é formado em Letras e tem uma percepção incrível sobre letras de canção. Ele me falava: “essa letra não traz nada disso em sua sonoridade, temos que mexer aí, fazer com que esta letra não imprima o pensamento que você tem da coisa, mas que ela imprima a coisa em si, como uma fotografia ou um ready made!” (risos)

Legal você se referir a esse negócio das diversas artes, fotografia, arquitetura… Em relação ao Práxis, que é um trabalho que mobiliza várias frentes de produção artística, Três é um disco mais voltado pra música mesmo. Você tinha alguma ideia pré-concebida, algum conceito por trás dos procedimentos empregados em Três?

Eu queria colocar pra foras estas canções que estava compondo e que muitas vezes vinham pra mim prontas em letra, melodia e harmonia, um raio intuitivo. Mas também queria apresentá-las ou imprimi-las de forma que não houvesse uma quebra no fio condutor do pensamento que ja havia empregado nos outros dois discos. Por isso, primeiramente, decidi que para este meu novo disco precisava de um produtor musical, alguém que realmente entendesse e levasse a canção para além de alguns limites. Foi essencial ter conhecido o Arto neste exato momento. O trabalho dele ja vem dialogando com estas questões há muito tempo. Fiquei muito surpreso e feliz quando ele topou me produzir. Tudo tem um momento, acredito eu, e acho que construí esta oportunidade. Quando ela surgiu não hesitei em mergulhar de cabeça!

Lembro que a primeira coisa que ambicionava com o Três era de mexer com ritmos variados, ritmos dançantes, ritmos tribais e ameríndios. Eu queria que estas claves rítmicas fossem traduzidas em sons sintetizados, em batidas eletrônicas. Comecei a fazer harmonias em tempos compostos: 7/8, 6/8 e 5/4, isso para que as batidas ficassem mais interessantes e mais quebradas. Mas também sabia que isto já havia sido amplamente utilizado em música, então na pré-produção começamos tentar escapar das obviedades. Percebemos que o silêncio estava há tempos sendo subjugado na canção brasileira. Utilizamos espaços vazios, blanks, como por exemplo em “Desordem”, que foi toda composta em cima da ideia de utilizar silêncio como expressão e recurso dramático. E também se utiliza de um trocadilho homonímico, que é quando duas palavra tem a mesma fonética, mas significados diferentes: “Desordem” e o “This or That” da língua inglesa.

Além disso gosto do conceito de colagem. Faço obras visuais que são colagens e as chamo de partituras, estas partituras guiam as minhas composições. Em “Shiu”, por exemplo, unimos dois ou três pedaços de músicas em uma. “Algodões”, que tem a magnifica participação de Negro Leo, busca na letra uma poetização concretista: cada frase tem um sentido fechado em si, quando isolada do todo, mas a última palavra de cada frase joga uma isca para a composição da frase seguinte. Me inspirei em Walter Franco neste caso…

Colagem-partitura por Thiago Nassif.

Colagem-partitura por Thiago Nassif.

Eu reparo que no plano sonoro, você trabalha com fragmentação e irregularidade, mas as canções são líricas, redondas. Quais suas influências como compositor?

Então, ja esbarrando nas minhas influências como compositor e letrista acho que tem Tom Zé, Walter Franco, os repentistas nordestinos. Tem uma dupla que gosto muito, Geraldo Amâncio e João Batista. Furiba, Cátia de França, Laurie Anderson, gosto muito das letras do Negro Leo; Bowie; o próprio Chico Buarque já foi grande influência pra mim. Poetas como Orides Fontela, Khlébnikov, João Cabral de Melo Neto, James Joyce e Dylan Thomas…

Neste disco alguns nomes do Hip Hop como ASAP Rocky e Kendrick Lamar, foram grande influência para a questão sonora e mixagem. FKA Twigs , Kraftwerk, Fred Frith, Captain Beefheart. Sem contar os bluseiros Hollin Wolf, Budy Guy, Lightinin Hopkins, Blind Wilie Mctell, alguns guitarristas africanos (Ray Phiri é um deles). Otis Reding, Curtis Mayfield, Stevie Wonder e Tim Maia, para a parte do swing. Jonas Sá com o seu Blam Blam — esse disco me levou a escolher o Martin Scian para mixar o Três! Arto nem preciso dizer, Chelpa Ferro também, grandes influências!

Cartaz: Lucas Pires

Cartaz: Lucas Pires

E como você pretende levar toda essa estrutura para o palco? Quem são e quais as peculiaridades de seus parceiros musicais nessa empreitada?

Para o palco levo músicos que sintetizam o disco através de um power trio no qual o baterista também solta samplers eletrônicos. No primeiro show, quem me acompanhou foi Bruno Di Lullo (baixo e synth) e Domenico Lancellotti (bateria e MPC). O Domenico gravou toda a parte percussiva do disco e é um gênio da MPC. Agora a nova formação vem com Renato Godoy na bateria e MPC e Guilherme Lírio no Baixo. Esta é a formação para o show dia 11 de agosto na Audio Rebel.

Além de obviamente ser uma referência ao seu terceiro trabalho, conversávamos outro dia sobre um outro motivo pelo qual o álbum se chama Três

Eu ultimamente venho nutrindo um fascínio gigante pela obra do Duchamp “O Grande Vidro”. A obra inteira é uma representação da mecanização da sexualidade. Ela é composta por dois painéis de vidro ou janelas, em cuja parte superior é representado o gênero feminino e na parte inferior o gênero masculino. Todos os elementos figurativos desta obra foram compostos através dos desdobramentos matemáticos, simbólicos e ocultos que carregam o número “três”. No nome original em francês — La mariée mise à nu par ses célibataires, même —  aparece essa palavra MÊME, que me remete a todos estes “memes” criados e veiculados nas plataformas digitais. Vivemos este momento político horrível e estes memes sempre trazem um espelhamento da sabedoria e sacadas brasileiras, que são afiadas pra caralho, ao ponto que o absurdo que vivemos vai aumentando.

O mais incrível é que o vidro quebrou ao ser transportado e a partir desta eventualidade foi que Duchamp deu a obra por completa. Ele remendou caco por caco e viu que o desenho criado pelos estilhaços fazia a obra atingir dimensões superiores. Os estilhaços formam uma teia aracnídea que entrelaça os gêneros antes separados. Parece que existe também uma simetria na quebra dos dois painéis de vidro! Enfim, disse isso tudo porque aí estão varias questões que impulsionam meu pensamento artístico. Mas não nomeei o disco por causa desta obra, apenas porque esse é o meu terceiro disco de carreira mesmo…

Colagem-partitura por Thiago Nassif.

Colagem-partitura por Thiago Nassif.

*Professor da Faculdade de Educação/UFRJ, autor de “Tom Zé — Estudando o Samba” (Editora Cobogó, 2014).

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