Hangout com Miguel do Rosário: Bolsonaro nos EUA

A grande vergonha nacional não é a corrupção

Por Pedro Breier

28 de novembro de 2018 : 12h07

O Brasil é a 8ª maior economia do mundo. Segundo reportagem do El País, cairemos uma posição no ano que vem e ficaremos com o 9º maior PIB do planeta Terra. Grandes potências e países desenvolvidos disputam posições conosco no ranking das maiores economias: Itália, Canadá, Reino Unido, Rússia.

Maravilha, não?

Agora vamos à nossa vergonha.

No ranking dos países mais desiguais do mundo, “subimos” uma posição e ocupamos o 9º lugar. Se atingirmos mesmo, no ano que vem, a 9ª colocação na lista das maiores economias, estará realizada a macabra ironia histórica.

O Brasil, um país tão rico em recursos naturais, população e PIB, será a 9ª maior economia do planeta, mas também o 9º país mais desigual do mundo.

Nesta lista da vergonha temos a companhia, à nossa frente, de oito países africanos, impiedosamente explorados e violentados por países que ostentam boas colocações no ranking da riqueza.

Na última segunda-feira (26), a ONG Oxfam divulgou relatório o qual aponta que a desigualdade de renda parou de cair no Brasil, após 15 anos de queda (leia aqui).

E o que aconteceu entre 2016 e 2017, quando estagnamos no combate à desigualdade?

O governo eleito em 2014 foi derrubado por um golpe midiático, judicial e parlamentar e, no seu lugar, assumiu um governo cujas “soluções” para a crise foram basicamente duas: privatizar patrimônio público e aprovar a Emenda Constitucional do teto dos gastos.

Com esta EC, congelou-se os gastos com educação, infraestrutura, saúde e etc., ou seja, os gastos que podem contribuir para aumentar a renda média da população e a sua qualidade de vida. Segundo a Oxfam, o volume de gastos sociais do Brasil retrocedeu ao patamar de 2001 e gastamos miseráveis 5% do nosso orçamento com educação.

Enquanto isso, gastamos algo próximo da metade do nosso orçamento com o pagamento de uma dívida que nunca foi auditada. É uma caixa preta que suga algo em torno de 50% do nosso orçamento todo ano! É claro que esses gastos com a dívida pública, que vão direto para os bancos e especuladores, não entraram na EC do teto dos gastos. No dinheiro que é sugado da população e vai direto para os super ricos, ninguém toca.

A tendência, com Bolsonaro, é tal quadro desesperador aprofundar-se ainda mais.

Procure alguma declaração do presidente eleito sobre desigualdade social. Em uma pesquisa rápida, achei apenas uma de abril, em que ele fala em militarizar escolas. Só.

Seu programa econômico, ou o de Paulo Guedes, vai na linha do governo Temer, mas muito mais radical. Vender ainda mais patrimônio público e cortar ainda mais gastos sociais.

Ora, isso obviamente não vai funcionar. Vai aumentar ainda mais a pobreza e a miséria. A morte de brasileiros e brasileiras.

A direita sabe disso, mas evidentemente não pode dizer. Resta mudar de assunto e ficar gritando que o problema é a corrupção dos políticos ou que prendemos e matamos poucos bandidos.

A corrupção dos políticos deve ser combatida sim, mas a nossa grande vergonha, a chaga que impede que tenhamos soluções duradouras para os nossos problemas, é a desigualdade social. Vivemos em um mundo capitalista, em que todos têm acesso à propaganda do sistema e recebem a mensagem: para ter valor na nossa sociedade, para ter algum status, é necessário possuir bens materiais caros e “de marca” – roupas, celulares, acessórios, carros, etc.

Todos são inoculados dia e noite com a propaganda capitalista, mas poucos têm acesso aos bens de consumo que conferem respeitabilidade social. É evidente que no 9º país mais desigual do planeta a criminalidade só pode explodir. Venda a ideia de que é preciso ter bens materiais para ser alguém e não permita que a maioria da população tenha acesso a esses bens, e pronto: temos a receita para a criação de um exército de criminosos.

O que é ótimo para o sistema. Os Datenas da vida podem colocar a culpa nos assaltantes de celular, transformando-os em inimigos do país; Bolsonaros da vida podem dizer que a solução é sair prendendo e matando todos eles; e a Justiça pode fazer o serviço sujo e ainda garantir o gordo aumento dos ministros do STF e juízes. Mesmo assim, a fábrica de criminosos pé-rapados não terá fim.

A pobreza e a miséria descomunais que atingem a 8ª maior economia do planeta garantem que continuaremos a produzir os bodes expiatórios para que os verdadeiros criminosos assaltem o orçamento do país. E aí não se trata de vender uma buchinha de cocaína na praça ou roubar um par de tênis, mas tirar bilhões de dinheiro público que poderiam ser investidos na melhora da qualidade de vida da população e revertidos em aumento na renda para colocar em poucas e gordas – figurativamente – mãos.

Enquanto isso, o futuro ministro da Educação diz que é “bobagem pensar na democratização da universidade”, porque nem todo mundo gosta ou quer fazer uma faculdade. “O segundo grau teria como finalidade mostrar ao aluno que ele pode colocar em prática os conhecimentos e ganhar dinheiro com isso. Como os youtubers, ganham dinheiro sem enfrentar uma universidade”, disse o inacreditável ministro.

Quem não gosta de universidade para todos é o conluio de espoliadores que quer dar apenas duas opções para a maioria da população brasileira: ou trabalhar duro e ganhar uma miséria ou ir para a criminalidade.

Não, senhor ministro, virar youtuber não é uma opção válida. É apenas uma sugestão estúpida e cruel da sua parte.

Como é estúpido e cruel o projeto da direita para o país.

Pedro Breier

Pedro Breier é graduado em direito pela UFRGS e colunista do blog O Cafezinho.

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18 comentários

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Euclides de Oliveira Pinto Neto

30 de novembro de 2018 às 09h41

Um país que destina quase 50% da receita orçamentária para o pagamento dos juros da dívida externa, não existe possibilidade de modificar o “status quo” vigente… Como disse o Jessé de Souza, o Banco Central é a boca de fumo do Brasil !!!

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    Rodrigo

    05 de dezembro de 2018 às 10h09

    Vai pagar a divida como? imprimindo dinheiro? Ja ouviu falar de Hiperinflacao? Precisa estudar mais … O que adianta se o seu dinheiro perde o valor. Entenda os casos da Venezuela etc … 300.000 pesos bolivarianos para comprar um tomate. Papel moeda vale menos que o papel higienico.

    Essas palavras soam bem. “Juros da divida”, “direitos”, etc … Nao entendem buflufas de Economia.

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Rodrigo

29 de novembro de 2018 às 18h18

Quanta bobagem…. Poderia montar um racional mostrando como a desigualdade ajuda uma nacao. Exemplos: o “dono da Amazon” eh o cara mais rico do mundo (logo aumenta a desigualdade, pois sua fortuna representa ganho de milhoes de pessoas) MAS ele ajuda a todos. Com sua empresa, ajuda a combater as margens do setor de varejo ajudando a todos. Afinal, as empresas nao precisam de lojas fisicas (aluguel, funcionarios, etc etc). O “dono” do Uber, ajudou a todos terem motorista particular, com precos mega honestos. Pensa no passado amigao, quem tinha motorista particular? apenas os RICASSOSSS… Hoje, eu e minha namorada andamos de motorista particular. O cara do Airbnb, ajudou a todos, democratizando quartos pelo mundo e nao ficar nos hoteis da Paris Hilton. E outros multiplos exemplos… o Brasil esta nessas suas lista pelo governo MEDIOCRE do PT, enquanto outras nacoes melhoraram seus niveis de Pobreza e Produtividade (faco comparacoes a Indonesia, Russia, Mexico, etc). Ser rico nao significa dinheiro ilicito. Ser rico eh bom para a nacao. O PIB da California, onde existem varias Start-ups – e os inteligentes dos EUA, eh maior que do Brasil. E eles soh ajudam seu pais. Aqui, os inteligentinhos, sao funcionarios publicos. Querem passar numa prova e ganhar a vida. Nosso problema esta no agigantamento do ESTADO. Fonte de corrupcao e mal uso do dinheiro publico. Deixa o povo escolher onde quer colocar seu dinheiro. Imposto NAO!

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    Das Geraes

    29 de novembro de 2018 às 22h48

    Como é difícil aguentar esses pobres de direita. Esbravejam como se ricos fossem. Não tem onde cair mortos e lambem o saco dos ricos. A velhice os colocará em seus devidos lugares. Mesmo assim, não perderão a pose.

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Edileuda silveira

29 de novembro de 2018 às 15h22

Esta matéria seria legal se fosse atribuída ao governo ladrão petista desde 2003,que com enganação de esmolas vieram com está estória de igualdade , para poder lapidarem o nosso país, não pode rotular o novo presidente sem conhecer a sua capacidade, como atribuir os infortúnios de uma administração desastrosa deste larapio presidiário ao novo presidente que nem assumiu ainda? Vc por acaso é vidente.com

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Jorge J

29 de novembro de 2018 às 14h35

Esse Pedro Breier viaja demais, todo texto assinado por ele é folclórico

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Eu Mesmo

29 de novembro de 2018 às 09h38

“Não sobra um

Desde 1998, foram presos todos os governadores eleitos do Rio de Janeiro: Anthony Garotinho, Rosinha Garotinho, Sérgio Cabral e, agora, Pezão.

Também foram presos todos os presidentes da Alerj de 1995 a 2017: Sérgio Cabral, Jorge Picciani e Paulo Melo.”

https://www.oantagonista.com/brasil/nao-sobra-um/

Depois o grande problema é a desigualdade. Vão se catar. A desigualdade é só uma das consequências da corrupção!!!

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    Luiz Cláudio

    29 de novembro de 2018 às 12h30

    O interessante no seu argumento é que a corrupção é claramente um delito atribuído aos agentes do Estado. Se nossos representantes no governo forem empresários, a questão fica resolvida de pronto sem criminalidade?

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      Eu Mesmo

      29 de novembro de 2018 às 12h52

      Ora, evidente que não.
      Corrupção é uma questão de oportunidade, risco e retorno. É assim que funciona a cabeça desses caras. Antes da Lava Jato o risco era baixo e o retorno alto. Depois inverteu e tem q continuar assim e ampliar. Mas a maneira mais racional é diminuir as oportunidades onde for possível, evidentemente, sem mudar novamente essa relação entre risco elevado e baixo retorno.

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    Luiz Cláudio

    30 de novembro de 2018 às 03h12

    Quer dizer que imposto desvinculado também é contrapartida de governo corrupto?

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      Eu Mesmo

      30 de novembro de 2018 às 12h56

      Está falando das DRUs?? Se sim, então pare e pense. Mas pense matematicamente. Vc tem uma receita de só deve ser gasta com determinada despesa. Ao mesmo tempo vc tem outras despesas que não tem receitas suficientes para cobrir. O que vc faz?? Esquerdistas certamente considerarão dar um calote nessas outras despesas………

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        Luiz Cláudio

        01 de dezembro de 2018 às 12h01

        Existem inúmeros modos do empresariado fazer as suas dívidas serem absorvidas socialmente. Quase todas encontram agasalho no monetarismo: flutuação cambial; braço de ferro com o Estado quanto aos juros; dívidas em títulos do tesouro, entre outros expedientes para profissionais. O que foge a isso procura segurança jurídica na capacidade de litigar das empresas. O último recurso se dá através da encampação do poder político pelo poder econômico. Pouca chance para a cidadania quando o “custo Brasil” é sinônimo de dívida externa, mas explica o modo menos democrático de tomar o poder.

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Joao Pedro

28 de novembro de 2018 às 19h50

Uma coisa não elimina a outra, a corrupção é uma vergonha e tem que ser combatida. Assim como a desigualdade, insegurança, desemprego, falta de educação….

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    Luiz Cláudio

    28 de novembro de 2018 às 22h12

    Não existe diferença entre corrupção e desigualdade? É certo dizer que um governo que diminui a corrupção também diminui em relação direta a desigualdade? O que dizer de um Governo que diminui a desigualdade, mas é acusado de corrupção? Em especial, quando a corrupção é usada como mote de campanhas pelo o garantismo jurídico da lógica de mercado? Por exemplo, dizer que todo brasileiro possui o direito, senão o dever, de saber o que é malária e como ela é transmitida, entre outras informações, antes de decidir se deve existir um médico na sua região e, é claro, antes de morrer, significa exercer o sacrossanto direito constitucional de aproveitar a formação de demanda cultural no ramo da saúde?

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ari

28 de novembro de 2018 às 18h52

A corrupção, como geralmente é entendida, passa longe de ser nosso maior problema. Se somarmos a sonegação (400/500 bi por ano) e os juros, a coisa muda de figura pois estaríamos falando de algo perto de 30% do PIB. Segundo a Oxfam, não tem como o país dar certo com esse nível de desigualdade. que seguramente deve piorar nos próximos anos. E pensar que estávamos caminhando com rapidez para finalmente chegarmos a ser o tão sonhado país do futuro

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Eu Mesmo

28 de novembro de 2018 às 13h49

Em termos de desigualdade econômica, pobreza e miséria é mais grave que desigualdade em si. Desigualdade é algo intrínseco do ser humano. Uns se esforçam mais, outros menos, uns acordam mais cedo outros mais tarde, uns tem maior facilidade em aprender certos assuntos enquanto outros aprendem mais facilmente outros assuntos. Essa conversa de igualdade é pura conversa mole pra continuarem corrompendo. Basta ver que mtos dos países mais ricos são mais desiguais que mtos dos países mais pobres. Somos mais desiguais que o Kosowo, que o Paquistão, que Bangladesh, que Niger, Serra Leoa, Argélia. Ganhamos até da Venezuela, onde ninguém mais quer ficar.
Nosso problema mais grave é sim a corrupção, pois é dela que vem a pobreza. Toda vez que dinheiro público é desviado ou mesmo somente mal empregado, é a sociedade quem está pagando por isso, via impostos. No Brasil isso é agravado por um sistema tributário invertido da lógica, que cobra proporcionalmente mais dos mais pobres que dos mais ricos.
Se há alguma igualdade a se falar é em igualdade jurídica (nada de foro privilegiado ou privilégios legais) e em igualdade de oportunidades. Em termos de igualdade de oportunidades refiro-me a educação básica para todos (se lá na frente o individuo quiser fazer faculdade, que faça. Parece que vcs querem obrigar a todos a fazerem faculdade…) e um Estado que pouco ou nada atrapalhe quem queira trabalhar, empreender e ganhar dinheiro.
O Brasil precisa de mais meritocracia e menos muletas estatais. Eu sei que vcs odeiam a palavra mérito, mas ela é fundamental.

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    Paulo Juliano

    28 de novembro de 2018 às 19h02

    Falar em meritocracia num país onde se leva nove gerações para, saindo dos 10% mais pobres, chegar ao nível médio de renda, para além de um profunda hipocrisia, só pode ser entendido como sarcasmo ou alienação. Só é possível falar em mérito quando as oportunidades são iguais.
    Essa conversa, tacanha e imbecilóide, só faz sentido para reproduzir um modelo perverso onde os aquinhoados, recheados de todas as facilidades que o dinheiro pode proporcionar, se perpetuam numa pirâmide social estática e, como expiação de suas culpas, atribuem à preguiça daqueles que labutem de sol a sol a má sorte.
    Perversa, hipócrita, perdulária, alienada e vagabunda, essa é nobre classe que domina este rincão esquecido por Deus desde priscas eras.

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      Eu Mesmo

      28 de novembro de 2018 às 20h36

      Pois é exatamente de oportunidades que precisamos. Tendo oportunidades, especialmente de estudarem e empreenderem sem que, principalmente o Estado, atrapalhe, as pessoas poderão, desde que queiram usufruir delas, conseguir o que quiserem.
      Esqueçam desigualdade. Podendo cada um estudar, trabalhar e enriquecer (não me refiro aqui a ficar rico, abastado, milionário, mas no longo prazo isso é até possível) a desigualdade diminuirá naturalmente.

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