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Reuters/ Martins Acosta

A resposta de Castañon a Cappelli

Por Redação

20 de maio de 2019 : 15h37

Com o intuito de abrir o blog às necessárias polêmicas de dentro do campo progressista, reproduzo abaixo artigo de Gustavo Castañon, em resposta a um artigo de Ricardo Cappelli, publicado no Cafezinho (e em outros espaços), sobre a comparação entre Lula, Cristina e Ciro.

Sobre Cristinas e Lulas

Por Gustavo Castañon

Acho Ricardo Cappelli, sem concessão, o melhor e mais realista cronista da vida nacional hoje. Se nossa mídia não fosse o que é, ele escreveria regularmente nos maiores jornais do país.

Mas quem escolhe defender o partido de Tiradentes nunca terá destaque na mídia nacional.

Ele não é, no entanto, meramente um cronista desinteressado. Ele é também um grande quadro do PCdoB, aliado e agente político do melhor governador brasileiro da atualidade, Flávio Dino.

Mais do que isso, é um homem sério e leal. Participou dos 13 anos e meio do governo do PT, não se sente à vontade para criticar Lula de forma mais dura do que faz. É também tudo compreensível.

Já eu não tenho qualquer dívida ou compromisso com o PT, mas sim com a verdade e com meu partido, o PDT. Portanto, não poderia deixar de responder ao “esclarecimento” que ele publicou depois de triturado pela polícia política petista.

Cappelli romantiza o comportamento e as motivações de Lula nas eleições. Mas a verdade é que qualquer operador político no Brasil sabe que Lula tinha um inimigo único a ser batido, Ciro, e que atuou somente para manter seu controle sobre a esquerda.

A pior coisa do mundo para Lula, que só pensa em seu jogo de poder pessoal, seria a eleição de um progressista que não estivesse sob seu comando e jugo.

A segunda pior é que outro partido progressista viabilize um projeto próprio no Brasil.

Nós, do PDT, tentamos fazer as duas coisas.

Na tentativa de fazer sua média com Lula, Cappelli cede a sede de adulação doentia da militância petista e chega a fazer a ultrajante declaração de que Lula foi o primeiro brasileiro a chegar ao poder.

Repito: o primeiro brasileiro!

O que foram Getúlio, JK, Jango, Itamar? Segundo Cappelli, “dissidentes da elite”, como se não pudessem ser brasileiros por causa disso. O que diria disso a mãe miserável do “Nonô”, o menino que aprendeu a ler descalço na biblioteca pública de Diamantina, pequena cidade mineira do miserável Vale do Jequitinhonha?

Para piorar, Cappelli afirma que é uma “imbecilidade” comparar o trabalhismo com o lulismo, que seriam duas correntes fundamentais do nacionalismo progressista.

Não quero usar uma palavra tão dura contra aqueles que em nosso campo pensam diferente de mim.

Mas devo reconhecer com Cappelli que a comparação é estapafúrdia, por motivos bem distintos do dele.

Porque o primeiro, o trabalhismo, é uma corrente política progressista, que lutou por aprofundamento de reformas sempre em todas as esferas de poder que assumiu, que nos legou o Estado Nacional Brasileiro, um consenso nacional responsável pelos 50 anos de maior crescimento na história do mundo, a maior distribuição de renda da história brasileira, nossos direitos sociais e trabalhistas, um país industrializado e os rudimentos de nosso estado de bem-estar social.

Já o segundo, o lulismo, é um mero arranjo conservador personalista, um aglomerado sem projeto ou pensamento político que nos legou 13 anos e meio dos maiores juros reais do mundo, a explosão de nossa dívida interna criada por juros sobre juros, a manutenção de todos os índices de desigualdade social rigorosamente intactos, a continuação da desindustrialização do país causado por seu populismo cambial e falta de projeto, um consenso nacional baseado na universalização do clientelismo e fisiologismo (para sermos elegantes), nenhum avanço estrutural ou reforma (a não ser uma da previdência, sim, o PT fez e foi a origem do PSOL) e por fim um programa de renda mínima neoliberal para distribuir as migalhas do banquete rentista para os miseráveis, eliminando a maior fonte de instabilidade do sistema oligárquico brasileiro.

O lulismo, que seu próprio nome indica ser um culto à personalidade despolitizador, foi um operador sem igual do oligarquismo brasileiro. Ele só foi destruído por menosprezar, e sejamos justos, por desobedecer aos interesses e poderes imperialistas em solo nacional.

Logo, a mera insinuação de que um movimento centrista, vazio, fisiológico e personalista, tem termo de comparação com a tradição fundadora de uma nação livre e soberana, é realmente, um completo contrassenso.

A relação não é entre a eletricidade e a internet, mas entre a eletricidade e a lamparina.

Já a outra comparação dele eu considero justa e inevitável. Cappelli, em texto anterior, comparou a grandeza de Cristina Kirchner e a pequenez antipatriótica e desprezo pelo destino do povo brasileiro que demonstrou Lula, e ao fazê-lo, foi trucidado pela despolitizada militância lulista.

Tentando aplacar sua ira, tentou criar uma falsa simetria entre Lula e Ciro, como se a responsabilidade pelo gesto de grandeza devesse ter vindo não do “maior líder popular do país”, como ele o qualifica, preso e inabilitado, e sim de Ciro, que lutava contra todas as maiores forças antinacionais e ao mesmo tempo contra a pequenez irresponsável do PT.

Ciro não reproduz o messianismo de Lula como Cappelli tenta forçar no argumento, para que um terceiro imaculado nome seja necessário. Ele luta contra esse messianismo tentando, há três anos, fazer o Brasil discutir projetos, não pessoas. E é por não se render a messianismos, e muito menos a um falso messias que já teve todas as chances do mundo para fazer algo de estrutural neste país, que Ciro jamais irá à cela de Lula em Curitiba.

Ciro não beijará a mão de Lula.

Ele já se dispôs ao sacrifício de visitar Lula e aparar arestas em 2018, em tempo hábil, logo depois da prisão, mas Lula se recusou a recebê-lo, a Lupi e a André Figueiredo. Antes, precisava destruir todas as alianças de Ciro para que ele fosse a sua cela como um vassalo humilhado se submeter novamente aos planos hegemonistas do PT.

Se esses planos incluíssem algum projeto de emancipação nacional, poderíamos aceitar ser humilhados novamente. Tantas vezes fomos. Mas porque nos submeteríamos ao projeto de poder pessoal de um homem que já provou tantas vezes que não tem qualquer compromisso com a transformação nacional?

O fim do artigo já conhecemos. São os planos legítimos de Dino para ser candidato a presidente. Esses planos eleitorais legítimos sempre vêm disfarçados pelos apelos de Cappelli a uma “unidade” que não serve ao país, mas só a Lula, Dino e o PT.

Não serve nem ao PCdoB, que parece fora dessa equação.

Sempre que pede “unidade”, “frente ampla”, Cappelli não explica nem o que seria isso e nem em que isso ajudaria o país nesse momento. Não explica porque não tem explicação.

Qualquer “frente ampla” com o PT é estreita, o PT é o partido mais odiado do país e da classe política, o país acaba de preferir se jogar no abismo de Bolsonaro a estender a mão ao PT para não cair nele.

A presença do câncer hegemonista do PT em qualquer frente democrática de oposição só dá combustível ao governo moribundo de Bolsonaro que só consegue mobilizar pessoas hoje por seu ódio, nojo e medo do PT. Além disso, a presença do PT é exatamente aquilo que inviabiliza o crescimento ao centro de que tanto fala Cappelli, é exatamente o que “não amplia”, afasta o centrão e outras forças democráticas que ainda temem mais ao PT do que a Bolsonaro.

Então, o que é essa unidade? A unidade que o PT quer é o fim das críticas aos 13 anos e meio de erros do partido, porque afinal de contas “não está na hora de criticar o PT”.

Nunca é hora de criticar o PT. Sempre é hora de vassalagem ao PT.

Eles não podem permitir a construção de um projeto independente.

A dissecação de seus terríveis erros.

Tanto que não aceitam discutir um novo projeto. Essa frente seria em torno de Lula, não de uma autocrítica do campo ou um programa claro. Haddad, o candidato a presidente que o PCdoB foi obrigado a apoiar, estava na última semana de campanha escondendo Manuela D’Ávila e defendendo, à revelia do PCdoB, a independência do Banco Central.

É a isso que devemos nos associar sem nenhuma garantia programática? E o PCdoB?

No fim, Cappelli ainda pede que Ciro, que acabou de disputar uma eleição presidencial se tornando legítimo líder de um campo político distinto do lulismo e do comunismo (o trabalhismo sim, o nacional desenvolvimentismo sufocado pelo social liberalismo do PT), abdique de suas pretensões de se recandidatar!

Sem qualquer discussão programática, Ciro deveria resolver suas “desavenças” com Lula e abrir caminho para um terceiro nome, lulista, que nos faria mais carinho do que fez o PT.

Mas apesar de haver desavenças, todos sabem que não se trata disso.

Esse tipo de abordagem é desrespeitosa e diminui o processo político.

Temos projetos muito diferentes. Nós temos um projeto de país a defender, o PT, um projeto de poder.

Se o PT não quer fazer autocrítica e discutir um novo projeto, não temos qualquer motivo para dar passos atrás.

Ou alguém pode dizer qual foi e qual é o projeto do PT para o país?

Para a esquerda sabemos: a destruição de todos os partidos do campo para que se agreguem como uma frente sob o comando do “pragmatismo” paulista.

Não faz nem meio ano que o PT tentou extinguir o PCdoB impedindo sua fusão ao PPL. O caminho que Dino está escolhendo pode levar o PCdoB à extinção e fagocitação pelo PT, o que foi o objetivo do PT na chantagem de 2018.

Nós seguiremos nos opondo ao desastre Bolsonaro, como nos opomos ao desastre Temer, ao golpe contra Dilma, à política econômica do segundo mandato de Dilma e faremos a crítica ao governo do PT e a autocrítica por nossa pequena participação nele.

Nos encontramos nas ruas. Do mesmo lado.

Não precisamos de unidade maior do que essa agora.

Precisávamos é nas eleições.

Mas eleição já passou, amigo Cappelli, e reconheço sua extrema dignidade nela e sua defesa dessa unidade, eu também a defendi até os 48 do segundo tempo.

Mas Lula tinha outros planos.

O resultado desses planos está aí hoje.

Publicado originalmente no Portal Disparada

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26 comentários

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Miramar

21 de maio de 2019 às 16h21

Realmente não tem acordo com essa gente do PT. Bolsonaristas eram inimigos, vocês eram só adversários, agora não mais.
Aliás, que textinho mais besta o desse tal de Victor, não? Parece alto ajuda!
Há alguma referência a alguma coisa remotamente parecida com Projeto Nacional de Desenvolvimento? Não. Vocês não sabem nem o que é isso.
Engraçado as referências a uma suposta origem de classe média dos eleitores do Ciro Gomes. E desde quando petista gosta de pobre? Petista gosta de pobre petista.
Podemos acidentalmente, nos encontrar em manifestações contrárias ao governo Bolsonaro, no mesmo palanque jamais. Para a sua alegria e a minha, decididamente não estamos do mesmo lado.
Em relação às eleições, que é só o que interessa a vocês, saibam que vocês podem ir ao segundo turno, mas não passarão dele. O planeta pode explodir, mas o PT não volta ao governo.
Lula é hoje um defunto eleitoral, injustamente preso, mas nem por isso menos defunto.

Responder

Alexandre Neres

21 de maio de 2019 às 14h32

Victor Moreto e o racha da esquerda: “Com Ciro Gomes, não tem acordo”
21/05/2019 – 09h50
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O gesto de Cristina Kirchner e o novo dicionário cirista

por Victor Moreto*

Muitos comentam que o gesto de Cristina Kirchner, favorita à sucessão de Maurício Macri na Argentina, em abdicar da presidência para compor uma chapa onde será vice de Alberto Fernández, poderia ser traduzido do castelhano da seguinte maneira: “PT, abra mão da cabeça da chapa para Ciro Gomes passar”.

Ou melhor, esse tem sido o dicionário Português–Castelhano que os ciristas têm usado.

É óbvio que o campo progressista precisa se reunir para derrotar esse consórcio fundamentalista-entreguista-neoliberal que se apossou do país, balizado há alguns anos pelos principais players de comunicação do país (Globo, Folha, Estadão, Veja, IstoÉ etc.)

E essa união já está acontecendo.

O PSOL e o PT claramente colocaram suas diferenças de lado, guardaram sua década de ofensas mútuas no saco e, do alto dos partidos (juntamente com o PCdoB) que congregam a maior base social do país, perceberam que se unir contra o consórcio das trevas era mais urgente do que tudo.

No Rio de Janeiro, por exemplo, está em curso uma candidatura de Marcelo Freixo (PSOL) à prefeitura da capital, com Benedita da Silva (PT) de vice.

Há alguns anos isso seria impossível de se cogitar.

O PSOL é um partido que – apesar de seus detratores – vem se constituindo politicamente por uma recusa em se sujar na pequena política fisiológica.

Nunca aceitou cargo por conveniência, nunca fez aliança que comprometesse seus ideais e sempre propôs diretrizes de acordo com sua ideologia política.

Ou seja: concordando ou não, é um partido que mantém sua relação fiel com suas bases, notadamente os diversos movimentos identitários e o MTST.

Voltemos ao dicionário. Nos verbetes “aliança política”, “política econômica”, PT e PDT aparecem como sinônimos. Não seria diferente. E nisso precisamos ser honestos com a história.

Ambos os partidos percorreram suas trajetórias no pós-ditadura e precisaram se coligar com uma miríade de siglas para que pudessem jogar o jogo da democracia que surgia em meados da década de 1980.

Ciro Gomes, mais ainda. Ciro foi de 7 partidos: PDS (ex-ARENA), PMDB, PSDB, PPS, PSB, Pros e, agora, PDT.

Ciro sabe mais do que ninguém que a política é arte do possível.

Precisou se camaleonear em diversas negociações partidárias, com propósitos diferentes, para viabilizar a ação política.

Enquanto ministro tucano, defendeu a privatização da Telebrás (apesar de dizer anos depois que era um crime) e interveio no Banespa e no BANERJ para privatizá-los no final de sua gestão.

Como político “local”, Ciro comanda o clã dos Gomes no Ceará.

A família manda e desmanda e não deixa qualquer outro sem o sobrenome ocupar o seu espaço.

Imagina o que Ciro diria se, em Pernambuco, a família Lula da Silva fizesse o mesmo.

Hoje, Ciro se autoproclama – está na moda o termo – uma vestal da moral brasileira.

Bate literalmente no peito para dizer que não existe uma única ação contra ele, mesmo para absolvê-lo.

Como se “ação judicial”, ou “assassinato” – moral ou de fato – na América Latina nunca tivessem sido sinônimos de “perseguição política quando incomoda os donos do poder” no dicionário do século XX.

Estão aí Getúlio, Juscelino, Perón, Dilma, Mujica, Lula e Cristina Kirchner que não nos deixam mentir. Isso para ficar em pouquíssimos exemplos.

Também não existe ação contra FHC na época em que Ciro fazia parte do governo. Sorte a dele estar no PSDB: partido mais blindado pela justiça que já apareceu no Brasil. Sorte, não?

Ciro sabe bem – e sempre soube – a quem os governos tucanos serviram: ao capital financeiro e à privataria do patrimônio público. Desses, a justiça trata com carinho.

Voltemos à Argentina: Alberto Fernández não é Ciro Gomes. Nunca disputou uma eleição, é um sujeito discreto, de fala suave e agregador.

Apesar de ter rompido relações com Cristina quando era chefe de gabinete de Néstor Kirchner, nunca o abandonou e seguiu até o fim.

Não se tem notícias de que tenha chamado Cristina de “defunto eleitoral”, “merda”, “enganadora profissional” ou os seus assessores de “quadrilha”.

Também não há notícia que tenha chamado Hebe de Bonafidi (90 anos, uma das mais importantes representantes das Mães da Praça de Maio) de “bosta” por defender o governo kirchnerista, como Ciro fez com Leonardo Boff.

Em sua primeira entrevista depois de anunciada “a fórmula” (ele como presidente e Cristina, de vice), Alberto Fernández deixou claro que o capital político era de Cristina.

Não subiu nos tamancos da vaidade para dizer-se merecedor egóico do cargo.

Ciro lançou sua candidatura sem procurar ninguém. Isso bem antes da definição do que o PT, ou qualquer outro partido de esquerda, faria.

Ele tem todo o direito, mas daí querer que todo mundo se alinhasse a ele chega a ser infantil.

Lula é Deus? Lula é santo?

Longe disso. Não há santos na política, nem em lugar nenhum. Lula articulou um isolamento do PDT, assim como Ciro articulou aliança com o Centrão, com Rodrigo Maia e com o DEM.

Mas por que Ciro ficou tão irritado com a falta de apoio de Lula, que ele considerava um “defunto político”?

E como esse “enganador profissional” conseguiu que um nome ainda desconhecido fora de São Paulo tivesse mais do que o dobro de votos que ele, Ciro, obteve em todo o país?

Sabendo disso, que o desconhecido Haddad teve uma quantidade enorme de votos, junto com a eleição da maior bancada de deputados do Brasil, como justificar que seria o PT a correr atrás para apoiá-lo? Que conta é essa?

Por que não foi uma traição o PT não apoiar o Boulos, que esteve junto de Lula na prisão arbitrária em São Bernardo?

Resumindo: de onde o Ciro Gomes tirou que “era a vez dele”, como dizem alguns fanáticos apoiadores seus?

Não se recebe um lugar na sociedade; conquista-se. Se fosse natural que Ciro Gomes viesse a ser aclamado pela população, ele teria conquistado o lugar de Haddad para representar o campo progressista. Mas não foi isso que aconteceu.

Parece óbvio dizer, mas quem sabotou a sua candidatura foi o povo brasileiro.

O que Ciro Gomes parece querer não é um lugar na presidência, mas na história. Não se escolhe ser um personagem histórico.

Isso é uma mediação entre o mundo – o país, no caso – e a sua vontade.

Desse mesmo mal sofreu FHC: não precisa ser psicanalista para entender o tanto que a inveja lhe incomoda ao ver como o povo ainda trata Lula, mesmo preso, mesmo vilipendiado diariamente por toda a cadeia de imprensa bancada pelos maiores investidores do Brasil.

Mas Lula estará daqui a cem anos nas páginas dos livros de história. Será um capítulo. Não precisa ser “lulista” para saber disso. Até a direita mais chucra sabe.

Ciro Gomes, com sorte, terá alguma menção e saberão seu nome os mais estudiosos. Isso não é tripudiar. É simbólico para entendermos a dimensão do que estamos tratando hoje.

E é dessa pessoa que ele cobra uma “autocrítica”. De novo: um senhor de 73 anos, que além de estar preso injustamente numa solitária, perdeu a mulher, o irmão e o neto de 7 anos em pouco tempo.

Ciro gosta de repetir perversamente, às vezes alimentado por uma plateia igualmente perversa, que “Lula está preso, babaca!” (Impossível deixar de notar que a maioria delirante é branca, homem e de classe média).

Cobra autocrítica de um preso político em sua cela, mas é incapaz de fazer a sua quando, solto, largou o país no segundo turno e foi para Paris. Mesmo dizendo – com razão – que estávamos à beira do abismo.

Parece que o abismo só era perigoso enquanto ele poderia servir de sua tábua de salvação. Depois, qualquer tipo de acordo, ainda que ressentido pelo jogo político que ele sempre jogou – diga-se de passagem – era muito esforço.

“Tomara que perca”, disse seu irmão, Cid, para uma plateia petista referindo-se a Haddad no segundo turno. 
 E perdeu. Junto com a presidência, perdeu-se também qualquer possibilidade de acordo com Ciro Gomes.

*Victor Moreto (historiador pela UNIRIO e mestre em Ciências Sociais pela PUC-RIO)

Responder

Patrice L

21 de maio de 2019 às 02h22

Ciro e Castañon: dois ressentidos! E o ressentimento, enorme, foi e continua sendo proporcional à pretensão! Beirando à paranóia e histeria!

Leram que, no testamento de Adão e Eva, estava escrito que Ciro deveria ser o candidato do campo progressista. Só que não há nada ali neste sentido. Mas não se conformam! Nem ao segundo turno passou, mas ainda assim queria passar na marra! Vergonha indelével o que fez ao se ausentar em Paris! Vergonha como se dirige à pessoa política e humana do Lula!

Luís Felipe Miguel resumiu à perfeição, e acho que até foi elegante: “Não consigo entender qual sinal dos céus deu ao Ciro a certeza de que ele tinha o direito divino de ser o candidato da esquerda das eleições deste ano. Ele foi candidato, legitimamente, mas a vaga no segundo turno foi dada – pelas urnas! – a Fernando Haddad. Felizmente, eu diria. Haddad cresceu enormemente na campanha. E Ciro, como mostrou seu comportamento após a derrota no primeiro turno, realmente não tinha estofo para assumir esse papel.”

Responder

    Miramar

    21 de maio de 2019 às 02h58

    Patrice L
    Ter ressentimento para com o PT não é um direito, é um dever moral. Que bom que o Ciro não sobe mais no palanque dessa gente. Detestaria ter que procurar outro candidato. Ciro não se propôs a ser o candidato da esquerda. Muito menos da vergonhosa esquerda brasileira. Se propôs a ser o candidato de um projeto nacional desenvolvimentista de centro-esquerda.

    Qual a próxima?

    Responder

      Patrice L

      21 de maio de 2019 às 04h40

      “O palanque dessa gente” só tem a agradecer de uma figura deletéria como o Ciro não subir mais lá! Ciro e o irmão são daqueles que te abraçam e apoiam e, no primeiro microfone disponível, te detonam! São autocentrados, inconfiáveis e desleais! Não que as pessoas não possam receber críticas, porém as justas e de uma maneira leal. Ciro confunde grosseria com sinceridade. A grosseria é uma forma de sinceridade, mas não é a única e segue sendo grosseria. Ciro é grosseiro. E inconfiável. Saudou o Haddad como meu presidente, se mandou pra Paris e, rasteiro que é, deixou no mesmo dia pau mandados aqui ficarem na imprensa dizendo que o Haddad era fraco, devia renunciar e ceder o lugar a ele no segundo turno. Isso tem nome e não é nada bonito!

      Responder

        Miramar

        21 de maio de 2019 às 12h53

        Estamos entendidos então…vocês não querem a companhia do Ciro e nós não queremos o Ciro perto de vocês.

        Responder

Miramar

20 de maio de 2019 às 23h14

Engraçado, Ze Maconha…seus comentários nesse site sempre me pareceram ter um teor fortemente stalinista, dado não só o sectarismo mas a pretensão hegemônica. Você diz que eu odeio quem pensa diferente de mim. Eu não odeio pessoas, rapaz. Sinto raiva ocasional de ideias.

Realmente, depois de anos tendo o PT como minha segunda opção eleitoral, optei por não votar mais nesse partido simplesmente por não enxergar nele nenhum compromisso com a democracia representativa copmo sistema de governo. O respeito às regras democráticas por parte da esquerda brasileira como um todo, aliás, é meramente pragmático. Vocês parecem ainda ser saudosos de uma revolução que nunca farão. Enquanto não a fazem, procuram de toda forma boicotar os que se identificam com outras práticas.
Como já disse em outra ocasião, sou de fato uma pessoa de centro-esquerda que entende perfeitamente o fato que algumas das melhores pessoas de esquerda com o tempo acabem abandonando-a (não falo daquelas que acabam aderindo ao autoritarismo, embora eu pessoalmente não conheça nenhum ex-esquerda bolsonarista). É muito difícil encontrar uma pessoa com inteligência um pouco acima da média que aceite ficar presa nesse cabresto psicológico.
Eu não sou melhor do que ninguém, mas pode ver por mim. Eu sempre bati pesado no PT mesmo, não nego. No entanto, desafio você a encontrar em meu histórico de comentários uma única alusão a ideia de que o PT um partido mais corrupto que os outros,ou um xingamento a figura do Lula ou de quem quer que seja. O máximo que cheguei perto disso foram as vezes que chamei a Gleisi de pior política do Brasil. Vamos combinar que isso não chega nem perto do que vocês fazem.
Acabou de se sair nesse mesmo site um vídeo do Ciro em um canal do youtube chamado My News.
Tenho certeza que até amanhã de manhã vai vir uma massa de gente organizada cuspindo clichês babacas aludindo a ideia falsa de que o Ciro é uma pessoa de direita (quando não de extrema-direita, um coronel, ex-Arena e outras mentiras). Também tenho certeza que esses comentários serão proferidos sem que o vídeo sequer tenha sido visto.
Então, lamento sua decepção, mas não sou o César, nem o Alan C, nem muito menos o Miguel do Rosário. Comento nesse site porque sua pluralidade de conteúdo faz com que pessoas como eu se sintam respeitadas. Se eu quisesse participar de uma discussão restrita a esquerda petista e a esquerda do PCO, PSOL e anarquistas, eu procuraria sites como o DCM (que eu já gostei) ou Brasil 247 (que eu nunca gostei).No entanto, enquanto esse site for plural é aqui que comentarei.

Responder

Zé Maconha

20 de maio de 2019 às 21h13

As viúvas do Ciro aqui , que provavelmente são o mesmo cara , talvez o próprio Miguel , já mostraram seu pensamento:
Ciro é um super-homem salvador da pátria e quem discordar é um petista fanático.
E ainda acusam o PSOL , que fez oposição ao governo do PT enquanto Ciro e Lupi bajulavam Lula , de ser puxadinho.
Lembram muito um homem que também odiava quem estava à sua esquerda:
Josef Stalin.

Responder

Alan C

20 de maio de 2019 às 20h47

Simplesmente o melhor texto desde a eleição.

Responder

Marcos Videira

20 de maio de 2019 às 20h01

Tenho dito que o vídeo da Cristina K foi revelador da verdade que está introjetada no espírito de petistas e não-petista. Sem que nenhuma citação fosse feita ao nome de Lula, imediatamente todos reconheceram Lula como o antípoda de Cristina K. Uns para defender, outros para atacar. Ou seja: apesar de negado pelos mais fanáticos, há o reconhecimento de que Lula e o PT colocaram seus interesses eleitorais acima dos da Nação. O resultado é o que foi previsto e alardeado: Bolsonaro presidente.
É preciso formar uma Frente Ampla reunindo todos os democratas (liberais, socialistas, trabalhistas) para enfrentar essa poderosa onda fascista que atinge o Brasil e o mundo. E o PT tem inegável força política, é o maior e o mais estruturado partido político e, portanto, é necessário na Frente.
Porém, é preciso dar ao PT a dimensão que ele realmente tem. Por ser um partido organizado, o melhor indicador de sua verdadeira força política está na quantidade de deputados federais. Ou seja, o PT tem 11% do eleitorado, formado por militantes e eleitores com afinidade política.
Essa Frente precisa existir e ter força para negociar com o provável governo Mourão. Entendi, pelas declarações cifradas de Amorim e Bresser, que Lula só alinha sua força política se houver o compromisso de reconhecimento de sua inocência.
Vamos aguardar para ver o resultado da negociação entre Lula e Lupi na quarta-feira.

Responder

    Zé Maconha

    20 de maio de 2019 às 21h02

    Pelo seu raciocínio o Bolsonaro tem apoio de 11% também , já que o PSL é do tamanho do PT na câmara.
    O PT tem 14% de preferência no último datafolha , 17% no ibope e teve um candidato com 30% dos votos no primeiro turno.
    Ignorar uma força com um terço do eleitorado é um enorme erro.

    Responder

douglas Napoleão puodzius

20 de maio de 2019 às 18h51

A emenda ficou pior do que o soneto. Se o artigo era rui, a resposta é pior.
Mania de escrever panfleto.
Olha! Como disse lula que desmonta os dois textos numa frase só: Se o povo queria votar no Ciro porque não votou nele no primeiro turno?
Então, não vamos brincar aqui… O PDT atual nada tem a ver com o PDT de Brizola, salvo honrosas exceções que de maneira alguma são Ciro ou Tabata.
Atualmente é um partido sem voto, que cada vez mais se distancia do Socialismo ou do espectro da esquerda. Tanto é assim que Ciro perdeu sua chance de melhor se aventurar na ultima corrida presidencial por conta da rasteira que Alckimim deu nele. Não foi Lula e o PT como quer vender o Ciro Guela, quem o derrubou foi Alckimin, com o Centrão. Este aí sim, preferiu perder a eleição a passar para Ciro aqueles votos de Centro direita que são os reais votos de Ciro.
O PT e Lula estavam representando muito bem o campo da esquerda, que não é o campo de Ciro Guela. Colocá-lo na cabeça de uma chapa é como se colocasse o próprio Alckimim.
Gente! Esquece esse coisa de Ciro Guela de esquerda. Ou tomam logo o rumo do centrão ou bem se redepositem sem Ciro Guela e Tabata e essas baboseiras todas.

Responder

    degas

    20 de maio de 2019 às 19h19

    O Ciro é um cara em que eu só votaria para evitar algo pior, como um Adad ou um Boulos. Mas a resposta do Lula é de uma desonestidade intelectual só possível porque ele sabe que há quem caia em sua conversa.

    Não interessa em quem o pessoal votou no primeiro turno. A questão do segundo turno é angariar os votos de quem não votou em nenhum dos dois finalistas e vai escolher quem lhe parecer menos pior. Dito de outro modo, vence o segundo turno quem tem menos REJEIÇÃO.

    Uma chapa PDT-PT (nessa ordem, com o Ciro na cabeça) manteria praticamente todos os votos desses partidos no primeiro turno e teria muito mais chance de agregar votos de quem votou em Alckmin ou outros, porque o Bolsonaro causava dúvidas e rejeição. Mas entre Bolsonaro e o fantoche petista, é evidente que a rejeição ao PT era muito maior.

    Responder

      Zé Maconha

      20 de maio de 2019 às 21h05

      Então Ciro pra você é um mal menor que o PT e o PSOL.
      Quem seria seu candidato ideal?
      Marina?
      Só sobrou ele e a direita.
      Agora fiquei curioso.

      Responder

Bruno Wagner

20 de maio de 2019 às 18h32

Ótimo artigo e argumentos. Lula e o PT tem que reconhecer que não mexeu nas estruturas. Pior, as fragilizou, com leis moralistas baratas. A Lava-Jato tá aí para nos mostrar…

Responder

Fábio maia

20 de maio de 2019 às 18h01

Ciro a renovação de 70 anos 04 eleições presidências e 10% dos votos. Rosário faltou vcs combinarem com os russos ou melhor com o Lupi presidente do PDT. Falar de personalusmo defendo Ciro varia partidária Gomes e piada. Parabéns cada dia que passa vc piora

Responder

Jeferson

20 de maio de 2019 às 17h15

Texto perfeito!!! Agora sim um pensador colocou o Lula no seu devido lugar, na sarjeta da história brasileira. Ninguém precisa atacar o condenado, ele mesmo se derrete sozinho por conta da sua conduta errônea ao tratar com descaso o erário público. Lula hoje é apenas um zumbi político, alguém sem importância, que só será lembrado por conta das falcatruas cometidas e dos desvios e corrupção praticados ao logo de 16 anos.

Responder

    Zé Maconha

    20 de maio de 2019 às 17h35

    A maior prova que ele está errado é receber elogios de um homem que vota em um defensor da tortura.
    Como você Jeferson.
    Se você me elogiasse eu me sentiria muito mal sobre mim mesmo.

    Responder

      Jeferson

      20 de maio de 2019 às 18h11

      Troca de fornecedor militonto, te venderam bosta de boi…

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CezarR

20 de maio de 2019 às 17h09

O Prof. Castañon foi espetacular nesse artigo. Embora não concorde com sua integralidade, tenho que reconhecer que está muito mais certo do que errado. Seria muito melhor uma dobradinha Ciro e Dino, mas já vi que não vai acontecer. Resultado? Vai dar Dória ou alguém do NOVO.

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marco

20 de maio de 2019 às 16h20

Perfeito o comentário!
Pt para cargo majoritário nunca mais.

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    Zé Maconha

    20 de maio de 2019 às 16h29

    Então se der PT e Bolsonaro no segundo turno de novo você anula o voto?
    Muito progressista de sua parte hahaha.
    Se prepara pra votar nulo então pois o Ciro não vai sair dos 12%.
    E lembre-se , cada voto nulo é meio voto pra extrema-direita.
    Seu comentário mostra que você trata política como time de futebol.
    Sou simpático aos ideais anarquistas mas se eu tiver que votar em Alckmin ou até no Amoedo pra derrotar Bolsonaro eu faria sem a menor dúvida.

    Responder

Zé Maconha

20 de maio de 2019 às 16h15

O Miguel Queiroz é inocente do Rosário já não sabe mais a quem recorrer para atacar Lula e dividir a esquerda.
Apesar dos eufemismos ele admite que seu objetivo é dividir a esquerda.
O único inimigo de Ciro é ele mesmo , porque Lula se sentiria ameaçado por um sujeito que não sai dos 12% a duas décadas?
Lula tem inimigos de verdade pra se preocupar , parém de insultar a inteligência das pessoas.
Quer dizer que Lula não estava preocupado com Bolsonaro , Moro , o MBL a lava-jato , Lula estava preocupado com Ciro hahaha..
Dá um pouco dessa droga que você e esse Gustavo( que eu nunca tinha ouvido falar) estão usando pra mim Miguel , parece ser da boa.
O engraçado é que a resposta ao artigo atacando Lula é outro artigo atacando Lula , isso num momento em que uma quadrilha de milicianos atenta contra a democracia , o inimigo do Cafezinho é Lula , não Bolsonaro.

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    Miramar

    20 de maio de 2019 às 17h14

    Como sou de centro-esquerda só tenho a comemorar a divisão da esquerda brasileira. Aliás, a discordância do Gustavo em relação ao Capelli e mesma que eu tenho. Aliás, dois analistas que eu leio sempre.

    Em tempo, eu votei no poste no segundo turno. Garanto que isso não irá mais acontecer.Se em 2022, o segundo turno for de novo entre PT e extrema-direita, pela primeira vez anularei um voto. Isso beneficia a extrema-direita? Sinto muito. Por mim, o planeta pode explodir que eu não voto mais no PT. Chega!
    Eles se orgulham muito de ir ao segundo turno, mas nunca mais passará dele. Aliás, meu sonho é ver o Ciro derrotando o PT no segundo turno. E garanto que não sou o único.

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      CezarR

      20 de maio de 2019 às 17h18

      Eu também colega. Tampei o nariz e digitei 13 no segundo turno, foi a última vez.

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      Zé Maconha

      20 de maio de 2019 às 17h59

      Você provou meu ponto Miramar , odeia o PT com um ódio cego e pouco se importa se a extrema-direita acabar com o Brasil.
      Seu sectarismo me faz lembrar do Stalin que matou mais socialistas que estavam à sua esquerda do que fascistas ou liberais.
      Eu sigo o exemplo de Lenin que se uniu até aos liberais pra combater um militar insurgente fascista ou dos anarquistas espanhóis que se uniram aos socialistas contra Franco.
      Você não vai entender a referência mas você é como um professor X se unindo ao Apocalipse com o pretexto de derrotar o Magneto.

      Responder

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