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A culpa é dos ricos!

Por Redação

27 de fevereiro de 2020 : 14h20

Por Emerson Sousa e Fábio Salviano

Atente para o fato de que toda a miséria existente no Brasil tem uma única fonte: os Ricos.

Entenda-se por Ricos as pessoas que percebem uma renda familiar bruta (antes dos impostos), por adulto, da ordem de R$ 75.831,91 mensais, conforme definição da World Inequality. Abaixo disso, não se é Rico!

Sim, os Ricos são os responsáveis pelas péssimas condições de vida no Brasil porque eles utilizam o poder político que a sua riqueza lhes concede para alterar “as regras do jogo” e fazer com que toda a coordenação das relações sociais de produção os favoreça, diminuindo-lhes os custos e ampliando os seus ganhos.

Assim, desde as regras de tributação até à prestação de serviços públicos, passando pelas regulações trabalhistas e ambientais, todas as ações são conduzidas de modo a não afetar as formas pelas quais os Ricos ficam ricos. Nesse sentido, veja quantos Ricos são políticos e compare com o número de trabalhadores.

Porém, essa não é uma ideia nova. Em uma de suas últimas entrevistas, o economista paraibano Celso Furtado já alertava para o fato de que as elites econômicas brasileiras (e as latino-americanas também) apenas poderiam adotar um estilo de consumo semelhante aos das elites europeias se concentrassem renda.

O que explica esse fenômeno é o fato de que a nossa estrutura produtiva – suportada por atividades primárias, como o Agronegócio – apenas produz itens de baixo valor agregado o que resulta num reduzido nível de riqueza per capita.

Então, por que o Brasil, simplesmente, não altera a sua estrutura produtiva para uma com maior valor agregado? Porque os Ricos não querem! Por sinal, da Patagônia até à margem sul do Rio Grande, esse é um problema que se abate por toda a América Latina.

E os Ricos não querem isso por três motivos:

1- Eles ganham muito dinheiro com a produção e exportação de commodities e com a importação de bens manufaturados, eles teriam prejuízos caso isso se modificasse. Para se ter uma ideia de como isso funciona, lembre que a escravidão foi abolida no Império Britânico em 1833, mas, no Brasil, somente em 1888, mais de meio século depois, porque era lucrativa para os traficantes, os armadores e os financistas do Rio de Janeiro;

2- Diferentemente das demais pessoas, Ricos não trabalham! Ou seja, eles não são remunerados pela venda de sua força-de-trabalho. Eles auferem renda negociando com capitais, e o surgimento de uma nova casta de Ricos faria com que os atuais passassem a enfrentar maiores níveis de concorrência por capitais e, também, por mão-de-obra, diminuindo os seus ganhos;

3- Uma alteração dessa natureza também modificaria o contexto de distribuição de poder político, decorrência direta da redistribuição de renda. Afinal, um povo menos aprisionado pelas correntes do subdesenvolvimento é um povo que possui mais controle sobre seus destinos.

O Brasil já tentou fugir desse esquema – também chamado de pacto colonial – onde ele passaria a deter uma posição mais autônoma no cenário da divisão internacional do trabalho, mas não conseguiu.

Isso começa na Ditadura Vargas (1930-1945), com a industrialização brasileira assumindo o papel de Política de Estado, segue pelas décadas posteriores e apresenta a sua última demonstração de força com o II Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND), já no mandato do ditador Ernesto Geisel (1974-1978). Daí em diante, tudo o que se viu foi o retorno do Brasil à condição de país primário-exportador.

Então, os Ricos são a causa de todas as nossas mazelas sociais porque com uma estrutura produtiva primarizada não tem como suportar um sistema de proteção social e nem, muito menos, permitir a existência de níveis de renda condizentes com a dignidade humana, porque ela requer altos níveis de concentração de renda.

Como o Brasil vem se reprimarizando, a estrutura de proteção social prevista na Constituição Cidadã de 1988 torna-se insustentável. Por isso a promoção de sucessivas “reformas” desde a sua promulgação.

Mas insustentável porque, como bem mostram os países desenvolvidos, só é possível um alto padrão de vida para toda a Sociedade com os Ricos pagando muitos impostos para que o Estado possa fornecer serviços públicos gratuitos de qualidade.

(Aceita, que dói menos: não existe essa de desenvolvimento social com baixa carga tributária e Estado mínimo).

No âmbito Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), nada menos do que 27 dos seus 36 membros possuem carga tributária acima dos 30% do Produto Interno Bruto (PIB), sete acima dos 40% e somente um abaixo dos 20%, o México.

Por sinal, lembre-se disso toda vez que algum parvo aparecer dizendo que a nossa Carta Magna só prevê direitos e, não, deveres.

Então, desde o início da década de 1980, o projeto dos Ricos é o de encontrar uma Administração Política que garanta alguma estabilidade social para o país (mesmo que a base de carros blindados e segurança particular), mas sem mexer na fonte de seu poder político: a concentração de renda.

Consequentemente, se ainda for do interesse do povo brasileiro dar um padrão de vida digno para todos, calcado na Solidariedade, na Igualdade e na Cidadania, a primeira coisa que deve ser feita é garantir, de forma democrática, a derrota política dos Ricos.

Emerson é economista, Fabio é sociólogo.

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8 comentários

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Karla

29 de fevereiro de 2020 às 07h45

O livro de Celso Monteiro Furtado que trata das questões abordadas na postagem é A FANTASIA DESFEITA. Um dos livros de leitura obrigatória para entender o beco sem saída em que o tucanato, o lulopetismo e os para-guedistas da extrema-direita escangalharam o País que perdeu o seu tempo e passo históricos.

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Wellington

28 de fevereiro de 2020 às 16h20

Redação, coloquem essa matéria vista ….

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Ivanir Corgosinho

28 de fevereiro de 2020 às 11h30

Por gentileza, gostaria de saber qual a fonte para a citada entrevista com Celso Furtado. Grato.

Responder

    Karls

    28 de fevereiro de 2020 às 18h51

    Está no luvro “A Fantasia Desfeita”.

    Responder

Wellington

27 de fevereiro de 2020 às 18h06

Produzir com valor agregado aumenta exponencialmente os preço…quem vai comprar depois ? Os 200 milhões de brasileiros que vivem de cesta basica ?

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Evandro Garcia

27 de fevereiro de 2020 às 17h59

Pelo contrário…dinheiro deve ser estimulado a chegar até um País através de baixos impostos para que seja investido para produzir. Quem tem dinheiro pode escolher onde levar e aumentar impostos faz o oposto obviamente.

Nós Estados Unidos mais aumenta o faturado de uma empresa mais a mesma ganha isenções fiscais. Em troca esse dinheiro deve ser investido na mesma empresa para empregar e produzir mais. Inteligência é isso e não taxar.

O que iguala rico e pobre é a instrução.

Não são os ricos que se devem tornar mais pobres com impostos idiotas (jogados no lixo) mas os pobres se tornarem mais ricos.

O Brasil deveria investir no turismo de luxo internacional mas território a parte falta tudo.

Larguem essas ideologias trogloditas de quarto mundo.

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    Emerson Sousa

    28 de fevereiro de 2020 às 01h37

    Meu jovem, grato pela gentileza do comentário. Por sinal, vamos a ele. Sugiro aprofundar investigaçôes sobre o seguinte trecho do texto:

    “No âmbito Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), nada menos do que 27 dos seus 36 membros possuem carga tributária acima dos 30% do Produto Interno Bruto (PIB), sete acima dos 40% e somente um abaixo dos 20%, o México.”

    Quando o amigo pesquisar, vai ver que nenhum país desenvolvido do mundo consegue promover altos níveis de bem-estar social sem uma taxação pesada em sistemas tributários fortemente progressivos. Vide, por exemplo, o norte europeu. Esse é um dado da realidade.

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      Evandro Garcia

      28 de fevereiro de 2020 às 16h18

      Daqui 100 anos talvez sim, antes é preciso que os brasileiros aprendam a ler, escrever e passar por um processo de civilização de pelo menos 3 décadas. Isso tudo é completamente gratuito e depois, quem sabe tenham a possibilidade de escolher o que fazer…mas não acontecerá.

      O norte europeu é um caso extremo (onde as atividades econômicas ficam quase completamente paradas por vários meses ao ano por causa do gelo) e além disso não possuem absolutamente nada em comum com o Brasil, zero, cada lugar é um caso diferente. Comparar esses países com o Brasil alem de ser uma perda de tempo é bastante ridiculo. A Suécia inteira não chega a ter nem os abitantes de São Paulo…

      O Brasil não possui as mínimas bases para fazer isso, a única coisa que possui é um território maravilhoso que deveria ser explorado inteligentemente para trazer dinheiro.

      Moro na Europa ocidental e a sonegação fiscal é elevadíssima por causa dos altíssimos impostos que ninguém consegue pagar.
      Isso tudo não se sustenta mais e como dizem aqui… é legitima defesa.
      Aqui quem persegue baixar os impostos ganha as eleições.

      O dinheiro deve ficar nos bolsos de quem o ganha e em mínima parte para o Estado, somente o indispensável para começar e nada mais.

      A bientôt.

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