Um estudo inovador da Universidade Estadual Paulista (Unesp) revelou um método sustentável para extrair terras-raras, metais essenciais para a fabricação de dispositivos eletrônicos como computadores, smartphones, telas e baterias, a partir de lâmpadas fluorescentes descartadas. Esses resíduos, que muitas vezes acabam em aterros sanitários, podem se tornar uma fonte estratégica de recursos tecnológicos, reduzindo a dependência de mineração e agregando valor a materiais que seriam desperdiçados.
Liderada pelo professor Elias Paiva Ferreira Neto, a pesquisa foi publicada na revista científica internacional ACS Sustainable Resource Management. O processo utiliza o pó residual de lâmpadas fluorescentes provenientes da reciclagem industrial como base para a extração.
Conforme explica o professor, a produção de terras-raras é concentrada em poucos países, como a China, que domina o mercado global. Recuperar esses elementos de resíduos representa uma alternativa viável para países que, apesar de possuírem grandes reservas mundiais de terras-raras, ainda têm produção insignificante frente à demanda internacional.
O método desenvolvido pela equipe da Unesp baseia-se na biolixiviação, um bioprocesso que alcança mais de 95% de pureza na recuperação de elementos como ítrio e európio. Denise Bevilaqua, diretora do Instituto de Química de Araraquara e coordenadora do estudo, detalha que a técnica utiliza um ácido biogênico produzido pela bactéria Acidithiobacillus thiooxidans. Essa bactéria consome enxofre de resíduos como fonte de energia, solubilizando as terras-raras presentes nas lâmpadas.
Segundo a pesquisadora, a concentração desses metais em lâmpadas fluorescentes pode ser até 20 vezes maior do que em ocorrências naturais, o que torna o descarte inadequado um desperdício significativo de recursos.
No Laboratório de Materiais Fotônicos da Unesp, os cientistas trabalham para isolar seletivamente as terras-raras extraídas, transformando-as em materiais luminescentes com potencial de reutilização industrial. Os próximos passos da pesquisa incluem a ampliação do processo para escalas maiores e o aperfeiçoamento de técnicas para separar individualmente os diferentes elementos. Além disso, a equipe busca integrar essa abordagem às cadeias reais de reciclagem, aproximando os resultados de aplicações práticas no setor industrial.
No contexto nacional, a Política Nacional de Resíduos Sólidos, instituída pela Lei 12.305/2010, determina que fabricantes são responsáveis pela logística reversa de lâmpadas que contêm materiais potencialmente contaminantes, como o mercúrio. Apesar dessa regulamentação, estima-se que apenas 6% das lâmpadas fluorescentes descartadas sejam recicladas. Dados indicam que, em 2021, foram comercializadas 310 milhões de lâmpadas no país, sendo a maioria de tecnologia LED, que apresenta menor risco ambiental. Ainda assim, o volume de fluorescentes descartadas incorretamente permanece um desafio crítico.
Conforme destaca Denise Bevilaqua em declaração ao portal da Unesp, é urgente investir em infraestrutura de reciclagem e conscientização para evitar a perda de materiais valiosos e os riscos de contaminação. Ao transformar resíduos em recursos, o método pode contribuir para reduzir a dependência de importações de terras-raras e fortalecer a autonomia tecnológica, enquanto enfrenta um problema ambiental de larga escala.
Com informações de Agência Internacional.


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