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Governo minimiza derrota de Messias e atribui resultado à temperatura eleitoral

54 Comentários🗣️🔥 A rejeição do nome do advogado-geral da União, Jorge Messias, para a vaga de ministro do Supremo Tribunal Federal foi recebida pelo governo como um revés circunstancial, contaminado pela proximidade das eleições, e não como um sinal de ruptura institucional ou perda de capital político. A leitura foi sintetizada pelo líder do governo […]

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Randolfe na coletiva após senado rejeitar indicação de Messias ao STF.

A rejeição do nome do advogado-geral da União, Jorge Messias, para a vaga de ministro do Supremo Tribunal Federal foi recebida pelo governo como um revés circunstancial, contaminado pela proximidade das eleições, e não como um sinal de ruptura institucional ou perda de capital político.

A leitura foi sintetizada pelo líder do governo no Senado, Randolfe Rodrigues, em entrevista à imprensa logo após a votação desta quarta-feira. Messias precisava de 41 votos para ser confirmado. Recebeu 34 a favor e 42 contrários.

“Lamentamos, mas respeitamos”, disse Randolfe. “É uma decisão dos senadores, é uma decisão daqui do Senado, não é uma decisão do povo brasileiro. O povo brasileiro vai eleger Lula em outubro.”

Para o líder, o resultado expressa uma circunstância política específica, e não um julgamento sobre o currículo do indicado. “Não tem nada a ver com a reputação do ministro Messias. O ministro Messias é um dos melhores juristas da história desse país. Tem a ver com a circunstância da política. É uma sabatina e uma votação pressionada pelo processo eleitoral.”

Randolfe rejeitou a ideia de que o governo passe a ser visto como enfraquecido no Congresso. Lembrou que indicações anteriores do presidente também passaram por votações apertadas, como a do procurador-geral Paulo Gonet, aprovado com 43 votos. “Nós já tivemos vitórias e nós já tivemos derrotas. A relação institucional do presidente da República com o presidente da Câmara e com o presidente do Senado não mudou e desta forma não mudará.”

Sobre uma eventual indicação de Rodrigo Pacheco, nome desejado pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre, Randolfe foi taxativo. “Isso não é momento, gente, para nós debatermos sobre isso.”

Indicação atravessada por crise política

A escolha de Messias foi politicamente problemática desde o início. Reportagem de Natuza Nery, da GloboNews, confirma o que era voz corrente em Brasília: Alcolumbre articulou pessoalmente a derrota nas últimas semanas. O presidente do Senado queria que Lula indicasse Pacheco, e nunca perdoou a escolha pelo advogado-geral da União.

Em conversas reservadas ao longo do dia, segundo o blog da jornalista, Alcolumbre confidenciou a interlocutores que esta quarta seria “um dia histórico”. Não falava da aprovação de Messias.

A engrenagem que produziu a rejeição combinou três forças. A articulação direta de Alcolumbre. O cálculo de senadores que sonham com a vaga, com Pacheco no centro do tabuleiro. E a pressão acumulada da direita bolsonarista, encabeçada por Flávio Bolsonaro, que jogou peso pesado na sabatina e tratou o tema como ensaio de campanha.

A conta que o governo faz

O governo trabalha com a ideia de que a derrota cria desgaste político, mas não compromete a capacidade de governar nem a maioria já consolidada no Supremo. Lula chega a esta altura do mandato com Cristiano Zanin e Flávio Dino aprovados, além da indicação bem-sucedida de Gonet para a PGR. O presidente já formou maioria no STF.

A Constituição obriga o presidente a fazer nova indicação para a mesma vaga. Lula pode ainda escolher outro nome neste ano. Se for reeleito em 2026, terá quatro novas indicações ao longo do segundo mandato.

A comparação que ronda o Planalto é com a derrota da CPMF, em dezembro de 2007, no segundo mandato de Lula. Naquele episódio, o governo perdeu cerca de 40 bilhões de reais por ano em arrecadação e foi forçado a recompor a receita com aumento de IOF. Foi uma derrota material, que tirou recursos para política pública.

A rejeição de Messias é de outra natureza. Cria ruído, expõe a tensão entre Planalto e presidência do Senado, alimenta a narrativa de oposição e imprensa de que Lula estaria perdendo controle do Congresso. Mas não retira do Executivo um real de orçamento, nem desmonta a base aliada na Câmara, onde tramitam as agendas concretas do governo.

O cálculo eleitoral por trás do voto

A eleição presidencial e a renovação de dois terços do Senado em outubro estão no centro do raciocínio que Randolfe ofereceu à imprensa. Senadores que disputarão reeleição ou outros cargos calcularam custos e benefícios de aparecer com o governo num momento de campanha aberta.

“Estamos no mês de maio, praticamente. Há alguns meses da eleição presidencial. Já temos uma pré-campanha eleitoral em curso. É óbvio que os notórios acontecimentos exerceriam uma pressão aqui para a votação.”

Randolfe respondeu também à provocação de Flávio Bolsonaro, que tentou transformar a rejeição em atestado de que o governo Lula não governa mais até o fim do ano. “O senador Flávio tem que se preocupar em buscar voto na sociedade. Ele tem que se preocupar em dizer para a sociedade brasileira por que o governo deles matou 700 mil pessoas.”

Na manhã desta quinta, o governo enfrentará nova prova de força. O plenário do Congresso analisa o veto presidencial à lei da dosimetria. Randolfe afirmou que a orientação é manter o veto. “Se o Congresso Nacional derrubar o veto, vai favorecer as organizações criminosas.”

 

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Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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Comentários

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Tiago Silva

30/04/2026

Os senadores da Direita que denominam de Centrão (PP, Republicanos, MDB, PSDB, além de alguns do PSD) se uniram com os senadores da Extrema Direita (PL e Novo), pois já apostaram suas fichas na vitória de Flávio Rachadinha.

Ocorre que a Direita não compreendeu que em uma eleição que radicaliza a polarização… a Extrema Direita vai ocupar as vagas na Câmara de Deputados e Senado dos parlamentares da Direita.

Esse movimento já ocorreu na última eleição e estará ainda mais forte nessa eleição.

Enquanto que o PT tem que entender essa polarização e começar a se posicionar contra a Direita/Centrão, para então poder fazer um projeto para trabalhadores (escolas públicas de tempo integral, Mais Universidades Públicas com Hospitais Universitários Públicos, mais direitos Trabalhistas, Taxa de Juros Selic de um dígito, menos cargos comissionados e mais vagas para concursos, além de uma moradia popular que não esteja na lógica da dívida do MCMV ou Fies, além de maior presença do Ibama e Forças Armadas para proteger nossas Florestas contra grilagens e pastos para gado) ao invés de inúmeras mamatas para empresários e agro.

Galinzé

30/04/2026

Se tivesse sido rejeitado por nao ter nenhum saber juridico de alto nivel como manda a Constituiçào seria até bom mas por trambicagem politica é sò a demostraçào que esses sujeitos sao indicados para fazer o papel de despachantes de facçoes politicas no STF e nada mais.

A tragedia terçeiromundista de sempre.

Carlos Oliveira

30/04/2026

Enquanto os engravatados ficam nessa dança das cadeiras no STF, a gente na rua ralando 12 horas por dia segue sem direito trabalhista nenhum, posto de saúde lotado e escola pública caindo aos pedaços. Esse papo de temperatura eleitoral é cortina de fumaça, o trabalhador quer saber de ter dignidade, não de indicação política.

    Paula Santos

    30/04/2026

    Carlos, sua indignação é justa e ecoa o clamor de quem carrega o peso do dia. Mas a luta por dignidade no trabalho, na saúde e na educação também passa por termos líderes íntegros e comprometidos com o bem comum, e não podemos ignorar que as decisões nos tribunais afetam diretamente essas causas que você defende.

      Fernanda Oliveira

      30/04/2026

      Paula, você tem razão em apontar as decisões judiciais, mas a temperatura eleitoral não é vento passageiro: é termômetro de um povo cansado de líderes que só lembram do bem comum em campanha. Justiça social não se faz só em tribunais, se conquista também na rua, com a cara queimando de sol.

        Marcus Almeida

        30/04/2026

        Fernanda, justiça social não se conquista com suor no rosto – isso é romantismo secular. A Bíblia já ensina em Gênesis 3:19 que comemos o pão com o suor do rosto por causa do pecado, não por virtude. A verdadeira justiça vem do temor a Deus, não de militância com a cara queimando de sol.

Clotilde Pátria

30/04/2026

É claro que vão minimizar, né? Esse governo só quer colocar comunista no Supremo e depois fica se fazendo de vítima. O Messias é mais um infiltrado da agenda globalista e o povo não é bobo. Só uma intervenção divina pra salvar esse país, Deus tenha misericórdia do Brasil!

    Mariana Santos

    30/04/2026

    Clotilde, o discurso do “inimigo interno” sempre serviu para blindar privilégios enquanto a desigualdade real segue intocada. Se a sua “intervenção divina” não vier acompanhada de reforma agrária e taxação de grandes fortunas, é só teatro para manter tudo como está.

    Rick Ancap

    30/04/2026

    Para de choramingar e invocar deus, o mercado resolve tudo quando privatizarem até o apocalipse.

Capitão Tavares 🇧🇷

30/04/2026

Essa desculpa de “temperatura eleitoral” é conversa pra boi dormir. O sistema inteiro tá apodrecido e quem não enxerga isso é cego ou conivente. As instituições tão falidas e o povo sabe que só uma intervenção resolve.

    Mariana Oliveira

    30/04/2026

    Capitão Tavares, você invoca a imagem de um sistema apodrecido como se fosse uma constatação óbvia, e em parte eu concordo que as instituições falham, patinam, reproduzem violências. Mas a minha concordância termina no momento em que você aponta a tal “intervenção” como única saída. Porque quando você fala em intervenção, de qual corpo você está falando? De quem empunharia as armas dessa salvação? A história mostra que, para corpos como o meu — mulher, negra, criada na periferia —, intervenções autoritárias não significam ruptura com o apodrecimento, e sim a intensificação do mesmo apodrecimento com outros uniformes. A filósofa Kimberlé Crenshaw, ao cunhar o conceito de interseccionalidade, nos ensinou que as estruturas de opressão não são monolíticas: elas se cruzam de maneiras específicas, fazendo com que a falência do sistema seja uma experiência radicalmente diferente para quem está na base da pirâmide social. O Estado que você chama de apodrecido me nega creches, paga mal minhas professoras, encarcera meus irmãos e fecha os olhos para o feminicídio; mas é esse mesmo Estado que, mesmo com todas as suas fissuras, ainda me garante o direito de votar, de protestar, de acessar políticas públicas ainda que insuficientes. Sua “intervenção” jogaria fora a possibilidade de disputa que conquistei a duras penas.

    O que você chama de “conversa pra boi dormir” é, na verdade, o reconhecimento de que processos políticos não são lineares, e de que a chamada “temperatura eleitoral” é um sintoma, não a doença. As instituições estão, sim, capturadas por elites que as utilizam para manter privilégios — e nisso talvez discordemos menos do que parece. Mas reduzir essa complexidade a um apodrecimento uniforme que só se resolve com uma ruptura de força é ignorar que, dentro dessas mesmas instituições, há disputas reais acontecendo. A defensoria pública que briga por uma mulher vítima de violência, o posto de saúde que resiste à precarização, a professora que politiza a sala de aula contra o racismo — tudo isso está no interior do sistema, e tudo isso seria varrido por uma “intervenção” que, historicamente, nunca teve rosto de mulher negra, nunca nos pediu opinião. Como nos provoca a intelectual bell hooks, a margem é um espaço de resistência e criatividade, mas também é um lugar de onde enxergamos que o centro não se cura com mais violência vertical. O povo sabe que as instituições falham, mas o povo também sabe que a alternativa autoritária é um bicho que morde justamente quem já está sangrando.

    O discurso da intervenção é sedutor porque oferece um bode expiatório claro e uma solução aparentemente rápida, mas ele é profundamente despolitizante. Ao invés de fortalecermos a organização popular, a pressão por reformas estruturais, a ocupação dos espaços de poder, aposta-se numa figura salvadora — um messias — que viria “limpar” tudo. Mas repare na ironia: seu argumento desacredita um processo eleitoral enquanto, ao mesmo tempo, reforça a lógica de que um salvador (um líder, um grupo armado) é a resposta. Isso não é revolução; é trocar o colchão podre da cama sem trocar a estrutura que continua rangendo. A feminista negra bell hooks nos fala de uma “comunidade de amor” como espaço de cura política, um chamado à construção coletiva que não passa por cima dos corpos dissidentes. Onde sua intervenção coloca as mulheres que são estupradas por milicianos? Onde coloca os jovens negros que são executados em operações “de segurança”? A sua salvação parece não ter respondido a essas perguntas, e para mim, que sou interseccional, o critério de uma transformação verdadeira começa justamente por aí: por quem está mais vulnerável, não por quem quer acelerar o incêndio.

    Eu não estou romantizando as instituições nem minimizando a dor de um povo exausto. Mas entre a falência institucional e a intervenção autoritária existe um mundo de possibilidades — e é nesse mundo que a luta feminista, antirracista e popular precisa fincar os pés. A “temperatura eleitoral” pode ser a desculpa oficial de um governo que não quer admitir derrota, mas o seu discurso de “só uma intervenção resolve” é a desculpa que autoriza violências concretas contra corpos como o meu. A verdadeira ruptura com o que está apodrecido não vem de uma canetada autoritária, e sim de um processo radical de reconstrução democrática em que nós, as vozes subalternizadas, sejamos protagonistas, e não alvos.

Laura Silva

30/04/2026

A tentativa de minimizar essa derrota como mero “rescaldo eleitoral” é um clássico da retórica oficial que insiste em tratar movimentos estruturais como acidentes de percurso. Mas, do ponto de vista de uma sociologia marxista do Estado, o que está em jogo é muito mais profundo. A recusa ao nome de Jorge Messias não é um simples tropeço de articulação política; ela revela, mais uma vez, a funcionalidade do Supremo Tribunal Federal como trincheira de classe. Como nos lembrava Pachukanis, a forma jurídica é a forma mercantil por excelência, e sua pretensa neutralidade esconde o fato de que as cortes constitucionais são o último refúgio de uma burguesia que já não consegue impor seus interesses apenas pelo Parlamento. Quando a direita neoliberal se recusa a aceitar uma indicação que, mesmo vinda de um governo de conciliação, ainda carrega a estampa do reformismo fraco, fica evidente que o bloco no poder não admite sequer um deslocamento cosmético em suas fortalezas institucionais.

A “temperatura eleitoral” invocada pelo governo é uma metáfora conveniente, mas teoricamente frágil. Ela supõe que a lógica das urnas contamina todas as esferas e que, passada a tormenta plebiscitária, as águas voltam ao leito normal da governabilidade. No entanto, a história recente demonstra o contrário: o Judiciário — especialmente o STF — não é um poder que apenas reage às conjunturas; ele é um ator ativo na construção de hegemonia. Basta recordar a doutrina do “domínio do fato” no julgamento da Ação Penal 470, os usos táticos da Lava Jato e o estrangulamento orçamentário dos direitos sociais via interpretações supostamente técnicas. Essa atuação não é sazonal, é orgânica. Portanto, reduzir a rejeição de um nome à “proximidade das eleições” é ignorar que, para o capital financeiro e seus operadores jurídicos, cada nomeação para a Corte é uma batalha fundamental na guerra de posições gramsciana — e eles não costumam ceder.

Do ponto de vista das classes populares, essa derrota precisa ser lida com lentes críticas, mas também com realismo. Não porque Messias fosse um revolucionário ou um garantista radical dos direitos dos trabalhadores — longe disso. Sua trajetória como advogado-geral da União mostra um quadro técnico competente, mas profundamente alinhado à lógica de que o direito deve mediar conflitos sem questionar a propriedade privada ou a acumulação. O problema é que, mesmo esse perfil moderado, que jamais ameaçaria as estruturas, foi considerado inaceitável pelos representantes mais agressivos do rentismo no Senado. A massa de despossuídos — que depende de decisões sobre saúde pública, moradia, teto de gastos e precarização do trabalho — é a principal vitima desse tipo de impasse. Enquanto o governo “minimiza” e chama de circunstancial, o pauperismo avança, e a Corte que deveria ser guardiã de direitos fundamentais segue funcionando como escritório de advocacia dos bancos.

O marxismo nos ensina que os aparelhos de Estado condensam uma correlação de forças. O que presenciamos agora é a explicitação de que a direita radical, mesmo quando não ocupa o Executivo, mantém poder de veto sobre as instituições que realmente importam para a reprodução do capital. A recusa a Messias é um recado inequívoco: o neoliberalismo não aceitará perder o controle sobre o Judiciário, a menos que um movimento popular expressivo, vindo de baixo, imponha uma ruptura democrática real. Enquanto isso, qualquer nome que desagrade minimamente aos círculos de poder será barrado — e o governo, em vez de denunciar essa chantagem de classe, preferirá o discurso comfortável da “temperatura”.

Por isso, a crítica não pode ser apenas à leitura superficial do governo, mas à própria estratégia de acreditar que é possível domesticar o Leviatã neoliberal com nomes técnicos e boas intenções. O episódio Messias é a prova empírica de que, sem organização popular e sem um projeto de enfrentamento sério à Constituição de 1988 em seus limites burgueses, ficaremos reféns eternos dessa dança de nomes rejeitados e vetos cruzados. O que está em jogo não é a temperatura das eleições, mas a frigidez de um modelo de Estado que condena a maioria a viver fora de suas garantias formais.

    João Carlos Silva

    30/04/2026

    Laura, você escreve com um conhecimento que eu nem tenho, mas no meu dia a dia de motorista eu vejo uma coisa: essa briga de nomes e poderes só atrasa a vida de quem precisa de saúde, moradia e transporte. Se a justiça virou escritório de banco, como você diz, então o trabalhador pobre só se ferra esperando uma solução que nunca chega.

    Pedro Neto

    30/04/2026

    Ah, Laura, vai pregar esse marxismo de butique na filial cubana do MST, faz o L.

      Augusto Silva

      30/04/2026

      Pedro, reunir ‘marxismo de butique’, Cuba e ‘faz o L’ é criativo, mas a realidade macroeconômica é chata: o desemprego caiu a 7,4%, o menor desde 2015, e a indústria voltou a contratar enquanto você repete slogans de zap. Talvez a temperatura eleitoral esteja alta demais para o seu termômetro.

Tadeu

30/04/2026

Essa novela de indicação pro STF não muda nada na fila do pão ou no preço da gasolina. Fico só olhando o dólar aqui enquanto o governo fica nessa explicação mole pra derrota que era mais do que esperada. No fim das contas, o que importa é se a inflação vai dar uma trégua, o resto é conversa fiada de Brasília.

    Maria Clara Lopes

    30/04/2026

    Tadeu, entendo sua frustração com o foco em Brasília enquanto o bolso dói. Mas a dança das cadeiras no Judiciário também mexe com expectativas do mercado e, sim, pode respingar no dólar e na inflação lá na frente. Nem tudo é conversa fiada, nem tudo é prioridade imediata.

    Mariana Ambiental

    30/04/2026

    O dólar pode subir, mas a fome não espera cotação: ela vem de um modelo agrícola que o STF tanto pode barrar como liberar. Enquanto você olha a tela, a bancada ruralista agradece seu desprezo pela política.

    Ahmed El-Sayed

    30/04/2026

    Tadeu, reduzir tudo ao preço da gasolina e ao dólar é justamente o fruto amargo de uma sociedade que abandonou seus valores e sua tradição em troca do materialismo estéril. A conversa fiada de Brasília só existe porque o Estado laico se tornou órfão de qualquer princípio transcendente, e a inflação que realmente nos corrói é a da alma.

      Cíntia Alves

      30/04/2026

      Ahmed, você toca num ponto essencial, mas será que o abandono dos valores não é também sintoma de um país que passou a medir dignidade pelo poder de compra — e aí o preço da gasolina vira, sim, termômetro da alma?

Paulo Ribeiro

30/04/2026

A leitura que o governo faz dessa derrota é sintomática de uma certa lassidão analítica que se instalou entre setores progressistas. Atribuir a rejeição de Jorge Messias meramente à chamada temperatura eleitoral é um sofisma cômodo, que pretende despolitizar aquilo que é, essencialmente, um fato político denso. Não se trata de um acidente de percurso. É, antes, o sintoma de uma crise de hegemonia que, como nos ensinou Gramsci, se manifesta exatamente quando o grupo dirigente perde a capacidade de fazer valer seus interesses como se fossem universais. O Supremo Tribunal Federal não paira sobre as nuvens; ele é, na acepção althusseriana, um Aparelho Ideológico de Estado que opera na reprodução das relações de produção. Minimizar uma derrota nesse espaço é ignorar que a batalha pela composição das cortes superiores é, ela mesma, parte da luta de classes no Brasil.

Ora, o argumento da temperatura eleitoral também esconde uma contradição incômoda: se o governo possui uma base tão volátil que suas indicações naufragam ao sabor das conveniências eleitorais do centrão, isso não é um detalhe pitoresco, é um problema estrutural. A tal frente ampla, que se justificou em nome da governabilidade e do combate ao fascismo, revela-se incapaz de assegurar aquilo que deveria ser o mínimo denominador comum de qualquer coalizão: a aprovação de quadros técnicos alinhados ao projeto de governo. Mariátegui, ao pensar a realidade peruana e latino-americana, advertiu que o problema não é copiar modelos europeus de revolução, mas sim construir uma estratégia que parta das condições concretas. Transpondo para nosso caso: de que adianta um purismo tático em nome da realpolitik se, no momento decisivo, a realpolitik nos devolve uma derrota humilhante, vestida de casualidade?

Fica cada vez mais evidente que a esquerda institucional subestima o caráter profundamente classista do Judiciário e do Senado. Não se nomeia um ministro do STF com currículo; nomeia-se com pactos, com força política acumulada, com concessões mútuas. Achar que Jorge Messias seria aprovado apenas por sua biografia técnica e sua fidelidade ao projeto lulista é ignorar que a hegemonia não se exerce apenas com boas intenções: ela exige a criação de um bloco histórico que dê sustentação orgânica às pautas progressistas. E esse bloco, hoje, está longe de ser consolidado. Quando o governo minimiza a derrota como circunstancial, está, na prática, evitando fazer o balanço duro de que sua estratégia de conciliação de classes já não produz os dividendos políticos de outrora.

O perigo não está apenas na perda de uma cadeira no Supremo; está na naturalização da impotência. Cada vez que uma derrota é despolitizada, retira-se da militância e da sociedade civil a possibilidade de compreender os mecanismos reais do poder. A temperatura eleitoral não explica nada. O que explica é a correlação de forças. É a incapacidade de impor uma agenda de transformação estrutural em meio a um Congresso que opera como um balcão de negócios. Enquanto seguirmos confundindo análise política com gestão de crises de imagem, seguiremos condenados a celebrar pequenas vitórias retóricas enquanto o essencial escapa por entre os dedos. O episódio Messias deveria acender um alerta, não ser dissolvido em eufemismos.

    Luciana Santos

    30/04/2026

    Paulo, vou te falar uma coisa: esse tanto de nome difícil e teoria não enche tanque de ônibus nem bota comida na mesa de ninguém. Vocês ficam aí discutindo Gramsci e a gente na rua só vê é troca de figurinha no poder, tudo se ajeitando entre eles enquanto o povo segue na lida. Acorda pra prática, porque na rota que eu faço todo dia o que falta é solução, não análise de livro.

João da Silva

30/04/2026

Sempre tem essa conversa de temperatura eleitoral quando algo não sai como o governo quer. No fim, o contribuinte que paga a conta fica vendo essas disputas nos bastidores enquanto o essencial não avança.

    Roberto Lima

    30/04/2026

    João, você tocou no ponto exato. Essa conversa de temperatura é cortina de fumaça para esconder a incompetência de quem vive de mamar no Estado e nunca produziu um grão. Enquanto nós, produtores, carregamos o país nas costas pagando essa conta, a esquerda fica brincando de disputinha ideológica.

      Cecília Torres

      30/04/2026

      Sua lógica, Roberto, espelha o mesmo simplismo inflamado que você diz condenar na política. Reduzir um revés eleitoral a uma caricatura de “produtores versus mamadores do Estado” não passa de retórica com baixo teor analítico, independentemente de quem a enuncie.

        Adalberto Livre

        30/04/2026

        CALA A BOCA SUA COMUNISTA DE IPHONE, VCS Q MAMAM NAS TETA DO GOVERNO E AINDA QUEREM LACRAR, VAI TRABALHAR SUA VAGABUNDA!!!

Renata Oliveira

30/04/2026

Sempre essa tentativa de empurrar a culpa para o cenário, como se o problema nunca fosse a articulação política ou a escolha de nomes. A temperatura eleitoral não inventa rejeição, só revela o que já existia. Falta humildade para reconhecer que erraram na costura, coisa que tanto a esquerda quanto a direita fazem quando se recusam a dialogar de verdade.

    João Augusto

    30/04/2026

    Sua observação capta com precisão o que Gramsci chamaria de deslocamento ideológico da hegemonia: culpa-se a temperatura eleitoral como se ela fosse um fenômeno natural, e não a manifestação sintomática de uma crise orgânica na relação entre representantes e representados. Enquanto se recusar a dialética real entre direção política e base social, restará apenas atribuir ao termômetro a febre que ele apenas mede.

    Eduardo C.

    30/04/2026

    Concordo com cada palavra, Renata. Mas se a culpa nunca é da temperatura, qual é o coeficiente de rejeição que separa um nome mal costurado de um cenário adverso? Sem esses números, o diagnóstico vira só palpite.

Renato Professor

30/04/2026

O governo recorre a uma causalidade espúria ao atribuir a rejeição de Messias à temperatura eleitoral, como se a aprovação de um ministro do STF dependesse de meteorologia. Em qualquer análise séria de engenharia institucional, o colapso de uma indicação revela déficit de coesão na base ou fragilidade na articulação — e nenhum termômetro disfarça essa falha.

    Carlos A. Mendes

    30/04/2026

    Renato, você está coberto de razão. O governo adora terceirizar culpa, mas quem não articula base não devia reclamar do termômetro. No fim, essa história de “temperatura” só expôs a falta de traquejo político desse pessoal, e isso cansa até quem tenta ficar isento.

      Vanessa Silva

      30/04/2026

      Falta de articulação política não tem nada de misterioso, Carlos, é simples incompetência de planejamento mesmo — e esse tipo de improviso custa caro pro desenvolvimento urbano.

Lucas Pinto

30/04/2026

A insistência em tratar a rejeição de Jorge Messias como fruto da ‘temperatura eleitoral’ é, antes de tudo, uma confissão involuntária de fraqueza. Ao despolitizar o episódio, o governo escancara sua própria recusa em ler as relações de poder como aquilo que realmente são: um campo de batalha perpétuo entre frações de classe que disputam cada centímetro do aparelho estatal. O STF não é, nem jamais foi, uma corte de sábios pairando acima das contradições sociais – seus juízes são agentes políticos concretos, e a nomeação de cada um deles mobiliza um cálculo preciso sobre quais interesses materiais serão protegidos sob o manto sagrado da constituição. Chamar a derrota de ‘circunstancial’ é tentar transformar antagonismo em acidente climático.

Ora, mas todo o arcabouço teórico que a esquerda institucional parece ter esquecido indica exatamente o contrário. Lendo Foucault, aprendemos que o poder não se detém, se exerce – e se exerce precisamente nos momentos de nomeação, de veto, de exclusão de certos corpos do espaço decisório. O que aconteceu com Messias foi um microcosmo da microfísica do poder judiciário: não um raio em céu azul, mas a operação calculada de forças que nunca deixaram de agir. E, sob a ótica de Gramsci, é a hegemonia burguesa que se reproduz nesses gestos aparentemente técnicos. O bloco histórico dominante não precisa de rupturas espetaculares para manter sua direção moral e intelectual sobre o Estado; basta-lhe a capacidade de vetar, com naturalidade burocrática, qualquer nome que ameace deslocar minimamente o equilíbrio de classes no interior do Supremo.

O mais sintomático nessa narrativa governamental é o modo como ela revela uma concepção profundamente religiosa da política – e uso o termo com toda a carga crítica que um ateu marxista pode lhe atribuir. Há uma fé inabalável de que as instituições, por sua própria natureza, tendem ao funcionamento racional e justo, desde que não sejam ‘contaminadas’ por fatores externos, como as eleições. É a reedição laica do pecado original: o problema nunca está na estrutura, mas na mácula passageira que a conspurca. A temperatura eleitoral seria o demônio a exorcizar, enquanto o santuário do STF permaneceria puro em sua essência. Essa teologia política às avessas serve apenas para imunizar o judiciário contra a crítica materialista e para justificar como acidente aquilo que é, na verdade, sua função orgânica na reprodução do capital.

Enquanto a esquerda governista se agarrar a esse imaginário de pureza institucional, seguirá sendo derrotada nos gabinetes e atribuindo cada revés a ventos passageiros. A recusa em nomear o conflito de classes como motor desses episódios é, ela mesma, uma posição de classe: a da pequena burguesia que acredita na conciliação entre opressores e oprimidos desde que mediada por ritos jurídicos bem comportados. Mas a realidade insiste em derrubar esses véus. A rejeição de um nome como Messias não é um sinal de que a democracia está funcionando com seus checks and balances saudáveis; é a demonstração empírica de que o poder constituído só aceita quem não ameaça a ordem, e chama de ‘temperatura eleitoral’ o desconforto de ver os de baixo ousarem tocar nas colunas do templo judiciário. A tragédia – ou a farsa – é que ainda haja quem trate essa luta como desvio, e não como a luta mesma pela qual a história se move.

    Ana Karine Xavante

    30/04/2026

    Lucas, sua dissecação da narrativa governamental é cirúrgica e necessária. Você acerta ao denunciar a farsa da “temperatura eleitoral” como uma cortina de fumaça para encobrir a natureza classista do Estado, e sua mobilização de Foucault e Gramsci expõe bem o caráter perpétuo da disputa de poder e a hegemonia burguesa que se reproduz nesses vetos aparentemente técnicos. Mas preciso lhe dizer, com o respeito de quem reconhece a argúcia da sua crítica, que essa análise ainda se move dentro do cercadinho ontológico do Ocidente. Ela lê o STF como palco de um conflito entre frações de classe, e isso é verdadeiro, mas não é tudo. Para nós, povos originários, o Supremo nunca foi uma corte que paira acima ou que eventualmente se corrompe: ele sempre foi, desde sua fundação colonial, um instrumento de genocídio e expropriação territorial. A “microfísica do poder” que você invoca se materializa, concretamente, no corpo indígena assassinado, no rio envenenado pelo garimpo, na floresta que arde enquanto juízes discutem gramática constitucional. A derrota de Messias não é um acidente climático nem um mero cálculo de classes: é a expressão esperada de um pacto civilizatório que se funda na negação da nossa humanidade. O bloco histórico dominante nunca precisou de rupturas espetaculares porque a normalidade burocrática já é a sentença de morte diária dos nossos territórios.

    Sua crítica à teologia política da esquerda institucional é certeira, mas, do lugar de onde falo, essa teologia é ainda mais perversa: ela não apenas crê na pureza das instituições, como também crê que essas instituições podem ser reencantadas com a simples ocupação de cadeiras. Há uma fé juvenil de que, com um ministro progressista, o templo se tornará casa de justiça. Mas a verdade, Lucas, é que o templo está erguido sobre ossadas indígenas. A Constituição de 88, tantas vezes brandida como talismã, é um documento que nasceu sem consultar nossos ancestrais, e que segue sendo rasgada toda vez que o STF legisla a favor do marco temporal, da mineração em terras indígenas ou da omissão do Estado diante do extermínio de povos isolados. O que você chama de “rito jurídico bem comportado” é, para nós, liturgia de sangue. A pequena burguesia que acredita na conciliação entre opressores e oprimidos é a mesma que assina manifestos enquanto nossos parentes tombam. Só que aqui a luta de classes não é apenas entre burguesia e proletariado urbano: ela é, sobretudo, uma luta ontológica entre o capital racializado e as cosmologias da terra. Messias foi derrotado porque o sistema de justiça não admite nomes que, mesmo timidamente, possam lembrar que a terra é vida, e não mercadoria.

    O mais sintomático dessa narrativa de “temperatura eleitoral” é como ela repete a lógica colonial de tratar as crises como patologias passageiras. O governo quer nos convencer de que o corpo do Estado está sadio, apenas febril, quando na verdade ele está gangrenado desde a invasão de 1500. O STF não é um campo de batalha onde a esquerda pode vir a vencer com paciência histórica: ele é um feudo do agronegócio, da mineração transnacional e do rentismo que nos encurrala. Cada voto contra um nome progressista é um voto a favor da manutenção do genocídio que atinge especialmente mulheres indígenas, jovens ribeirinhos, quilombolas em retomada. Enquanto a esquerda governista ficar fascinada com os corredores de Brasília, não verá que a verdadeira disputa está nos territórios, na luta pela demarcação, na defesa das sementes crioulas. A recusa em nomear o conflito de classes que você denuncia é irmã gêmea da recusa em nomear o racismo ambiental. E ambas servem ao mesmo propósito: fazer com que a esquerda siga gerindo a crise do capital em vez de enfrentar a crise civilizatória que o capital impõe.

    Por isso, Lucas, sua fala é bem-vinda, mas precisa descer do altar conceitual e pisar no barro. A história não se move apenas pela luta entre classes no aparelho estatal; ela se move, e muito mais radicalmente, pela insurreição dos povos da terra contra esse aparato inteiro. O Messias que a esquerda espera não estará de toga, mas com os pés descalços numa retomada, como um encantado que sopra no ouvido dos mais velhos que a justiça verdadeira é a do bem viver, não a do direito positivo. Enquanto brigamos por uma cadeira no STF, o território Arariboia arde, as onças perdem seu chão e as crianças Guarani Kaiowá se matam diante da omissão de um Estado que é, estruturalmente, anti-vida. Há que se ter coragem para admitir que certas instituições não podem ser reformadas porque sua função é exatamente a de excluir e matar. A tragédia não é a derrota de um nome, mas a ilusão de que o nome faria diferença. O que o capital precisa é de juízes que falem a linguagem do desenvolvimento e da segurança jurídica; e o que nós precisamos é de florestas de pé, rios desobstruídos e soberania alimentar. Não há conciliação possível entre esses dois mundos. A luta, portanto, não é para ocupar o templo. É para derrubá-lo e plantar mandioca em seu lugar.

    Dr. Thiago Menezes

    30/04/2026

    Sua análise materialista é muito mais convincente do que essa desculpa meteorológica para boi dormir, mas me diga: quais dados concretos você tem para afirmar que a rejeição do Messias foi um cálculo preciso de interesses de classe, e não simplesmente politicagem rasteira e personalista? Sem evidências específicas sobre quais frações burguesas se mexeram, que lobbies atuaram e com quais promessas, sua crítica também corre o risco de virar um dogma que explica tudo e, por isso, não explica nada.

Ana Souza

30/04/2026

Atribuir a rejeição à “temperatura eleitoral” é uma narrativa conveniente, mas faltam dados concretos que mostrem se foi apenas circunstância ou um sinal de desgaste mais profundo. Um jornalismo sério pede acesso às conversas de bastidores e às justificativas reais dos senadores, não apenas o discurso oficial do governo.

    Carmem Souza

    30/04/2026

    Sua cobrança por dados e acesso aos bastidores é legítima, Ana. A verdade precisa ser buscada com integridade, mas sem cairmos em narrativas fáceis de nenhum lado — oremos por sabedoria para discernir o que é circunstância e o que é desgaste real.

      Bia Carioca

      30/04/2026

      Carmem, concordo que precisamos de integridade, mas sem ingenuidade: no caso do Rodrigo Neves, por exemplo, a gente defende com unhas e dentes os projetos dele de transporte público contra os ataques bolsonaristas, mesmo criticando quando ele se aproxima demais de setores conservadores que sequestram pautas populares.

      Maria Aparecida

      30/04/2026

      Carmem, orar é essencial, mas a Bíblia também diz que a fé sem obras é morta — e, às vezes, a “circunstância” vira desculpa pra não encarar um desgaste que o povo sente na pele. Vamos pedir sabedoria, sim, mas também olho aberto pros sinais que Deus dá na realidade concreta dos pequeninos.

João Pereira

30/04/2026

O governo querer atribuir a rejeição de Messias apenas à “temperatura eleitoral” é uma tentativa preguiçosa de terceirizar a própria incompetência política. Quando a base aliada simplesmente some na votação, o recado é direto: o Planalto já não tem força nem dentro de casa. Culpar o calendário eleitoral como bode expiatório é o recurso de quem prefere não encarar o isolamento real.

    Cristina Rocha

    30/04/2026

    João, sua observação é precisa, mas eu gostaria de empurrá-la para um terreno ainda mais árido: o problema não está apenas na incompetência política, e sim na estrutura mesma do discurso que permite que se fale em “temperatura eleitoral” como se fosse uma variável climática, independente das ações humanas. Essa escolha vocabular não é ingênua. Ela revela uma operação ideológica clássica — nos termos de Louis Althusser, um mecanismo de desconhecimento que transforma relações sociais em fenômenos naturais. Quando o governo atribui a derrota a essa entidade nebulosa, ele despolitiza a própria política, apagando as mediações reais: a desmobilização das bases, o abandono de pautas populares, a aposta exclusiva em alianças de cúpula. É a velha artimanha do liberalismo, que isola os fracassos do Estado como se fossem acidentes meteorológicos, e não expressões da luta de classes.

    Mas nós, que viemos do campo da esquerda, precisamos nos perguntar: por que uma base aliada “desaparece” na votação? A resposta não é meramente conjuntural. Ela está na história longa da nossa tradição política, que insiste em operar dentro de um paradigma masculino e burguês de poder, no qual o voto é moeda de troca entre elites, e o “povo” aparece como massa de manobra eleitoral. Enquanto o projeto progressista se recusar a enfrentar o patriarcado e o racismo como estruturas fundantes do Estado, e não como pautas acessórias, a tal “base” continuará a se volatilizar. O corpo das mulheres, o corpo negro, o corpo periférico não se sentem representados por uma política que reproduz, em seus modos de articulação, o mesmo autoritarismo que diz combater. A filósofa feminista Silvia Federici nos lembra que a acumulação primitiva do capital não foi apenas um processo econômico, mas uma guerra contra as formas comunais de reprodução da vida. Quando o governo trata o Legislativo como um balcão de favores, ele reedita essa guerra, destruindo o comum que seria a única base sólida de sustentação.

    A expressão “temperatura eleitoral” é, portanto, a metáfora perfeita para o fracasso da conciliação de classes que marcou os governos de centro-esquerda na América Latina. Em vez de popularizar o poder, aqueceram-se os gabinetes refrigerados do Planalto e do Congresso. Acreditou-se que era possível governar com os de cima sem irritar os de baixo, mas os de baixo, como você bem aponta, simplesmente “sumiram”. Não é um sumiço mágico: é uma retirada política, um êxodo. O sociólogo peruano Aníbal Quijano, na sua teoria da colonialidade do poder, nos ensina que a matriz do Estado latino-americano sempre foi a exclusão racializada das maiorias. Quando a esquerda institucional repete essa exclusão, naturalizando-a com o discurso da governabilidade, perde qualquer lastro de legitimidade popular. Messias não foi derrotado pelo calendário; foi derrotado por um modelo de fazer política que se esgotou porque nunca rompeu com a colonialidade interna.

    Portanto, João, concordo com você em gênero, número e grau, mas acrescento que a “incompetência” não é um defeito pessoal dos governantes: é um sintoma de uma crise mais profunda, que é a crise do reformismo sem povo. A tentativa de terceirizar a culpa para a “temperatura” é, ao mesmo tempo, um ato de cinismo e um pedido de socorro de uma classe política que se tornou estranha a si mesma. O isolamento real não será superado com novas alianças de cúpula ou com discursos mais afinados. Ele exige uma refundação radical da práxis de esquerda, que coloque no centro a reprodução da vida, o feminismo antipatriarcal, o antirracismo e a organização autônoma dos territórios. Enquanto a temperatura for medida apenas nos plenários do poder e não nos corpos e nas comunidades, continuaremos a assistir a derrotas que, mais do que eleitorais, são resignações diante da barbárie.

      Lucas Gomes

      30/04/2026

      Cristina, sua dissecação é precisa, mas eu acrescentaria que essa naturalização da política é a irmã siamesa da naturalização da devastação: o mesmo mecanismo ideológico que transforma uma derrota eleitoral em “temperatura” trata a Amazônia como “recurso” a ser queimado. A esquerda que não enraizar sua práxis na defesa intransigente dos territórios e das cosmovisões indígenas está condenada a ver sua base sumir como fumaça — literalmente.

      Padre Antônio Rocha

      30/04/2026

      Cristina, sua obsessão com estruturas e colonialidade é a versão secularizada do pecado original, mas sem redenção: vocês substituíram a família e a moral cristã por uma guerra ideológica contra o corpo e a alma do povo, e depois se espantam quando esse mesmo povo deserta. A tal temperatura eleitoral só mede o gelo que o progressismo instalou nos corações.

Jeferson da Silva

30/04/2026

Engraçado como “temperatura eleitoral” vira desculpa pra tudo. No chão de fábrica, quando a gente perde um direito, não tem essa conversa fiada: é pegar o boné e sentir no bolso. Derrota política se esconde atrás de nota, mas o trabalhador continua sem voz naquela corte.

    Luciana Costa

    30/04/2026

    Jeferson, seu ponto sobre a distância entre o discurso político e a realidade de quem está no chão de fábrica é certeiro: a retórica serve para justificar derrotas, mas não paga as contas de quem perdeu direitos. O problema não é só deste governo ou da esquerda – a direita também adora terceirizar culpas quando lhe convém –, mas enquanto os dois lados se revezam nesse jogo, a voz do trabalhador segue abafada nas instituições que deveriam representá-lo.

    Mariana Alves

    30/04/2026

    Jeferson, tua fala carrega uma precisão que nenhum manual de ciência política consegue reproduzir, porque ela vem do ponto exato onde a teoria precisa se curvar diante da materialidade bruta da vida. Quando o governo atribui uma derrota à “temperatura eleitoral”, o que está em operação é um mecanismo clássico de despolitização: transforma-se um deslocamento profundo nas relações de força em um fenômeno quase climático, como se a consciência de classe oscilasse por obra de um termostato invisível. Marx já alertava, na Ideologia Alemã, que a classe dominante apresenta seus interesses como universais, e essa nota oficial é a expressão contemporânea dessa inversão — oculta-se que o Judiciário, longe de ser uma arena neutra, é um aparelho de Estado onde a luta de classes se processa com toga e voto. A corte não falhou por “temperatura”; ela funcionou exatamente como foi desenhada para funcionar, e o trabalhador que sente no bolso a perda concreta de um direito sabe, por experiência vivida, que nenhum termômetro explica o frio que ele sente na pele.

    Há aqui uma dimensão psicossocial que merece ser escavada com rigor. Quando o discurso oficial recorre a metáforas térmicas, ele está produzindo uma espécie de anestesia interpretativa: sugere-se que a política é um organismo autorregulado, que ora aquece, ora esfria, e que agentes externos — o povo, as massas, a classe — são apenas variáveis ambientais, nunca sujeitos históricos. Isso é o que György Lukács, em História e Consciência de Classe, identificaria como a fragmentação burguesa da totalidade: separa-se o fenômeno político de sua base material, isola-se o resultado eleitoral das condições objetivas da existência, de modo que o trabalhador se veja como termômetro quando, na verdade, é a própria caldeira. No chão de fábrica, não há metáfora que resista à concretude da mais-valia extraída, e é por isso que tua analogia com o boné e o bolso é tão cortante — ela recompõe a totalidade que o discurso liberal insiste em fraturar, mostrando que a temperatura de um tribunal não é um dado meteorológico, mas uma decisão de classe travestida de formalismo jurídico.

    Concordo inteiramente quando tu dizes que derrota política se esconde atrás de nota. Esse gesto de esconder é, ele mesmo, uma operação ideológica de segunda ordem: primeiro, o Estado decide contra o trabalhador; depois, o governo emite um comunicado que transforma essa decisão em acontecimento atmosférico, e assim o fracasso político de determinada correlação de forças vira fatalidade. A responsabilidade se dilui, os sujeitos desaparecem, e o que resta é uma paisagem discursiva onde ninguém perdeu — apenas o clima mudou. Mas o trabalhador, esse, não pode se dar ao luxo de tratar sua fome ou seu direito sonegado como se fossem estações do ano. A corte não ouve a voz do trabalhador não por um defeito de acústica institucional, mas porque o princípio mesmo da representação liberal é excludente — ele foi forjado sobre a separação entre sociedade civil e Estado, entre o econômico e o político, de modo que certas vozes só chegam ao plenário quando convertidas em cédulas, nunca como corpos que sofrem.

    Tua observação final — o trabalhador continua sem voz naquela corte — é o diagnóstico mais lúcido que alguém poderia fazer sobre as democracias liberais realmente existentes. A cidadania, nesse modelo, é uma concessão que se exerce dentro dos limites do capital, e o Judiciário é o guardião desses limites. Portanto, a questão não é apenas denunciar o cinismo das notas oficiais, mas compreender que a “temperatura” de que falam é a temperatura da sala climatizada onde se decide o destino de quem nunca entrará ali. Enquanto a política não for oxigenada pelas ruas, pelas fábricas, pelos corpos que produzem e sofrem, continuaremos reféns de meteorologistas que chamam de clima o que é, na verdade, um projeto calculado de poder. E é por isso que tua fala, Jeferson, vale mais do que muito artigo acadêmico: ela devolve à política o seu lastro material, aquele que se mede no bolso, no boné, no estômago — e que nenhuma nota consegue evaporar.

    Fernando O.

    30/04/2026

    Exato, Jeferson. Enquanto o governo fica nessa métrica vaga de “temperatura”, o trabalhador sente no bolso cada derrota concreta — e a corte continua blindada a qualquer termômetro que meça a vida real.

      Lucas Alves

      30/04/2026

      Concordo que “temperatura” é uma muleta retórica, mas esse “termômetro da vida real” me soa igualmente místico – tem alguma planilha por trás ou é só convicção mesmo?

Marina Costa

30/04/2026

Até parece que o governo esperava emplacar um “messias” no STF esquecendo que só há um Salvador. Essa gente que zomba dos valores cristãos e da família tradicional vai colher o que planta. Como está escrito: “Pelos seus frutos os conhecereis” – e os frutos dessa esquerda imoral só revelam podridão.

    Luisa Teens

    30/04/2026

    Vai rezar pra político corrupto que te engana com papo de família enquanto destrói a Amazônia, sua falsa cristã.

      João Martins

      30/04/2026

      Você está generalizando com base em quê? Me mostra dados que correlacionem diretamente o discurso religioso de alguém com as taxas de desmatamento na Amazônia, porque até onde eu chequei as curvas não se cruzam de forma tão simplista.

      Ana Costa

      30/04/2026

      Luisa, entendo a indignação, mas reduzir a cobertura jornalística a uma questão de fé ou má-fé ignora a complexidade dos dados — por exemplo, o desmatamento na Amazônia caiu 22% em 2023 segundo o INPE, todavia isso não anula as contradições do governo, e é exatamente essa nuance que tento trazer. O debate público ganharia mais se a gente escapasse do maniqueísmo e se agarrasse aos fatos, por mais desconfortáveis que sejam.

        Carlos Mendes

        30/04/2026

        Ana, concordo que fugir do maniqueísmo é essencial, mas a nuance também exige questionar se a tal queda de 22% no desmatamento não veio à custa de sufocar pequenos produtores e garimpeiros que movimentam a economia real, sem contrapartida em produtividade. Dados ambientais não são álibi para ignorar o custo regulatório que o setor privado paga todo dia.

Fanta

29/04/2026

Que surra bem dada hein.


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