O encerramento das operações da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) provocou um abalo profundo na política externa de Washington e abriu uma janela de oportunidade para que países africanos repensem sua dependência de doações externas.
A agência foi criada em 1961, durante o governo de John F. Kennedy. Durante décadas ela atuou como o principal braço de assistência internacional dos EUA, influenciando políticas públicas em mais de 130 países.
Em fevereiro de 2025, a USAID anunciou a suspensão administrativa da maioria de seus funcionários. No mês seguinte, o Departamento de Estado confirmou o encerramento de 6.300 programas globais.
A decisão marcou o fim de uma era em que a ajuda norte-americana moldava setores estratégicos do continente africano. Saúde, educação, agricultura e governança eram frequentemente alinhados aos interesses de Washington.
O professor Kizito Sabala, da Universidade de Nairóbi, avalia que o colapso da USAID era previsível. Ele observa que a agência sempre funcionou como instrumento de projeção estratégica dos EUA, especialmente em áreas sensíveis como segurança alimentar e governança.
O pesquisador Michael Owuor, do Global Centre for Policy and Strategy (GLOCEPS), argumenta que o momento exige uma virada de mentalidade. Ele defende que os países africanos aproveitem o vácuo deixado pela retirada dos EUA para reduzir a dependência de doadores ocidentais e fortalecer mecanismos internos de financiamento.
A ajuda internacional tem se tornado cada vez mais condicionada e politizada, servindo como ferramenta de pressão diplomática. Owuor cita casos de nações como África do Sul, Uganda e Gana que sofreram ameaças de cortes de verbas por adotarem legislações voltadas a interesses domésticos.
Para o pesquisador, a nova fase deve priorizar um relacionamento equilibrado entre doadores e beneficiários. O objetivo não é rejeitar a ajuda, mas reconfigurá-la de modo que complemente — e não dite — as prioridades africanas.
Dennis Muniu, também do GLOCEPS, reforça que a autonomia financeira é o passo mais importante para que o continente alcance um desenvolvimento soberano e sustentável. Ele defende reformas fiscais que ampliem a arrecadação sem sufocar o setor produtivo, bem como a criação de parcerias público-privadas.
A mobilização de recursos internos e a eficiência no gasto público podem proteger os países africanos de choques externos e da volatilidade das doações internacionais. Muniu também destaca a importância da cooperação regional como escudo estratégico.
Ao unir esforços e coordenar políticas de desenvolvimento, os países africanos poderiam aumentar seu poder de barganha diante de investidores e instituições multilaterais. Essa integração tornaria o continente menos vulnerável às oscilações geopolíticas.
Owuor acrescenta que a tecnologia e a inovação devem ser pilares centrais dessa nova etapa. Ele defende o fortalecimento de parcerias com universidades, centros de pesquisa e empresas locais para criar soluções tecnológicas próprias.
Em uma região com população jovem e conectada, a transformação digital pode se tornar tanto uma estratégia econômica quanto uma afirmação política de soberania. Para os especialistas, o fim da USAID simboliza mais do que uma crise administrativa em Washington.
A medida representa o colapso de um modelo de dependência e a possibilidade de um renascimento africano baseado em inovação, cooperação e autossuficiência. A estabilidade de longo prazo do continente não pode repousar sobre a boa vontade de potências distantes — ela deve se basear na força de suas próprias instituições e na determinação de definir o próprio destino.
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