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Bernardo Carvalho: Temer é um oportunista, um traidor

Por Redação

15 de setembro de 2016 : 09h49

Vaia ecumênica

por Bernardo Carvalho, no Blog do Instituto Moreira Salles

Nunca havia assistido aos Jogos Paraolímpicos. Assisti à abertura com um nó na garganta. Eu não imaginava que aquilo fosse possível. Não parava de me perguntar: Quem foi o gênio que inventou isso? Quem foi que teve a ideia desse espetáculo com um potencial simbólico e catártico sem igual na história da humanidade? Quanto esforço não foi despendido por gente determinada a combater a discriminação e os preconceitos, para que isso afinal pudesse acontecer?

Não estou falando só da abertura, mas da abertura também. Não sou fã do trabalho de Vik Muniz, mas um coração pulsante no centro do gramado do Maracanã como imagem da inclusão (um coração pulsante é comum a todos os vivos), coroando a celebração de gente que lutou com força de vontade sobre-humana para vencer seus limites e chegar, por mérito, aonde chegou, é de fato uma ideia feliz. E é por isso que a vaia a Temer ganhou ali um sentido orgânico, ecumênico e redentor. Um sentido espetacular. Temer era um corpo estranho na abertura dos Jogos Paraolímpicos, o oposto de tudo o que ali se louvava.

A primeira vez que ouvi Michel Temer falar em público foi na sessão de abertura da Feira de Frankfurt, em 2013. Michel Temer nunca falaria na sessão de abertura da Feira de Frankfurt, não fosse o Brasil o país homenageado naquele ano em que por coincidência ele também era vice-presidente. Michel Temer aproveitou a oportunidade não só para falar como vice-presidente do país homenageado, mas para lembrar que também era escritor, embora não fizesse parte da comitiva de escritores convidados. Michel Temer fez questão de dizer aos presentes, entre editores e autoridades internacionais, que era poeta e que por isso mesmo, mais até do que qualquer outro político ou autoridade, estava ali em seu habitat natural. Achei por bem sair da sala.

Michel Temer é um homem de oportunidades, como recentemente ficou claro para quem não o conhecia. Temer não assumiu só por ordem sucessória natural, enquanto vice-presidente, o cargo de uma presidente deposta: Temer conspirou nos bastidores para depor a presidente eleita, da qual ele era vice, e assumir seu lugar. A diferença é grande. É difícil dissociar da aparente passividade a dissimulação. À imagem do presidente em exercício ficará colada a pecha do oportunista e do traidor. O homem que vai à abertura da Feira de Frankfurt, aproveitando-se do cargo de vice-presidente para proclamar às autoridades internacionais que também é poeta, é o mesmo que conspira nos bastidores para derrubar a presidente, eleita pelo voto direto e popular, e substituí-la, ocupando um lugar ao qual jamais ascenderia pelo voto democrático.

A vaia a Temer na abertura dos Jogos Paraolímpicos ganhou assim um sentido maior, ético, a favor da democracia, para além de ideologias e partidos. Foi um protesto contra aproveitadores e impostores, diante do espetáculo incontestável de pessoas decididas a vencer por mérito próprio e a lutar contra os limites e preconceitos que as impedem de gozar dos mesmos direitos, da mesma visibilidade e do mesmo respeito garantido, em princípio, ao resto da sociedade. O que estava em questão na vaia a Temer não eram só os desmandos e a corrupção que assolam o país, mas o desejo de inclusão e de mudança, contra a expressão do retrocesso que pontuava as manifestações a favor do impeachment com gritos de “Quero meu país de volta!”.

Que país? O que não é de todos? Um país de privilégios? De dois pesos e duas medidas? Um país onde quem tem plano de saúde e escola particular acha que não tem por que pagar imposto pela saúde e a educação de quem não tem? É interessante. Os que conspiraram para derrubar o governo eleito, com o pretexto de sanar a economia e acabar com a corrupção, não têm mais nenhuma desculpa para não fazer nenhuma das duas coisas. Agora, só lhes resta assumir a farsa do conluio de conspiradores. É o que a figura de Michel Temer representou tão bem, na tribuna das autoridades, no Maracanã, diante dos atletas paraolímpicos. Há um sentimento de urgência e de justiça na paraolimpíada que torna ainda mais constrangedora e insuportável a impostura de quem tenta confundir privilégio com direito, e oportunismo com mérito.

Bernardo Carvalho é escritor e jornalista, autor dos livros Nove noites, O filho da mãe e Simpatia pelo demônio, entre outros

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1 comentário

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Jst

15 de setembro de 2016 às 11h11

Bela e recatada do lar, que peitos caídos hein.

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