Entrevista de Haddad ao SBT

Embaixadora da Nicarágua no Brasil, Lorena Martinez

A versão do governo da Nicarágua

Por Miguel do Rosário

19 de julho de 2018 : 15h10

Publico a entrevista abaixo, com a embaixadora da Nicarágua no Brasil, numa tentativa de dar voz ao “outro lado”, ou seja, ao próprio governo do país.

Admito, no entanto, que as informações que tem chegado a mim, por pessoas ligadas diretamente à Nicarágua, além de manifestações de grupos de esquerda respeitáveis, como o ex-presidente do Uruguai, Pepe Mujica, organizações ligadas ao Podemos, na Espanha, a ex-presidente do Chile, Michele Bachelet, além de denúncias constantes de órgãos internacionais de direitos humanos, tem me feito pender contra o governo Ortega.

Vou tentar obter informações diretamente com pessoas da Nicarágua, para entender melhor o que está acontecendo e repassar aos leitores.

Seja como for, é importante observar que estudantes e jovens de oposição ao governo tem sido mortos no país. Essa é a acusação mais grave que se pode fazer ao regime de Ortega, e a qualquer governo, e a comunidade internacional só irá respeitá-lo se demonstrar que envida todos os seus esforços para conter a repressão e a matança.

***

No Brasil de Fato

‘Estão aplicando manual da desestabilização na Nicarágua’, diz embaixadora

Em entrevista ao Brasil de Fato, diplomata afirma que em seu país há uma tentativa de golpe de estado em curso

Rafael Tatemoto

Brasil de Fato | Brasília (DF), 19 de Julho de 2018 às 09:59

A Nicarágua passa por um período turbulento marcado por intensos protestos contra o governo do presidente Daniel Ortega, reeleito em 2016 pela Frente Sandinista de Libertação Nacional. A cobertura internacional das manifestações tem destacado, em geral, a repressão aos participantes do movimento oposicionista, relatando prisões e até mesmo mortes.

Em entrevista ao Brasil de Fato, a embaixadora da Nicarágua, Lorena Martinez, defende que os protestos, iniciados por conta de uma proposta de reforma da previdência, já não tem mais razão de ser e tem sido instrumentalizados pela direita e pelo empresariado. Para ela, aplicam em seu país o mesmo “manual da desestabilização” utilizado em outros países, incluindo a Venezuela e o próprio Brasil.

Martinez afirma que as manifestações na Nicarágua hoje contam com a presença de indivíduos pagos que se valem do emprego de armas de fogo e violência. A diplomata afirma, em resumo, que há contra o governo sandinista uma tentativa de “golpe de Estado”.

Brasil de Fato: As notícias que chegam ao nosso país ressaltam a repressão policial às manifestações. Há, inclusive, uma certa confusão sobre o que reivindicam os protestos. O que realmente se passa na Nicarágua?

Lorena Martinez: Desde 18 de abril há protestos na Nicarágua. Antes dessa data, estávamos trilhando um bom caminho: crescendo economicamente, com bons níveis de redução da desigualdade e de inclusão social.

Os protestos surgiram por conta do tema da reforma da previdência, que, realmente, era um pedido do FMI. Nós temos um programa com o FMI. O governo não aceitou a proposta do FMI, pois era muito ruim. Propôs outra, que afetava mais o setor empresarial. Afetava a população também, mas era muito melhor que o projeto do FMI. A partir daí surgem os protestos, em alguma medida, com legitimidade. De outro lado, os empresários se aproveitaram. Eles têm a atitude de nunca deixar alguém mexer em algo que afete seus rendimentos. Os empresários, que não queriam contribuir mais, se envolveram.

O governo, depois de muitos dias de protestos retirou a proposta inicial, mas os protestos continuaram, sob o argumento de que havia repressão.

Como entender a atuação da Polícia Nacional nesse contexto? Há repressão?

A Polícia [da Nicarágua] é muito nova, tem 39 anos. A mesma idade da Revolução. Não é uma polícia repressora. O governo e o presidente Ortega não têm como objetivo reprimir o povo. É um presidente oriundo de uma Revolução. Os comandantes da Polícia e o presidente sofreram tortura, foram alvo da repressão. Sofreram muitas coisas que agora os acusam. Nossa Polícia tem valores revolucionários, não foi construída para assassinar o povo.

No momento em que houve muitos protestos, teve que atuar como em todos os países. Há mortos dos dois lados. No início, falava-se que eram estudantes. Mas agora não são estudantes, são pessoas pagas para continuar os protestos e continuar nas barricadas.

Quando o presidente Ortega chamou uma mesa de diálogo com os manifestantes, para que eles colocassem sua demanda, no primeiro dia, pediram a renúncia do presidente. Como se faz negociação sendo que o único ponto da agenda é a renúncia de uma pessoa eleita com quase 72% dos votos e com um grande apoio popular?

Há manifestantes armados, então? As imagens que nos chegam mostram apenas o uso de rojões.

Aqueles que permanecem protestando são extremamente violentos. Estão assassinando pessoas que se identificam como sandinistas. Se tornou um movimento ideológico, uma ação partidária. Há muitas casas incendiadas apenas por serem de familiares de dirigente ou parlamentar sandinista.

A população que estava protestando inicialmente não está mais nas ruas. Essa violência jamais foi vista em nosso país. O nível de ódio é assustador. São pessoas pagas por “programas especiais”, que chegam em nome da democracia, da liberdade de expressão, com financiamento para “jovens líderes”, e que depois desembocam nessa atuação.

Eles estão armados. Nós temos fotos. Eles têm armas de alto calibre. Não estão só com rojões, como eles dizem. Ainda que os rojões também matem. São pessoas destruindo a propriedade privada e a pública. Muitos diretórios sandinistas estão sendo queimados.

Além disso, já se demonstrou que várias ações violentas foram realizadas com o intuito de responsabilizar a Polícia sandinista.

O Brasil passou por uma onda de protestos em 2013, iniciados por uma reivindicação a respeito de tarifas de transporte. Muitos avaliam que, ao final, estes protestos foram canalizados pela direita. É essa a visão que o governo sandinista tem do atual processo?

Na Nicarágua, estão aplicando o manual da desestabilização. A mesma coisa que fizeram na Venezuela, aqui, em outros países, estão fazendo na Nicarágua. Há [por exemplo] manipulação de fotos: coisas que aconteceram em outros países e que passaram por montagens. Dizem que é “um assassinato cometido pela Polícia Nacional”, mas não é. Há a imagem de uma idosa que foi vítima de violência doméstica e que tem sido utilizada como vítima de violência policial na Nicarágua durante o Dia das Mães. Há uma manipulação grande. Temos uma grande preocupação em combater as notícias falsas, mas as fake news são mais rápidas do que qualquer outra coisa.

Você citou a divulgação de fake news. Como têm se comportado os meios de comunicação na Nicarágua?

Os meios de comunicação são poucos e estão em poucas mãos. A mesma família, normalmente. Sempre foram anti-sandinistas. Não é algo novo. Tanto os empresários, como parte da Igreja Católica, e os meios de comunicação, demonstram seu anti-sandinismo não é de agora, é desde sempre.

Desde o triunfo da Revolução, passando pelos 17 anos de neoliberalismo, sempre essa foi a atitude. Mostra que a esquerda são os “bandidos da história”. Neste momento, os meios de comunicação estão se prestando à manipulação da informação, ao incentivo do ódio, da violência.

Em relação ao financiamento de ‘novas lideranças’ e organizações não governamentais, a Nicarágua entende esse processo como ingerência internacional em seus assuntos internos?

Esse tipo de financiamento tem sim o objetivo de desestabilizar os países. Há vários programas pra fortalecer os focos de oposição ao governo. Os milhões que chegam não são para apoiar o povo da Nicarágua. Estão apoiando diretamente as ONGs que, supostamente, deveriam atuar em um tema determinado. Esses jovens vão para os países de onde vêm esses financiamentos para conhecer as fórmulas e métodos que vão utilizar depois.

Além da renúncia de Ortega, há mais alguma coisa sendo reivindicada pelos manifestantes?

Não têm nenhuma proposta. Primeiro porque são muito pequenos. São minoria. Os partidos envolvidos não tem uma boa representação na Câmara de Deputados. Não tem grande expressão social. Não há proposta de governo. Circularam memes com imagens de mensagens que eles supostamente estariam trocando, nas quais eles discutiam uma junta interina de governo. É isso que eles querem, chegar ao poder sem a necessidade de passar por eleições. Com votação popular, eles não passam. Que façam um trabalho político, partidário, participem das eleições. Não há razão para adiantar eleições ou para a saída do presidente.

Há grupos armados pedindo a saída de Ortega. O governo encara a continuidade dos protestos como um golpe de Estado, então?

É um golpe de Estado. Ou melhor, é uma tentativa de golpe. Querem dar um golpe. É um grupo que quer desestabilizar o governo. Se um governo sai pelo desejo de uma minoria, isso é um golpe de estado.

Edição: Tayguara Ribeiro

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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7 comentários

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Marcos Vinícius

25 de julho de 2018 às 01h42

Sabe quantos brasileiros foram mortos no Brasil só em maio de 2018? Foram 3.346 brasileiros assassinados e a proporção mensal esta aumentando. Enquanto vocês ficam “chocados” com as mortes na Nicarágua aqui em baixo de seus narizes há um massacre a cada mês. Lá é uma questão política aqui é a realidade cotidiana! O verdadeiro truque a fazerem você se distrair olhando para um lado enquanto a verdade esta acontecendo e sendo escondida do outro lado.

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Rodrigo

20 de julho de 2018 às 08h56

ah…
só para constar: o governo nicaraguense é compartilhado entre marido e esposa (que coisa maravilhosa!), e a família de Ortega controla 8 dos 9 canais de televisão do país.
Ortega e sua luta contra as grandes “oligarquias”!

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Rodrigo

20 de julho de 2018 às 08h50

são 300 pessoas assassinadas pelo governo… e dái a gente fica pensando em esquerda e direita ainda… são 300 vidas!

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Rachel

19 de julho de 2018 às 22h42

Até parece que nunca vimos antes como a direita age. Lembremos os ‘protestos’ de 2013 aqui no Brasil.

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Luis Castro

19 de julho de 2018 às 20h08

Não tem como não acreditar no relato da embaixadora da Nicarágua tem tudo a ver com a nova estratégia da direita de desestabilizar governos de esquerda. Sim de esquerda, porque em governos de direita esses grupos que usam e abusam de métodos violentos, como vimos na Venezuela, não atuam, parece ate que na Colômbia, Argentina de Macri, Chile de Pinera, Brasil de Temer, Honduras, Paraguai se viva num Nirvana. Reformas muito mais radicais que retiram direitos essenciais que ocorrem nesses países, agora governados por golpistas de direita, esses grupos financiados de fora não atuam num contraste gritante que só um manipulado não vê. Veja o caso do Movimento Passe Livre que surgiu do nada contra o aumento de 5 centavos nas passagens de ónibus durante o mandato de Haddad na prefeitura de São Paulo, que desencadeou movimentos gigantescos e violentos contra o governo Dilma que cessaram depois de sua deposição. Portanto, é bom que se diga grupos que atuaram com violência na Venezuela, hoje atuam na Nicarágua e não se admire se amanhã for na Bolívia e nunca em países governados pela direita. Só cego que não enxerga essa nova onda de revolta só atinge governos hostis a Washington.

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Aliança Nacional Libertadora

19 de julho de 2018 às 19h17

Não é toda esquerda que abaixa a cabeça para as articulações estadunidenses…….traidor vira nacionalista em frente às câmeras do mercado…….

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Mordaz

19 de julho de 2018 às 18h06

Até que enfim, um artigo um pouco menos crítico ao governo legítimo da Nicarágua (em que pese o prólogo ser quase um pedido de desculpas pela postagem). A embaixadora tem toda a razão: é mais uma tentativa de golpe nos moldes das chamadas “revoluções coloridas”, perpetrada por gangues armadas e muito bem treinadas, a serviço do imperialismo. O mesmo teria ocorrido no Brasil se não tivéssemos capitulado tão facilmente. O mais bizarro é que alguns setores da esquerda se abstenham do uso da violência contra o golpe em curso no Brasil, mas são céleres em apoiar um golpe violento contra o governo legítimo de outro país.

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