A missão franco-egípcia concluiu entre 2022 e 2025 a restauração do portal norte da muralha erguida por Ramessés III no complexo do templo de Karnak em Luxor.
No dia 23 de março de 2026, os resultados dos trabalhos foram divulgados com a revelação de uma estela de arenito datada do reinado do imperador romano Tibério, que governou entre 14 e 37 d.C. O monumento mede cerca de 60 centímetros por 40 centímetros por 10 centímetros e foi encontrado incorporado à estrutura que delimita o recinto de Amón-Rá.
Conforme o portal Ahram Online, a estela retrata Tibério de pé diante da tríade tebana formada por Amón-Rá, Mút e Khonsu, os deuses centrais do culto em Luxor.
Abaixo da cena principal, uma inscrição hieroglífica de cinco linhas descreve o restauro da muralha do templo de Amón-Rá. Essa representação confirma a continuidade da prática de integrar imperadores romanos ao sistema religioso egípcio mesmo após a dominação de Roma.
Abdel Ghaffar Wagdy, diretor-geral das Antiguidades de Luxor, destacou que a estela cumpria papel ideológico e administrativo ao mesmo tempo.
Ao se apresentar como faraó, o imperador integrava-se ao sistema religioso local e demonstrava zelar pela ma’at, o princípio de ordem cósmica. Tibério nunca visitou oficialmente o Egito, e sua imagem era propagada por monumentos como este e por emissários enviados ao território.
Os trabalhos também recuperaram blocos decorados da época de Amenófis III, o que indica que versões anteriores do portal já existiam no mesmo local.
Os arqueólogos identificaram ainda uma estrada processional pavimentada que ligava o portão ao pátio do Terceiro Pilono, revelando conexões rituais importantes dentro do complexo de Karnak, construído ao longo de séculos.
Após os processos de conservação, a estela será exibida em um museu. O ministro do Turismo e das Antiguidades, Sherif Fathy, elogiou a cooperação entre as equipes francesa e egípcia e apontou o projeto como referência para a preservação do patrimônio histórico.
A muralha de Ramessés III remonta ao século XII a.C., e a incorporação da estela romana atesta a longa história de intervenções no sítio sagrado.
A descoberta ilustra a iconografia imperial romano-egípcia e mostra que Karnak permaneceu um centro religioso ativo durante o período romano, em vez de se reduzir a ruínas.
Os imperadores, mesmo sem pisar no Egito, assumiam os deveres tradicionais dos faraós para legitimar seu poder junto ao clero e à população local. Essa estratégia garantiu a manutenção dos templos, o fluxo de recursos e a estabilidade política na província egípcia do império.
A prática de retratar os césares segundo os cânones egípcios não se limitava à estética. Ela refletia uma política sofisticada de assimilação cultural que dialogava com as tradições milenares do vale do Nilo.
A estela de Tibério se soma a outros monumentos que evidenciam como o domínio romano preservou elementos centrais da religião e da realeza divina egípcia por séculos. O achado enriquece o conhecimento sobre as camadas históricas de Karnak e reforça o valor de projetos internacionais de restauração arqueológica.
Com informações de livescience.com.


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