Um novo projeto tecnológico desenvolvido na China propõe resgatar o uso de dirigíveis — praticamente abandonados desde o acidente do Hindenburg em 1937 — para uma finalidade inédita: a geração de energia renovável em grande escala. A iniciativa é liderada pela empresa Linyi Yunchuan Energy Technology em parceria com a Universidade de Tsinghua e tem como principal protótipo o sistema S2000, apresentado como a primeira usina eólica aerotransportada estratosférica a atingir potência em escala de megawatts.
O equipamento faz parte de uma categoria conhecida pela sigla SAWES (Stratospheric Airborne Wind Energy System). Trata-se de um dirigível inflável preenchido com hélio, projetado para operar a cerca de 2 mil metros de altitude, onde os ventos são mais constantes e intensos do que próximos ao solo. Com volume aproximado de 20 mil metros cúbicos, o balão possui dimensões de cerca de 60 metros de comprimento por 40 metros de largura e altura.
Segundo os desenvolvedores, o sistema foi projetado para gerar aproximadamente 3 megawatts (MW), potência comparável à de turbinas eólicas terrestres modernas de grande porte. O projeto representa uma tentativa de transformar aeronaves mais leves que o ar em plataformas energéticas, substituindo sua função tradicional de transporte ou publicidade por aplicações industriais.
Como funciona a “usina voadora”
O princípio básico de funcionamento combina sustentação aerostática e geração eólica. Cada metro cúbico de hélio pode erguer cerca de 1 quilo, o que permite que um volume de 20 mil m³ sustente aproximadamente 20 toneladas. Esse empuxo é suficiente para manter o dirigível no ar junto com seus equipamentos, cabos e turbinas.
Para produzir eletricidade, o S2000 utiliza 12 pequenas turbinas de 100 kW cada, distribuídas ao redor de uma estrutura em forma de anel. Essa configuração substitui a ideia de uma única hélice grande, que poderia gerar torque excessivo e fazer o dirigível girar. As turbinas menores giram em direções opostas, anulando forças rotacionais e mantendo estabilidade.
O formato circular do conjunto também atua como um duto aerodinâmico que direciona o fluxo de ar para as hélices, aumentando a eficiência de captação de vento. Toda a energia gerada é reunida em um barramento elétrico e transmitida ao solo por um único cabo de ancoragem, que funciona simultaneamente como linha de transmissão. No solo, a eletricidade passa por um transformador antes de ser enviada para a rede elétrica ou para sistemas de armazenamento.
Resultados iniciais e metas
Durante o teste inaugural realizado na cidade chinesa de Yibin, o dirigível atingiu a altitude operacional em cerca de 30 minutos e produziu 385 quilowatts-hora de energia. O resultado ainda está abaixo da capacidade projetada de 3 MW, mas foi considerado um passo relevante pelos engenheiros envolvidos no projeto.
Segundo o CEO da empresa, Dun Tianrui, no estágio atual de desempenho uma hora de operação poderia gerar energia suficiente para recarregar aproximadamente 30 veículos elétricos de alto padrão. A expectativa é que novos ajustes tecnológicos permitam elevar a produção até o patamar estimado originalmente.
Vantagens em relação a turbinas convencionais
Os responsáveis pelo projeto afirmam que a principal vantagem de sistemas aerotransportados está na altitude. A 2 mil metros, a velocidade do vento tende a ser maior e mais constante devido à menor interferência de obstáculos terrestres, como prédios, relevo e vegetação. Esse fenômeno, associado à chamada lei do cisalhamento do vento, pode aumentar a eficiência energética.
Outro benefício potencial é a mobilidade. Diferentemente de torres eólicas convencionais — que podem ter mais de 100 metros de altura e pás de até 75 metros — o sistema pode ser transportado em contêineres padrão e montado em cerca de oito a nove horas. Isso permitiria instalação rápida em locais remotos ou de difícil acesso.
Além disso, o dirigível pode operar a alturas superiores às de qualquer edifício, incluindo o Burj Khalifa, em Dubai, que possui 828 metros. Essa característica amplia a flexibilidade geográfica e reduz limitações de espaço urbano.
Desafios técnicos e econômicos
Apesar do avanço tecnológico, especialistas apontam obstáculos relevantes antes da adoção comercial em larga escala. Um deles é o custo e a disponibilidade do hélio, recurso não renovável e relativamente caro, essencial para manter a estrutura suspensa.
Outro desafio é a diferença entre o desempenho real e o projetado. A produção inicial de 385 kWh ainda está distante dos 3 MW previstos, indicando que melhorias estruturais e aerodinâmicas serão necessárias para atingir eficiência plena.
Questões regulatórias também entram na equação. Um cabo de ancoragem com até 2 quilômetros de extensão pode representar riscos para a navegação aérea, especialmente diante da expansão prevista de drones e táxis aéreos nos próximos anos. Isso exigiria áreas de exclusão aérea e regulamentações específicas.
Nova fase para dirigíveis
Quase nove décadas após o desastre do Hindenburg, que praticamente encerrou a era dos dirigíveis comerciais, o projeto chinês sugere uma possível reinvenção dessa tecnologia. Em vez de transportar passageiros, essas aeronaves podem se tornar plataformas energéticas flutuantes, integrando o conjunto de soluções renováveis em desenvolvimento global.
Se superar os desafios técnicos e econômicos, o conceito de dirigível-usina poderá abrir um novo segmento na geração de energia limpa, combinando mobilidade, altitude e captação eólica de alta eficiência.

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