O Cafezinho

terça-feira

14

novembro 2017

10

COMENTÁRIOS

Cenários para 2018: condições e limites para a disputa política

Escrito por , Postado em Democracia e Conjuntura, Rogerio Dultra

Por Rogerio Dultra dos Santos

Situação atual

Por maiores que sejam as críticas ao PT, não se pode contornar o fato de que os seus anos no poder comportaram o firme propósito de erradicar a pobreza, minorar a desigualdade social, ampliar o acesso à educação pública e gratuita, inaugurar uma política de relações internacionais multipolar e fazer mover um projeto de desenvolvimento estratégico – este último limitado por derrapadas na ortodoxia econômica.

Um dos maiores erros do partido no poder foi não fazer o que a oposição nunca cansou de o acusar: aparelhar a máquina estatal com pessoas alinhadas política e ideologicamente. Os casos mais bizzaros, o STF, a PF e o MJ. Este “aparelhamento”, amparado pela Constituição, é republicano e sempre foi religiosamente seguido por todos, menos pelo PT. Este descuido inconsequente já se sabe onde deu.

Uma das máximas universais da política, da realpolitik, é que o supremo e maior erro é perder o poder.

A derrota multifatorial do PT, que fez soçobrar a democracia e a regularidade normativa das instituições, jogou o país num mar de incertezas que pode durar décadas. E com consequências ainda imprevisíveis.

Em menos de dois anos de regime Temer, já se ouve até em privatização da água, dentre outras coisas bizarras e inimagináveis até muito pouco tempo atrás.

Neste cenário de hecatombe, qualquer vitória da esquerda, por menor que seja, é o que se deve não somente buscar, mas aplaudir. A derrota na política deve ser contornada o mais rápido possível.

Esperar que haja musculatura política suficiente e uma congregação de princípios e percepções progressistas espraiados pelo corpo social é uma atitude correta e deve ser procurada. Mas provavelmente, hoje, ainda é um movimento irreal, dado o contexto de captura dos agentes políticos pelos interesses econômicos dominantes e dado o caldo cultural que nos alimenta, sob o patrocínio dos mais variados instrumentos de manipulação e desinformação.

Cenários futuros

Diante deste contexto altamente tóxico, o PT, através de seu maior quadro, tem legitimidade de sobra para a disputa eleitoral. E tem serviços prestados suficientemente conhecidos para procurar alianças, se achar que deve e se for necessário.

O capitalismo financeiro compreende que a fragilização do Brasil é um grande ativo para a expropriação e para arapinagem. Assim, quanto maior a incerteza de 2018, mais condições se darão para que se aprofunde o butim já em curso.

Não há hipótese do PT se abster de lutar por uma candidatura competitiva, seja qual for o cenário que se apresente. E isto é importante, inclusive, para se manter a possibilidade de existência das eleições de 2018.

Uma mobilização popular de vulto, expressa nas pesquisas eleitorais, pode e deve tornar as eleições de 2018 incontornáveis. Assim, se e/ou quando for o caso, o partido deverá fazê-lo com o mais amplo espectro de apoios que possa angariar.

Afinal, lutar contra a barbárie anunciada – seja qual a figura abjeta a encarná-la – é fundamental.

As alternativas ao PT ou a uma aliança majoritariamente de esquerda, vão desde o bizzarro (Dória, Bolsonaro) ao plutocrático (Huck, Marina) (bizarro e plutocrático são complementares e não excludentes), passando pela direita tradicional (Alckmin) ou pelo centrismo reformista (Ciro).

Deste quadro de alternativas, somente Ciro Gomes pode ser considerado como um candidato passível de aproximação à esquerda, num cenário onde o PT não dispute com candidato próprio. Some-se a isto o fato de que não há candidato no PT com a sombra da viabilidade eleitoral de Lula, nem que esteja apto a receber a transferência de votos de uma Dilma – caso excepcional e de um momento histórico diverso.

Portanto, se há condições para Lula virar o barco do golpe, elas podem somente se dar sob um quadro de alianças.

Pois embora o PT, sozinho, seja hoje menor do que já foi antes do golpe, Lula ainda pode ser capaz de operar o milagre do renascimento que abale as placas tectônicas que se armaram para a sua cassação. Afinal de contas, setores do PMDB e de outros partidos ao centro e à direita ainda dominam as burocracias que podem contornar a caça a Lula.

Ainda assim, a situação segue indefinida no que respeita às condições de enfrentamento daqueles que desejam a inviabilização de Lula ou das eleições.

Isto significa que, com ou sem Lula, podemos ter pela frente o aprofundamento do golpe, com o parlamentarismo. E isto, caso os representantes do capital não encontrem candidato eleitoralmente viável e/ou caso percebam que, sem Lula na disputa, uma aliança de centro-esquerda não gerou mobilização suficientemente capaz de inibir novo golpe.

Com ou sem Lula, ainda podemos ter Bolsonaro (se Alckmim não crescer com a propaganda eleitoral, que o favorece pelo tempo de exposição). Isto porque Lula pode ser cassado antes, durante ou depois da campanha. O segundo lugar, num eventual segundo turno com Lula, pode ser virtualmente o próximo presidente. O golpe seria aqui mais sutil: ao invés do parlamentarismo, manter-se-ia a inviabilização judicial com a cumplicidade do STF.

Ambas as alternativas de golpe (parlamentarismo, inviabilização judicial da candidatura de Lula) são arriscadas, tanto mais quanto se consiga ampliar o espectro de apoio a uma candidatura majoritária de esquerda ou centro-esquerda.

Mas se a ampliação do apoio a uma candidatura anti-golpe não ocorrer e um dos golpes acontecer, entraremos num longo período de trevas. Nos encontraremos sem candidatos legitimados pelo voto ou mesmo capazes de galvanizar o país para um projeto com mínimo compromisso popular.

Neste cenário, nem Ciro figuraria capaz de consolidar preferências. Isto porque, como o Eduardo Campos de 2014, Ciro, sozinho, pode não conseguir furar o teto dos 10% de intenções de voto.

Assim, uma eventual aliança do PT com Ciro, numa situação de eleições sem Lula, ou mesmo quaisquer alianças que favoreçam uma vitória de centro-esquerda,  não podem e não devem ser descartadas.

Que fazer do perdão de Lula aos golpistas

Por fim, feitas estas considerações acerca da conjuntura volátil a que estamos submetidos hoje, e depois de argumentar sobre a necessidade de encararmos 2018 com a gravidade que o momento político exige, leio com sobressalto análises segundo as quais Lula errou em perdoar os golpistas.

Conforme se argumenta, Lula não deveria dar a outra face, num movimento que seria de subserviência quase cristã aos seus algozes. Isto representaria uma eventual vitória desmoralizante, desarticulada dos movimentos populares que fizeram frente até agora ao golpe. A esquerda estaria, assim, fadada à submissão aos mesmos responsáveis pela destituição de Dilma Rousseff.

Ilegítimo o perdão, restaria às esquerdas um processo de maturação capaz de, num futuro incerto, permitir o avanço consistente e altivo de pautas libertadoras e progressistas.

Quase a metade dos eleitores apoiou a fatia do espectro político que estimulou o golpe de Estado. Parte relevante desses eleitores pode estar percebendo os variados engodos do golpe. Neste cenário em que é possível se conquistar novos corações e mentes, a atitude rancorosa e revanchista do não perdoar parece improdutiva e anti-política. Até porque ampliar o leque do eleitorado, nestas condições históricas, torna-se mesmo uma atitude revolucionária, que pode levar a esquerda a recuperar o poder.

Sabe-se que o golpe não foi dado em 2016 para se devolver o poder em 2018 a um projeto nacional-popular, viável eleitoralmente e capaz de recuperar o que foi e o que está sendo roubado do país.

Portanto, contra a leitura no mínimo desinformada e ingênua de que Lula não deve perdoar os golpistas, ficam registradas estas observações.

Durante o processo de escritura deste texto, me deparei com o esclarecedor artigo de Bepe Damasco. Ele me poupou de ter que argumentar mais sobre o tema, pelo que, indico fortemente a leitura. Como diz o autor, haja paciência!

terça-feira

14

novembro 2017

10

COMENTÁRIOS

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

10 COMENTÁRIOS

  1. LUIZ TAVE
  2. Marcos Morcerf
  3. Regina Maria de Souza
  4. Paulo Diniz d'Avila
  5. JOÃO CARLOS AGDM
  6. Humberto Pereira
  7. Regina Santos Silva Tonini
  8. AnaDe
  9. Fauzi Achoa
  10. Mar