Economistas discutem a desindustrialização no Brasil

Foto: Sebastian/Flickr

A condição humana

Por Pedro Breier

09 de agosto de 2019 : 20h51

Marcelo mora embaixo de um viaduto. Sua filha de 7 anos vive com ele.
Todo dia, Marcelo acorda e vai atrás de alimento para si e para sua filha.

Às vezes, Marcelo consegue algum pacote de balas para vender nos sinais ou em pontos movimentados. Mas às vezes seguranças encrencam com a presença de Marcelo e ele não consegue fazer suas vendas.

Às vezes, Marcelo pede esmola. Alguns dão, mas muitos manifestam repulsa ou o ignoram. Parece que um morador de rua não merece sequer ser notado. Talvez porque esteja sujo, talvez porque pareça perigoso.
É como se Marcelo fosse invisível. “A gente é totalmente excluído da sociedade”, ele diz.

Um dia, Marcelo pedia esmola na frente de um bar. O dono do bar, quando o viu incomodando seus clientes, partiu para a agressão.

Às vezes é melhor nem ser visto, mesmo.

Marcelo tem uma filha de 19 anos que vive em Pernambuco. Ele veio para São Paulo com a mãe dela, sua esposa, mas esta morreu um ano e pouco depois. Marcelo fica angustiado porque não pode dar notícias nem visitar sua filha. A culpa pesa sobre seus ombros.

Mas Marcelo não pode se abater. Ele tem uma filha para sustentar.

Um dia, Marcelo ganhou de uma boa alma uma caixa de chocolates. Vendeu a caixa inteira e conseguiu 150 reais. Com o dinheiro, dormiu duas noites em um hotel com a filha. Vê-la sentada em uma cama de verdade, assistindo desenho animado pela manhã, encheu seu peito de alegria.

Mas a alegria foi breve. Em seguida eles voltaram para a rua. Para a desgraça que é morar na rua.

A menina está estudando. A assistente social arrumou um colégio para ela. Uma outra boa alma ajuda Marcelo e a sua filha de vez em quando, cozinhando para eles e abrigando a menina.

Marcelo não pode esmorecer. Se ele deixar faltar o básico para sua filha, a assistente social vai lhe tirar a criança.

Marcelo tem procurado trabalho. Ele fez uma entrevista de emprego esses dias. Sua ficha estava sendo preenchida por um cara que dizia que já estava tudo certo. O emprego era dele. Mas aí chegou a parte do endereço. Marcelo não mentiu. Disse que é morador de rua, mas está disposto a fazer de tudo, de se esforçar ao máximo, de ajudar como puder. Mas sem endereço fixo não rola. Marcelo perdeu a vaga.

Mas Marcelo não pode fraquejar. Ele não pode deixar sua filha desamparada.

Marcelo acredita que Deus está sempre com ele, lhe mostrando o caminho. Mas ele sabe que isso não basta. Marcelo sabe que tem que ir à luta.

Enquanto não percebermos que o próximo é um reflexo nosso e que o tratamento que damos a ele estamos, no fundo, dando a nós mesmos, estaremos condenados a viver sob os desígnios sinistros do egoísmo e do medo.

Enquanto a luta do Marcelo não for a luta de todo mundo, não teremos ainda atingido a condição humana.

***

Não faça com os outros o que você não quer
Que seja feito com você
Você finge não ver e isso dá câncer

(Legião Urbana)

Pedro Breier

Pedro Breier é graduado em direito pela UFRGS e colunista do blog O Cafezinho.

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8 comentários

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Marcio

10 de agosto de 2019 às 17h51

Levou para sua casa para ele ter um endereço e conseguir o trabalho ?

Responder

João Carlos

10 de agosto de 2019 às 14h14

“Direito subjetivo, sujeito de direito passam a surgir nos séculos 17, 18 para então explodirem no século 19. Está é a métrica do direito contemporâneo.

Nós medimos o mundo por indivíduo. E nós temos por pressuposto que os indivíduos sejam todos iguais naquele estoque de direito subjetivo que tenham. Então, todos são iguais perante a lei, todos têm autonomia da vontade, todos podem celebrar contratos livremente. Este é o mundo, esta é a lógica daquilo que vem a ser o direito contemporâneo. Liberdade de negócio, igualdade perante a lei, portanto a isonomia como princípio deste direito subjetivo… A nossa métrica desde o século 19 é o indivíduo, a nossa métrica não é o grupo, não é o movimento social, não é o interesse de uma coletividade. Nossa métrica são indivíduos dessa mesma coletividade.”

ALYSSON LEANDRO MASCARO

https://youtu.be/-xjJoppX2qg?t=993

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Na sociedade contemporânea, entendemos que todos são livres, que não existe trabalho escravo.

Parece, no entanto, que quando um indivíduo é OBRIGADO A TRABALHAR (celebrar contratos de negócios) pra obter um mínimo de dignidade estamos lidando com outro tipo de escravidão.

Verdadeira liberdade implicaria no Estado bancar a dignidade em sua plenitude: alimentação, moradia e saúde.

O trabalho de consumo deveria ser livre. Participa dele quem quer. Celebrar contratos livremente deveria ser uma opção.

Responder

Alan C

10 de agosto de 2019 às 07h43

Essa porção da população é invisível pra direitosca.

Responder

Paulo

09 de agosto de 2019 às 21h43

Pedro, compadeço-me da situação do Marcelo – mesmo que sua história seja mera parábola -, mas, você acha que a mendicância deve ser acolhida, quando pede dinheiro, que mal lhe pergunte?

Responder

    Pedro Breier

    11 de agosto de 2019 às 16h47

    Com certeza Paulo, se alguém está na rua pedindo dinheiro e podemos ajudar, acredito que fazê-lo é uma atitude ética e que reflete o amor ao próximo.

    Responder

      Paulo

      11 de agosto de 2019 às 22h29

      Ok, acredito na sinceridade de propósitos, da sua parte – ainda que por razões distintas das minhas. Mas, da minha parte, confesso que, apesar de católico praticante, me sinto de mãos amarradas, nessa questão. É que não consigo discernir entre o oportunista, que vive da mendicância (pra mim, 8 de 10, no mínimo), e o sujeito circunstancialmente posto nessa situação…

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        Pedro Breier

        12 de agosto de 2019 às 13h56

        Então Paulo, mas eu acho que não importa. Antes ajudar 99 “oportunistas” e 1 que realmente precisa do que não ajudar ninguém, especialmente sob uma ótica cristã. Além disso, esse conceito de “oportunista” é complicado. Quantos desses oportunistas morariam na rua se pudessem ter um emprego e um lar dignos? É claro que as pessoas têm responsabilidades por suas escolhas, mas o sistema econômico sob o qual vivemos é bruto e excludente. Diante desse fato, não acho que definir que 80% dos que pedem dinheiro nas ruas são oportunistas seja uma análise correta.

        Responder

          Paulo

          12 de agosto de 2019 às 17h26

          A maioria dos que pedem é para drogas ou bebida, tenho convicção disso. Eu dou lanche, refeição, etc. Dinheiro, jamais! Mas fico feliz que você consiga fazer a abstração…


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