A Petrobras avança nos planos de construir uma unidade dedicada à produção de combustível sustentável de aviação, o chamado SAF (Sustainable Aviation Fuel), utilizando etanol como matéria-prima.
O projeto está previsto para ser instalado dentro da Refinaria de Paulínia (Replan), no interior de São Paulo, e adotará a rota tecnológica conhecida como Ethanol-to-Jet (ETJ) — uma subcategoria da família Alcohol-to-Jet (ATJ) —, com capacidade estimada de até 10 mil barris por dia.
Se confirmada, seria a primeira operação dessa escala industrial na América Latina.
A tecnologia ETJ, desenvolvida pela Honeywell UOP, converte etanol — obtido da cana-de-açúcar, do milho ou de materiais celulósicos — em querosene de aviação renovável, compatível com a infraestrutura aeroportuária e os motores já em uso pelas companhias aéreas.
A rota oferece reduções expressivas de emissões de gases de efeito estufa ao longo de todo o ciclo de vida do combustível, o que a torna atrativa para atender às crescentes exigências regulatórias internacionais de descarbonização do setor aéreo.
Segundo estimativas da própria Petrobras, a planta deverá consumir entre 3 milhões e 4 milhões de litros de etanol por dia para operar na escala projetada.
Conforme apurou o portal Megawhat, esse volume evidencia o peso da demanda sobre o mercado nacional de etanol e o impacto potencial sobre toda a cadeia sucroalcooleira, especialmente no Centro-Sul do país.
O projeto integra o Plano de Negócios 2025-2029 da Petrobras, que reserva cerca de US$ 1,5 bilhão para investimentos em refinarias com foco em combustíveis de baixo carbono.
Além da unidade planejada em Paulínia, a estatal estuda projetos similares em outras refinarias, como a Revap, em São José dos Campos (SP), e a Regap, em Minas Gerais, com o objetivo de ampliar progressivamente a capacidade nacional de produção de SAF.
A produção de SAF no país ainda está em fase inicial. A Petrobras já entregou lotes comerciais por meio do co-processamento de componentes renováveis — como óleos vegetais e óleo de milho — misturados ao querosene convencional, com teor renovável autorizado pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) de até 1,2%.
Essa modalidade funciona como etapa de transição até que as plantas dedicadas entrem em operação plena.
No campo da certificação internacional, a Petrobras já obteve autorização pelo esquema ISCC-CORSIA, tornando-se a primeira empresa nacional a conquistar esse reconhecimento para o SAF coprocessado.
A certificação permite o uso comercial do combustível em rotas internacionais, atendendo aos padrões globais de sustentabilidade estabelecidos pela Organização de Aviação Civil Internacional (OACI) por meio do programa CORSIA — Carbon Offsetting and Reduction Scheme for International Aviation.
O país ocupa posição estruturalmente favorável para essa rota tecnológica. A forte cadeia produtiva de etanol de cana-de-açúcar, a disponibilidade de biomassa em larga escala, a experiência consolidada em biocombustíveis e a infraestrutura logística existente conferem vantagens comparativas relevantes frente a concorrentes globais.
A escala proposta de 10 mil barris diários supera com folga as capacidades de projetos ATJ atualmente em operação ou em fase inicial de produção no mundo.
Ainda assim, o caminho até a operação comercial plena envolve obstáculos concretos. Desafios logísticos, custos de produção elevados, regulação tributária complexa, volatilidade no preço do etanol e a ausência de incentivos fiscais e creditícios robustos continuam sendo fatores determinantes para a viabilidade econômica do projeto.
Um estudo recente identificou que a competitividade do SAF via ATJ depende diretamente de políticas públicas de apoio, de um mercado regulado e de condições favoráveis de financiamento de longo prazo — variáveis que ainda não estão plenamente equacionadas.
O movimento da Petrobras se insere num contexto de pressão regulatória crescente. O programa CORSIA da OACI e o regulamento ReFuelEU, da União Europeia, estabelecem metas progressivas de incorporação de SAF nos combustíveis de aviação, criando demanda compulsória que deve se intensificar ao longo da próxima década.
Para a estatal, antecipar capacidade produtiva nesse segmento representa tanto uma resposta a essas exigências quanto uma aposta estratégica num mercado global ainda em formação — e no qual o etanol de cana nacional tem credenciais técnicas para disputar protagonismo.
Com informações de aeromagazine.uol.com.br.
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