Analista da Ideia fala sobre “voto útil” dos eleitores de Ciro a Lula no 1° turno

Aliança: O presidente nacional do PDT, Carlos Lupi, o ex-prefeito de Niterói Rodrigo Neves, o prefeito do Rio, Eduardo Paes, e o ex-presidente da OAB Felipe Santa Cruz Foto: Divulgação/Prefeitura do Rio

Acordo entre PDT e PSD no Rio sacode o tabuleiro nacional

Por Miguel do Rosário

03 de fevereiro de 2022 : 10h24

O presidente nacional da OAB, Felipe Santa Cruz, falou hoje (3) ao Cafezinho sobre a aliança firmada entre o PSD e PDT para as eleições ao governo do Rio, anunciada nesta quarta-feira à noite.

“É muito importante que se construa uma alternativa no Rio que seja realmente ampla e que possa agregar múltiplas forças políticas. Precisamos reconstruir nosso estado, pois não temos mais quatro anos para perder”, declarou Santa Cruz.

Santa Cruz participou ontem de reunião entre Eduardo Paes, prefeito do Rio de Janeiro, Rodrigo Neves, pré-candidato do PDT ao governo do Rio, e Carlos Lupi, presidente nacional do PDT. O assunto foi, naturalmente, a eleição para o governo do estado.

Com a derrocada do MDB fluminense, após a prisão de seus principais quadros, Eduardo Paes emergiu como o principal articulador do centro político no estado. Tem boas relações à direita e à esquerda, e por isso seu apoio é tão cobiçado por quem deseja se tornar competitivo na disputa pelo Palácio da Guanabara.

E Santa Cruz se tornou uma espécie de “homem forte” de Eduardo Paes. É o seu pré-candidato ao governo de coração.

O acordo entre PSD e PDT deixou em aberto quem ocuparia a cabeça da chapa. Isso envolverá outras negociações, além de posicionamento em pesquisas.

Perguntamos a Santa Cruz se o acordo envolveria apoio a Ciro Gomes, que é o candidato do PDT a presidência da república.

“Não”, respondeu rapidamente.

Após uma pausa dramática, Santa Cruz completou:

“Estamos aguardando o Kassab [presidente nacional do PSD]”.

“Seguiremos a nacional”, finalizou Santa Cruz, numa prova inconteste de que, embora ainda não esteja filiado oficialmente ao PSD, já se considera um militante fiel ao partido e à orientação de seu presidente.

O acordo entre PSD e PDT é uma vitória política de Rodrigo Neves, cuja candidatura enfrentava algumas dificuldades pela movimentação adiantada de seu principal adversário à esquerda, Marcelo Freixo.

Freixo conseguiu arrancar declarações favoráveis de Lula e uma boa parte do PT fluminense trabalha para que ele seja o candidato apoiado pelo partido e pelo presidente.

Entretanto, Neves mantém boas relações com o PT local. O seu grupo político tem pessoas do PT, como a vereadora Verônica Lima.

Neves igualmente cultiva boas relações com o ex-presidente Lula, a quem visitou em novembro passado, e trabalha para que o seu palanque no estado, caso seja candidato, também receba o petista.

Em entrevistas recentes, Neves tem mandado algumas indiretas a Ciro Gomes, dizendo que não concorda com críticas “abaixo da cintura”, especialmente de ordem moral, numa referência discreta, mas explícita, aos ataques que o candidato do PDT tem desferido contra Lula e o PT. A postura beligerante de Ciro tem atrapalhado os planos de Neves, que passam, necessariamente, pela construção de um palanque com presença de Lula, setores do PT e da esquerda fluminense em geral.

A propósito, entrevistei há algumas semanas tanto Santa Cruz quanto Rodrigo Neves, no programa do qual sou âncora na TV Forum .

Na entrevista com Santa Cruz, ele disse que tem admiração por Ciro Gomes, mas que entende que essa eleição não é seu momento. Suas referências a Lula, cuja inocência defendeu com afinco, foram bem mais animadas. Santa Cruz evitou falar sobre sua candidatura, dizendo que ainda não se decidiu sobre ela.

Na entrevista com Rodrigo Neves, o ex-prefeito de Niteroi, ao contrário, se mostrou muito determinado em seu projeto político de disputar o governo.

Ironicamente, o acordo entre PSD e PDT no Rio pode ajudar Lula a conquistar as duas peças que faltam no xadrez que vem jogando para ganhar no primeiro turno:

1) atrair o PSD para sua candidatura, ainda no primeiro turno, o que geraria um efeito cascata junto aos partidos de centro, que se apressariam a não perder o lugar na fila. Isso se daria através de um acordo entre Kassab e Lula, no qual o ex-presidente se comprometeria a apoiar Santa Cruz como seu candidato preferido.

2) neutralizar Ciro Gomes, seja obrigando-o a desistir, seja “cristianizando-o” completamente, fazendo com que os principais candidatos do PDT a governos estaduais, no Maranhão, Ceará, Sergipe e Rio de Janeiro, dêem mais visibilidade ao líder nas pesquisas do que ao nome da sua própria legenda.

Vale ainda destacar a habilidade de Eduardo Paes, que, em poucos lances, mudou completamente as peças do tabuleiro político no estado. Numa tentativa de enfraquecer Freixo e rachar o PSB, Paes recebeu o deputado Alessandro Molon em seu gabinete, e apoiou publicamente o seu desejo de ser candidato ao Senado.

Ora, o acordo para que Freixo (PSB) seja o candidato apoiado pelo PT e pela esquerda inclui a indicação de André Ceciliano (deputado estadual pelo PT) como o nome para o Senado. Se Molon, que é presidente estadual do PSB no Rio, quiser realmente ser candidato ao Senado, terá que derrubar a candidatura de Freixo ao governo.

Para entender o pensamento de Paes, observe essas três postagens, que publico em ordem cronológica:

1) Um fio de três tweets onde afirma a candidatura própria do PSD e tenta atrair Molon para seu projeto:

2) Um tweet onde reafirma a candidatura de Felipe Santa Cruz:

3) A postagem onde celebra o acordo com o PDT:

Quanto a Rodrigo Neves, o acordo resolve metade de seus problemas. Com o avanço da candidatura de Marcelo Freixo, que lidera as pesquisas, é mais conhecido e saiu na frente nas articulações à esquerda, Rodrigo Neves via-se numa situação perigosa de isolamento. Uma situação parecida com a de Ciro, a nível nacional. Ou seja, corria o risco de afundar numa “terceria via” completamente espremida por ambos os lados da polarização. O acordo com Eduardo Paes o salva, e ele volta ao jogo.

Entretanto, tudo tem um preço, e no caso de Neves, ele foi obrigado a correr o risco de ver sua candidatura “rifada”, pois Eduardo Paes agora irá mexer seus pauzinhos para que a cabeça de chapa seja ocupada por Santa Cruz, como suas últimas postagens deixam bem claro.

Esse risco existe porque a outra metade dos problemas de Neves ainda espera uma solução, e tem um nome: Ciro Gomes. Este problema apenas seria completamente resolvido se houvesse um acordo nacional entre Lula e Ciro, com o segundo retirando sua candidatura e apoiando o petista, em troca do apoio de Lula a Rodrigo Neves no Rio de Janeiro. Caso Ciro Gomes fosse um quadro mais organicamente partidário, não teria dificuldade em constatar que essa seria a melhor solução para todos.

Mas isso é difícil de acontecer. Então Neves agora fica à espera de um fato imponderável (uma disparada sua nas pesquisas ou uma desistência de Santa Cruz, por exemplo) que lhe renda pontos suficientes para que possa reinvindicar, com sucesso, a cabeça de chapa no acordo com o PSD.

De qualquer forma, o acordo com o PSD faz Neves ganhar uma vantagem fundamental em relação a Freixo, seu principal adversário a uma vaga no segundo turno contra Claudio Castro, atual governador, que é mostrar capacidade de conquistar o centro político, coisa que Freixo tenta a todo custo, mas enfrenta dificuldades, em função de ter seu nome ainda associado a um suposto “radicalismo” esquerdista.

O novo desafio de Neves será, com mínimo de danos à sua imagem dentro de sua própria legenda, neutralizar a influência do antipetismo cirista em sua campanha, para não apenas receber Lula em seu palanque, mas sobretudo para convencer o eleitorado de esquerda a ouvir suas propostas, defendê-lo dos ataques e levá-lo ao segundo turno.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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7 comentários

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Gil

04 de fevereiro de 2022 às 08h42

Então o PDT consegue apoio de Eduardo do PSD e vai em BH conversar com Kalil e é o Lula que tá se dando bem??? kkkkk

Freixo infelizmente vai perder a eleição, por conta da sua recente subserviência ao Chefe Lula, pena, pois seria o melhor Governador para o Rio

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Francisco

03 de fevereiro de 2022 às 21h49

Continuo acreditando que Freixo é o melhor nome para governar o RJ.

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Sebastião

03 de fevereiro de 2022 às 19h48

A questão que Freixo tem um eleitorado forte. Santa Cruz precisa do apoio de Freixo pra ir ao segundo turno, não somente do apoio de Paes. Ainda, tem o eleitorado de Garothinho, que mesmo sendo reduzido a cada eleição, conta muito. Vamos lembrar, que Freixo sempre foi competitivo nas eleição majoritárias. Será necessário uma aliança entre Santa Cruz e Freixo. E este, com eleitorado forte que tem, ser preterido por Molon, não dá.

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Netho

03 de fevereiro de 2022 às 15h20

O pior cego é aquele que quer ver, já dizia MIllôr Fernandes.
Jamais Lula ganhou alguma coisa em primeiro turno; muito pelo contrário.
Qualquer pesquisa minimamente confiável, não indica quaisquer possibilidades de vitória de Lula no primeiro turno.
A adoção preferencial do pragmatismo incoerente o levou a ver o sol nascer quadrado.
Lula só saiu do xilindró porque o frentista do Posto Ipiranga pegou a pandemia pela proa e meteu os pés pelas mãos com a sua República Miliciana.
Até os pedregulhos da Galileia sabem que Lula já bateu no teto faz tempo!
A partir de agora o seu viés é para baixo
A razão é óbvia ululante: a campanha nem começou e o jogo é jogado.
Será o jogo mais pesado de todas as eleições desde 1989, quando Lula fazia campanha como o “candidato da ética na política” e Sarney era a sua Geni de estimação.

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EdsonLuíz.

03 de fevereiro de 2022 às 13h58

Eu também não gosto da forma como Ciro Gomes aborda certas questões sobre certas pessoas, mesmo quando ele está certo, como a forma que usa quando aborda certas questões sobre Dilma. Pode ser incisivo, mas não precisa ser mal educado.

Sobre Lula e o PT, quando Ciro Gomes aborda a questão da corrupção de Lula, de seu filho e de seu partido, isso não é um ataque moral a Lula, não! Isso é simplesmente abordar um fato e seus bilhões e bilhões de motivos.

Denunciar corrupção é uma coisa que nunca pode ser feita por leviandade, assim como defender alguém de acusação de corrupção também não pode ser feito de forma leviana com a sociedade.

Se houver a condenação de um corrupto quando julgado pelas provas e sendo essa condenação confirmada, o corrupto não pode ser protegido. Pelo contrário: se a pessoa sabe de um corrupto, deve denunciá-lo; e se sabe que é inocente, deve defendê-lo!

Estou falando de quando a pessoa sabe, não de quando ela deseja ou quer que o corrupto seja considerado inocente, quando já foi condenado. Exatamente isso, de contar o que deseja e o que quer e não os fatos, seria a leviandade de impor no grito à sociedade a inocência de quem não é inocente, mesmo se o corrupto for protegido em algum setor poderoso do judiciário. Se houver a condenação de um corrupto, é obrigação abordar isso, principalmente se houver acontecido alguma manobra para proteger esse corrupto condenado no sentido de permitir a alguém confundir e dizer que ele é inocente.

No caso de Lula, que é um condenado se passando por inocente, é obrigação denunciar. A mesma coisa vale para Eduardo Cunha e para o militar torturador Brilhante Ustra, o queridinho de jair bolsonaro. E vale para muitos corruptos e outros tipos de criminosos condenados mas que receberam e recebem proteção.

A energia de quem defende corrupto condenado deveria ser usada para discutir as centenas de milhares de presos – a quase totalidade de gente muito pobre; um número desproporcional de pretos – que estão enjaulados e nada cometeram, ou o que fizeram de errado foi muito pouco.

Mas eu acho que os eleitores é que devem se ocupar mais de denunciar corruptos; Ciro Gomes deve se ocupar mais em articular políticos moralmente saudáveis e se ocupar de discutir suas propostas, principalmente para a economia, para a questão da diversidade e desigualdade, para a saúde e para a educação.

Ops: para o combate à corrupção, também!

Responder

henrique de oliveira

03 de fevereiro de 2022 às 11h41

O estado do Rio acho que não interessa para as esquerdas de verdade PT , Psol , PCdoB e PCB , afinal é um estado miliciano e bozonarista , seja quem for o governador a coisa só tende a piorar , então sugiro que se danem.

Responder

    André Fortes

    04 de fevereiro de 2022 às 16h42

    Esquerda de verdade???

    Responder

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